6 de fevereiro de 2018

Capítulo 4. O fim dos Karas

Enquanto estacionava a bicicleta em frente à sede da empresa que organizava acampamentos de férias, o ex-líder dos Karas repassava a última reunião secreta com seus companheiros. E toda a dor daquele momento voltou a apunhalar-lhe o peito.

* * *

Irrequieto como sempre, com carinha alegre, excitado, Chumbinho antevia mais uma ação perigosa, mas divertidíssima:
— Ei, Karas, o que será que Miguel quer, hein? Por que essa reunião de emergência máxima?
— Não sei, Chumbinho.
— Uma emergência máxima sem a Magrí? Logo agora que ela está nos Estados Unidos!
— É melhor esperar — encerrou Crânio. — Já vamos saber.
Pelo alçapão, Miguel surgiu naquele momento.
Chumbinho tremia, antecipando a emoção. Para ele, todas as aventuras arriscadíssimas em que os Karas haviam se envolvido já eram passado. Ele precisava de mais uma.
Decidido, Miguel sentou-se, fechando a rodinha sob a luz que se coava pelas telhas de vidro.
— Pessoal — começou ele, sem usar a palavra “Karas” —, a junta diretora do Elite vai demitir a professora de inglês. Como presidente do grêmio do colégio, vou abrir um abaixo-assinado para pedir que...
Calú interrompeu:
— E o que têm os Karas a ver com o seu maldito abaixo-assinado?
Miguel continuou, ignorando a interrupção:
— ...para pedir que a professora não seja demitida. Os Karas têm uma missão. Precisamos preparar os colegas, para que o abaixo-assinado tenha o maior número de assinaturas possível.
— É assim, é? — perguntou Calú, com deslavada ironia na voz.
— É assim o quê?
— Olhe aqui, Miguel, já estou cheio dessa sua mania de mandar. A gente não devia discutir o assunto primeiro? Descobrir por que a diretoria quer demitir a professora?
— Olhe aqui você, Calú! — Miguel falou com dureza, sem encarar o amigo. — O presidente do grêmio do Colégio Elite sou eu e pronto. E eu sei que a professora de inglês...
— Ah, ah! — cortou Calú. — Você sabe tuuuudo mesmo! E nós não passamos de cretinos que estamos aqui para fazer o que você manda, como carneirinhos! Belo grupo o nosso!
Miguel percebeu na hora. Calú viera à reunião disposto a fazer exatamente o que Miguel queria fazer. Sua decisão tinha um adepto.
— Ora, Calú, vê se cala a boca! Crânio pulou:
— Que negócio é esse de “cala a boca”?. Eu também já estou cheio desse seu nariz empinado! Cale a boca você!
Calú piorou o clima ainda mais:
— Não se meta na conversa, Crânio! Eu também já estou cheio desse seu arzinho de gênio, metido a saber mais que todo mundo!
— Ah, é? E você, com esse jeito de galãzinho de novela? O que você está pensando? Pensa que pode com uma garota de verdade só porque a mamãe acha você o garotinho mais gostoso do mundo?
— Olha aqui, Crânio! Não bota a mãe no meio!
Chumbinho, de boca aberta, não conseguia entender o que estava acontecendo:
— Ei, Karas! Que história é essa?
 Miguel entrou com tudo:
— Karas, ah! Mas que besteira essa de “Karas”! Não sei onde estava com a cabeça quando inventei de criar essa maluquice! Isso é coisa de criança!
Chumbinho pulou:
— O quê?! Lutar contra o Doutor Q.I., contra a Máfia, contra os neonazistas, foi tudo coisa de criança?! Você está querendo me gozar, Miguel?
— Desculpe, Chumbinho, mas procure me entender — Miguel escolhia cada palavra. Não podia ferir aquele amigo. Aquele fantástico Chumbinho. — A gente tem de crescer um dia. Não dá mais para ficar brincando de detetive...
— Brincando?! — Chumbinho perdeu a calma. — Eu te conheço, Miguel. O que está acontecendo, hein?
Miguel levantou-se.
— Já me enchi, Chumbinho. Estou fora dos Karas.
— Fora dos Karas?! O que você está dizendo, Miguel? Você não pode fazer isso! Ainda mais agora, que Magrí não está no Brasil. O que ela vai pensar?
O nome de Magrí fez Miguel encarar um a um os três amigos. — Se vocês quiserem, que continuem com essa brincadeira. Eu estou fora!
Calú levantou-se.
— Antes de você, caio eu fora dessa besteira!
— Você?! — riu-se Crânio. — Quem está fora sou eu!
Miguel já estava próximo ao alçapão.
— Chega! Não quero mais saber de nenhum de vocês. Acabou!
A boca de Chumbinho abriu-se como se fosse engolir um ovo, mas, dessa vez, o menino dominou a raiva. Havia muito mais coisas no ar abafado daquele forro de vestiário do que tinha sido dito. E a inteligência aguda do menino queria saber o que estava acontecendo de verdade.
— Karas, vocês estão escondendo alguma coisa de mim. Isso não é leal! Será que já não provei que...
Miguel agarrou-lhe o braço.
— Chumbinho, você...
O menino desvencilhou-se com um tranco.
— Eu não vou chorar, Miguel, pode ficar descansado! Não sei o que está acontecendo, mas vou descobrir. Não vou deixar o grupo dos Karas morrer!
— Mas, Chumbinho...
— Ainda tenho Magrí. Quando ela voltar, nós dois vamos descobrir o que está acontecendo!
Sem dizer mais nada, Miguel levantou-se e desapareceu pelo alçapão.
Chumbinho olhou suplicante para os dois amigos que restavam. Nenhum dos dois o encarou e, um a um, deixaram o forro do vestiário do Colégio Elite.
Sozinho, Chumbinho cerrou os punhos e falou para as telhas, para as teias de aranha, para o pó, para o vazio:
— Eu não vou deixar o grupo dos Karas morrer!

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!