14 de fevereiro de 2018

Capítulo 4. Nuazinhas em pelo

No vestiário, três das garotas que haviam participado da exibição de ginástica olímpica riam e brincavam com Magrí, excitadas pela presença entre elas de uma novidade como a filha do presidente americano.
— Que amiga, hein, Magrí? — brincava Natália, acabando de se vestir e começando a maquiar-se na frente do espelho que havia sobre o mármore das pias.
— Ela é bem do seu jeitinho. Acho até que dá para confundir vocês duas...
Sobre o tampo da pia, Magrí viu uma lata de talco. Muito grande. “Que exagero!”, pensou.
— O que ela disse?
— Nada, Peggy. Só uma brincadeira. Ela diz que nós somos parecidas.
Despiram os maiôs colantes e dirigiram-se para o banho, rindo das brincadeiras das colegas. “Já estamos ficando altas demais para a ginástica olímpica...”, pensava Magrí, avaliando seu próprio corpo e o da amiga americana. “Agora, só me resta mesmo o vôlei”.
Parecidas de verdade elas não eram, mas a cor e o comprimento dos cabelos, que ambas prendiam atrás da cabeça para facilitar os movimentos da ginástica, eram muito semelhantes. Além disso, tinham praticamente o mesmo peso e altura. Tudo já “um pouco demais” para a ginástica olímpica...
Por entre a fartura de água quente que escorria por seu rosto, Magrí via
Natália, na frente do espelho. Estranhamente, a colega sacudia com lentidão os cachos negros de seus cabelos. Parecia gemer baixinho. Entre Magrí e Natália, Peggy largava o maio que acabara de despir e cambaleava, como se tivesse bebido.
— What is going on? O que está acontecendo? Estou me sentindo tonta...
Tonta?! Peggy estava tonta, Natália sacudia a cabeça e...
Magrí ouviu o barulho de um corpo caindo. Ao lado de Natália, as outras garotas desabavam, estendendo-se no chão, de comprido.
— O que é isso? — gritou Magrí, tirando a cabeça da água.
Por suas narinas, entrava um cheiro estranho, ácido...
— Gás!
Prendeu a respiração e voltou para o chuveiro. Debaixo d’água, talvez o
efeito do gás fosse menor.
Os olhos de Peggy fixavam-se nos seus, e a menina estendia frouxamente os braços, tentando andar em sua direção. Atrás dela, Natália escorregava devagarinho, apoiada nas pias, até deixar-se cair molemente sobre o piso.
“Um gás narcotizante! Jogaram gás aqui! Por quê?”
O coração de Magrí disparava enquanto via a filha do presidente americano, completamente nua, cair no chão, de braços. Seus pulmões pareciam explodir e, mesmo debaixo d’água, o gás começava a fazer efeito sobre Magrí.
“Respirar! Preciso respirar!”
Percebeu um movimento. Uma figura saída de algum pesadelo destacava-se no meio do vapor da água quente do chuveiro e da fumaça amarelada, quase imperceptível, que fluía da grande lata de talco.
Uma figura com... máscara contra gases!
“O que está acontecendo?”, tentava pensar, lutando para segurar a respiração. “Esse homem... Barbaridade! Isso só pode ser um atentado contra a Peggy!”
Sacudiu a cabeça debaixo d’água. Mesmo sob o impacto de um susto como
 aquele, mesmo sob o efeito do gás, seu raciocínio era o raciocínio de um Kara. E a presença de espírito de Magrí era a da garota mais inteligente e corajosa que alguém já viu. Só havia uma coisa a fazer:
“Preciso salvar Peggy!” O homem olhava em torno, ansioso e apressado. “É agora...”
De repente, o sequestrador viu o corpo de uma adolescente, toda nua, avançar um passo, saindo debaixo do jato do chuveiro e olhando diretamente para ele.
Os olhos dela fuzilavam de ódio, ao gritar:
— I’m the President’s daughter! What do you think you’re doing?
Ao falar, o gás entrou pelo nariz e pela boca da menina. Magrí prendeu de novo a respiração, mas o narcótico inalado queimava-lhe os pulmões. O homem corria para ela, quase tropeçando no corpo nu de Peggy, desfalecida no chão. Um par de mãos brutais agarrava Magrí pelos braços. A tontura já era grande e seu corpo molhado amoleceu como se não tivesse mais ossos. O bandido a sustentou, sem delicadeza alguma.
Vinda do alto, deu para entender uma frase:
— You have to open the door first, idiot! Você tem de abrir a porta antes, idiota! Está se esquecendo do plano?
Sentindo-se desmaiar, a única menina do grupo dos Karas ouviu, acima do vestiário, o ruído ritmado de um motor de helicóptero.
“O que está fazendo um helicóptero aqui?”
Chumbinho estava de pé, com o sistema nervoso pronto para a ação, como um ratinho ao ouvir um miado. A surpresa do primeiro momento logo dava lugar à iniciativa e à coragem de um perfeito membro do grupo dos Karas.
E Chumbinho não esperou mais nada para começar a agir. Já estava levantando a tampa do alçapão, quando o ruído das hélices do helicóptero começou a diminuir, logo desaparecendo na distância.
Num instante, saía do quartinho das vassouras e via a porta da metade feminina do vestiário escancarada. À frente dela, dois corpos de terno e gravata jaziam estendidos, praticamente degolados... “Que horror! Estes são dois dos seguranças da filha do presidente! Eu discuti com este aqui ainda há pouco! Assassinados! O que aconteceu?”
Pulando os cadáveres, Chumbinho correu para dentro do vestiário feminino. Um cheiro ácido, desagradável, ainda pairava no ar, apesar do frio que entrava pela porta aberta. Um cheiro que entontecia, mas que já não era capaz de tirar os sentidos. “Gás! Isso foi um atentado! Contra a filha do presidente! Só pode ser!” A seus pés, Natália estava caída nos ladrilhos, com os cabelos negros espalhando-se desalinhados, formando uma moldura de cachos anelados em torno da expressão desfalecida do rosto.
“Natália!”
Ao lado da colega e um pouco mais além, Chumbinho percebeu mais dois corpos no chão.
“Um atentado! Isso foi um atentado contra Peggy MacDermott! Magrí! Magr estava com ela. Onde estão as duas?”
Um chuveiro desperdiçava água e enchia o vestiário de vapor quente. Um pouco à frente dele, outro corpo feminino, pálido e nu, estava caído de bruços.
“Magrí!”, gritou Chumbinho para si mesmo, correndo para ajoelhar-se junto ao corpo desfalecido.
Apressado, virou-o de frente e a visão do rosto da filha do presidente americano confundiu-o por um instante. Mas foi só por um instante “Peggy MacDermott?! A filha do presidente? Mas por que alguém jogaria gás no vestiário e mataria os seguranças, se não fosse por causa dela? Para fazer algum mal a ela? Para... sequestrá-la? E Magrí? Cadê Magrí? Então... Ai, que desgraça! Já sei o que aconteceu!”
Na mente aguda de Chumbinho, a única hipótese cabível para ver ali, perto dos seus joelhos, o corpo nu da filha do presidente americano, e para não ver nem sombra de Magrí, revelou-se claramente.
“Magrí! Sequestraram Magrí no lugar da Peggy! Os bandidos se confundiram! Mas... e quando eles descobrirem o engano? Barbaridade! Vão matar Magrí, na certa!”
O restinho de gás que ainda pairava no interior do vestiário feminino tirava-lhe um pouco das forças. Chumbinho tinha de agir depressa. “Tempo! Não tenho tempo! Preciso tirar essa garota daqui antes que alguém apareça!”
O corpo a seus pés começava a mexer-se. Junto às pias, a cabeleira negra de Natália agitou-se um pouco. O efeito do gás não era duradouro. Chumbinho ergueu o torso de Peggy e abraçou-se a ela. Com esforço, ficou de pé, levantando-a. Os braços da menina rodearam-no frouxamente mas as pernas não se firmaram no chão. O rapazinho aspirou fundo, abaixou-se um pouco, apoiou a cintura de Peggy na nuca, passou o braço esquerdo por entre suas coxas e segurou os pulsos da garota com a mesma mão. Por fim, levantou-se, com o corpo desfalecid atravessado em suas costas. Com esforço, saiu apressado, carregando-a em direção ao quartinho das vassouras.
Passou por Natália, quase perdendo o equilíbrio. Sobre seus ombros, ouviu um suspiro. A americaninha começava a despertar.
Dentro do quartinho, baixou-a delicadamente, apoiando-a à parede. Os olhos de Peggy ainda estavam cerrados.
“Um aviso! Preciso avisar os Karas!”
Voltou ao vestiário. Dentro de um cesto de lixo, havia uma lata de refrigerante vazia. Pegou-a. Com força, passou o dedo indicador na borda da abertura. O sangue fluiu. Sem um gemido, com três traços, desenhou o aviso no espelho.
A seus pés, Natália gemia, dolorosamente. Chumbinho nem desviou o olhar. Em um segundo, de volta ao quartinho das vassouras, com a ponta do indicador na boca, para estancar o sangue. Ao longe, ouvia vozes e gritos.
“Estão vindo... Preciso agir depressa!”
Abaixou-se e deu um tapa no rosto da filha do presidente americano. Os olhos da menina arregalaram-se, olhando surpresa para ele. Tapou-lhe a boca com a mão, vigorosamente, e sussurrou-lhe com ansiedade, em inglês:
— Please, Peggy, don’t say anything. Não diga nada, Peggy, por favor. Tente entender: sequestraram Magrí em vez de você!
— What?!
— Entende o que isso significa? No momento em que os bandidos descobrirem que levaram a garota errada, Magrí será assassinada, sem piedade!
— They’ll kill Magrí? O que você está dizendo?
— Você tem de ficar escondida, compreende? Os bandidos precisam pensar que a garota que eles sequestraram é você!
— O que está querendo dizer? Who are you? Quem é você?
— Eu sou Chumbinho. Sou um dos melhores amigos de Magrí. Confie em mim. Você precisa desaparecer para que todos pensem que é você quem está em poder dos sequestradores. É a única maneira de salvar a vida de Magrí!
De fora, ouviam-se gritos de pânico, confusão e desespero:
— Murdered! Assassinados! Assassinaram os seguranças!
— Hurry up! Depressa! Onde está a filha do presidente? Procurem!
Não demoraria muito e alguém haveria de abrir a porta do quartinho das vassouras. Para o mundo, seria um alívio encontrar Peggy MacDermott ilesa, mas no momento em que as emissoras de rádio e tevê noticiassem que uma outra menina havia sido sequestrada, Magrí estaria morta. Era isso, infelizmente essa era a lógica.
Por que os bandidos haveriam de poupar a garota errada? Era a vida de sua melhor amiga que estava em perigo! Somente a presença de espírito e a inteligência de um verdadeiro Kara explicariam a presteza com que Chumbinho chegara àquela conclusão e agira do único modo possível para preservar a vida de Magrí. O garoto arfava, ansioso. A americaninha precisava compreender, precisava colaborar, precisava ajudá-lo!
Peggy pensou depressa, examinando a expressão assustada do garoto que insistia com ela, contando-lhe o enredo mais maluco de sua vida. E viu que uma expressão como aquela só podia refletir a verdade. De repente, lembrou-se do gás e compreendeu: Magrí se sacrificara para impedir que ela fosse sequestrada! O menino tinha razão. Se os bandidos descobrissem o engano, sua amiga brasileira seria assassinada!
— Okay, I understand. Compreendo. O que eu tenho de fazer?
— Preciso escondê-la, Peggy. Faça o que eu fizer.
Num salto, Chumbinho agarrou-se nas saliências da borda do alçapão, jogou
a tampa para dentro e deu um impulso como de quem sobe em muro. Do chão, Peggy viu o garoto fazer um gesto para que ela o imitasse.
Para uma ginasta como ela, não foi difícil. Silenciosamente, combatendo o
resto de tontura que o gás ainda lhe deixara, saltou para agarrar-se na borda e deu outro arranco, como se girasse nas barras assimétricas. Nua em pelo, Peggy MacDermott estava no sótão do vestiário masculino, o esconderijo secreto dos Karas, na companhia de um menino desconhecido. Abaixo, ruídos e vozes aos gritos mostravam aos dois adolescentes que o caos estava instalado no Colégio Elite.
Mais um pouco e o caos tomaria conta do planeta Terra.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!