24 de fevereiro de 2018

Capítulo 3

Para: Samfielding1@gmail.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Estou escrevendo com pressa — a Sra. G está na aula de piano —, mas vou tentar mandar um email todos os dias, para pelo menos ter a sensação de que estamos conversando. Estou com saudade. Por favor, responda. Sei que você detesta e-mails, mas faça isso por mim. Por favooooor. (Imagine a minha cara implorando.) Ou então, sabe como é, CARTAS! Amo você, L.
Bjs, bjs, bjs.

* * *

— Olá, bom dia!
Um homem negro enorme usando uma calça de lycra vermelha muito justa estava de pé à minha frente com as mãos na cintura. Vestida com short e camiseta, congelei na porta da cozinha, piscando os olhos, perguntando-me se estava sonhando e se, caso fechasse a porta e a abrisse outra vez, ele ainda estaria ali.
— Você deve ser a Srta. Louisa, certo?
A mão gigantesca avançou e apertou a minha, balançando-a com tanto entusiasmo que eu quiquei para cima e para baixo involuntariamente. Olhei o relógio. Realmente eram seis e quinze.
— Eu sou o George. O treinador da Sra. Gopnik. Ouvi dizer que você vai correr com a gente. Estou ansioso!
Eu tinha acordado após poucas horas de sono agitado, lutando para não pensar nos sonhos confusos que tivera e que haviam se emaranhado uns nos outros enquanto eu dormia. Então saíra cambaleando pelo corredor no piloto automático, um zumbi em busca de cafeína.
— Ok, Louisa! Precisamos ficar hidratados!
Ele pegou duas garrafas de água ao seu lado e saiu correndo de leve pelo corredor.
Servi café para mim mesma e, enquanto o bebia ali de pé, Nathan entrou, arrumado e cheirando a loção pós-barba. Olhou para minhas pernas nuas.
— Acabei de conhecer o George — disse eu.
— Não existe nada que ele não possa lhe ensinar sobre glúteos. Você está com seus tênis de corrida, não está?
— Hah!
Bebi um gole do meu café, mas Nathan me olhava ansioso.
— Nathan, ninguém falou nada sobre correr. Não sei correr. Quer dizer, sou a antítese do esporte, a moradora do sofá. Você sabe disso.
Nathan serviu-se de café preto e pôs o bule de volta na máquina.
— Além disso, caí de um prédio este ano. Lembra? Vários pedaços de mim se quebraram — argumentei.
Eu já era capaz de fazer piadas sobre aquela noite em que, ainda sofrendo pela perda de Will, escorreguei, grogue, do parapeito da minha casa em Londres. Mas as pontadas no meu quadril eram um lembrete constante.
— Você está bem. E é a assistente da Sra. G. Seu trabalho é estar ao lado dela em todos os momentos, colega. Se ela quer que você corra, então vai correr.
Ele tomou um gole de café.
— Ah, não faça essa cara de pânico. Você vai adorar. Em poucas semanas vai estar tão em forma quanto uma atleta. Todo mundo aqui faz isso.
— São seis e quinze da manhã.
— O Sr. Gopnik começa às cinco. Acabamos de terminar a fisioterapia dele. A Sra. G gosta de dormir um pouco mais.
— Então a que horas saímos para correr?
— Vinte para as sete. Encontre com eles no corredor principal. Vejo você mais tarde!
Ele ergueu uma das mãos e saiu.

* * *

Agnes, é claro, era uma daquelas mulheres que ficavam ainda mais bonitas de manhã: a cara limpa, um pouco embaçada, mas como que alterada por um filtro sensual. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo frouxo, e sua blusa justa com a calça de corrida lhe dava um ar descontraído digno de uma supermodelo em dia de folga. Ela trotou pelo corredor feito um cavalo Palomino de óculos escuros e me cumprimentou erguendo a mão elegante, como se fosse simplesmente cedo demais para falar. Eu só tinha um short e uma camiseta regata comigo, figurino que, eu suspeitava, me dava o ar de uma operária cheinha. Estava ligeiramente nervosa por não ter raspado as axilas, então grudei os cotovelos às laterais do corpo.
— Bom dia, Sra. G! — disse George, surgindo ao nosso lado e entregando uma garrafa de água a Agnes. — Está pronta?
Ela fez que sim.
— Preparada, Srta. Louisa? Vamos fazer só seis quilômetros e meio hoje. A Sra. G quer focar nos abdominais. Você se alongou, certo?
— Hum, eu…
Não tinha água nem garrafa. Mas lá fomos nós.

* * *

Eu já tinha ouvido a expressão “correr atrás do prejuízo”, mas nunca entendera seu real significado antes de conhecer George. Ele saiu pelo corredor aparentemente a sessenta quilômetros por hora e, bem quando achei que íamos desacelerar ao menos para pegar o elevador, segurou as portas duplas de acesso à escada para que pudéssemos descer os degraus que nos levaram ao térreo. Saímos no saguão e passamos voando por Ashok, cuja saudação abafada eu mal consegui ouvir.
Minha nossa, estava muito cedo para aquilo. Segui os dois, que corriam sem esforço como um par de cavalos puxando uma carruagem, enquanto eu me apressava lá atrás, meu passo mais curto incapaz de se igualar ao deles. Meus ossos reclamando com o impacto cada vez que meus pés tocavam o chão, e eu murmurava desculpas ao desviar dos pedestres kamikazes que cruzavam meu caminho. Correr era coisa do meu ex-namorado Patrick. Era que nem couve: uma dessas coisas que você sabe que existem e que podem até fazer bem para a saúde, mas, francamente, a vida é curta demais para se dedicar a elas.
Ah, vamos lá, você consegue, eu disse a mim mesma. Este é o seu primeiro momento diga sim!Você está correndo em Nova York! É uma versão sua completamente nova! Por alguns passos gloriosos, quase acreditei. O trânsito parou, o sinal de pedestres ficou vermelho e nós paramos na calçada, George e Agnes quicando levemente, eu invisível atrás deles. Então atravessamos a rua e entramos no Central Park, o asfalto desaparecendo sob nossos pés, os sons dos carros sumindo à medida que adentrávamos aquele oásis verde no coração da cidade.
Havíamos corrido menos de um quilômetro e meio quando percebi que aquilo não tinha sido uma boa ideia. Mesmo que eu tivesse praticamente parado de correr e estivesse, na verdade, andando, minha respiração já estava arfante e meu quadril protestava por causa da lesão recente. A distância máxima que havia corrido em anos era de uns quinze metros, atrás de um ônibus quase parando — e que eu acabara perdendo. Ergui os olhos e vi que George e Agnes estavam conversando enquanto corriam. Eu com falta de ar e os dois batendo um papo.
Pensei em um amigo do meu pai que enfartou enquanto corria. Papai sempre usara esse episódio como um exemplo óbvio do motivo pelo qual esportes não faziam bem. Por que eu não explicara minhas lesões? Ia tossir até cuspir um pulmão ali, bem no meio do parque?
— Tudo certo aí atrás, Srta. Louisa? — perguntou George virando-se para mim, de forma que agora corria de costas.
— Tudo!
Ergui um polegar animadamente.
Eu sempre quis conhecer o Central Park, mas não daquele jeito. Perguntei a mim mesma o que aconteceria se eu caísse e morresse no meu primeiro dia de trabalho. Como fariam para levar meu corpo de volta à Inglaterra? Desviei para não bater em uma mulher com três criancinhas idênticas que andavam a esmo.
Por favor, meu Deus, pedi mentalmente às duas pessoas que corriam sem esforço à minha frente. Será que um de vocês dois poderia cair no chão? Não a ponto de quebrar uma perna, só torcer de leve. Um daqueles machucados que duram vinte e quatro horas e exigem que a pessoa fique no sofá com a perna para cima vendo TV o dia todo.
Eles estavam se afastando de mim e não havia nada que eu pudesse fazer.
Que tipo de parque tinha colinas? O Sr. Gopnik ficaria furioso comigo por eu não ter acompanhado sua esposa. Agnes perceberia que eu era uma inglesa boba e atarracada, e não uma aliada. Eles contratariam uma mulher magra e linda com roupas de corrida melhores.
Foi nesse momento que o velho passou correndo por mim. Virou a cabeça para me olhar, então consultou seu monitor de corrida e seguiu em frente, os pés hábeis, os fones enfiados nas orelhas. Devia ter uns setenta e cinco anos.
— Ah, espera lá.
Eu o observei afastar-se de mim. Então avistei o cavalo e a carruagem. Continuei correndo até ficar ao lado do cocheiro.
— Ei! Ei! Será que pode me levar até onde aquelas duas pessoas estão correndo?
— Que pessoas?
Apontei para os minúsculos pontos ao longe. Ele espiou na direção deles, então deu de ombros. Subi na carruagem e me escondi atrás do cocheiro enquanto ele sacudia as rédeas para fazer o cavalo avançar. Mais uma experiência em Nova York que não acontecia exatamente como eu havia planejado, pensei, agachada atrás dele. Nós nos aproximamos e eu toquei seu ombro para que ele me deixasse sair. Tínhamos percorrido menos de quinhentos metros, mas pelo menos eu me aproximara dos dois. Fiz menção de saltar da carruagem.
— Quarenta dólares — disse o cocheiro.
— O quê?
— Quarenta dólares.
— Foram só quinhentos metros!
— O preço é esse, moça.
Os dois ainda estavam absortos na conversa. Peguei duas notas de vinte dólares no bolso e as joguei na direção do sujeito, então me abaixei atrás da carruagem e comecei a correr, bem no instante em que George olhou para trás e me viu. Ergui o polegar alegremente outra vez, como se não tivesse saído dali.

* * *

George finalmente teve pena de mim. Viu que eu estava mancando e trotou na minha direção enquanto Agnes se alongava, suas pernas compridas se estendendo como as de um flamingo flexível.
— Srta. Louisa! Tudo certo aí?
Pelo menos achei que era George. Não conseguia mais enxergar por causa do suor que escorria para dentro dos meus olhos. Parei e pus as mãos nos joelhos, o peito arfante.
— Está com algum problema? Parece um pouco corada.
— Estou um pouco… enferrujada — falei, arquejando. — Problema… no quadril.
— Você tem uma lesão? Deveria ter avisado!
— Não quis… perder isso! — disse, limpando os olhos com as mãos, o que só fez com que ardessem mais.
— Onde é?
— Quadril esquerdo. Fratura. Há oito meses.
Ele levou as mãos ao meu quadril, então moveu minha perna esquerda para trás e para a frente para sentir a rotação. Tentei não fazer careta.
— Sabe, acho melhor você não correr mais hoje.
— Mas eu…
— Não, pode voltar para casa, Srta. Louisa.
— Ah, se você insiste. Que decepção.
— Encontramos com você no apartamento.
Ele me deu um tapa nas costas tão vigoroso que quase caí de cara no chão. Então, com um tchauzinho animado, os dois se foram.

* * *

— Foi divertido, Srta. Louisa? — perguntou Ashok quando cheguei ao prédio, cambaleante, quarenta e cinco minutos depois.
No fim das contas, descobri que é possível se perder no Central Park. Parei para descolar das costas minha blusa encharcada de suor.
— Maravilhoso. Adorei.
Quando entrei no apartamento, descobri que George e Agnes haviam chegado lá vinte minutos antes de mim.

* * *

O Sr. Gopnik me avisara que Agnes tinha muitos compromissos. Levando em conta que a esposa dele não tinha nem emprego nem filhos, era de fato a pessoa mais ocupada que eu já conhecera. Tivemos meia hora para tomar café da manhã depois que George foi embora (a mesa estava posta para Agnes com uma omelete de clara de ovo, algumas frutas vermelhas e um bule prateado de café; eu engoli um muffin que Nathan havia deixado para mim na cozinha dos funcionários), e em seguida meia hora no escritório do Sr. Gopnik com o assistente dele, Michael, anotando os eventos a que Agnes compareceria durante a semana.
O escritório do Sr. Gopnik era uma demonstração de masculinidade calculada: todo recoberto de painéis de madeira escura e estantes abarrotadas de livros. Nós nos sentamos em poltronas com estofado espesso ao redor de uma mesa de centro. Atrás de nós, na imensa escrivaninha do Sr. Gopnik, uma série de telefones e cadernos de capa dura. Volta e meia Michael implorava a Ilaria que trouxesse mais um pouco de seu delicioso café, e ela obedecia, reservando seus sorrisos só para ele.
Revisamos os prováveis conteúdos de uma reunião sobre a fundação filantrópica dos Gopnik, um jantar beneficente na quarta-feira, um almoço comemorativo e um coquetel na quinta-feira, além de uma exposição de arte e um concerto na Metropolitan Opera do Lincoln Center na sexta-feira.
— Uma semana tranquila, então — disse Michael, olhando seu iPad.
A agenda de Agnes para aquele dia mostrava um horário no cabeleireiro às dez (o que ocorria três vezes por semana), uma consulta com o dentista (limpeza de rotina) e uma reunião com um decorador. Ela teria também uma aula de piano às quatro (duas vezes por semana), uma aula de spinning às cinco e meia e, então, sairia para jantar apenas com o Sr. Gopnik em um restaurante em Midtown. Eu encerraria o expediente às seis e meia.
A perspectiva do dia pareceu deixar Agnes satisfeita. Ou talvez fosse a corrida. Ela tinha se trocado — agora vestia uma calça jeans azul-violeta e uma blusa branca cuja gola revelava um grande pingente de diamante — e se movia em uma discreta nuvem de perfume.
— Tudo parece em ordem — disse ela. — Bem. Tenho que dar alguns telefonemas.
Ela pareceu considerar que eu saberia onde encontrá-la depois.
— Se estiver na dúvida, espere no corredor — sussurrou Michael quando Agnes saiu.
Ele sorriu, despindo-se da aparência profissional por um instante.
— Quando comecei a trabalhar aqui, nunca sabia onde encontrá-los. Nosso trabalho é aparecer no momento em que eles acham que precisam de nós. Mas também, você sabe, não podemos segui-los até o banheiro.
Ele não devia ser muito mais velho que eu, mas parecia uma daquelas pessoas que já saem do ventre da mãe lindas, sabendo combinar as roupas e com sapatos perfeitamente engraxados. Eu me perguntei se todas as pessoas em Nova York eram assim, menos eu.
— Há quanto tempo trabalha aqui?
— Pouco mais de um ano. Precisaram demitir a antiga assistente porque… — Ele se interrompeu, parecendo momentaneamente constrangido. — Bem, para recomeçar do zero e tudo o mais. Então, depois de um tempo, viram que não dava certo ter um assistente só para os dois. É aí que você entra. Então, oi!
Ele estendeu a mão e eu a apertei.
— Você gosta de trabalhar aqui? — perguntei.
— Adoro. Nunca sei quem eu amo mais, ela ou ele — respondeu Michael, abrindo um sorriso. — Ele é muito inteligente. E tão bonito. E ela é uma boneca.
— Você corre com eles?
— Correr? Está de brincadeira? — Ele estremeceu. — Sou contra suor. A não ser o suor do Nathan. Minha nossa. Com ele, eu seria a favor de suar. Ele não é lindo? Ofereceu uma massagem no meu ombro e eu me apaixonei imediatamente. Como é possível você ter trabalhado com ele tanto tempo sem pular em cima daquele corpo delicioso tão másculo?
— Eu…
— Não me diga. Se já ficou com ele, não quero saber. Temos que continuar amigos. Certo. Preciso ir a Wall Street.
Ele me deu um cartão de crédito (“Para emergências — ela volta e meia esquece o dela. Todos os extratos vão direto para ele”) e um tablet, então me mostrou a senha.
— Todos os contatos de que precisa estão aqui. E tudo o que tem a ver com a agenda está aqui — disse, arrastando o dedo na tela. — Cada pessoa corresponde a uma cor… O Sr. Gopnik é azul, a Sra. Gopnik é vermelha e Tabitha é amarela. Não administramos mais a agenda dela, já que não mora mais aqui, mas é útil saber quando é provável que ela apareça e se há compromissos com a família toda, como reuniões sobre o fundo de garantia ou a fundação. Criei um e-mail pessoal para você, e se houver alguma mudança nós dois vamos nos comunicar para confirmar qualquer modificação feita na tela. Você precisa verificar tudo duas vezes. Conflitos na agenda sempre deixam o Sr. Gopnik muito irritado.
— Ok.
— Então você vai olhar a correspondência dela todas as manhãs, descobrir o que ela quer fazer. E então vou confirmar a agenda com você, porque às vezes ela diz não para algum convite, mas ele passa por cima. Por isso, não jogue nada fora. Só faça duas pilhas.
— Quantos convites são?
— Ah, você não tem ideia. Os Gopnik são basicamente primeiro nível. Isso quer dizer que são convidados para tudo e não comparecem a quase nada. No segundo nível, você gostaria de ser convidado para a metade dos eventos e vai a todos os que pode.
— Terceiro nível?
— Penetras. Iriam à inauguração de um food truck de comida mexicana. Eles vão até mesmo a eventos de clubes. É muito constrangedor.
Ele suspirou.
Olhei a agenda, focando na semana atual, que me pareceu um arco-íris confuso e apavorante. Tentei não transparecer quão intimidada me sentia.
— O que é o marrom?
— São os compromissos do Felix. O gato.
— O gato tem a própria agenda?
— São só tosadores, consultas com o veterinário, o dentista, esse tipo de coisa. Ah, não, ele tem a especialista comportamental esta semana. Deve ter feito cocô no tapete Ziegler outra vez.
— E roxo?
Michael baixou a voz.
— Essa é a antiga Sra. Gopnik. Se você vir um quadrado roxo ao lado de um evento, é porque ela também estará presente.
Ele estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas seu celular tocou.
— Sim, Sr. Gopnik… Sim. É claro… Sim, vou fazer isso. Estou a caminho.
Guardou o celular na bolsa.
— Certo. Tenho que ir. Seja bem-vinda à equipe!
— Quantos somos? — perguntei, mas ele já saía porta afora, com o casaco pendurado no braço.
— O primeiro Alerta Roxo é daqui a duas semanas. Certo? Vou enviar um email para você. E vista roupas normais quando estiver na rua! Ou vai parecer que trabalha em uma loja de produtos naturais.

* * *

O dia passou voando. Vinte minutos depois, saímos do prédio e entramos em um carro que nos aguardava e nos levou a um salão de beleza chique a alguns quarteirões dali, enquanto eu tentava desesperadamente parecer o tipo de pessoa que tinha passado a vida toda entrando e saindo de carrões pretos com estofados de couro cor de creme. Sentei-me na extremidade do salão enquanto uma mulher cujo próprio cabelo parecia ter sido cortado com régua lavava e escovava o de Agnes. Então, uma hora depois, o carro nos levou ao consultório do dentista, onde, mais uma vez, fiquei sentada na sala de espera. Todos os lugares aonde íamos eram silenciosos, de bom gosto, a um mundo de distância da loucura da rua lá fora.
Eu estava usando um dos meus trajes mais sóbrios: uma blusa azul-marinho com estampa de âncoras e uma saia lápis listrada, mas não precisava ter me preocupado: em cada lugar que entrava eu me tornava instantaneamente invisível. Era como se eu tivesse a palavra “EQUIPE” tatuada na testa. Comecei a reparar nos outros assistentes pessoais, andando de lá para cá falando ao celular ou correndo com roupas lavadas a seco e cafés especiais em suportes de papelão. Perguntei a mim mesma se deveria oferecer café para Agnes ou ficar riscando oficiosamente tarefas de listas. Na maior parte do tempo, eu não sabia ao certo por que estava ali. A coisa toda parecia funcionar de modo impecável sem mim. Era como se eu fosse apenas uma couraça humana — uma barreira portátil entre Agnes e o resto do mundo.
De volta ao carro, Agnes estava distraída, falando polonês ao telefone ou me pedindo para fazer anotações no tablet.
— Precisamos ver com Michael se o terno cinza de Leonard foi lavado. E talvez ligar para a Sra. Levitsky para falar sobre o meu vestido Givenchy… Acho que emagreci um pouco desde que o usei da última vez. Ela talvez precise ajustar um pouco.
Espiou dentro de sua imensa bolsa Prada, pegando uma caixinha de plástico com comprimidos e jogando dois na boca.
— Água?
Olhei à minha volta e encontrei uma garrafa na porta do carro. Tirei a tampa e entreguei a ela. O carro parou.
— Obrigada.
O motorista, um homem de meia-idade com cabelo escuro e espesso e uma papada que sacudia quando ele se mexia, saiu para abrir a porta para Agnes. Quando ela entrou no restaurante, o porteiro cumprimentando-a como se fosse um velho amigo, eu fiz menção de segui-la, mas o motorista fechou a porta. Fui deixada no banco de trás. Fiquei sentada ali por um instante, perguntando-me o que deveria fazer.
Olhei meu celular. Espiei pela janela, tentando encontrar alguma lanchonete por perto. Bati o pé ritmicamente. Enfim, debrucei-me entre os dois bancos da frente.
— Meu pai costumava deixar minha irmã e eu no carro quando ia para o bar. Nos trazia uma Coca-Cola e um saco de salgadinhos sabor cebola, e isso resolvia a nossa situação por três horas.
Tamborilei os dedos no joelho.
— Hoje em dia, ele provavelmente seria acusado de maus-tratos. Mas o salgadinho sabor cebola era o nosso preferido. A melhor parte da semana.
O motorista ficou calado.
Inclinei-me um pouco mais a frente, de forma que meu rosto ficasse a poucos centímetros do dele.
— Então. Quanto tempo isso costuma demorar?
— O tempo que for.
Seus olhos se desviaram dos meus no retrovisor.
— E você fica aqui esperando?
— É o meu trabalho.
Fiquei parada por um instante, depois estendi a mão para a frente.
— Meu nome é Louisa. A nova assistente da Sra. Gopnik.
— Prazer.
Ele não se virou para mim. Aquelas foram as últimas palavras que me dirigiu. Enfiou um CD no aparelho de som.
— Estoy perdido — disse uma voz de mulher em espanhol. — ¿Dónde está el baño?
— Es-TOY perr-DJI-do. DOUN-de es-TA el BÃ-nho — repetiu o motorista.
— ¿Cuánto cuesta?
— QuAN-to QUEX-ta — respondeu ele.
Passei a hora seguinte sentada na parte de trás do carro olhando para o iPad, tentando não escutar os exercícios linguísticos do motorista e me perguntando se eu também deveria estar fazendo algo de útil. Enviei um e-mail para Michael com a pergunta, mas ele simplesmente respondeu: Esse é seu horário de almoço, querida. Aproveite! Bjs
Não quis lhe dizer que eu não tinha comida. No calor do carro parado, o cansaço começou a tomar conta de mim outra vez, como uma maré. Apoiei a cabeça na janela, dizendo a mim mesma que era normal eu me sentir deslocada, incompetente. Durante algum tempo, você vai se sentir pouco à vontade em seu novo mundo. É sempre estranho ser arrancada de sua zona de conforto. A última carta de Will ecoou na minha mente como que vinda de um lugar muito distante.
Então, nada.

* * *

Acordei com um susto quando a porta se abriu. Agnes entrou, o rosto pálido, o maxilar travado.
— Está tudo bem? — perguntei, tentando me endireitar, mas ela não respondeu.
O carro saiu em silêncio, o ar parado lá dentro adquirindo o peso súbito da tensão.
Ela se virou para mim. Procurei uma garrafa de água e a estendi na direção dela.
— Tem cigarros?
— Hum… não.
— Garry, você tem cigarros?
— Não, senhora. Mas podemos providenciar.
Percebi que a mão dela estava tremendo. Agnes enfiou-a na bolsa, pegou um pequeno frasco de comprimidos, e eu lhe entreguei a água. Ela tomou um gole, e vislumbrei lágrimas em seus olhos. Estacionamos ao lado de uma farmácia, e um instante se passou antes que me desse conta de que esperavam que eu saísse.
— Que tipo? Quero dizer, que marca?
— Marlboro Light — respondeu ela, secando os olhos.
Saí correndo (mancando, na verdade, já que estava com dor nas pernas por causa da corrida matinal) e comprei um maço, pensando como era estranho comprar cigarros em uma farmácia. Quando voltei para o carro, ela gritava em polonês com alguém ao telefone. Encerrou a ligação, então abriu a janela e acendeu um cigarro, tragando profundamente. Ela me ofereceu um. Fiz que não com a cabeça.
— Não conte a Leonard — disse, a expressão mais relaxada. — Ele odeia que eu fume.
Ficamos sentados por alguns minutos com o motor ligado enquanto ela fumava o cigarro com tragadas curtas e raivosas que me fizeram temer pelos seus pulmões. Então apagou a guimba, os lábios se retesando com alguma fúria interna, e fez um gesto para que Garry seguisse.

* * *

Fui liberada de minhas tarefas por alguns minutos enquanto Agnes fazia a aula de piano. Retirei-me para o meu quarto e pensei em me deitar, mas tive medo de que a dor nas pernas significasse que eu não conseguiria me levantar depois, então acabei me sentando à pequena mesa, escrevendo um e-mail breve para Sam e verificando os compromissos dos dias seguintes na agenda.
Enquanto isso, uma música começou a ecoar pelo apartamento, primeiro escalas, então algo melodioso e lindo. Parei para ouvir, maravilhada com o som, perguntando-me qual seria a sensação de ser capaz de criar algo tão belo.
Fechei os olhos, deixando que o som percorresse meu corpo, recordando a noite em que Will me levara para ver meu primeiro concerto e começara a abrir o mundo à força para mim. Ouvir música ao vivo era tão mais tridimensional do que escutar uma gravação… Era como um curto-circuito no seu âmago. A música de Agnes parecia surgir de uma parte dela que permanecia fechada durante suas interações com o mundo; algo vulnerável, doce e delicado. Ele teria gostado disso, pensei, distraída. Teria adorado estar aqui. No exato instante em que a música evoluiu para algo verdadeiramente mágico, Ilaria ligou o aspirador de pó, engolindo o som com o rugido do aparelho, o ruído implacável da máquina se chocando contra os móveis pesados. A música parou.
Meu celular vibrou.
Por favor, mande ela desligar o aspirador!
Desci da cama e caminhei pelo apartamento até encontrar Ilaria, que empurrava furiosamente o aspirador bem diante da porta do estúdio de Agnes, a cabeça baixa enquanto fazia investidas com o aparelho. Engoli em seco. Havia algo em Ilaria que fazia você hesitar antes de confrontá-la, ainda que ela fosse uma das únicas pessoas mais baixas que eu naquela vizinhança.
— Ilaria — chamei.
Ela não parou.
— Ilaria!
Fiquei parada bem diante dela, até que fosse obrigada a me ver. Ela desligou o aspirador com o calcanhar e me fuzilou com os olhos.
— A Sra. Gopnik perguntou se você poderia passar o aspirador outra hora. Ela não está conseguindo ouvir a aula de música.
— Quando ela acha que devo limpar o apartamento? — indagou Ilaria, alto o bastante para que a ouvissem do outro lado da porta.
— Hum… Talvez em qualquer outro momento do dia a não ser nestes quarenta minutos específicos…?
Ela tirou o fio da tomada e arrastou o aspirador ruidosamente pelo cômodo. Olhou para mim com tamanho desprezo que quase dei um passo para trás.
Houve um breve silêncio, então a música recomeçou.
Quando Agnes finalmente saiu, vinte minutos depois, olhou para mim de esguelha e sorriu.

* * *

A primeira semana avançou aos trancos e barrancos, exatamente como o primeiro dia: eu observava Agnes em busca de sinais da mesma forma como mamãe costumava ficar de olho em nossa velha cadela que teve incontinência urinária. Será que ela precisa sair? O que ela quer? Onde devo ficar? Corri com Agnes e George todas as manhãs. Depois de percorrer mais ou menos um quilômetro, apontava para meu quadril e sinalizava para eles irem em frente, então caminhava lentamente de volta até o prédio. Passei muito tempo sentada no corredor, estudando meu iPad com atenção sempre que alguém passava, de forma a dar a impressão de que sabia o que estava fazendo.
Michael ia até lá todos os dias e me atualizava com sussurros breves. Parecia passar a vida correndo entre o apartamento e o escritório do Sr. Gopnik em Wall Street, com um de seus dois celulares colado à orelha, um pacote da lavanderia apoiado no braço, um café na mão. Era muito charmoso e estava sempre sorrindo, e eu não tinha a menor ideia se gostava de mim ou não.
Mal vi Nathan. Ele parecia contratado para se adequar à agenda do Sr. Gopnik. Às vezes, trabalhava às cinco da manhã; outras, às sete da noite, desaparecendo no escritório para ajudá-lo lá caso fosse necessário.
— Não sou contratado pelo que faço — explicou Nathan. — Sou contratado pelo que posso fazer.
Volta e meia ele sumia, e eu descobria que ele e o Sr. Gopnik tinham pegado o jatinho durante a noite — rumo a São Francisco ou Chicago. O Sr. Gopnik sofria de um tipo de artrite que ele se esforçava para manter sob controle, de forma que Nathan e ele nadavam ou se exercitavam diversas vezes por dia para complementar o regime de anti-inflamatórios e analgésicos.
Além de Nathan e de George, o treinador, que também ia até lá todos os dias úteis de manhã, as outras pessoas que passaram pelo apartamento na primeira semana foram:
Os faxineiros. Aparentemente, existia uma distinção entre o que Ilaria fazia (cuidar da casa) e a faxina propriamente dita. Duas vezes por semana, uma equipe uniformizada composta de três mulheres e um homem atacava o apartamento. Eles não falavam, a não ser brevemente, entre si. Elas traziam uma grande caixa de produtos de limpeza ecologicamente corretos e iam embora três horas depois, quando Ilaria passava a fungar para verificar o cheiro do apartamento e correr os dedos pelos rodapés com uma expressão reprovadora.
Os floristas, que chegavam em uma van na segunda-feira de manhã, levando enormes vasos de arranjos a serem posicionados em intervalos estratégicos nas áreas comuns do apartamento. Diversos vasos eram tão grandes que precisavam ser carregados por duas pessoas. Eles tiravam os sapatos na porta.
O jardineiro. Sim, de verdade. Em um primeiro momento, achei isso ligeiramente hilário (“Vocês se dão conta de que estamos no segundo andar?”), mas então descobri que as grandes varandas nos fundos do prédio eram repletas de vasos com árvores em miniatura e flores, que o jardineiro regava, podava e adubava antes de desaparecer tão subitamente quanto surgira. De fato, aquilo deixava a varanda linda, mas ninguém ia lá a não ser eu.
A especialista em comportamento animal. Uma minúscula japonesa que lembrava um passarinho apareceu às dez da manhã na sexta-feira, observou Felix de longe por cerca de uma hora, em seguida examinou sua comida, a caixa de areia, os lugares onde dormia, interrogou Ilaria a respeito do comportamento do gato e recomendou os brinquedos de que ele precisava, além de verificar se o arranhador era alto e estável o bastante. Felix a ignorou do começo ao fim da visita, interrompendo-se apenas para limpar o traseiro com um entusiasmo que pareceu quase ofensivo.
A equipe de compras ia ao apartamento duas vezes por semana levando grandes caixotes de comida fresca, e os descarregava sob a supervisão de Ilaria. Avistei a conta certo dia: o suficiente para alimentar minha família — e talvez metade dos moradores da minha rua — por diversos meses.
E isso sem contar a manicure, o dermatologista, o professor de piano, o homem que cuidava dos carros e os limpava, o faz-tudo que trabalhava para o prédio e resolvia questões de lâmpadas queimadas e ares-condicionados com defeito. Havia a ruiva magérrima que levava grandes sacolas de roupas da Bergdorf Goodman ou da Saks Fifth Avenue e observava tudo o que Agnes experimentava de maneira penetrante, declarando:
— Não. Não. Não. Ah, isso está perfeito, querida. Está uma graça. Combina com aquela bolsinha Prada que mostrei a você na semana passada. Agora, o que vamos fazer a respeito da festa de gala?
Havia também o vendedor de vinhos, o homem que pendurava os quadros, a mulher que limpava as cortinas e o homem que encerava o piso parquê do salão principal com algo que lembrava um aparador de grama, além de alguns outros.
Simplesmente me acostumei a ver pessoas que não reconhecia circulando por lá. Não sei se houve um único dia nas primeiras duas semanas em que menos de cinco pessoas estivessem no apartamento ao mesmo tempo.
Era uma casa de família apenas no nome. Parecia um espaço de trabalho para mim, Nathan, Ilaria e uma equipe infinita de funcionários, prestadores de serviço ou puxa-sacos que entravam e saíam desde o amanhecer até tarde da noite. Às vezes, após o jantar, uma procissão de colegas do Sr. Gopnik, todos de terno, passava por lá, desaparecendo no escritório e saindo uma hora depois, murmurando coisas sobre telefonemas para Washington ou Tóquio. Ele parecia nunca parar de trabalhar, a não ser pelo tempo que passava com Nathan. Até mesmo durante o jantar, seus dois celulares ficavam em cima da mesa de mogno, vibrando discretamente, como vespas aprisionadas, enquanto as mensagens chegavam.
Algumas vezes, peguei-me observando Agnes fechar a porta de seu quarto de vestir no meio do dia — provavelmente o único lugar onde ela podia desaparecer — e me perguntando: Algum dia este lugar foi apenas um lar?
Era por isso, concluí, que eles desapareciam nos fins de semana. A menos que a casa de campo também contasse com uma equipe.
— Não. Foi a única coisa que ela decidiu — explicou Nathan quando perguntei. — Agnes disse para ele deixar a casa de fim de semana para a ex-mulher. Em troca, conseguiu que ele se contentasse com uma casa modesta na praia. Três camas. Um banheiro. Nenhum funcionário.
Ele balançou a cabeça.
— Portanto, nada de Tab. Ela não é boba.

* * *

— Oi!
Sam estava de uniforme. Fiz alguns cálculos mentais e concluí que ele acabara de encerrar o turno. Correu a mão pelo cabelo, então debruçou-se para a frente como que para me ver melhor na imagem pixelada. Uma vozinha disse em minha mente, como todas as vezes que eu falara com ele desde que tinha ido embora: Como assim você se mudou para um continente onde esse homem não está?
— Foi trabalhar, então?
— Fui — respondeu ele, dando um suspiro. — Não foi o melhor primeiro dia de volta ao trabalho.
— Por quê?
— Donna pediu demissão.
Não consegui esconder minha surpresa. Donna — sincera, engraçada, calma — era o yin do yang dele, sua âncora, sua voz sensata no trabalho. Era impossível tentar imaginar um sem o outro.
— O quê? Por quê?
— O pai dela está com câncer. Agressivo. Incurável. Ela quer ficar com ele.
— Ah, meu Deus. Coitada da Donna. Coitado do pai dela.
— É. É difícil. E agora tenho que esperar para ver quem vão colocar para trabalhar comigo. Acho que não vai ser um novato, por conta de todas as questões de disciplina. Então imagino que vá ser alguém de outro distrito.
Sam comparecera diante da comissão disciplinar duas vezes desde que estávamos juntos. Eu tinha sido responsável por pelo menos uma delas, e senti aquela costumeira pontada de culpa por reflexo.
— Você vai sentir falta dela.
— É.
Ele parecia um pouco cansado. Tive vontade de atravessar a tela e abraçá-lo.
— Ela me salvou — disse.
Sam não era de fazer declarações dramáticas, o que, de alguma forma, tornou essas três palavras ainda mais fortes. Eu ainda me lembrava daquela noite em imagens bruscas de uma clareza apavorante: o sangue de Sam jorrando no lugar onde a bala o atingira e escorrendo pelo chão da ambulância, Donna calma, competente, latindo instruções para mim, mantendo aquela linha frágil ininterrupta até que os outros médicos finalmente chegassem. Ainda podia sentir o gosto do medo na boca, visceral e metálico, o calor do sangue de Sam em minhas mãos. Estremeci, afastando a imagem da mente. Não queria Sam sob a proteção de ninguém mais. Ele e Donna eram um time. Duas pessoas que nunca se deixariam na mão. E que provavelmente zombariam uma da outra sem dó depois.
— Quando ela vai embora?
— Semana que vem. Conseguiu uma dispensa especial, por causa das circunstâncias familiares.
Ele suspirou.
— Enfim. O lado bom é que sua mãe me convidou para almoçar na casa dela no domingo. Parece que vamos comer rosbife com todas as guarnições. Ah, e sua irmã me chamou para ir até o apartamento. Não me olhe assim… Ela perguntou se posso ajudar a drenar o aquecedor.
— Então é isso. Você foi incorporado. Minha família prendeu você como uma planta carnívora.
— Vai ser estranho sem você.
— Talvez eu devesse simplesmente voltar para casa.
Ele tentou abrir um sorriso, mas não conseguiu.
— O quê?
— Nada.
— Diga.
— Não sei… Tenho a impressão de que acabei de perder minhas duas mulheres preferidas.
Um nó se formou em minha garganta. O fantasma da terceira mulher que ele havia perdido — a irmã, que morrera de câncer dois anos antes — pairou entre nós.
— Sam, você não per…
— Ignore o que eu disse. Foi injusto da minha parte.
— Eu ainda sou sua. Só que de longe por um tempo.
Ele encheu as bochechas de ar.
— Não achei que isso fosse me afetar tanto.
— Agora não sei se devo ficar lisonjeada ou triste.
— Vou ficar bem. Só tive um dia difícil.
Fiquei parada por um instante, observando-o.
— Certo. Então este é o plano: primeiro, vá alimentar as galinhas. Porque você sempre acha tranquilizante ficar olhando para elas. E a natureza faz bem para dar perspectiva e tudo o mais.
Ele se empertigou um pouco.
— E depois?
— Prepare um daqueles molhos à bolonhesa deliciosos. Aqueles que demoram uma eternidade para ficar pronto, com vinho, bacon e tal. Porque é quase impossível se sentir mal depois de comer um ótimo espaguete à bolonhesa.
— Galinhas. Molho. Certo.
— Aí ligue a televisão e encontre um filme muito bom. Algo em que você possa se perder. Nada de reality shows. Nada com comerciais.
— Curas Noturnas de Louisa Clark. Estou gostando disso.
— E então…
Refleti por um instante.
— Pense no fato de que faltam pouco mais de três semanas para nos vermos. O que quer dizer isso! Ta-nããã!
Puxei minha blusa até o pescoço.
Foi uma pena que Ilaria tenha escolhido esse exato momento para abrir a porta de meu quarto ao entrar com roupas lavadas. Ficou parada com uma pilha de toalhas debaixo de um braço e congelou enquanto assimilava meus seios expostos, o rosto do homem na tela. Então fechou a porta rapidamente, murmurando algo baixinho. Baixei a blusa rapidamente, atrapalhada.
— O que foi?
Sam estava sorrindo, tentando espiar à direita da tela.
— O que está havendo?
— A empregada — respondi, ajeitando a blusa. — Ai, meu Deus.
Sam jogou o corpo para trás na cadeira. Estava gargalhando de verdade agora, com uma das mãos na barriga, ainda um pouco protetor em relação à cicatriz.
— Você não entende. Ela me odeia.
— E agora você é a Madame Webcam.
Ele ainda gargalhava.
— Vou ficar com péssima reputação na comunidade das empregadas domésticas daqui até Palm Springs.
Eu me lamentei mais um pouco, então comecei a rir. Era difícil me conter ao ver Sam gargalhando tanto.
Ele sorriu para mim.
— Bem, Lou, você conseguiu. Melhorou meu humor.
— O lado negativo para você é que esta foi a primeira e última vez que mostro minhas partes íntimas pela internet.
Sam se inclinou para a frente e me jogou um beijo.
— É, bem… — disse. — Acho que deveríamos ficar gratos por não ter sido o contrário.

* * *

Ilaria não falou comigo por dois dias após o incidente. Virava-se sempre que eu entrava em algum cômodo, encontrando algo com que se ocupar imediatamente, como se o simples fato de cruzar o olhar com o meu pudesse contaminá-la com minha propensão devassa a expor os seios.
Nathan perguntou o que tinha acontecido entre nós depois que ela empurrou meu café na minha direção com uma espátula, mas eu não conseguiria explicar sem fazer com que a situação soasse muito pior do que era, então murmurei algo a respeito de roupas limpas e como seria bom termos trancas nas portas, torcendo para que ele deixasse o assunto de lado.

8 comentários:

  1. Cai na risada do momento Madame Webcam. kkkkkkkkkkk

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  2. Ta-nãããããã. kkkkkkk
    a evolução de Lou é Ilária, ops Hilária. kkkkkk

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  3. Kkkkk Lou sempre surpreendendo... kkķkk

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  4. Espero que esse trabalho dela melhore ... esta muito chato...

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  5. Nossa essa Ilaria é terrivel... não estou gostando dela... mais esse livro está melhor que o "depois de você"

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  6. MEU DEUS, a pobre Lou não tem muita sorte, em certos momentos kkkkkkk. Tô doida para que esclareçam mais sobre essa família.

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  7. ja imaginei a cena aqui,da lou mostrando os seios kkkkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!