16 de fevereiro de 2018

Capítulo 3

Que as histórias sejam ouvidas,
De modo que todas as gerações as conheçam,
Que as estrelas se curvem ao sussurro dos deuses,
Que elas caiam segundo sua vontade,
E apenas os escolhidos Remanescentes,
Encontrem graça ao vê-las.
— Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, Vol. V —



KADEN

— Então, você achou que ela seria útil.
Ele conhecia o verdadeiro motivo. Ele sabia que eu desdenhava o dom tanto quanto ele, mas seu desdenho pelo dom vinha pela falta de crença. Meus motivos eram mais prementes.
 Nós nos sentamos sozinhos em sua câmara de reuniões. O Komizar reclinou-se em sua cadeira, batendo com a mão de leve nos lábios, seus tendões saltados. Ele estava com os olhos pretos fixos em mim, como ônix fria e polida, sem trair qualquer emoção. Os olhos dele raramente traíam emoções, mas, se não fosse a raiva, eu sabia que pelo menos curiosidade espreitava atrás deles. Desviei o olhar, contemplando, em vez dos olhos dele, o luxuoso tapete com franjas que estava embaixo de nós. Um novo acréscimo ao ambiente.
— Um presente de boa vontade do Premier de Reux Lau — explicou ele.
— Boa vontade? O tapete parece caro. Desde quando o pessoal de Reux Lau nos traz presentes? — perguntei.
— Você pensou. Vamos voltar a isso. Ela é tão boa assim em...
— Não — falei, levantando-me. Fui até a janela. O vento sibilava por entre as lacunas. — Não é assim.
Ele riu.
— Então me diga como é.
Olhei para trás, para a mesa dele coberta de mapas, quadros, livros e anotações. Fui eu que o ensinei a ler morriguês, idioma no qual estava redigida a maior parte dos documentos. Me diga como é. Eu mesmo não sabia ao certo. Voltei à minha cadeira em frente a ele e expliquei o efeito de Lia sobre os vendanos tão endurecidos como Griz e Finch.
— Você sabe como são os clãs, e há muitos dos povos das colinas que ainda acreditam. Não dá para andar pela jehendra sem se deparar com uma dúzia de barracas vendendo talismãs. Um entre dois criados daqui do Sanctum usam um ou outro enfiados debaixo de suas camisas, e provavelmente metade dos soldados também. Se eles acharem que os vendanos foram, de alguma forma, abençoados com um dos dons de outrora, com alguém até mesmo de sangue real, você poderia...
Ele se inclinou para frente, jogando papéis e mapas no chão com uma ampla batida de braço.
— Você está me tomando por tolo? Você traiu uma ordem porque uns poucos atrasados de Venda poderiam tomá-la por sinal? Agora se autodesignou o Komizar para fazer o que você acha que poderia ser o movimento mais sábio?
— Eu só achei que... — Cerrei os olhos por um breve instante. Eu já havia desobedecido a ordem dele, e agora estava inventando desculpas, exatamente como faziam os morrigueses. — Eu fiquei hesitante quando fui matá-la. Eu...
— Você gostou dela, exatamente como eu falei.
Assenti.
— Sim.
Ele inclinou-se para trás em sua cadeira e balançou a cabeça, acenando com a mão, como se isso não importasse muito.
— Então você sucumbiu aos charmes de uma mulher. Melhor isso do que acreditar que você mesmo consiga tomar decisões melhores no meu lugar.
Ele empurrou sua cadeira para trás e levantou-se, caminhando até uma alta lamparina a óleo que estava no canto do aposento, com cristais irregulares adornando-a como se fosse uma coroa. Quando ele girou a roda para aumentar a chama, lascas de luz cortaram seu rosto. Era um presente do lorde do quadrante de Tomack e não se encaixava na severidade do aposento. Ele puxou os curtos pelos de sua barba, perdido em pensamentos, e depois pousou os olhos em mim mais uma vez.
— Nenhum mal foi feito ao trazê-la até aqui. Ela está fora do alcance de Morrighan e de Dalbreck, e isso é tudo que importa. E, sim, agora que ela está aqui... decidirei a melhor forma de fazer uso dela. Não deixei de notar a surpresa silenciada dos governadores com a presença de um membro da realeza entre eles, nem os sussurros dos criados quando ela se foi. — Um meio sorriso brincava nos lábios do Komizar, que esfregou uma sujeira da lanterna com a manga da camisa. — Sim, ela pode se tornar útil — sussurrou ele, mais para si mesmo do que para mim, como se estivesse acalentando a ideia.
Ele virou-se, lembrando que eu ainda estava na sala.
— Aproveite seu bichinho de estimação por ora, mas não se apegue demais a ela. O povo do Sanctum não é como os povos das colinas. Nós não nos assentamos em débeis vidas domésticas. Lembre-se disso. Nossa irmandade e Venda sempre vêm em primeiro lugar. Os homens de nosso país estão contando conosco. Nós somos a esperança deles.
— É claro que sim. — respondi. E era verdade. Sem o Komizar, e até mesmo sem Malich, eu estaria morto a essa altura. Mas... não se apegue demais a ela? Era tarde demais para isso.
Ele voltou a sua escrivaninha, remexendo papéis, e depois parou para olhar um mapa e abriu um sorriso. Eu conhecia aquele sorriso. O Komizar tinha muitos sorrisos. Quando ele sorriu para Lia, eu havia temido o pior. O sorriso que ele tinha no rosto agora era genuíno, um sorriso satisfeito, que não era para ser visto por ninguém.
— Seus planos estão correndo bem?
— Nossos planos — ele me corrigiu. — Melhor do que eu esperava. Eu tenho grandes coisas para mostrar a você, mas isso terá de esperar. Você voltou bem a tempo, antes de eu cavalgar em viagem amanhã. Os governadores de Baldwood e de Arleston não apareceram.
— Mortos?
— Quanto ao governador de Baldwood, muito provavelmente sim. Ou a doença do norte do país finalmente chegou até ele, ou ele perdeu a cabeça para um jovem usurpador assustado demais para vir ele mesmo até o Sanctum.
Meu palpite era que Heldwin de Baldwood havia sucumbido a uma espada nas costas. Como ele sempre se gabava, ele era ruim demais para ser sobrepujado pela devastadora doença do norte.
— E o governador de Arleston?
Nós dois sabíamos que o Governador Tierny, da província mais ao sul de Venda, provavelmente estava deitado em bêbado estupor em algum bordel na estrada que dava para o Sanctum e haveria de chegar com pedidos de desculpa que envolveria cavalos coxos e mau tempo. Porém seu dízimo de suprimentos para a cidade nunca faltava. O Komizar deu de ombros.
— Homens jovens de sangue quente podem ficar cansados de governadores bêbados.
Como tinha acontecido com o Komizar onze anos atrás. Olhei para ele, ainda em cada parte o jovem homem que havia assassinado três governadores logo antes de matar o Komizar anterior de Venda. Todavia, ele não tinha mais o sangue tão quente assim. Agora, ele tinha o sangue frio e era firme.
— Faz um bom tempo desde que houve algum desafio — ponderei.
— Ninguém deseja ter um alvo pintado nas costas, mas desafios sempre vêm, meu irmão, motivo pelo qual nós nunca devemos deixar de ficar alertas. — Ele empurrou o mapa para o lado.  — Cavalgue comigo amanhã. Uma companhia nova me cairia bem. Há muito não cavalgamos juntos.
Eu nada disse, mas minha expressão deve ter revelado a minha relutância em acompanhá-lo.
Ele balançou a cabeça em negativa, retirando seu convite.
— É claro, você acabou de retornar de uma longa jornada, e, além disso, trouxe a Venda um prêmio muito interessante. Você merece um descanso. Repouse por alguns dias e então terei trabalho para você.
Eu estava grato porque ele não mencionou Lia como sendo o motivo. O Komizar estava sendo mais gracioso do que eu merecia, mas tomei nota mental de sua ênfase em Venda, um lembrete deliberado de a quem a minha lealdade era devida. Levantei-me para ir embora. Um vento muito forte desordenou os papéis que estavam em cima da escrivaninha dele.
— Uma tempestade está a caminho — falei.
— A primeira de muitas — respondeu ele. — Uma nova estação está vindo.

5 comentários:

  1. S2Kaden<3 Eu e meu dedinho podre: tinha de gostar logo do assassino!

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    1. Do jeito que meu dedo tbm é podre vou acabar me apaixonando pelo Komizar kkkk

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    2. Kkkkk eu sempre fui assim hahaha mas nesse livro eu escolhi o certo ainda bem kkkk

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  2. o Komizar de venda ta eh com olho gordo pra cima dos dons da lia e do que ela pode fazer por venda no processo.

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  3. O único personagem "vilão" q eu gostei foi Maven. Cada vez gosto menos do Kaden, essa adoração dele por Venda me dá nos nervos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!