16 de fevereiro de 2018

Capítulo 39

Sentei-me à cabeceira da mesa, ao lado do Komizar. Vários governadores sussurravam entre si. Eles haviam notado a minha nova posição, mas não disseram nada abertamente. Quando Rafe entrou com Calantha, ele também notou isso, fazendo uma parada para uma batida extra de seu coração enquanto puxava sua cadeira. O saguão estava cheio essa noite, não apenas com os costumeiros membros do Conselho e soldados, mas também com anciões dos clãs. Os Meurasi eram maioria, sentados às mesas extras que haviam trazido. Eu vi Effiera entre eles, observando-me. Ela fez uma inclinação com a cabeça, em aprovação ao meu vestido púrpura de retalhos. Também havia os lordes dos quadrantes: aqueles que eu tinha visto saírem da câmara oculta. Seus olhares de relance estavam cortantes, não com aprovação, mas sim com a ardente vitória.
Desviei o olhar de Rafe, cuja mirada contemplativa ainda estava pousada em mim. Não cometa um erro, Lia, não como... Eu vi os olhos sem visão do meu irmão, os pedaços espalhados de corpos no piso do vale, a cabeça do açougueiro rolando até o chão. O que o havia feito pensar que eu poderia algum dia superar em termos de estratégia alguém como o Komizar? Minha cabeça ainda girava com essa imprevista reviravolta na história.
Enquanto o Komizar estava ocupado com o chievdar à sua esquerda, perguntei a Calantha se ela faria o reconhecimento de sacrifício noite. Parecia que eu tinha areia na língua. Minha cabeça latejava. Eu não sabia ao certo se seria capaz de conjurar as palavras da minha memória.
— Não. Isso cabe a você, Princesa — disse ela. — Você fará isso.
Havia uma estranha urgência no tom dela que me fez parar e olhar com mais atenção para seu rosto. Seu pálido olho brilhava, prendendo-me à cadeira. Insistente.
A travessa de ossos estava disposta na minha frente, e fiquei simplesmente com o olhar fixo nela.
A sala foi ficando silenciosa, faminta, à espera. O Komizar chutou meu pé debaixo da mesa.
Levantei-me e ergui o prato de ossos e disse a benção em dois idiomas, como Kaden havia feito para mim.
E cristav unter quiannad.
Um sacrifício sempre lembrado.
Meunter ijotande.
Nunca esquecido.
Yaveen hal an ziadre.
Nós vivemos um outro dia.
Fiz uma pausa, com a travessa tremendo em minhas mãos. Seguiu-se uma agitação, esperando que eu terminasse, mas acrescentei algo mais.
E cristav ba ena. Mias ba ena.
Um sacrifício para você. Apenas para você.
E assim será,
Para todo o sempre.
Paviamma.
Um ribombo de paviammas veio em resposta.
A fome do Conselho e dos convidados rapidamente sobrepôs-se a qualquer observação sobre as palavras acrescentadas, mas eu sabia que Rafe as havia notado. Ele foi o último a ecoar paviamma em resposta, enquanto baixava o olhar para a mesa.
A refeição parecia passar rapidamente. Eu mal tinha comido um bocado que fosse quando o Komizar empurrou seu assento para trás, satisfeito.
— Tenho algumas novidades para compartilhar com você, Emissário.
A conversa ruidosa da refeição parou. Todo mundo queria ouvir qual era a novidade. Meu estômago se revirava com o pequeno pedaço que eu havia comido. Mas não era a novidade que qualquer um de nós esperava.
— Cavaleiros chegaram hoje de Dalbreck — anunciou ele.
— Tão cedo? — perguntou-lhe Rafe, casualmente limpando a gordura do canto de sua boca.
— Não os cavaleiros que enviei. Estes eram Rahtans que já estavam em Dalbreck.
Rahtans com novidades. Minha mão deslizou para a lateral do meu corpo, seguindo centímetro por centímetro na direção da faca de Natiya que estava na minha bota... antes que eu me lembrasse de que ela não estava mais lá. Passei os olhos pela adaga embainhada na lateral do corpo de Calantha.
— Parece que pode haver alguma verdade na sua história. Eles trouxeram notícias da morte da rainha, de uma febre que se alastrou pelo reino, e o rei não é visto há semanas, ou em luto, ou em seu próprio leito de morte também. Presumo que seja o último caso, até que eu receba mais notícias.
Voltei a sentar-me e fiquei fitando Rafe. A rainha. A mãe dele.
Ele piscou. Seus lábios meio que se abriram.
— Você parece surpreso — disse o Komizar.
Rafe finalmente encontrou sua voz.
— Você tem certeza? A rainha estava com boa saúde quando parti.
— Você sabe como são essas calamidades. Elas devastam alguns mais rapidamente do que outros. Mas meus cavaleiros testemunharam uma pira funerária bastante impressionante. Aqueles membros da realeza são um tanto quanto extravagantes em relação a essas coisas.
Rafe assentiu distraído, em silêncio por mais um bom tempo.
— Sim... eu sei.
A dor da minha plena impotência passou como uma onda por mim. Eu não tinha como ir até ele, não poderia tomá-lo em meus braços, nem mesmo poderia oferecer a ele as mais simples palavras de conforto.
O Komizar inclinou-se para a frente, aparentemente notando a reação de Rafe.
— Você gostava da rainha?
Rafe olhou para ele, cujos olhos estavam tão frágeis quanto vidro.
— Ela era uma mulher calma — foi a resposta dele. — Ao contrário de... — O peito dele subiu e desceu profundamente, e ele bebeu um gole de sua cerveja.
— Não como aquele canalha encarquilhado a quem ela estava selada? Esses são os mais duros de matar.
Fiquei observando o aço retornar aos olhos de Rafe.
— Sim — disse ele, com um assustador sorriso nos lábios — mas até mesmo os durões acabam morrendo em algum momento.
— Vamos esperar que isto aconteça mais cedo do que tarde, de modo que eu e seu príncipe possamos fechar nosso acordo.
— Não vai demorar muito — garantiu-lhe Rafe. — Você pode contar com isso. O príncipe pode até mesmo ajudar a acelerar as coisas se tiver que fazer isso.
— Um filho cruel? — observou o Komizar, de cujas palavras gotejavam admiração.
— Um filho determinado.
O Komizar assentiu sua aprovação do pendente parricídio do príncipe, e depois acrescentou:
— Para o seu bem, espero que seja determinado mesmo. Os dias estão passando rapidamente e minha repulsa por esquemas reais não diminuiu. Eu graciosamente estou bancando o anfitrião para o emissário dele, mas não sem um preço que deve ser pago. De uma forma ou de outra.
Rafe conseguiu abrir um largo e gélido sorriso.
— Eu não me preocuparia. Você será recompensado dez vezes por seus esforços.
— Muito bem, então — foi a resposta do Komizar, como se estivesse satisfeito com a recompensa prometida, e fez um movimento para que os pratos fossem retirados da mesa. Quase imediatamente, ele ordenou que mais bebidas fossem servidas. Os criados vieram à frente com a cara safra dos vinhedos morrigheses, safra esta que nunca era partilhada além de presentes pessoais para os governadores. Mordi o lábio. Eu sabia o que isso queria dizer. Não, não agora. Será que ele não havia partilhado notícias o bastante para um único dia? Será que Rafe não tinha ouvido o bastante para uma noite?
Mas então ele reverteu a situação e fez com que se tornasse algo ainda pior... Ele fez com que eu contasse isso a eles.
— Nossa princesa gostaria de partilhar algumas novidades conosco também. — Ele ficou me fitando, com seus olhos cinzelados como pedra, esperando.
Meus músculos ficaram soltos, vacilantes, drenados de força. A sensação era de eu já havia caminhado mais de mil quilômetros e agora estavam me pedindo para caminhar por mais um. Eu não era capaz de fazer isso. Eu queria parar de tentar e parar de me importar. Fechei os olhos, mas uma chama teimosa que não era capaz de ser extinta ainda ardia.
Convença-os. Convença a mim.
Quando abri os olhos, o olhar contemplativo dele ainda estava cravado em mim, e eu me deparei com seus olhos fixos e marmóreos. Ele comandava um casamento, o que, em suas próprias palavras, era sinônimo de muito mais liberdades; no entanto, mais liberdade também era sinônimo de mais poder... algo que ele odiava dividir.
Os olhos dele ficaram afiados com a minha demora. Exigentes.
E talvez esse fosse o cutucão decisivo nas minhas costelas, como sempre tinha sido.
Mais um quilômetro. Por você, Komizar. Eu sorri, sorriso este que ele certamente pensou que fosse por sua ordem. Eu daria a ele seu casamento, mas isso não queria dizer que eu não poderia virar alguma fração deste momento para a minha vantagem, e frações de momentos depois deste, até que somassem algo inteiro e de inspirar medo, porque, com meu último suspiro, eu faria com que ele se arrependesse do dia em que colocou os olhos em mim.
Estiquei a mão, acariciei a bochecha dele, ouvi os murmúrios para a inesperada exibição de afeto e então empurrei minha cadeira para trás e fiquei em pé nela. As mesas que haviam sido adicionadas para acomodar os anciões e os lordes de quadrantes adicionais à refeição chegavam até o fim do saguão. Ao subir na cadeira, me certifiquei de que todos eles pudessem me ver e me ouvir. Segurar minha língua, de fato.
— Meus irmãos — falei, com a voz alta e transbordando todos os grandes floreios que agradariam o Komizar. — Hoje é um grande dia para mim, e eu espero, quando partilhar minha novidade com vocês, que concordem que este é um grande dia para todos nós. Eu devo muito a vocês. Vocês me deram um lar. Recebi as boas-vindas de todos, partilhei de suas xícaras de thannis, fui aquecida por suas fogueiras, por seus apertos de mãos e por suas esperanças. As roupas que adornam minhas costas também vieram de vocês. Recebi mais do que dei, mas agora espero retribuir por sua bondade. Hoje, o Komizar me pediu que... — Deliberadamente, fiz uma pausa, estendendo o momento, e fiquei observando enquanto eles se inclinavam para a frente, ficavam mais altos em seus assentos, boquiabertos, com as respirações contidas, as bebidas suspensas, os olhos, cativos do fascínio. Fiz uma pausa apenas longa o bastante para que o Komizar visse e entendesse que ele não era o único que sabia como comandar uma sala, e, por fim, quando ele foi só um pouco adiante em seu assento, eu me pronunciei novamente. — Hoje, seu Komizar me pediu para ficar ao lado dele, para que seja sua esposa e sua rainha, mas eu venho a vocês primeiramente, porque, antes de responder a ele, eu devo saber suas opiniões sobre se a minha posição aqui haverá de servir a Venda. Então eu pergunto: o que vocês dizem, anciões, lordes, irmãos e irmãs? Devo aceitar a proposta do Komizar? Sim ou não?
Um silêncio sem fôlego preencheu o salão, e então, um ensurdecedor Sim! Sim! Punhos cerrados erguidos no ar; mãos socando mesas; pés batendo no chão; canecas de cerveja derramando seus conteúdos em brindes. Desci em um pulo da cadeira e inclinei-me para cima do Komizar, beijando-o plena e entusiasmadamente, o que fez com que o saguão irrompesse em mais aclamações de estourar os tímpanos.
Recuei levemente, mas meus lábios ainda roçavam os dele, como se fôssemos dois amantes que não conseguiam se separar.
— Você queria um desempenho convincente — sussurrei. — Agora, teve um.
— Um pouco excessivo, não acha?
— Escute. Você não está obtendo os resultados que desejava? Fervor, eu acho que foi essa a palavra que usou, não foi?
O saguão ainda rugia com animação.
— Muito bem — admitiu ele.
E então um ancião nos fundos gritou uma pergunta:
— Quando será realizado o casamento?
A vantagem era minha ainda. Antes que o Komizar pudesse responder, eu gritei em resposta ao ancião:
— Ao nascer da Lua do Caçador, para honrar o clã dos Meurasi. — Dali a seis dias. Aclamações irromperam novamente.
Eu sabia que o Komizar havia visualizado uma execução imediata do casamento, mas agora não apenas estava anunciado em público como também era uma data que faria honra aos clãs. A menina Meuras nasceu sob uma Lua do Caçador. Seria um insulto se ele mudasse a data do casamento agora.
O Komizar levantou-se para aceitar os parabéns. Lordes de quadrantes e soldados fizeram pressão para entrar, e perdi-os de vista, mas eu vi que pelo menos alguns dos governadores estavam com sorrisos forçados, pegos desprevenidos por esse novo desdobramento das coisas. Talvez eles estivessem perturbados devido ao fato de que, como Conselho, eles não haviam sido consultados, ou talvez fosse alguma outra coisa: o fato de que eu seria rainha. O Komizar não tinha sequer piscado quando eu disse isso. Se ele fosse ficar hesitante em relação a alguma coisa, eu achava que seria isso. Vendanos não têm membros da realeza. Mas eu vi em nossas cavalgadas nas colinas como ele parecia exibir isso, uma princesa do inimigo.
Uma caneca de cerveja foi impelida na minha mão, e eu me virei para agradecer a quem quer que a tivesse entregado a mim. Fora Rafe.
— Parabéns, Princesa — disse ele.
Nós estávamos cercados, nossos cotovelos e nossas costas encostando nos que se misturavam na sala cheia, empurrando-nos para ficarmos mais perto um do outro.
— Obrigada, Emissário.
— Sem ressentimentos, certo? — disse um governador que estava ali perto.
— Uma mera distração de verão, governador. Tenho certeza de que você já teve algumas dessas distrações — falei, em um tom incisivo. Ele deu risada e voltou-se para uma outra conversa.
— Apenas uns poucos dias — disse Rafe. — Não é muito tempo para preparar as coisas.
— Disseram-me que os casamentos vendanos são simples. Tudo que se faz necessário é um banquete de bolos e testemunhas.
— Quanta sorte para vocês dois.
O ar estava delicado entre nós.
— Sinto muito por sua rainha — falei.
Ele engoliu em seco, ocultando seu fogoso olhar fixo.
— Obrigado.
Eu podia ver a fúria que crepitava dentro dele. Ele era uma tempestade pronta para se soltar, um guerreiro que estava bem adiante do ponto de conter-se... exausto de ser um emissário complacente.
— Seu vestido é bem impressionante — disse ele, forçando um sorriso tenso em seus lábios.
De repente, o Komizar estava ao meu lado.
— Sim, é mesmo. Ela está se tornando cada vez mais vendana, a cada dia que passa, não está, Emissário? — Ele arrastou-me para longe antes que Rafe pudesse responder.
A noite foi longa, com todos os anciões e lordes de quadrantes oferecendo congratulações ao Komizar, mas ele recebeu assentimentos quietos e mais indiretos daqueles com quem havia se encontrado em câmaras clandestinas.
Tratava-se de um movimento estratégico, e não de um casamento de verdade, nem mesmo de uma verdadeira parceira, como os clãs esperariam que fosse. Fiquei observando enquanto ele ficava lentamente irritado com o clã falante no saguão. Estes não eram realmente seu povo. Eles falavam de colheita, tempo e de banquete de bolos, não de armas, guerra e poder. Seus modos eram fracos, embora ele obtivesse seu exército dos jovens deles. A única meta em comum entre eles era mais. Para os clãs, mais comida, mais futuro. Para o Komizar, mais poder. Pelas promessas que ele lançava perante eles, eles lhe davam lealdade.
Ficou evidente o quanto ele precisava de mim quando se afastou no meio de uma frase de um ancião, com sua paciência esgotada. Ele parou abruptamente na minha frente, com os olhos nublados com o vinho, e puxou-me para trás de uma pilastra.
— Você deve estar ficando cansada. Está na hora de irmos embora. — Ele disse a Ulrix que estávamos nos retirando, o que atraiu risadas daqueles que estavam perto o bastante para ouvir o que ele disse.
Eu vi Rafe nos observando de longe, como se ele pudesse sair correndo. Agarrei um pedaço da camisa do Komizar, puxei-o para perto de mim e sussurrei, em meio a um sorriso firme como uma navalha, sabendo que estávamos sendo observados:
— Eu dormirei nos meus próprios aposentos esta noite. Se isso será um casamento, terá que ser um casamento de verdade, e você esperará como todos os bons noivos fazem.
As brumas do vinho foram lavadas por sua raiva. Seus olhos me cortavam.
— Nós dois sabemos que não existe nada de verdadeiro em relação a este casamento. Você fará exatamente o que eu...
— Agora é sua vez de pensar com cuidado — falei, olhando para ele com ódio, da mesma maneira que ele olhava para mim. — Olhe ao seu redor. Veja quem está observando. O que você deseja mais? A mim ou o fervor do seu povo? Faça sua escolha agora, porque eu juro que... você não pode ter os dois.
Sua expressão ficou fria, e então ele sorriu, soltando meu pulso.
— Até o casamento.
Ele gritou, chamando Calantha para me escoltar até o meu quarto, e desapareceu outra vez em um círculo de soldados bêbados.

6 comentários:

  1. Lia é boa com jogos, melhor ela aprender a jogar esse logo

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  2. Eu achei até que ela poderia se apaixonar pelo Komizar até que ele me sacaneia e mata o cara ai ele faz isso!!!!!
    Por que Komizar, por quê??????????
    Eu comecei a cruahar você e você age como um imbecil

    #ChorandoRios

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  3. AAAH Q AGONIA, Q RANÇO, Q ÓDIO
    SCR

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  4. Cadê o Kaden qua do precisamos dele??

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Boa leitura, E SEM SPOILER!