2 de fevereiro de 2018

Capítulo 39

Pode-se levar anos para moldar um sonho, mas é preciso apenas uma fração de segundo para despedaçá-lo. Fiquei sentada à mesa da cozinha, segurando um pedaço do sonho estilhaçado de Walther. Gwyneth, Berdi e Pauline estavam ali comigo.
Eu já tinha contado a elas tudo que sabia. Elas tentaram me garantir que Walther ficaria bem, que ele precisava de tempo para vivenciar o luto, o pesar, que precisava de muitas coisas das quais eu nem mesmo podia mais ouvi-las dizer. Em vez disso, minha cabeça latejava com os choros do meu irmão. Uma flecha bem na garganta.
As vozes delas eram suaves, hesitantes, soavam baixas, tentando ajudar-me a passar por aquilo. Mas como algum dia Walther ficaria bem? Greta estava morta. Ela caíra, de olhos abertos, no colo dele. Walther não saiu daqui como um soldado, ele foi embora como um homem ensandecido. Ele não partiu para se juntar ao pelotão, ele partiu para se vingar.
Gwyneth esticou a mão para tocar a minha.
— Não é culpa sua, Lia — disse ela, como se pudesse ler meus pensamentos.
Puxei a mão para longe e pulei da cadeira.
— É claro que a culpa é minha! De quem mais seria? Aquele bando de hienas está avançando Morrighan adentro porque não tem mais medo! Tudo porque eu me recusei a me casar com alguém que não amava. — Cuspi a última palavra com toda a repulsa que estava sentindo.
— Ninguém sabe com certeza se uma aliança teria adiantado alguma coisa para impedi-los — explicou Berdi.
Olhei para ela, balançando a cabeça em negativa, achando que a certeza não importava mais nem um pouco. Garantias nem mesmo faziam parte do meu universo nesse exato momento. Eu teria me casado com o próprio diabo se isso tivesse me dado a mais ínfima chance de salvar Greta e o bebê. Quem seria o próximo?
— Foi apenas um bando de desgarrados, Lia, não um exército. Nós sempre tivemos esses bandos. E o ataque foi em uma fronteira remota — argumentou Pauline.
Andei até a lareira e observei a pequena chama. Quanto a isso, ela estava certa. Porém, dessa vez, se tratava de algo mais. Era algo cinza e sombrio passando por mim como se fosse uma cobra. Eu me lembrei da hesitação na voz de Walther. Vamos mantê-los fora das nossas terras. Nós sempre fazemos isso.
Mas não dessa vez.
Era algo que estava esperando para acontecer, o tempo todo. Eu simplesmente não tinha visto isso. Uma aliança crucial, fora como minha mãe se referira ao casamento. Seria o sacrifício de uma filha a única forma de conseguir tal aliança? Talvez fosse, quando tantas desconfianças haviam ficado no forno durante séculos. Essa aliança era para ser mais do que um pedaço de papel que poderia ser queimado. Era para ser uma aliança feita de carne e sangue.
Baixei o olhar para o minúsculo gorro de renda branca em minhas mãos que eu pretendia dar a Walther e Greta. Passei o dedo pela renda, lembrando-me da alegria que sentira ao comprá-lo. Greta estava morta. O bebê estava morto. Walther era um homem ensandecido.
Joguei aquilo na fogueira, ouvi os murmúrios sussurrados ao meu redor, fiquei observando enquanto a renda pegava fogo, curvava-se, ficava negra, cedia lugar às chamas, tornando-se, por fim, cinzas. Como se nunca estivesse estado ali.
— Eu preciso ir me lavar. — Minhas pernas ainda estavam cheias de lama.
— Você quer que eu vá com você? — perguntou Pauline.
— Não — foi a minha resposta, e fechei a porta silenciosamente logo atrás de mim.

2 comentários:

  1. Lia deveria ir p terra do príncipe casar com ele e aprender a decifrar o livro q ela roubou...

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!