20 de fevereiro de 2018

Capítulo 38

KADEN

Eu sabia que ela estava sofrendo. Três dias haviam se passado. Eu queria abraçá-la. Fazer com que ela parasse. Fazer com que diminuísse o ritmo. Queria que ela olhasse nos meus olhos e respondesse a uma coisa que eu tinha muito medo de perguntar. No entanto, seria errado tentar obrigar Lia a fazer qualquer coisa naquele momento.
No primeiro dia, quando ela se juntara a nós na trilha e Tavish perguntou se estava tudo bem com ela, eu observei como Lia ficara congelada. Ela sabia o que estava implícito na pergunta de Tavish, que ela era fraca ou que estava sofrendo com a partida de Rafe.
— Seu rei está onde deveria estar, cuidando das necessidades do reino dele. E eu estou fazendo o que preciso fazer. Simples assim.
— Eu sei que ele fez promessas a você em relação a Terravin.
Ela não respondeu. Lia apenas olhou para trás, para a caravana que desaparecia, e puxou suas luvas, flexionando os dedos e empurrando-os mais a fundo dentro delas e disse:
— Vamos embora.
A expressão de Rafe naquela última noite, quando ele me jogou junto à parede dos alojamentos, permanecera comigo. Ele estava selvagem com o medo, com o medo de deixar que ela partisse, mas ele o fez. Uma coisa que eu não tinha feito, não importando quantas vezes ela tivesse me pedido para libertá-la enquanto cruzávamos o Cam Lanteux. Esses pensamentos se reviraram na minha cabeça repetidas vezes.

* * *

Estávamos acampados em um fino agrupamento de faias, enfiados próximos a um afloramento de penedos. Um riacho raso corria ali perto.
Lia estava sentada, afastada, sozinha, mas não muito longe do acampamento. Todos nós ainda olhávamos por cima dos nossos ombros e dormíamos com as armas em prontidão. Não sabíamos se poderia haver mais deles ali. O relato de Eben sobre quem ele havia visto deixando o Sanctum, embora fosse útil, poderia não incluir aqueles que ele talvez não tivesse visto saindo de lá.
Eu sabia o que viria em seguida. Assim que ela terminasse de fazer as memórias sagradas, Lia afiaria as facas, verificaria os cascos dos seus cavalos para ver se havia pedras neles, faria uma varredura na trilha atrás de nós, ou rasparia o solo com um graveto, e depois apagaria as marcas com a bota. Eu me perguntava o que ela desenhava. Palavras? Mapas? Contudo, quando perguntei a ela, a resposta foi um curto e seco Nada.
Eu pensava que isso era tudo o que eu queria. Estar com ela. Do mesmo lado que ela. Ela está com você, Kaden, é isso que importa.
— Vou começar a preparar o jantar — disse Orrin, lançado um olhar de relance na direção de Lia. Ele foi andando até onde estava a lenha que eu coletara e preparou o espeto onde assaria a carne, espetando nele o faisão que já havia estripado e limpado.
Tavish voltou do seu banho no riacho. As espessas mechas negras dele gotejavam água. Ele seguiu o meu olhar contemplativo, olhando para Lia, e falou, grunhindo, baixinho:
— Estou aqui me perguntando em que tarefa ela vai colocar um de nós esta noite.
— Ela quer estar preparada.
— Uma pessoa sozinha não tem como lidar com um reino inteiro.
— Ela tem a nós. Não está sozinha.
— Ela tem a você... e isso não é lá muita coisa. O restante de nós dará a volta assim que chegarmos à fronteira morrighesa. — Ele balançou os cabelos e puxou a camisa pela cabeça.
Os primeiros poucos dias cavalgando com o trio leal de Rafe foram tensos, mas, por causa de Lia, contive a língua, e umas poucas vezes, os punhos também. Agora eles pareciam aceitar que eu não estava seguindo junto para conduzir Lia de volta a Venda e que eu aposentara o antigo título de Assassino, pelo menos até que Lia estivesse de volta a Morrighan. Quer eu admitisse isso ou não, eles também eram úteis. Eu conhecia centenas de trilhas ao longo desta rota ao sul, mas todos os Rahtans também a conheciam. Esses três haviam me surpreendido com umas poucas trilhas que serpeavam por cânions ocultos, lugares por onde eu nunca havia viajado antes. E, com Orrin conosco, nós nunca tínhamos que comer cobra. Ele tinha habilidades com o arco; da sela, ele derrubava a caça enquanto mal diminuía o ritmo da cavalgada. Suas habilidades e sua paixão igualavam-se com perfeição.
— Você notou — perguntou-me Tavish enquanto chacoalhava o cobertor da sela dele e o pendurava sobre um galho baixo — que o vento fica agitado toda noite quando ela diz suas memórias sagradas?
Eu notara. E fazia perguntas em relação a isso. O ar parecia ficar mais denso e ganhar vida, como se ela estivesse convocando espíritos.
— Pode ser apenas a movimentação natural do ar enquanto o sol se põe.
Tavish estreitou os olhos.
— Pode ser.
— Eu não achei que vocês, dalbretchianos, fossem do tipo supersticiosos.
— Eu vi isso lá no Sanctum também. Eu estava lá, observando das sombras, e ouvia tudo que ela dizia. Às vezes, parecia que as palavras dela estavam tocando a minha pele, como se uma brisa estivesse carregando cada uma delas e passando por mim. Era uma coisa estranha. — Eu nunca tinha ouvido Tavish falar sobre algo além de trilhas e suspeitas das minhas verdadeiras motivações, o que quase nos havia levado a trocar alguns sopapos. Ele piscava, como se estivesse se segurando. — Minha vez de fazer a vigília — disse ele, afastando-se para liberar Jeb. Ele parou depois de apenas uns passos e se virou. — Apenas curiosidade. É verdade que você era morrighês?
Assenti.
— Foi lá que ficou com todas essas cicatrizes? Não em Venda?
— Há muito tempo.
Ele olhou para mim, como se estivesse tentando imaginar quantos anos eu deveria ter quando isso aconteceu.
— Eu tinha oito anos na primeira vez que fui chicoteado — falei. — As surras duraram alguns anos até que fui levado para Venda. Foi o Komizar que me salvou.
— Sendo o bom camarada que ele é. — Ele me analisou, mascando o canto do lábio. Essa revelação provavelmente não melhorava a concepção dele por mim. — Essas são cicatrizes profundas. Com certeza você se lembra de todas as chicotadas. E agora, de repente, quer ajudar Morrighan?
Reclinei-me nos meus cotovelos e sorri.
— Sempre suspeitando das coisas, não?
Ele deu de ombros.
— Sou estrategista. É o meu trabalho.
— Vou lhe dizer uma coisa: eu responderei a uma pergunta sua, se você responder a uma minha.
Ele baixou o queixo, aquiescendo, esperando pela pergunta.
— Por que estão aqui? De verdade. Seu rei poderia ter enviado qualquer esquadrão para escoltar a princesa até a fronteira do reino dela. Por que ele mandou os seus oficiais principais? Isso foi apenas para que pudessem escoltá-la de volta a Dalbreck assim que ela recuperasse o bom senso? E, caso isso não acontecesse, para forçá-la a voltar?
Tavish sorriu.
— Sua resposta não é tão importante para mim, afinal de contas — disse ele, e saiu de perto.
Enquanto Tavish andava, eu observei enquanto Lia caminhava a passos largos na minha direção, com a calça de couro da cavalgada cheia de poeira e o rosto manchado de terra. Três armas pendiam das laterais do seu corpo, e ela parecia mais um soldado do que uma princesa, embora, na verdade, eu sequer soubesse ao certo como uma princesa deveria parecer. Ela nunca havia se encaixado em qualquer imagem de realeza que eu havia conjurado à mente.
Realeza. Com que facilidade eu havia depreciado o título quando a única nobreza que já havia conhecido na vida era o meu pai, o estimado lorde Roché, do condado de Düerr. A linhagem dele remontava até Piers, um dos primeiros Santos Guardiães, o que lhe conferia um status elevado e favores especiais em meio à nobreza, quem sabe junto aos próprios deuses. Minha mãe havia me contado sobre os meus ancestrais uma vez. Eu havia me esforçado muito para me esquecer disso e rezava para que eu tivesse puxado tudo do sangue dela e nada do dele.
Lia parou por um instante, erguendo a bainha de ombro de Walther acima da sua cabeça e a colocando abaixo, em cima do saco de dormir. Então desafivelou o outro cinto, que continha duas facas, deixando-o cair com o restante dos equipamentos. Ela estirou os braços acima da cabeça, como se estivesse lidando com um nó solto nas costas, e depois me surpreendeu ao jogar-se no chão ao meu lado. Ela estava com o olhar contemplativo cruzando as colinas, o bosque que obscurecia o horizonte e o sol que se punha, como se pudesse ver todos os quilômetros que ainda estavam à nossa frente.
— Nenhuma faca a afiar? — perguntei.
A bochecha de Lia formou covinhas.
— Não esta noite — disse ela, ainda com o olhar contemplativo voltado para as colinas. — Preciso descansar. Nós não podemos continuar nesse ritmo, ou os cavalos vão ceder antes de nós.
Olhei com ceticismo para ela. Eu e Jeb havíamos usado quase aquelas mesmas e exatas palavras com ela hoje de manhã, e a única resposta dela a nós dois tinha sido um pungente olhar de desprezo.
— O que foi que mudou desde hoje de manhã?
Ela deu de ombros.
— Eu e Pauline estávamos aterrorizadas quando saímos em cavalgada de Civica, porém, em determinado momento, nós paramos de olhar para trás por cima dos ombros e começamos a procurar pela baía azul de Terravin. É isso que preciso fazer agora. Olhar para frente.
— Simples assim?
Ela observou as árvores, com os olhos anuviados, pensando.
— Nunca é simples — disse por fim. — Mas não tenho outra escolha. Vidas dependem disso. — Ela se mexeu no cobertor e ficou com a face voltada para a minha. — É por isso que precisamos conversar.
Lia desferiu perguntas a mim, uma atrás da outra, perguntas que continham uma urgência metódica. Agora eu sabia pelo menos um pouco quais eram os pensamentos dela enquanto cavalgava. Confirmei as suspeitas delas de que o Komizar começaria a marcha logo após o degelo. Enquanto eu distribuía respostas, aos poucos me dava conta do quão pouco, na verdade, eu tinha dado a ela. Isso me fez ver que, apesar de toda a minha conspiração com o Komizar, ele havia me mantido mais às escuras do que confiara em mim. Eu nunca fui um parceiro de verdade no plano dele, apenas um de muitos para ajudá-lo a realizar esse plano.
— Deve ter outros traidores além do Chanceler e do Erudito Real. Você não entregou nenhuma outra mensagem?
— Apenas entreguei aquela única mensagem quando eu tinha treze anos. Na maior parte do tempo, ele me mantinha fora de Civica. Eu rastreava desertores ou ele me enviava para promover retaliação a guarnições militares remotas.
Lia mordeu o lábio por um instante, e depois me perguntou uma coisa estranha. Ela queria saber se nós passaríamos por algum lugar onde se pudesse enviar mensagens.
— Turquoi Tra. Há um posto de transmissão de mensagens lá. Elas são rápidas, mas custam caro. Por quê? — perguntei.
— Pode ser que eu queira escrever uma mensagem para casa.
— Achei que você tivesse dito que o Chanceler interceptaria todas as mensagens...
Um brilho feroz se instalou nos olhos dela.
— Sim, ele fará isso.

9 comentários:

  1. Eu acho que o taxista e o resto da guarda do Rafe acha que ela está grávida, por causa daquela vez que ela apertou a barriga. Por isso que eu acho que lês fixam observando ela com cuidado, eu acho isso ou é só imaginação minha rsrs.
    😄

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  2. #TeamKaden
    Mais se a Lia não ficar com o Kaden quero ele com o Tavish (acho que é assim que escreve)

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  3. Genteee, lembram da visão do Kaden com um bebê?E agora ela com essas dores, aiaiaiai, acho que ela pode estar grávida sim, não sei se ele vai ficar com ela e com o bebê ou se fará parte da vida dela. Não é spoiler não, é meu achismo kkk

    Jessica

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    1. Ela não está grávida. Ela vai ter que lutar, um autor nunca colocaria ima gestante numa situação dessas. É a minha opinião.

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  4. Acho difícil ela estar grávida.. ela perguntou ao rafe se ele tinha algo para se prevenir..é acho q ela vai lutar e mto agora..a autora não colocaria um bebê a essa altura do livro..talvez no fim..é a visão do kaden acho q tem haver com a Pauline.. pensem bem no livro 1 a Pauline elogia o kaden e fala do olhar bondoso e acho q ele msm está percebendo q a lia não vai ama lo como ele deseja..Não sei o fim..Mas presumo q a lia se for ficar com alguém será rafe e o kaden pode ser q fique com Pauline

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  5. Eu TB qria q fosse assim.

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  6. "Ele estava selvagem com o medo, com o medo de deixar que ela partisse, mas ele o fez. Uma coisa que eu não tinha feito... "

    Pois é, querido. Kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!