16 de fevereiro de 2018

Capítulo 38

Não se tratava apenas de uma ou duas dúzias, mas sim de centenas que enchiam a praça. Eu senti os olhos do Komizar em mim de algum lugar ao longe, esperando para corromper meus pensamentos. Comecei sem hesitar, tentando encontrar aquele lugar de confiança que ele não era capaz de controlar. As palavras saíram desajeitadas e envergonhadas, uma prece básica da infância.
Tentei novamente, cerrando os olhos, buscando, com a respiração lenta e profunda, esperando e esperando, com o desespero se insinuando, e então ouvi alguma coisa. Música. O distante e fraco puxão na corda de uma cítara. A cítara da minha tia. E então o cantarolar da minha mãe ergueu-se acima desses sons, com seu eco melancólico que flutuava pela cidadela. A música que fazia com que até mesmo o meu pai interrompesse seus deveres. Virei a cabeça, permitindo que tocasse através de mim como se fosse a primeira vez, e as palavras automáticas desapareceram.
Minhas memórias sagradas começaram na forma de elocuções, uma melodia sem palavras que acompanhava a música da cítara, cada nota emitindo as batidas da criação, girando em minha barriga, uma canção que não pertencia a qualquer reino e a qualquer homem, apenas a mim mesma e aos céus. E então as palavras vieram, um reconhecimento de sacrifícios e da longa jornada de uma menina, e beijei dois dedos, erguendo-os aos céus, um para os perdidos e um por aqueles ainda por vir.
A música ao longe ainda parecia ecoar pelas altas muralhas de pedra que me circundavam, separando-me das pessoas lá embaixo. Começo da noite. Hora de ir para casa, mas, em vez disso, eles permaneciam ali. Uma voz disse:
— Conte-nos uma história, Princesa de Morrighan.
Conte uma história a eles, Jezelia.
Ali estava ela, a apenas um braço de distância de mim, uma aparição sentada na parede, mas, ao mesmo tempo, sólida. Inabalável. Seus cabelos formavam uma trilha ao longo das pedras, remontando totalmente a outro milênio. Conte a eles uma história.
E então eu fiz isso. Contei a eles a história de duas irmãs.

Reúnam-se aqui perto, meus irmãos e minhas irmãs,
Escutem bem,
Pois há apenas uma história verdadeira,
E apenas um futuro verdadeiro.
Era uma vez,
Há muito, muito tempo,
Sete estrelas que pendiam no céu.
Uma para chacoalhar as montanhas,
Uma para revigorar os oceanos,
Uma para afogar o ar,
E quatro para testar os corações dos homens.

Eu extraía as palavras de Morrighan, Gaudrel e Venda. Extraía as palavras de Dihara, do vento e do meu próprio coração. Extraía essas palavras da verdade que estremecia no meu pescoço.

Mil facas de luz
Cresceram até formarem uma nuvem rolante e explosiva,
Como um monstro faminto.
Uma tempestade que tornava os modos de antigamente sem sentido.
Uma faca afiada, uma mira cuidadosa, uma vontade de ferro e um coração que ouve,
Essas eram as únicas coisas que importavam,
Apenas uns pequenos remanescentes da terra haviam sobrado,
Mas duas irmãs encontraram a graça...

Contei a história dos mundos que eu tinha visto, de cidades inteiras destruídas, não importando o quão ao longe e amplamente elas se espalhavam, e de cidades ascendendo aos céus, de imensa magia, que não conseguiram aguentar uma tempestade furiosa. Contei a eles sobre templos exaltados que se derreteram para dentro da terra e dos vales que vertiam como lágrimas o sangue de gerações. Porém, em meio a tudo isso, duas irmãs permaneciam lado a lado, fortes e leais, até que uma besta se ergueu das cinzas e separou-as, à força, uma da outra, pois até mesmo as estrelas lançadas à terra não foram capazes de destruir todas as últimas sombras de escuridão.
— Onde estavam os deuses nessa história? — perguntou-me alguém.
Os deuses. Eu não tinha outra resposta além desta:
— Os deuses também choraram.
— Quais eram os nomes das irmãs? — perguntou outro.
Embora eu não soubesse ao certo se ele conseguia me ouvir, eu vi a sombra do Komizar passar na janela de sua torre.
— Está ficando escuro — falei. — Vão para suas casas, para suas ceias. Contarei mais a vocês amanhã.

* * *

O quarto estremecia com o vazio. Pus-me a endireitar seu mísero conteúdo, ainda espalhado por causa da desenfreada busca dos guardas por armas escondidas. Ele nem pensaram em onde jogariam as coisas. Eu ansiava pela companhia das pessoas na praça novamente. Havia mais coisas que eu queria dizer, e a solidão do quarto permitia que minhas dúvidas voltassem a insinuar-se.
Dobrei novamente as cobertas amarrotadas e apoiei as espadas de treino de volta na parede. Cabeças empaladas... a obra do Assassino. O comentário de Rafe havia sido intencional, um aviso para mim. O que Kaden havia feito? Eu lembrava que no meu primeiro dia aqui ele tinha um dever urgente relacionado a soldados de que precisava cuidar, e de sua pungente recusa quando pedi para ir junto com ele. Seria para lá que ele teria ido? Executar meninos? A diferença entre crianças e adultos parecia inexistir em Venda. Será que ele havia girado uma espada com tão pouco remorso quanto o Komizar havia feito nessa tarde? Eu simplesmente não conseguia acreditar em uma coisa dessas. Ambos poderiam ser vendanos, mas eles eram tão diferentes um do outro quanto o fogo da água. Eu me perguntava o que teriam feito os soldados condenados. Roubado comida como o açougueiro? Passar fome é bárbaro, princesa. Eu me sentei na cama. Era por isso que eles não tinham qualquer prisioneiro em Venda. Prisioneiros tinham que ser alimentados.
Ainda assim, nada parecia faltar para o Conselho.
Eu havia me levantado para despejar água em minha tina de banho e me lavar quando ouvi passadas no corredor. Um único som oco abalou a porta, e depois veio o ruído da fechadura.
Era Ulrix. Ele abriu uma fenda na porta de alguns centímetros, apenas larga o bastante para dizer:
— O Komizar deseja sua presença. Vista o púrpura. Estarei aqui fora esperando.
Ele fechou a porta para que eu pudesse me trocar. Era cedo demais para a refeição noturna no Saguão do Sanctum, e Calantha sempre era enviada para me buscar. Ou o próprio Komizar batia com força à porta. Nunca Ulrix. Use o púrpura. Um outro vestido que deixava a mostra o kavah, feito de retalhos de camurça tingidos com thannis.
Peguei o vestido dobrado da pilha que estava em cima do baú e esfreguei o couro macio por entre os meus dedos. Alguma coisa não está certa. Mas nada estivera certo por tanto tempo que eu não tinha certeza de por que uma preocupação fazia diferença.
Ulrix não me levou para a câmara particular do Komizar como eu esperava, e quando perguntei a ele aonde estávamos indo, ele não me respondeu. Ele me conduziu até uma parte remota do Sanctum, descendo por estreitas escadarias que se curvavam em uma ala onde eu nunca havia estado antes. As escadas esvaziavam-se em um grande e redondo vestíbulo parcamente iluminado por uma única tocha. Havia uma pequena porta em uma reentrância e corredores em cada um dos lados, os quais desapareciam na escuridão.
Antes de chegarmos à porta, ela se abriu, e um punhado de lordes de quadrantes, chievdars, governadores e Rahtans saíram dali. Esse não era o Conselho. Malich estava entre eles, e, embora eu esperasse por um largo sorriso presunçoso no rosto dele, todos estavam com expressões seguras de si enquanto passavam por mim. Quando eles haviam desaparecido em diferentes direções pelos corredores abaixo, Ulrix me cutucou em direção à sala.
— Entre.
Apenas uma pontinha de luz passava pela entrada aberta, um brando tremeluzir dourado. Que os deuses me ajudem. Beijei meus dedos que tremiam, ergui-os no ar e segui em frente.
Uma pequena vela iluminava uma mesa no centro, deixando o restante do aposento no breu. Eu vi o parcamente iluminado perfil do Komizar sentado em uma cadeira, com as botas apoiadas na mesa, deliberadamente me observando enquanto eu ali entrava.
A porta bateu com tudo atrás de mim.
— Você vestiu o púrpura — disse ele. — Que bom.
— Como você consegue ver isso no escuro?
Ouvi o gentil inalar da respiração dele.
— Conseguindo.
— Você realiza reuniões secretas em câmaras escuras agora?
— Planos mais grandiosos pedem uma privacidade maior.
— Mas não com todo o Conselho?
— Eu sou o Komizar. Eu me encontro com quem eu escolher e onde eu quiser.
— Estou vendo.
— Chegue mais perto.
Avancei até que estava parada perto dele, que casualmente esticou a mão e tocou em um dos retalhos soltos que desciam em cascata do meu vestido.
— Eu tenho algumas boas notícias a você, Princesa. Algo que lhe dará mais liberdades aqui em Venda. Seu status está mudando. Você não será mais uma prisioneira. — Ele abriu um sorriso. A luz da vela dançava ao longo da maçã de seu rosto, e seus cílios lançavam uma sombra pungente em volta dos olhos.
De repente, meu vestido parecia apertado demais e o aposento, nauseantemente abafado.
— E como foi que eu vim me deparar com essa boa notícia? — perguntei.
— Parece que os anciões dos clãs gostariam de ter alguma prova de suas intenções. Mais uma boa vontade de sua parte.
— Isso pode ser difícil de acontecer.
— Não é tão difícil assim. E servirá ao fervor.
E então ele explicou.
Suas primeiras palavras deixaram-me paralisada: as seguintes, entorpecidas. Palavra por palavra, fiquei observando sua boca se mexer, admirando a precisão cautelosa de cada sílaba, viajei com o olhar pela linha de seus lábios, seus pelos faciais tão bem aparados por seu maxilar, a curva de seus cachos escuros em contraste com o branco de sua camisa, sua pele, límpida e cálida. Segui a linha de uma pequena veia em seu pescoço, ouvi o cuidadoso ritmo da sua voz, magnética, poderosa, observei a luz trêmula brincando em sua testa. Tanta coisa para afastar minha mente daquilo, enquanto ele o expunha, detalhadamente, mas não era o bastante para bloqueá-lo por completo. Palavra por palavra. Era a última coisa que eu esperava que saísse da língua dele. Uma virada que eu não tinha previsto.
Uma virada de mestre.
Genial.
Devastadora.
Você e eu nos casaremos.
Ele olhou para mim, com seus olhos famintos, não com desejo, mas sim com alguma coisa que era muito mais fria, medindo todos os meus tremores e todas as minhas respirações. Eu tinha certeza de que ele podia ver o sangue sendo drenado para os meus pés.
— Meus conselheiros viram como os clãs afeiçoaram-se a você. Você os encantou. Um talento e tanto, visto que os clãs são firmemente fechados e podem ser hostis com recém-chegados. Meus conselheiros acreditam que um casamento haverá de ser útil durante os tempos mais difíceis que teremos pela frente. Isso comprovará seu comprometimento aos olhos dos clãs. E há uma inegável doçura para o restante de nós se o inimigo vier a descobrir que sua Primeira Filha Real não apenas fugiu deles como foi parar direto nos braços de seu adversário. Um casamento feito por ela mesma, por assim dizer. — Ele balançou a cabeça. — Nós rimos um bocado com a discórdia que isso vai semear.
— E você, naturalmente, se certificará de que eles fiquem sabendo disso.
— A notícia já está a caminho. Esse foi o detalhe do qual os chievdars mais gostaram. É uma vitória para todos nós. Isso também acabará com quaisquer possibilidades que você possa ter levantado de algum dia voltar para casa. Se seu povo a desprezava por traição antes, agora você será a criminosa mais procurada em seu reino.
— E quanto a Dalbreck, quando eles ficarem sabendo disso?
— E daí? O príncipe já expressou sua opinião sobre o casamento frustrado. Ele tem que lidar conosco agora. Ele não vai se importar se eu a decapitar ou casar com você.
— E se eu não cooperar?
— Isso seria lamentável. Parece que meu Assassino desenvolveu uma afeição por você. Pelo bem maior de Venda, ele teria que ignorar o novo arranjo, mas, a menos que ele perceba isso como sendo decisão sua, eu receio que ele poderia tornar-se um problema. Eu odiaria perdê-lo.
— Você mataria Kaden?
— Uma medida de paixão, por fim — disse ele, com um largo sorriso no rosto, e então seus olhos ficaram mortos. — Sim. Como ele faria comigo se eu fizesse algo tão idiota a ponto de impedir o bem maior. São os nossos modos.
— Você quer dizer que esse é o seu modo.
Ele soltou um suspiro.
— Se isso não é o bastante para convencê-la, acho que já tive o vislumbre de algum resto de afeição pelo emissário nos seus olhos. Eu odiaria quebrar minha promessa de dar a ele um mês para que seu príncipe nos envie um mensageiro. Seria um infortúnio se ele começasse a perder dedos prematuramente. Estou achando-o útil e tenho que admitir uma certa admiração pela ambição despudorada dele, mas ele também seria sacrificável – pelo menos partes dele seriam – a menos que seu desempenho alcance proporções estelares. É muito mais eficiente impedir que problemas aconteçam do que ter que limpá-los. — Ele levantou-se e suas mãos subiram deslizando pelos meus braços. — Convença-os. Convença a mim.
Abri a boca para me pronunciar, mas o dedo dele pulou para os meus lábios para silenciar-me.
— Shhhhh. — Os olhos dele ficaram crepusculares. Ele me puxou para perto de si, seus lábios ardendo em chamas junto aos meus, embora ele mal os tivesse tocado, enquanto sussurrava: — Pense, Princesa. Escolha suas próximas palavras com muito cuidado. Você sabe que sou fiel à minha palavra. Pense em como deseja proceder deste momento em diante.
Minha mente ardia em chamas com a escolha. Ele havia jogado a carta vencedora no meu primeiro dia aqui.
— Sempre há mais a ser tomado, não é, sher Komizar?
— Sempre, meu bichinho de estimação.
Cerrei os olhos.
Às vezes, todos nós somos empurrados para que façamos coisas que achávamos que nunca seríamos capazes de fazer. Não eram apenas presentes que vinham com grande sacrifício. Às vezes, o mesmo acontecia com o amor.
Convença-o. Relaxei junto ao seu toque e não desviei quando sua boca encontrou a minha.

14 comentários:

  1. É um impossível, não admira o Komizar pela sua inteligência. Rafe vai ter um treco, não quero nem imagina o que o Kaden vai fazer. Será que finalmente vai trair Venda?

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  2. Não pode ser ,manooooooooooooooo

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  3. °0° sem palavras mds

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  4. SABIA! Tinha imaginado algo assim da parte dele. Só tenho pena do Kaden.

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  5. AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH
    ACHO QUE NAO GOSTO TANTO ASSIM DESSE TROLHO
    DE AMOR PRA RANÇO, EM SEGUNDOS

    SABS

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  6. Fugiu de casar com o Rafe pra ser forçadamente a casar com o Komizar! Laskou Lia!

    Amanda Coelho

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  7. Como ela não viu essa chegando? To vendo isso chegar desde a primeira vez que ele levou ela pra um "passeio".
    Eu sabia que esse negocio com o Rafe ainda iria cagar tudo, ela estaria melhor se estivesse ai sozinha

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  8. VIIIIU, ou eles vão se casar e o Kaden vai matar o Komizar p impedir toda essa zueira ae, ou mata até antes disso msm LUTA PELA TUA MULHER KADENNN

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  9. Nossa esse Komizar deu tiro no seu próprio pé, com ctza os 2 matará ele

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  10. Ranço do Komizar.
    Lia!Como tu não viu essa chegando?
    O Rafe e o Karen vão ficar putos.
    Komizar espere pq o jogo vai virar

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  11. QUE TRETA MALIGNA! kkkkkk

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  12. Uma virada de mestre.
    Genial.
    Devastadora.
    Você e eu nos casaremos.


    MDs
    Que tiro foi esse ???😨😨😨

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!