2 de fevereiro de 2018

Capítulo 38

— Lia.
Um cutucão em meu ombro.
— Lia, acorde.
Outro cutucão.
— Lia! Você tem que acordar!
Despertei alarmada, sentando-me direito. Pauline estava na beirada da cama. O quarto estava bem iluminado. Eu tinha dormido a manhã toda.
— O que foi? — falei, protegendo meus olhos da luz. E então notei a expressão no rosto dela. — O que foi?
— É Walther. Ele está atrás do depósito de gelo. Tem algo errado, Lia. Ele está...
Saí da cama grogue, procurando por uma calça, uma camisa, algo que pudesse vestir. Walther atrás do depósito de gelo? As palmas das minhas mãos estavam úmidas com o suor. A voz de Pauline estava agudíssima. Tem algo errado. Joguei no chão o que quer que estivesse em minhas mãos e saí correndo da cabana ainda descalça e de camisola.
Primeiro vi o cavalo tobiano dele, coberto de espuma e bufando, como se tivesse sido cavalgado a noite toda.
— Leve-o até o celeiro e limpe-o — disse para Pauline, que corria atrás de mim. Dei a volta no canto do depósito de gelo e vi Walther sentado no chão, apoiado em um carrinho de mão virado que estava ali guardado junto com engradados não usados e uma bagunça de outras coisas jogadas.
— Lia — disse ele ao me ver.
Minha respiração parou com tudo em minhas costelas. Ele tinha um talho na testa, mas, pior ainda, sua expressão estava ensandecida — parecia mais um homem selvagem fingindo ser meu irmão.
— Walther, o que houve? — Fui correndo até o lado dele e prostrei-me de joelhos. Levei a mão até a testa dele, que olhou para mim e disse “Lia” novamente, como se fosse a primeira vez. — Walther, você está ferido. O que aconteceu?
Seus olhos estavam desolados.
— Eu tenho que fazer alguma coisa, Lia. Tenho que fazer alguma coisa.
Tomei o rosto dele nas minhas mãos, forçando-o a olhar para mim.
— Walther, por favor — disse com firmeza. — Você tem que me dizer o que há de errado para que eu possa ajudá-lo.
Ele olhou para mim, quase como uma criança.
— Você é forte, Lia. Você sempre foi a mais forte de nós. Era isso que preocupava nossa mãe.
Aquilo não fazia sentido algum. Ele desviou o olhar, e seus olhos estavam vidrados e vermelhos.
— Não havia nada que eu pudesse fazer — disse ele. — Nada, por nenhum deles.
Agarrei a camisa dele e o chacoalhei.
— Walther! O que aconteceu?
Ele voltou a olhar para mim, com os lábios rachados, o cabelo cheio de mechas ensebadas caindo imundas em seu rosto. Sua voz estava desprovida de paixão.
— Ela está morta. Greta está morta.
Balancei a cabeça em negativa. Não era possível.
— Uma flecha bem na garganta. — O olhar contemplativo dele continuava vazio. — Ela olhou para mim, Lia. Ela sabia. Os olhos dela... Greta não conseguia falar. Só olhou para mim, sabendo de tudo, e então caiu no meu colo. Morta.
Ouvi enquanto meu irmão narrava cada pedaço estilhaçado de seu sonho. Abracei-o, embalei-o, fiquei aninhada com ele no abandono e na lama. Quando vi Pauline e Berdi dando a volta no canto do depósito de gelo, acenei para que fossem embora. Meu irmão, meu jovem, forte e robusto irmão, chorava em meus braços. Ele trilhava uma linha entre lágrimas e crença desprovida de paixão, incapaz de separar o que era relevante do irrelevante. O vestido dela era azul. Ela havia trançado seus cabelos em um círculo em volta da cabeça naquela manhã. O bebê estava se mexendo. Eles estavam a caminho da casa da tia de Greta, que ficava a apenas uma hora de cavalgada com a carruagem dos pais dela. A irmã dela e sua família estavam na carruagem logo atrás. Todos iam almoçar lá. Só uma hora, repetia ele, sem parar. Uma hora. E à luz do dia. Estávamos em plena luz do dia. Eles estavam prestes a cruzar a ponte de Chetsworth a Briarglen quando ouviram um tremendo rugido. Meu irmão ouviu o condutor gritar, seguiu-se um som oco e alto, e depois, a carruagem foi com tudo para a frente. Ele estava prestes a ver o que tinha acontecido, quando ouviu outra vez o som, o baque de flechas. Ele se virou para empurrar Greta para baixo, mas era tarde demais.
— Eles estavam ali para destruir a ponte — disse ele, com os olhos arregalados, a voz amortecida de novo, como se ele já tivesse reprisado a cena em sua cabeça umas mil vezes. — Nós surgimos justo no momento em que a ponte estava vindo abaixo. O condutor gritou, e eles o mataram. Em seguida, encheram-nos com mais flechas antes de saírem a galope.
— Quem, Walther? Quem fez isso?
— Levei-a de volta até os pais dela. Eu sabia que ela ia querer isso. Levei-a de volta, Lia. Eu a lavei. Eu a envolvi em um cobertor e a abracei. Abracei Greta e o bebê. Fiquei abraçando-a durante dois dias antes que me fizessem entregá-la a eles.
— Quem fez isso?
Walther olhou para mim, seus olhos repentinamente focados de novo, sua boca contorcendo-se em repulsa, como se eu não estivesse escutando o que ele dizia.
— Tenho que ir.
— Não — sussurrei baixinho, tentando acalmá-lo. — Não.
Ergui a mão para empurrar os cabelos do meu irmão para o lado e dar uma olhada no talho em sua testa. Ele não tinha me contado como o conseguira. Em seu estado ensandecido, ele provavelmente nem sabia que havia um talho ali.
Empurrou minha mão para longe.
— Tenho que ir.
Ele tentou se levantar e empurrei-o de volta junto à carcaça do carrinho de mão.
— Ir para onde? Você não pode ir a lugar nenhum assim...
Ele me empurrou com violência, e caí para trás.
— Tenho que ir! — ele gritou. — Meu pelotão. Tenho que alcançar o pelotão.
Saí correndo atrás dele, suplicando para que parasse. Empurrei-o, implorando, que pelo menos me deixasse lavar suas feridas, dar-lhe alguma comida, limpar suas roupas ensopadas de sangue, mas ele não parecia estar me ouvindo. Segurou as rédeas de seu cavalo tobiano e conduziu-o para fora do celeiro. Soltei um grito. Segurei-o. Tentei tirar as rédeas das mãos dele.
Ele girou, agarrou ambas as minhas mãos, chacoalhou-me e gritou:
— Eu sou um soldado, Lia! Não sou mais um marido! Nem um pai! Sou um soldado!
A fúria havia transformado meu irmão em alguém que eu não conhecia, mas então ele me puxou para junto de seu peito e me abraçou, chorando e soluçando junto aos meus cabelos. Achei que minhas costelas fossem se partir sob a pegada dele, que então se afastou de mim e disse:
— Tenho que ir.
E então ele se foi.
Eu sabia que não havia nada que pudesse fazer para impedi-lo.

11 comentários:

  1. TRISTE NE ? COITADO ESTAVA TAO FELIZ..... CHEGA DAR PENA NAO SÓ DELE COMO DE SUA AMADA

    ResponderExcluir
  2. Por uma leve fraçao de segundos achei que Walther fosse um dos burrinhos dela...tristeza invadiu meu heart, ai veio alivio e depois tristeza de novo

    SABS

    ResponderExcluir
  3. nunca comento mais walther
    triste. chorei
    quem não chorou?
    :(

    ResponderExcluir
  4. Gente eu sei que é triste.Mas ... AGORA SIM!! SUSPENSE, SANGUE NO ZOIO SACOU!!??? E outra coisa. Será que foi o pai deles??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que não... Deve ter mais haver com o Erudito e o Chanceler...

      Excluir
  5. Gente eu sei que é triste.Mas ... AGORA SIM!! SUSPENSE, SANGUE NO ZOIO SACOU!!??? E outra coisa. Será que foi o pai deles??

    ResponderExcluir
  6. Acho que o Walther vai ficar com a Pauline

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Seria muito interessante se isso acontecessa... Ela ficaria com um príncipe honrado ao invés de um soldado de merda.

      Excluir
  7. Só observando os comentários sem dar espoiler, mas já sabendo tudo que vai acontecer

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!