20 de fevereiro de 2018

Capítulo 37

Cavalgamos com dificuldade. Eu olhava para o céu, as colinas, as rochas, as árvores. Fiz uma varredura visual no horizonte, nas sombras, sempre observando. Planejei. Desenvolvi planos. Nenhum momento ficou sem propósito. Nenhum momento restou para que a minha mente imergisse em pensamentos perigosos que acabariam me consumindo. E se...
A dúvida era um veneno que eu não poderia me dar ao luxo de tomar.
Eu cavalgava mais rápido, e os outros se esforçavam para me acompanhar. No dia seguinte, fiz o mesmo. Proferi as minhas memórias sagradas pela manhã e à noite, sempre de forma precisa, lembrando-me da jornada de Morrighan, lembrando-me de Gaudrel e Venda, lembrando-me das vozes no vale onde eu havia enterrado o meu irmão. Todas as memórias eram mais uma conta em um colar que se formava em algum lugar dentro de mim. Eu passava o dedo nessas contas, apertava-as, segurava-as, polia-as até que ficassem brilhantes e cálidas. Elas eram a realidade e a verdade. Tinham que ser.
E, quando eu era lavada pela fadiga, eu me lembrava de mais. Das coisas fáceis. Das coisas que poderiam me empurrar por mais um quilometro ou dois, por mais dez ou vinte, tanto a mim quanto ao meu cavalo.
O rosto do meu irmão, desolado e chorando enquanto ele me contava o que havia acontecido em Greta.
O brilho dos olhos sem vida de Aster.
Os largos sorrisos traidores dos eruditos nas cavernas.
A promessa do Komizar de que isso não tinha acabado.
Os infinitos jogos de cortes e de reinos que comercializavam vidas em troca de poder.
Cada conta de memória que eu acrescentava me ajudava a seguir em frente.
Na primeira noite, quando eu tinha tirado a bolsa e a carga de cima do meu cavalo, o colar de contas cuidadosamente polidas partiu-se e esparramou-se no chão. Fora a mais simples das coisas que o fizera se soltar. Um cobertor extra enfiado dentro do saco de dormir. Uma troca de roupas de cavalgada. Um cinto e uma faca adicionais. Havia apenas as coisas básicas para uma longa jornada, mas eu via a mão de Rafe por trás daquilo tudo, da forma como ele dobrou o cobertor, dos nós que fez para prendê-lo. O próprio Rafe havia escolhido e empacotado cada peça.
E então as palavras proferidas por ele me atingiram.
Palavras cruéis. Aster está morta.
Palavras que estavam carregadas de culpa. Sacrifiquei tudo por você.
Palavras de despedida. É melhor assim.
Segurei com força a minha barriga, e Kaden imediatamente se posicionou ao meu lado. Jeb, Orrin e Tavish pararam o que estavam fazendo e me encararam. Eu disse que era apenas uma cãibra, desejando que a dor que me contorcia virasse uma conta dura e pequena, e dei um nó nela com a minha determinação. Ela não me arrasaria de novo.
Kaden esticou a mão na minha direção.
— Lia...
Chacoalhei-o para que se soltasse de mim.
— Não é nada! — Desci correndo até o riacho e lavei o rosto. Os braços. O pescoço. Eu me lavei até que minha pele tremesse de frio. O que deixei para trás não colocaria em risco o que havia pela frente.
No decorrer dos próximos dias, Jeb, Orrin e Tavish observaram-me com cuidado. Eu achava que eles não estavam confortáveis com aquela jornada. Antes eles estavam me levando para longe do perigo, e agora estavam me guiando para o perigo.
No início da noite, quando ainda havia luz, treinei com a faca e com a espada, com o machado e com a flecha, sem saber quando ou como eu poderia precisar de algum deles. Visto que era a especialidade dele, encarreguei Jeb de me ensinar a silenciosa arte de quebrar um pescoço; ele concordou com relutância, e então me mostrou mais métodos para despachar um inimigo sem uma arma, embora muitos desses métodos não fossem exatamente silenciosos.
Depois, quando estava escuro e não havia mais o que fazer senão dormir, fiquei tentando escutar os sons dos Rahtans: uivos, passadas, o deslizar de uma faca de uma bainha. Dormia com a adaga em um dos lados do meu saco de dormir e com a espada no outro, em prontidão. Embora sempre existisse um pensamento, uma tarefa, outra conta a ser polida e adicionada ao cordão, quando enfim apenas o silêncio reinava, eu esperava que o véu de escuridão tomasse conta de mim.
A única coisa que eu não conseguia controlar eram os momentos em que eu estava quase dormindo, inquieta, rolando na cama e buscando com o braço o calor de um peito que não estava mais lá, ou quando minha cabeça tentava se aninhar na curva de um ombro que também não estava mais lá. Naquele submundo, eu ouvia palavras trilhando atrás de mim, como lobos perseguindo a presa, esperando que ela ficasse fraca e caísse, cadeias de palavra e ataque. Como pode não entender? E, talvez o pior de tudo, a dor das palavras nunca ditas.

9 comentários:

  1. Eu tinha lido algumas pessoas falarem que o segundo livro era melhor do que esse, mas até agora eu achei esse livro muito bom! Só espero que o final não me decepcione.

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  2. Aaaaaaaaaa que merdaaaaaaaa

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  3. Eu não vou aceitar o fim de lia e rafe, não vou mesmo

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  4. Eu também muito triste 😩

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  5. eu não aceito o fim da lia e do Rafe eu já fiz até o shipp estava preparando as coisas do casamento e já sabia o nome dos filhos E DO NADA TUDO VAI POR AGUA A BAIXO NAO ACEITO (lia to ligada na tua barriguinha tá HUMMMMMM)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!