16 de fevereiro de 2018

Capítulo 37

RAFE

Não havia qualquer sinal de Jeb quando voltamos, mas saber que ele estava ali... parecendo e soando mais vendano do que nunca... ajudava a tranquilizar minha mente. Um pouco. Eu havia visto qual poderia ser o destino dele se acaso fosse descoberto. Quais poderiam ser o destino de todos nós.
— Você não tem que fazer isso — disse Calantha.
— É o hábito — falei.
— Emissários em um reino tão grande quanto Dalbreck escovam seus próprios cavalos?
Não. Mas soldados fazem isso. Até mesmo soldados que são príncipes.
— Meu pai criava cavalos — falei, tentando explicar. — Foi assim que cresci. Ele dizia que os cavalos devolvem em dobro a um cavaleiro em relação à forma como são tratados. Eu sempre me deparei com isso como sendo verdade.
— Você ainda está perturbado pelo que viu.
As três cabeças empaladas revolviam-se em meus pensamentos. Fiz uma pausa na minha escovação do cavalo.
— Não.
— Seus toques são longos e bruscos. Seus olhos brilham como aço frio quando você está com raiva. Estou começando a conhecer bem seu rosto, Emissário.
— Aquilo foi selvagem — admiti — mas o que vocês fazem com seus traidores não diz respeito a mim.
— Vocês não executam traidores no seu reino?
Esfreguei o focinho do meu cavalo.
— Pronto, rapaz — falei, e fechei a baía. — Nós não profanamos corpos. Seu Assassino parece elevar isso ao ponto da arte. — Comecei a recolocar a escova no gancho, mas parei no meio do caminho. Calantha virou-se para ver para o que eu estava olhando.
Era Lia.
O ombro da camisa dela estava rasgado, e seu rosto, pálido. Com Calantha ali, eu tinha que fingir que não me importava com nada disso. Lia evitou meu olhar e falou somente com Calantha, dizendo a ela que o Komizar estava esperando lá fora e que ela teve que vir buscar seu manto, que havia deixado ali pela manhã. Será que Calantha o tinha visto?
Calantha lançou um incisivo olhar de relance para mim, e então guiou Lia até a parede dos fundos do estábulo e a uma fileira de ganchos.
— Estarei esperando lá fora também — disse ela.
— Você não tem que ir embora — falei, mas ela já estava saindo.
Lia passou cautelosa por mim, com os olhos desviados, e ergueu seu manto do gancho.
— Nós estamos sozinhos — sussurrei. — Seu ombro. Está tudo bem com você?
— Estou bem — disse ela. — Isso foi apenas uma diferença de opiniões em relação a escolhas de vestimentas.
E então notei um machucado na têmpora dela. Ergui a mão e afastei seus cabelos dali.
— O que foi que ele...?
— Tropecei em uma mesa — apressou-se ela a dizer, afastando minha mão dali. — Ignore isso.
Ela manteve o tom de voz baixo, com a atenção fixa no manto que tinha em suas mãos.
— Nós temos que encontrar um jeito de sair daqui. Quando Kaden voltar, se eu...
Puxei-a para dentro da baia.
— Não diga nada a ele.
— Ele não é como o restante deles, Rafe. Ele poderia me dar ouvidos se...
Puxei-a subitamente mais para perto de mim.
— Escute o que estou falando — eu disse, sibilante. — Ele é tão selvagem quanto qualquer um deles. Eu vi a obra dele hoje. Não diga...
Ela puxou-se e soltou-se de mim, e seu manto caiu no chão. — Pare de me dizer o que fazer ou o que falar! Estou cansada de todo mundo tentando controlar todas as palavras que saem da minha boca!
Os olhos dela brilhavam, se com medo ou com fúria, eu não sabia ao certo. O que será que aconteceu?
— Lia — eu disse, falando mais baixinho — hoje de manhã vi um dos...
— O Emissário está prendendo você aí? — O Komizar estava parado na entrada do estábulo.
Nós dois demos um passo sem jeito para trás.
— Eu estava pegando o manto que ela deixou cair.
— Desajeitados, não somos, Princesa? Mas você teve um dia longo e cansativo. — Ele aproximou-se, caminhando vagarosamente. — E quanto a você? Gostou do seu dia de hoje, Emissário?
Esforcei-me para manter o tom de minha voz uniforme e desimpressionado.
— O quadrante de Stonegate tinha algumas avenidas interessantes, acho. — E então, para Lia: — Eu também vi a obra do seu Assassino. As cabeças empaladas dos meninos que ele executou estavam um tanto quanto maduras ao sol.
— É esse o propósito. O fedor da traição... ele tem um aroma único... aroma este que não é facilmente esquecido.
O Komizar esticou a mão e pegou no braço de Lia com uma familiaridade que eu não tinha visto antes, e conduziu-a para longe. Eu não conseguia controlar a queimação no meu peito, mas me virei de novo para o cavalo como se não me importasse com aquilo, escovando seus pelos novamente com longos e bruscos movimentos. Eu nunca havia sido treinado para isso. Não havia estratégias nem exercícios militares que me preparassem para o tormento diário de não matar alguém.

2 comentários:

  1. Mano, o Rafe deveria escutar Kaden, ele vai acabar fazendo ele e Lia serem mortos

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  2. Não havia estratégias nem exercícios militares que me preparassem para o tormento diário de não matar alguém.


    Se ele fosse na minha escola seria muito bem treinado

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Boa leitura, E SEM SPOILER!