20 de fevereiro de 2018

Capítulo 36

Mandaram-me esperar.
O próprio rei me escoltaria até a caravana. Os guardas que estavam do lado de fora da minha tenda foram dispensados, o que me deixou com suspeitas. Será que estavam me pregando alguma peça? Tinha algo errado.
Rafe estava atrasado, e os minutos em atraso pareciam horas. O que me dava muito tempo para pensar. Depois da nossa dança na festa, ele desaparecera. Eu vi as sombras o engolirem enquanto os longos passos catapultavam-no pelo portão arqueado do cercado até o pátio de trabalho superior. Ele não voltou mais, e, estranhamente, eu estava preocupada com ele. Onde Rafe tinha ido parar quando aquela festa era tão ridiculamente importante para ele? E então fiquei com raiva de mim mesma por me preocupar, e com mais raiva ainda depois quando eu estava deitada na cama e os meus pensamentos vagavam para o toque suave dos lábios dele na minha bochecha. Isso era loucura.
Eu precisava desesperadamente de alguma coisa de Rafe que ele não poderia me dar. Confiança. Sua falta de fé me machucava profundamente. Sua falta de consideração pelo futuro de Morrighan me machucava ainda mais a fundo. Apesar do que ele clamava, Dalbreck e os seus interesses eram tudo que importava para ele. Como ele não conseguia ver que a sobrevivência dos dois reinos estava em jogo?
Quando a festa acabou, Sven me levou de volta até os meus aposentos. Ele estava mais reservado do que de costume, oferecendo-me uma reverência enrijecida quando chegamos à porta da minha tenda.
— Você sabe que ele tem que voltar. O reino dele precisa dele.
— Boa noite, Sven — foi a minha resposta curta e grossa. Eu não queria ouvir qualquer outra súplica por Rafe. Uma vez que fosse, eu desejava ouvir alguém suplicando por mim e por Morrighan.
— Tem mais uma coisa que você deveria saber — ele disse rapidamente, antes que eu desaparecesse tenda adentro. Parei e franzi o rosto, esperando por mais uma petição. — Fui eu quem sugeriu o casamento para o rei. E também semeei a tentação em relação ao porto.
— Você?
— Junto com alguém do seu reino — ele se apressou a dizer. Sven cuspia as palavras de uma vez só, como se fosse uma respiração que ele estivesse mantendo presa por muito tempo. — Anos atrás, quando o príncipe tinha quatorze anos, recebi uma carta. Nem mesmo Rafe tem conhecimento disso. A carta chegou enquanto eu estava em campo treinando cadetes, e tinha o selo do reino de Morrighan. Desnecessário dizer que aquilo chamou a minha atenção. — Ele ergueu as sobrancelhas como se tivesse sido pego de surpresa de novo. — Eu nunca havia recebido nenhuma missiva diretamente de outro reino, mas estava claro que, de alguma forma, alguém lá tinha conhecimento da minha relação com o príncipe. A carta vinha do ministro de arquivos.
— Do Erudito Real?
— Presumivelmente. Do escritório dele, pelo menos. A carta propunha um noivado entre o jovem príncipe e a princesa Arabella. Imediatamente após a nossa aquiescência, ela seria enviada a Dalbreck para que fosse criada no palácio e preparada para assumir sua posição lá. A única estipulação era que a proposta oficial tinha que vir de Dalbreck. Eles pediram que eu destruísse a carta. Uma grande quantia em dinheiro fora oferecida a mim caso eu honrasse esses pedidos. A coisa inteira era ridícula, e joguei a carta no fogo. Achei que se tratava de uma peça a princípio, pregada pelas minhas próprias tropas, mas o selo parecia genuíno, e eu não conseguia deixar de notar a urgência na carta. Havia alguma coisa de preocupante naquelas palavras que eu não conseguia captar muito bem. Ainda assim, ignorei o pedido durante várias semanas, mas então, quando estava de volta no palácio e sozinho com o rei, lancei a ideia de uma aliança com Morrighan por meio de um noivado entre o jovem príncipe e a princesa. Quando ele se recusou a fazer isso e dispensou a ideia, eu acrescentei o incentivo do porto, que sabia que ele queria aquilo. Nunca achei que algo sairia de tudo isso, e o rei continuava a rejeitar a ideia... até anos depois.
Minha mente já estava saltando do conteúdo da carta para quem a havia escrito.
— Diga-me, Sven, você se lembra de alguma coisa sobre a caligrafia da carta?
— Estranhamente, sim. A caligrafia era bela e clara, como eu esperaria de um ministro, mas era excessiva também.
— Os ornamentos nos arabescos? Eram elaborados?
— Sim. Bastante — respondeu ele, apertando os olhos como se ainda pudesse vê-los. — Eu me lembro de ter ficado um tanto quanto impressionado com o em coronel, escrito como se tivesse a intenção de me impressionar, o que conseguiu. Talvez fosse isso. Havia um certo desespero para me manter lendo a carta, para usar todas as fichas que eles tinham, até mesmo jogar com a minha vaidade.
Pode ser que o Erudito Real tivesse enviado a carta, mas não havia sido ele quem a escrevera. A caligrafia da minha mãe era distinta e impressionante. Em especial quando ela estava tentando defender um ponto específico.
Por quanto tempo a conspiração para se livrarem de mim havia ficado cozinhando? Se Rafe tinha catorze anos, eu tinha apenas doze, no ano em que a Canção de Venda havia caído na posse do Erudito Real. Ela haverá de expor os perversos. Meu estômago se revirou e, para me equilibrar, eu me segurei em uma das colunas da tenda. Não. Eu me recusava a acreditar que a minha mãe estivesse conspirando com ele o tempo todo. Era impossível.
— Eu sinto muito, Vossa Alteza. Sei que está determinada a voltar, mas queria que soubesse que há pessoas no seu próprio reino que desejavam que você saísse de lá por um bom tempo. Achei que talvez, ao saber disso, seu descontentamento em relação a ir para Dalbreck fosse ser aliviado. Você será bem-vinda lá.
Baixei o olhar, ainda pensando naquela carta de muito tempo atrás, e senti uma vergonha inesperado com o fato de que Sven tivesse que contar isso a mim. Descontentamento não começava nem a descrever a gama de emoções que me percorriam.
— Partiremos logo depois da alvorada — disse ele ainda. — Alguém passará por aqui para ajudá-la a reunir as suas coisas.
— Eu não tenho coisas, Sven. Até mesmo as roupas que estou vestindo são emprestadas. Tudo que tenho é um alforje, o qual, por mais miserável que eu esteja, ainda sou capaz de carregar.
— Sem dúvida, Vossa Alteza — respondeu ele, cujo tom de voz estava repleto de compaixão. — Não obstante, alguém vai passar por aqui.
Fitei o alforje que estava em cima da minha cama agora, pronto e esperando. Era de se admirar que ele tivesse sobrevivido afinal... que eu tivesse sobrevivido. Que os deuses concedam-lhe força, protejam-na com coragem e que a verdade seja a sua coroa. A prece que a minha mãe havia proferido apertava minha garganta. Será que a prece me ajudara a sobreviver? Será que havia algum coração por trás dela para que os deuses lhe dessem ouvidos? Ou seria esse um verso automático dito por uma rainha só por causa daqueles que a estavam observando? Ela estivera tão distante naquelas últimas semanas antes do casamento, como se fosse alguém que eu nem mesmo conhecia. Aparentemente, minha mãe estava desempenhando um papel enganoso na minha vida há anos.
Ela pode ter conspirado e me enganado, mas também era a mãe que havia colocado a sua saia na campina para que eu e Bryn nela nos sentássemos enquanto ela interpretava a canção do pássaro para nós, fazendo com que ríssemos dos seus arrulhos tolos; a mãe que deu de ombros e ignorou meu olho roxo quando entrei em uma briga com o menino da padaria e depois fez diminuir a cara feia do meu pai; a mãe que me disse logo antes de uma execução que eu poderia me virar, que eu não tinha que ficar olhando. Eu queria entender quem ela realmente era ou o que ela havia se tornado.
Meus olhos ficaram anuviados, e eu ansiava por aquela campina distante e pelo toque cálido dela mãe novamente. Esse era um pensamento perigoso, porque ele tropeçava em mais anseios, pela risada de Bryn e de Regan, pelo som do cantarolar da minha tia Bernette, pelos sinos da abadia ecoando, pelo aroma dos pãezinhos de terça-feira enchendo os corredores.
— Você está pronta.
Eu me virei em um giro. Rafe estava esperando perto da porta. Ele estava vestido, não como um oficial nem como um rei, mas como um guerreiro. Ombreiras pretas de couro com metal nas pontas alargavam seus já largos ombros, e duas espadas pendiam das laterais do corpo. A expressão dele estava dura e escrutinadora, como estava também naquele dia, já há um bom tempo, quando ele entrou pela primeira vez na taverna de Berdi. E, da mesma forma como acontecera então, seu olhar contemplativo me tirou o fôlego.
— Esperando problemas? — perguntei a ele.
— Um soldado está sempre esperando problemas.
A voz de Rafe estava tão controlada e distante que me obrigou a fazer uma pausa para olhar para ele uma segunda vez. A expressão sombria não se desmoronou. Apanhei o meu alforje de cima da cama, mas ele o tomou de mim.
— Eu carrego isso.
Não discuti. Aquilo soava como a teimosa declaração de um rei em vez de uma bondade proferida. Nós caminhamos pelo acampamento em silêncio, exceto pelo retinir dos cintos e das espadas dele, que fazia com que as suas pegadas parecessem mais ominosas. A cada passada, ele parecia maior e mais impenetrável. O acampamento estava zunindo com atividades, com vagões de suprimento rolando em direção aos portões, soldados ainda carregando equipamentos até os cavalos, oficiais direcionando tropas às suas posições em seus esquadrões na caravana. Avistei Kaden, Tavish, Orrin, Jeb e Sven reunidos e apinhados em seus próprios cavalos do lado de dentro dos portões do posto avançado. Mais dois cavalos esperavam com eles, que eu presumia que fossem para mim e para Rafe.
— Assumam os seus lugares no meio da caravana — disse Rafe a eles. — Vou ajudar a princesa. Nós os alcançaremos.
A princesa. Rafe nem mesmo se referiu a mim pelo meu nome. Kaden olhou para mim de um jeito estranho, com um raro lampejo de preocupação, e depois ele virou o cavalo, saindo com os outros, conforme lhe fora ordenado. O temor passava serpeando por mim.
— Qual é o problema? — perguntei.
— Tudo. — O tom de Rafe permanecia desprovido de emoção, assustadoramente ausente do vívido sarcasmo que ele havia usado muito recentemente. Ele permaneceu se ocupando, de costas para mim, demorando um tempo excessivo para prender o meu alforje. Notei que o meu cavalo estava pesadamente carregado de provisões e equipamentos.
— Meu cavalo é um animal de carga? — perguntei.
— Você vai precisar de suprimentos. — Mais uma dose da distante frieza dele cutucou a minha ira.
— E você? — perguntei, olhando para o cavalo dele, que não tinha suprimento algum.
— A maior parte dos meus equipamentos e da minha comida estará nos vagões que vão vir em seguida.
Ele terminou de lidar com o meu cavalo e passou a cuidar da própria montaria. Uma espada dentro de uma bainha simples pendia do cabeçote da minha sela, e havia um escudo preso ao pacote que estava atrás dela.
Passei a mão ao longo da macia focinheira do cavalo. Rafe me viu examinando a parte do focinho da rédea.
— Nenhum dos seus equipamentos indica um reino. Você poderá se tornar quem quiser quando surgir a necessidade.
Eu me virei, não sabendo ao certo o que ele estava dizendo.
Rafe se recusou a olhar para mim, verificando a própria bolsa e o próprio cinto de sela novamente.
— Você é livre para ir onde desejar, Lia. Eu não vou forçá-la a ficar comigo. Embora eu fosse sugerir que você viajasse com a caravana pelos primeiros vinte quilômetros mais ou menos. Naquele ponto, há uma pequena trilha que muda de direção para o oeste. Você poderá tomá-la, se quiser.
Ele estava me deixando ir? Haveria algum porém quanto a isso? Eu não podia ir a lugar algum sem Kaden. Eu não conhecia o caminho.
— E Kaden está livre para ir comigo também?
Rafe parou, imóvel como uma pedra, encarando a sela dele com o maxilar cerrado. Ele engoliu em seco, mas não se virou para olhar para mim.
— Sim, está livre para ir com você — respondeu.
— Obrigada — sussurrei, embora essa não parecesse sequer um pouco a resposta certa. Eu não sabia o que dizer. Tudo em relação a isso me deixou desconcertada.
— Não me agradeça — disse ele. — Essa pode ser a pior que já tomei na vida. Levante-se. — Ele enfim se virou para mim, com a voz ainda fria. — E você também é livre para mudar de ideia a qualquer momento durante os próximos vinte quilômetros.
Assenti, sentindo-me desorientada. O dia que eu tinha planejado na minha cabeça de repente desaparecera e fora substituído por um novo cenário. Eu não mudaria de ideia, mas me perguntava por que isso tinha acontecido com ele.
Rafe subiu no seu cavalo e ficou esperando que eu fizesse o mesmo. Olhei para o meu cavalo, um corredor com bons ossos, robusto, mas rápido como um raviano morrighês. Desembainhei a espada, testando a sua sensação nas minhas mãos, com o tom cínico de Rafe dizendo brincar de espada ainda ressoando nos meus ouvidos. A espada tinha um peso médio, era bem balanceada para o meu braço e para a minha pegada. Não havia qualquer duvida de que ele havia escolhido cada detalhe dos meus equipamentos e das minhas armas, desde o cavalo até o escudo. Afivelei a espada embainhada na bainha de ombro de Walther e girei-a no meu cavalo.
— Há uma condição que eu gostaria de adicionar — disse Rafe.
Eu sabia.
— Eu pediria que você cavalgasse ao meu lado... sozinha... por esses vinte quilômetros mais ou menos.
Olhei de relance com ares de suspeita para ele.
— Para que você possa me convencer a mudar de ideia?
Ele não me respondeu.

* * *

A caravana se preparou para partir. Eu e Rafe cavalgávamos no meio, com uns vinte metros de distância entre nós e os cavaleiros à nossa frente e atrás de nós, claramente uma margem calculada que todos tinham sido avisados com antecedência para não ser violada. Seria isso para impedir que os outros ouvissem o que estávamos dizendo caso erguêssemos nossas vozes?
Supreendentemente, ele nada disse, e o silêncio pesava em cima de mim como cobertores usados para fazer suar e aplacar uma febre. Ele manteve o olhar à frente, mas até mesmo de lado eu podia ver a tempestade em seus olhos.
Esses seriam os vinte quilômetros mais longos da minha vida.
Será que ele não achava que eu mesma tinha dúvidas e medos em relação a ir? Maldita seja a teimosia dele! Por que Rafe estava tentando tornar isso ainda mais difícil para mim? Eu não queria morrer. Mas também não queria que os outros morressem. Ele não conhecia Komizar do mesmo jeito que eu. Talvez ninguém o conhecesse como eu. Não era apenas o fato de que ele havia clamado pela minha voz ou porque os nós de seus dedos haviam batido no meu rosto. O cheiro do desejo do Komizar ainda estava grudado na minha pele. A ânsia dele por poder não seria parada por uma ponte danificada ou por uma faca nas entranhas. Exatamente como ele me avisara, ainda não tinha acabado.
Depois de pouco mais de um quilômetro e meio, o silêncio me esmagou e falei, sem pensar:
— Vou mandar um bilhete assim que chegar lá.
Rafe permaneceu com os olhos à frente.
— Eu não quero mais nenhum bilhete vindo de você.
— Por favor, Rafe, não quero me separar de você desse jeito. Tente entender. Vidas estão em jogo.
— Vidas sempre estão em jogo, Vossa Alteza — respondeu ele, cujo tom estava repleto de sarcasmo novamente. — Durante centenas de anos, reinos batalharam. Por mais centenas de anos, batalhas serão travadas. Sua volta para Morrighan não mudará isso.
— E, de forma semelhante, Vossa Majestade — retorqui, irritada — gabinetes sempre vão entrar em conflito, generais sempre vão ameaçar fazer rebeliões e reis, sempre arrogantes, vão voltar para casa, todos cobertos de suor e constritos para apaziguá-los.
As narinas dele ficaram dilatadas. Eu quase podia ver as palavras ardendo em chamas nos olhos dele, mas ele as conteve.
Depois de um longo silêncio, agitei a conversa de novo. Eu precisava de uma resolução antes que eu fosse, e tinha ouvido a forma como ele usara as palavras Vossa Alteza como arma, jogando-as para cima de mim como se quisesse dizer exatamente o oposto delas.
— Eu também tenho um dever, Rafe. Por que o seu dever é mais importante que o meu? Só por que você é rei?
Uma respiração frustrada passou sibilando por entre os dentes dele.
— Este é um bom motivo tanto quanto qualquer um dos que você me ofereceu, princesa.
— Está zombando de mim? — olhei para o meu cantil, lembrando-me que ele poderia ser útil para mais coisas além de beber água.
Rafe não respondeu.
— Uma tempestade está sendo preparada, Rafe. Não se trata de uma querela e nem de uma batalha. Há uma guerra a caminho. Uma guerra como os reinos não veem desde a devastação.
A raiva erguia-se e emanava dele como o calor em uma frigideira.
— Agora o Komizar é capaz até mesmo de pegar estrelas dos céus? Que feitiço foi que Venda lançou em cima de você, Lia?
Naquele momento, foi a minha vez de não dar nenhuma resposta. Desviei o olhar do cantil, com uma coceira nos dedos para golpeá-lo com ele. Nós continuamos cavalgando, mas ele só conseguiu ficar calado por um curto tempo. Quando ele soltou verbalmente os cachorros para cima de mim, eu entendi o motivo pelo qual havia uma distância assim tão grande entre nós e os outros cavaleiros. Abruptamente, ele parou o cavalo, e eu ouvi uma sucessão de parem atrás de nós, com a caravana como um todo parando de repente lá atrás.
Ele cortou o ar com a mão.
— Você acha que não estou preocupado com o exército vendano? Eu não sou cego, Lia! Vi o que aquele pequeno frasco de líquido fez com a ponte. No entanto, meu dever principal é para com Dalbreck. Tenho que me certificar de que nossas fronteiras estejam em segurança. Consertar as bagunças da minha capital e ter certeza de que eu até mesmo tenha um reino a que voltar. Eu devo esse tanto a todos os cidadãos de lá. Devo isso a todos e a cada um dos soldados que estão cavalgando conosco aqui hoje, inclusive àqueles que ajudaram a salvar a sua cabeça. — Ele parou por um instante, seus olhos travados com ferocidade em mim. — Como você não consegue entender isso?
O escrutínio dele era desesperado e exigente.
— Eu realmente entendo, Rafe — respondi. — É por esse motivo que nunca tentei impedir você de ir.
Uma réplica ficou pairando nos lábios dele, como se eu tivesse socado e arrancado o ar dos argumentos dele, e então Rafe, com raiva, estalou as suas rédeas para seguir em frente novamente. Ele não conseguia aceitar que o que era certo também vinha com um preço para nós dois. Ouvi os rangidos e os gemidos das carroças começando a rodar novamente, ouvi as batidas do meu próprio coração socando os meus ouvidos. Minutos passaram-se, e eu me perguntava se ele estava reconhecendo a concessão que eu havia permitido que ele tivesse, e que ele não conseguia dar a mim.
Em vez disso, ele soltou mais uma reclamação.
— Você está permitindo que um velho livro empoeirado controle o seu destino!
Sendo controlada por um livro? O calor veio com tudo até minhas têmporas. Eu me mexi na minha sela para ficar cara a cara com ele.
— Entenda isso, Vossa Majestade: há muito esforço para controlarem a minha vida, mas isso não vem dos livros! Olhe um pouquinho mais para trás! Um reino que me fez ficar noiva de um príncipe desconhecido controlou o meu destino. Um Komizar que assumiu o controle da minha voz controlava o meu destino. E um jovem rei, que queria me forçar a ser protegida, achava que controlaria o meu destino. Não se engane em relação a isso, Rafe. Eu estou escolhendo o meu destino agora, não um livro, ou um homem, ou um reino. Se os meus objetivos e o meu coração concordam com alguma coisa em um velho livro empoeirado, que seja. Escolho servir a esse objetivo, assim como você é livre para escolher o seu! — Abaixei o meu tom de voz, e acrescentei, com uma fria certeza: — Eu juro a você, rei Jaxon, que se Morrighan cair, Dalbreck será o próximo, e depois o serão todos os outros reinos no continente, até que o Komizar tenha consumido a todos.
— Isso são apenas histórias, Lia! Mitos! Não tem que ser você a fazer isso!
— Tem que ser alguém, Rafe! Por que não eu? Sim, eu poderia desviar o olhar e ignorar tudo no meu coração. Deixar isso para outra pessoa. Talvez centenas de indivíduos tenham feito isso! Mas talvez eu escolha dar o passo em frente, em vez de dar um passo para trás. E como você explica isso? — perguntei, com raiva, apontando para o meu ombro, onde o kavah permanecia, debaixo da minha camisa.
Ele olhou para mim, e a expressão não havia mudado.
— Do mesmo jeito que você explicou para mim da primeira vez que nos vimos. Um erro. Um pouco mais do que as marcas de bárbaros.
Meu peito se ergueu em um deliberado e descontente suspiro. Ele era impossível.
— Você não está nem mesmo tentando entender.
— Eu não quero entender, Lia! E eu não quero que você acredite em nada disso. Eu quero que você venha comigo.
— Você está me pedindo para ignorar o que aconteceu? Aster se arriscou porque ela queria uma oportunidade de ter um futuro para ela mesma e sua família. Você está me pedindo para fazer menos do que uma criancinha? Não farei isso.
— E preciso lembrá-la de que Aster está morta?
Ele poderia muito bem ter acrescentado por sua causa. Aquele foi o golpe mais cruel que Rafe poderia ter usado contra mim. Fiquei sem conseguir falar.
Ele baixou o olhar, com a boca repuxada em uma careta.
— Vamos apenas cavalgar e não falar mais, antes que nós dois digamos alguma coisa da qual vamos nos arrepender depois.
Meus olhos ardiam em tristeza. Tarde demais para isso.

* * *

O sol do meio-dia estava alto no céu, e eu sabia que tínhamos que estar chegando perto do ponto em que eu e Kaden deixaríamos a caravana. Por quaisquer paisagens pela qual passávamos, eu nada via delas. Minhas entranhas estavam cruas, estilhaçadas de uma extremidade à outra por alguém que eu achava que me amava. Sim, aqueles seriam os mais longos vinte quilômetros da minha vida.
Orrin, Tavish e Jeb cavalgavam à frente e, quando eles deixaram a caravana, notei pela primeira vez que os cavalos deles estavam tão pesadamente carregados de suprimentos quanto o meu. Eles pararam a cerca de uns trinta metros entre duas baixas colinas. Kaden se juntou a eles. Esperando. E foi então que entendi: eles viriam conosco.
Eu não consegui agradecer Rafe. Eu não estava sequer certa de que a presença adicional deles era uma proteção ou um truque.
Ele fez um movimento para que eu saísse da trilha e nós paramos no meio do caminho entre Kaden e a caravana. Ficamos lá esperando que o outro falasse algo, com os segundos estirando-se tão longos quanto o horizonte.
— É isso — disse Rafe por fim. Seu tom estava desanimado, fatigado, como se ele tivesse perdido toda a capacidade de lutar. — Depois de tudo pelo que passamos, eis onde nos separamos, não?
Assenti, deparando-me com o fixo olhar dele com silêncio.
— Em vez de mim, você escolhe um dever do qual uma vez zombou?
— Eu poderia falar o mesmo de você — respondi baixinho.
O azul dos olhos dele ficou mais escuro, como um oceano sem fundo, e eles ameaçavam me engolir inteira.
— Eu nunca zombei do meu dever, Lia. Eu vim até Morrighan para me casar com você. Sacrifiquei tudo por você. Coloquei meu próprio reino em risco... por você.
A maldita fenda dentro de mim ficou mais aberta ainda. O que ele dissera era verdade. Ele arriscara tudo.
— Essa é minha dívida para com você, Rafe? Eu tenho que desistir de tudo o que sou, de tudo o que tenho e de tudo em que acredito para lhe pagar? Essa é realmente a pessoa que você quer que eu seja?
Os olhos dele se fixaram nos meus e parecia que não havia mais ar no universo. O tempo se estirava de um jeito impossível e, por fim, ele desviou o olhar. Observou a minha bolsa e as minhas armas: a espada, a faca na lateral do meu corpo, o escudo, todos os suprimentos que ele mesmo havia selecionado com cuidado. Ele balançou a cabeça como se aquilo não fosse o bastante.
A atenção dele se voltou para o trio que estava à espera.
— Eu não vou arriscar as vidas deles enviando-os a um reino hostil. O único dever deles é o escoltá-la de volta à sua fronteira. Depois disso, acabaram as coisas entre Dalbreck e Morrighan. Seu destino estará nas mãos do seu reino, e não do meu.
O cavalo dele foi batendo as patas para frente, como se estivesse sentindo a frustração do cavaleiro, e Rafe lançou um último olhar para Kaden. Ele se voltou para mim novamente, com a raiva drenada da face.
— Você fez a sua escolha. É melhor assim. Cada um de nós é necessário em outro lugar.
Meu estômago se revirou, e um enjoativo gosto salgado enchia a minha boca. Eu sentia Rafe se soltando. Era isso. Eu me forcei a assentir.
— É melhor assim.
— Adeus, Lia. Desejo-lhe tudo de bom.
Ele virou o cavalo antes que eu até mesmo pudesse oferecer a minha última despedida, saiu cavalgando sem sequer olhar para trás, nem de relance que fosse. Fiquei olhando enquanto ele ia embora, com os cabelos soprando aos ventos, o brilho das suas espadas reluzindo ao sol e uma recordação relampejou na minha mente.
Meus sonhos voltaram com tudo, grandes e esmagadores como uma onda, o sonho que eu tinha tido tantas vezes lá no Sanctum: uma confirmação do saber que eu não tinha visto como sendo uma coisa bem-vinda, de que Rafe estava me deixando. Todos os detalhes com que eu havia sonhado estavam agora dispostos diante dos meus olhos, rígidos e claros: o amplo e frio céu, Rafe sentado e alto no seu cavalo, um guerreiro feroz com trajes que eu nunca tinha visto antes, as vestimentas de guerreiro de um soldado de Dalbreck, com uma espada em cada lado do corpo.
Mas isso não era um sonho.
Desejo-lhe tudo de bom.
As palavras distantes de um conhecido, de um diplomata, de um rei.
E então eu o perdi de vista em algum lugar à frente da caravana, o lugar em que um rei deveria cavalgar.

25 comentários:

  1. Acabando com o amor da sua vida em 3,2,1...

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  2. Nnnnaaaaooooo ai a outra visão tbm é vdd😭😭😭😭😭😭 volta Rafe.

    ~MIRELLE

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  3. Eis que a visão que a Lia teve em que o Rafe a deixava se concretizou.. eu não quero soar insensível ou desrespeitosa com os shippers de Lia e Rafe, mas eu sou mais o Kaden com a Lia, independente do que eles já passaram eu super apoio esse casal.. basta saber se vai acontecer ou não

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  4. Nossa, ela é muito idiota. Tô com muita raiva dela, cara. É melhor ela pedir desculpa em alguma parte, se não vou entrar no livro só pra esbofetear a cara dela.

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    1. Eu não quero que a lia fica com o Kaden, ela combina com o raFe genteeew

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    2. Ela tem toda a razão no que fez se ele vai seguir o dever dele ela tb tem o dela, ela é uma mulher forte e decidida por mais que doa ela não queria que acabasse, isso foi por pura conta do rafe, é uma pena que mulher fracas não entendão as motivações das fortes, sinto muito por você se acha que acatar as ordens de alguém mesmo acreditando em outra coisa pq vc vai sofrer na mão de alguém

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  5. Rafe é muito fdp! Não acredito que ele deixou ela ir assim, agora ela vai ficar se lembrando como ele a deixou partir e vai gostar ainda mais dele! Que odio do Rafe

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  6. Ela não pensa que se for alguém vai matar ela. Os irmãos dela nem estão lá.
    Se ela se importasse tanto assim com o reino dela. Com as obrigações dela então por que fugiu?

    Engraçado ela falar: da pessoa que ela achava que amava.
    Enquanto o Rafe viajou dias atrás dela. E entrou em um lugar aonde se soubesse que ele estava mentindo o matariam. E que conseguiu fazer um resgate louco com quatro homens. Que a carregou por muitos quilômetros.
    Ele fazendo isso ela o ama. E quando ele não concorda ela faz isso?
    O amor foi embora?
    Lia mostrando como é egoísta.
    Ela tem mesmo que ficar com o Kaden.
    Que fez todas essas coisas ruins com ela. Que ia deixar ela se casar com o Komizar

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    1. Lindíssima(o) falou tudo, quer bater nela? Eu apoio.

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    2. Isso aí! Resumiu direitinho toda a historia, tô ficando com os meus nervos cansados de todo esse contraste: uma hora, amor florzinhas beijinhos; um segundo depois, espada xingamento punhal. Ai ai ai, uma hora acho que vou entrar dentro do computador e bater na cabeça deles!

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  7. Isso porque eles falaram que nenhum reino ficaria entre eles. palavras ditas ao vento... na hora da dificuldades são esquecidas.

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  8. Só digo uma coisa: O PASSARINHO BATEU AS ASASSS ATÉ QUE ENFIM

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  9. Ai que ódio.Como ela pôde fazer isso? Ela é muito idiota, mano do céu! Dá até raiva disso. A vontade de largar esse livro é grande. Mas a de saber o final da história é maior ainda. Se no final ela ficar com o Kaden, eu vou ter odiado o final!!!

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  10. Chorando litros!!!!
    Cara ainda bem q ele deu a opção a ela.
    Agora vamos ver o que acontece

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  11. — Em vez de mim, você escolhe um dever do qual uma vez zombou?
    Sim querido! Antes dela ser sequestrada ela estava voltando p cívica p casar com o príncipe e evitar toda essa confusão! Desde o primeiro livro!!! Ela fugiuda responsabilidade mas ela voltou atrás. É um ser humano q erra... Rafe tá sendo muito egoísta querendo ela debaixo do braço dele... A obrigação deles se casarem e p unir os reinos ele tá cagando p morringhan e um rei não ignora os problemas de outro reino que quer fazer alianças..

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  12. gente eu tô mt indgnada de verdade não custava o Rafe falar que Esperia por ela nossa mano eu tô com muita raiva ela não pode ficar com o Kaden de jeito nenhum cara tô mal to triste anão inconformada gente nao tá dando pra mim

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  13. Acho que o bebê que Kaden viu e da Pauline,acho q ela morre no parto

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  14. Também acho q o bebê e da Pauline.

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  15. Eu acho que é uma decisão muito difícil pros dois.. Ela não pode abandonar o instinto forte que sente de que deve fazer o certo, mesmo que seja mais difícil, e nem ele quer deixá-la ir pra talvez morrer.. Os dois tem razão em manter sua posição acho, mas admiro o Rafe que a ama tanto a ponto de deixá-la ir.. Ele já provou que gosta dela tantas vezes, que não consigo ver ela com o Kaden no final.. Não tem como existir um amor maior que o do Rafe, ele sacrifica tanto por ela, o Kaden nunca faria isso..

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  16. Não acredito que acaba assim tudo que viveram pra ficarem juntos, tantos planos! E sim acho que ele esta sendo muito egoísta, pois se ele tem um reino pra comandar e salvar ela também tem! E ela ainda esta indo de encontro a morte, mas ainda sim quer salvar o seu povo! Estou realmente com raiva do Rafe mas ainda desejo que o seu amor por ela fale mais alto e ele vá ajuda-la e fiquem juntos!DM

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  17. O capítulo mais comentado KKKKKK. Onrafe foi fofo. AFF!! Olho só, e só vcs verem. Ele protegeu ela ;-;
    Ai gente, amo todos os personagens!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!