2 de fevereiro de 2018

Capítulo 36

Reclinei-me junto ao pilar da varanda. Estávamos esperando que Berdi se juntasse a nós para irmos à praça a fim de aproveitar as festividades noturnas. Ela fora tomar banho e trocar de roupa. O dia havia sido longo, e eu ainda estava ponderando sobre o evento do lançamento de facas e a estranha sensação de estar sendo observada quando, certamente, havia centenas de pessoas me observando. Que diferença faria mais uma?
— Pauline — perguntei, hesitante. — Alguma vez você sabe das coisas? Apenas sabe delas?
Ela ficou em silêncio por um bom tempo, como se não tivesse me ouvido, mas depois, por fim, ergueu o olhar.
— Você viu, não foi? Naquele dia em que passamos pelo cemitério, você viu que Mikael estava morto.
Eu me afastei do pilar.
— O quê? Não, eu...
— Pensei nisso muitas vezes desde então. Aquela expressão em seu rosto naquele dia. Você se oferecendo para parar. Você o viu morto.
Balancei a cabeça com vigor.
— Não, não foi isso. — Sentei-me ao lado dela no chão. — Eu não sou uma Siarrah. Não vejo as coisas como a minha mãe via. Eu apenas senti algo, um tanto vago, mas forte também, uma sensação. Naquele dia eu apenas senti que havia alguma coisa errada.
Ela pesou o que eu disse e deu de ombros.
— Então talvez não seja o dom. Às vezes, tenho uma sensação forte em relação às coisas. Para falar a verdade, eu também tinha uma sensação de que havia algo de errado com Mikael. Uma sensação de que ele não estava vindo. E essa sensação revirava-se dentro de mim, mas eu me recusava a acreditar nela. Talvez fosse por isso que eu estivesse tão ansiosa para que ele cruzasse a porta da taverna. Alguém precisava provar que eu estava errada.
— Então você não acha que seja o dom.
— O dom de sua mãe vinha na forma de visões. — Ela abaixou o olhar, apologética. — Pelo menos, era assim que costumava ser.
Minha mãe parou de ter visões depois que eu nasci. Na época, pessoas odiosas deixavam implícito que eu roubara o dom dela enquanto estava em seu ventre, o que, é claro, acabou sendo risível. Minha tia Bernette dizia que não tinha sido eu coisa nenhuma, que o dom da minha mãe foi diminuindo lentamente depois que ela trocou sua terra natal pela cidadela. Outros proclamaram que ela nunca tivera o dom, mas, anos atrás, quando eu era muito pequena, testemunhei coisas. Via quando seus olhos cinzentos perdiam o foco, quando sua concentração ficava afiada. Certa vez, ela conduzira todos nós para longe do perigo antes que um cavalo assustado saísse pisoteando e destruindo o caminho justamente no local onde estávamos. Em outra situação, ela nos levou para fora antes de o chão estremecer e pedras caírem, e, com frequência, ela nos enxotava antes que meu pai irrompesse em um de seus horríveis estados de espírito.
Ela sempre dispensava a ideia, clamando que tinha ouvido o cavalo ou sentido o chão tremer antes que nós tivéssemos notado qualquer coisa, mas, na época, eu tinha certeza de que se tratava do dom. Eu observara o rosto dela. Minha mãe vira o que aconteceria antes que ocorresse, ou vira acontecer a distância, como no dia em que o pai dela faleceu e ela soube na mesma hora, embora o mensageiro só tivesse chegado duas semanas depois. No entanto, nesses últimos tempos, nada havia acontecido.
— Mesmo que não seja uma visão — disse Pauline — ainda poderia ser o dom. Pode existir outros tipos de saberes.
Um calafrio tomou conta da minha espinha.
— O que você disse?
Ela repetiu as palavras que dissera, quase as mesmas que o sacerdote havia usado naquela manhã.
Pauline deve ter visto a aflição em meu rosto, porque deu uma risada.
— Lia, não se preocupe! Sou eu quem tem o dom da visão! Não você! Para falar a verdade, estou tendo uma visão agora mesmo! — Ela se pôs de pé e levou as mãos até a cabeça, fingindo que estava se concentrando. — Estou vendo uma mulher. Uma bela mulher idosa trajando um vestido novo. Ela está com as mãos nos quadris. Seus lábios estão franzidos. Ela está impaciente. Ela está...
Revirei os olhos.
— Ela está parada atrás de mim, não está?
— Sim, estou — disse Berdi.
Girei e vi que Berdi estava parada à entrada da taverna, simplesmente conforme a descrição. Pauline soltou um gritinho agudo com deleite.
— Mulher idosa? — disse Berdi.
— Venerável — corrigiu Pauline, beijando-lhe a bochecha.
— Vocês duas estão prontas?
Ah, eu estava pronta. Esperei a semana inteira por aquela noite.

* * *

Grilos trinavam, dando as boas-vindas às sombras. O céu acima da baía estava drapeado com faixas rosas e violetas enquanto o restante das cores ia desaparecendo, dando lugar ao cobalto. A lua lembrava uma foice de bronze com uma estrela na ponta. Terravin pintava uma paisagem mágica.
O ar ainda estava parado e quente, mantendo a cidade toda em suspensão. Em segurança. Quando chegamos à estrada principal, um cruzamento de lanternas de papel piscava acima de nossas cabeças. E então, como se a paisagem não fosse o bastante, a canção.
A prece era entoada de uma forma como eu nunca ouvira antes. Uma evocação sagrada aqui. Outra ali. Vozes separadas, combinando-se, reunindo-se, cedendo, uma melodia se formando. Ela era entoada em ritmos diferentes, palavras diferentes erguendo-se, caindo, seguindo um fluxo como um coro lavado e que se aglomerava em uma onda que chegava ao auge, saudosa e verdadeira.
— Lia, você está chorando — sussurrou Pauline.
Eu estava? Ergui a mão e senti minhas bochechas, molhadas com as lágrimas. Aquilo não era choro. Era outra coisa. Enquanto nos aproximávamos da cidade, a voz de Berdi, com o mais belo timbre de todos, passava da canção às saudações, com as evocações derretendo-se no agora.
O ferreiro, o tanoeiro, os pescadores, um artesão aqui, uma costureira ali, os empregados mercantes, a fazedora de sabão que lembrava Berdi de que tinha alguns aromas que ela deveria experimentar, todos eles ofereciam suas saudações. Berdi foi logo puxada para longe.
Eu e Pauline observávamos os músicos se ajeitando, colocando três cadeiras em um semicírculo. Eles ajeitaram seus instrumentos — uma zítara, uma fiola e um tambor — nas cadeiras e foram procurar um pouco de comida e bebida antes de começarem com sua música. Quando Pauline saiu andando para experimentar os ovos em conserva, caminhei mais para perto para dar uma olhada na zítara, que era feita de madeira de uma cerejeira bem vermelha, decorada com finos fios de carvalho branco e que tinha marcas de uso no lugar em que as mãos repousavam em meio a centenas de canções.
Estiquei a mão e puxei uma de suas cordas. Senti uma embotada ponta de dor. Em raras ocasiões, minha mãe e suas irmãs tocavam suas zítaras, as três criando uma música admirável, a voz de minha mãe lancinante e sem palavras, como um anjo observando a criação. Quando tocavam, um arrepio atravessava a cidadela e todos paravam. Até mesmo meu pai. Ele ficava olhando e ouvindo ao longe, escondido na galeria superior. Era a música de nossa terra natal, e isso sempre me levava a pensar em quais sacrifícios minha mãe tivera que fazer para vir até Morrighan e tornar-se sua rainha. Suas irmãs vieram dois anos depois para ficar com ela, mas quem mais minha mãe teria deixado para trás? Talvez meu pai estivesse se fazendo essa mesma pergunta enquanto ouvia e as observava tocando.
Mais pessoas chegaram para as festividades da noite, e as conversas e risadas aumentavam, formando um zumbido reconfortante. A celebração havia começado, e os músicos assumiram seus lugares, enchendo o ar com melodias de boas-vindas, mas ainda faltava algo.
Vi onde Pauline estava.
— Você o viu? — perguntei a ela.
— Não se preocupe. Ele vai estar aqui. — Ela tentou me puxar para longe, para vermos a iluminação das velas flutuantes na fonte da praça, mas eu disse à minha amiga que lhe faria companhia mais tarde.
Fiquei parada, em pé, nas sombras do lado de fora do boticário, e observei enquanto as mãos do tocador de zítara pressionavam e puxavam as cordas, uma dança hipnotizante em si mesma. Eu gostaria que minha mãe tivesse me ensinado a tocar o instrumento. Estava prestes a me aproximar deles quando senti a mão de alguém em minha cintura. Ele estava aqui. O calor passou rapidamente por mim, no entanto, pois quando me virei, vi que não era Rafe.
Inspirei rapidamente, surpresa.
— Kaden.
— Não foi minha intenção deixá-la alarmada.— Os olhos dele viajavam por mim. — Você está linda hoje.
Baixei o olhar de relance, envergonhada, com a culpa me cutucando por ter sido generosa demais com minhas atenções a ele na noite passada.
— Obrigada.
Ele fez um movimento em direção à rua, apontando para onde as pessoas estavam dançando.
— Estão tocando música — disse ele.
— Sim. Acabou de começar.
Seus cachos loiros e molhados estavam penteados para trás, e o cheiro de sabão ainda estava fresco em sua pele. Ele acenou novamente em direção à música, com um jeito desajeitado de menino, embora não houvesse nada de menino em relação a ele.
— Podemos dançar? — perguntou.
Hesitei, desejando que estivessem tocando uma música mais rápida. Não queria que ele me entendesse errado, mas também não podia lhe recusar uma simples dança.
— Sim, claro — foi minha resposta.
Ele me pegou pela mão e me levou até o espaço aberto em frente aos músicos para a dança, deslizando um dos braços por minhas costas e guiando minha mão para o lado com a outra. Certifiquei-me de termos uma conversa com bastante assunto, recontando os jogos do dia, para que pudéssemos manter certa distância um do outro, mas, quando o silêncio reinava, mesmo que por breves instantes, ele me puxava mais para perto de si. Seu toque era gentil, mas firme, sua pele, cálida junto à minha.
— Você tem sido bondosa comigo, Lia — disse ele. — Eu... — Ele fez uma pausa por um bom tempo, seus lábios levemente abertos. Pigarreou. — Gostei muito desse tempo que passei aqui com você.
Estranhamente, o tom dele havia ficado solene, e vi certa gravidade em seus olhos. Olhei para ele, confusa com essa repentina mudança em seu comportamento.
— Fiz pouca coisa por você, Kaden, mas você salvou minha vida.
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Você conseguiu se soltar sozinha. Tenho certeza de que teria sido tão capaz com sua faca também.
— Talvez sim — falei. — Talvez não.
— Nunca saberemos o que poderia ter acontecido. — Seus dedos se apertaram entre os meus. — Mas não podemos viver no talvez.
— Não... imagino que não.
— Temos que seguir em frente.
Todas as palavras vindas dele tinham peso, como se estivesse pensando uma coisa, mas dizendo outra. A inquietude que sempre estivera à espreita em seus olhos ficou dobrada.
— Você fala como se estivesse indo embora — eu disse.
— Em breve. Tenho que voltar para os meus deveres em casa.
— Você nunca me disse onde ficava sua casa.
Linhas se aprofundaram em torno de seus olhos.
— Lia — disse ele, com a voz rouca. A música se prolongava, meu coração batia com força e mais rapidamente, e Kaden deslizava a mão mais para baixo em minhas costas. A ternura substituiu a inquietude, e ele baixou o rosto para próximo do meu. — Eu gostaria...
Alguém colocou a mão no ombro dele, surpreendendo a nós dois. Era Rafe.
— Não seja guloso, homem — disse Rafe, animado, com um brilho malévolo nos olhos. — Dê uma chance aos outros camaradas.
O assombro passou pelo rosto de Kaden como se Rafe tivesse caído do céu. Em um instante, sua surpresa foi substituída por uma expressão de tristeza. Ele olhou de Rafe para mim, e dei de ombros, para mostrar que era apenas uma questão de educação dançar com todo mundo. Ele assentiu e foi para o lado.
Rafe deslizou o braço em volta de mim e explicou que estava atrasado porque as roupas que tinha colocado na casa de banho haviam, de uma maneira inexplicável, sumido. Por fim, ele teve que fazer uma corrida insana até o celeiro para se cobrir e acabou achando suas roupas jogadas na cabine de Otto.
Suprimi uma risadinha, imaginando-o correndo até o celeiro apenas enrolado em uma toalha.
— Kaden?
— Quem mais poderia ser?
Rafe me puxou mais para perto de si, e seus dedos, com gentileza, tocaram minha coluna como se fosse um instrumento. Farpas quentes giravam em minha barriga. Nós só tínhamos alguns segundos juntos antes que a música desse lugar a outra mais rápida. Logo seríamos puxados e separados pela rápida troca de parceiros. O ritmo era animado e eu estava dando risada, as luzes piscando e girando além da minha vista, com mais gente se juntando à dança: Pauline, Berdi, Gwyneth, sacerdotes, o ferrador de cavalos, a pequena Simone segurando a mão do pai, estranhos que eu não conhecia, todo mundo cantando, assoviando, entrando no centro do círculo para exibirem uns poucos passos elegantes de dança, com os sons da zítara, da fiola e do tambor batendo em nossas têmporas.
Meu rosto estava úmido de suor por causa da celebração e, por fim, tive que fazer uma pausa e recuar para ficar apenas admirando. Eram giros rápidos de cores e movimentos. Rafe dançando com Berdi, a costureira, menininhas, Kaden tomando a mão de Pauline, Gwyneth com o curtidor, o moleiro, um círculo sem fim de celebração e graças. Sim, tratava-se disso: gratidão por este momento único, a despeito do que o amanhã pudesse trazer.
As palavras que Rafe dissera soavam claras agora: Algumas coisas duram... as coisas que importam. Aquelas mesmas palavras de que eu bufara apenas algumas semanas atrás agora me enchiam de deslumbramento. Essa noite era uma daquelas coisas que durariam — o que eu estava vivendo nesse exato momento e o que já havia passado, uma época distante, os Antigos dançando nesta mesma rua, sem fôlego, sentindo a mesma alegria que eu estava vivenciando agora. Os templos, as maravilhosas pontes, a grandeza... Isso pode não durar, mas algumas coisas realmente duram. Noites como essa. Elas seguem em frente indefinidamente, durando mais do que a lua, porque são feitas de alguma outra matéria, algo tão quieto como a batida de um coração e tão impetuoso quanto o vento. Para mim, aquela noite duraria para sempre.
Rafe avistou-me na beira da multidão e saiu de fininho também. Caminhamos pela praça, que estava tremeluzindo de velas flutuantes, com a música esvanecendo atrás de nós, e desaparecemos nas escuras sombras da floresta além dali, onde nenhuma pessoa — nem Kaden, nem Pauline, ninguém — poderia nos encontrar.

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