20 de fevereiro de 2018

Capítulo 35

KADEN

Eu estava no meio de ruínas.
Virando a cabeça. Ouvindo.
Eles estavam a caminho.
Um uivo estridente dividia o ar, mas eu não conseguia me mover.
E então o mundo girava, e eu estava voando pelo ar, tropeçando, cambaleando. O tecido da minha camisa cortou o meu pescoço enquanto alguém tomava um punhado dele nos seus punhos cerrados. Essa parte era real, não era um sonho. Institivamente, tentei pegar a minha faca, mas é claro que ela não estava lá. Meus olhos se ajustavam à escuridão. Era Rafe. Ele estava me arrastando da minha cama na direção da porta.
Ele me jogou para fora dos alojamentos, e então me jogou com tudo contra uma parede, com o vigia noturno dando um passo para o lado, pronto para deixar com que ele fizesse picadinho de mim.
Até mesmo na escuridão, o rosto dele reluzia com a fúria.
— Eu juro que se você encostar um dedo que seja nela, se a arrastar de volta para aquele reino abandonado pelos deuses, se fizer alguma coisa...
— Você perdeu a cabeça? — perguntei a ele. — Estamos no meio da noite! — A fúria nos olhos dele não fazia qualquer sentido. Eu não havia feito nada. — Nunca a machuquei. Eu nunca teria...
— Nós vamos partir uma hora depois da alvorada. Esteja pronto. — Disse ele entredentes. O hálito dele cheirava a cerveja, mas Rafe não estava bêbado. Havia selvageria no seu olhar, que brilhava como o olhar de um animal ferido.
— Você me acordou para dizer isso? Eu já sabia quando estaríamos de partida.
Ele olhou com ódio para mim, soltando a minha camisa, dando-me um último empurrão contra a parede.
— Bem, agora sabe disso de novo.
Ele saiu andando. Eu me recompus. O restante do acampamento estava em silêncio, dormindo nos seus aposentos, e, por um breve momento, me perguntei se ele tinha tido um pesadelo enquanto estava sonâmbulo. Não era apenas raiva que vi na expressão dele. Havia medo também. Griz e Eben colocaram as cabeças para fora da porta, com os olhos ainda cheios de sono, e o vigia noturno deu um passo à frente. Ebem ainda estava sob uma vigília atenta.
— De que se tratou tudo aquilo? — grunhiu Griz.
— Volte para cama — falei.
Empurrei o ombro de Eben, e ele entrou. Eu e Griz fomos atrás dele, mas eu não conseguia dormir, tentando solucionar o quebra-cabeça que havia ativado o ataque de Rafe. Se fizer alguma coisa. O que ele achava que eu ia fazer com duzentos soldados nos cercando no nosso caminho de volta a Dalbreck? Eu era habilidoso, talvez até mesmo impulsivo, mas não era um idiota, sabendo também e especialmente que eles mantinham uma vigília cheia de suspeitas para cima de mim. Esfreguei o meu maxilar. Em algum lugar ao longo do caminho, quando ele me arrastou da minha cama, ele devia ter plantado o punho cerrado na minha cara.

* * *

A alvorada estava apenas começando a iluminar o horizonte ao leste. As brumas ao longe pairavam perto do chão em suaves camadas como se fossem um coberto felpudo, o que tornava a manhã até mesmo mais silenciosa. O único som era o das minhas botas junto à grama coberta pelo orvalho. Eu havia conseguido fugir das minhas escoltas, ao menos temporariamente. Essa não era uma jornada para a qual eu desejava companhia. Cheguei ao fim do vagão dos mercadores perto da muralha dos fundos do posto avançado e avistei as carvachis tostadas... e Natiya.
Os olhos dela encontraram os meus, e ela sacou uma faca, e eu sabia que pretendia usá-la. Encarei-a sem saber ao certo se ela era a mesma pessoa. Ela passara de uma menina de fala mansa com um sorriso sôfrego que costumava tecer presentes para mim a uma jovem feroz que eu não mais conhecia.
— Vou ver Dihara. Vá para o lado — falei a ela.
— Ela não quer ver você. Ninguém quer ver você. — Natiya se lançou para cima de mim, cortando o ar às cegas com a faca, e dei um pulo para trás.
Ela veio para cima de mim novamente.
— Sua pequena...
No seu próximo avanço, segurei no pulso dela, girando-a de modo que a faca estivesse na garganta dela. Com o meu outro braço, mantive-a com firmeza junto ao peito, de modo que ela não conseguisse se mexer.
— Isso é o que você ver? — sibilei junto ao ouvido dela.
— Eu odeio você — disse ela, com uma fúria extrema. — Odeio todos vocês.
A infinita profundidade do ódio dela extinguia alguma coisa dentro de mim, algo que eu havia mantido como se fosse uma brasa fraca, na crença de que poderia voltar, que eu poderia, de alguma forma, desfazer os últimos meses. No entanto, para ela, eu era um deles, e isso era tudo que eu sempre seria. Um daqueles que havia amarrado Lia e que a forçara a deixar o acampamento dos nômades; um daqueles que havia incendiado a sua carvachi e extinguindo com o fogo o seu modo de vida tranquilo.
— Solte-a — ordenou Reena. Ela havia retornado com dois baldes de água nas mãos, os quais colocou no chão devagar e olhou para mim com grandes olhos cheios de preocupação como se eu realmente fosse cortar a garganta de Natiya. A mulher olhou de relance para um atiçador de lareira que estava perto do poço do fogo.
Balancei a cabeça em negativa.
— Reena, eu nunca faria...
— O que você quer? — ela me perguntou.
— Estou de partida junto com as tropas do posto avançado. Gostaria de ver Dihara uma última vez.
— Antes que ela morra — disse Natiya, cujo tom estava pungente, carregado de acusação.
Tirei a faca da mão dela e empurrei a menina pra longe de mim. Olhei para Reena, tentando encontrar palavras para convencê-la de que eu não havia de feito parte do que acontecera com eles, mas o fato era que eu fora parte daquilo, sim. Eu havia vivido de acordo com as regras do Komizar, mesmo que agora não fizesse mais isso. Eu não tinha palavras para apagar minha culpa.
— Por favor — sussurrei.
Ela franziu os lábios em concentração, pesando a sua decisão, ainda temerosa.
— Ela tem dias bons e dias ruins — disse, por fim, assentindo em direção à carvachi. — Pode ser que não reconheça você.
Natiya cuspiu no chão.
— Se os deuses forem misericordiosos, ela não vai reconhecê-lo.
Quando fechei a porta da carvachi dela, a princípio não conseguia vê-la. Dihara estava em meio às roupas de cama amarrotadas, como se fosse um cobertor surrado, que mal estava ali. Em todos os anos em que eu a conhecia, ou ela estava erguendo uma roca nas costas ou matando um cervo, ou ainda, se fosse lá pelo fim da estação, removendo as colunas da tenda e enrolando os tapetes para a viagem ao sul. Eu nunca a tinha visto daquela forma e nem esperava vê-la. Parecia que Dihara viveria mais que todos nós. Agora ela parecia tão frágil quanto as penas que certa vez ela tecera em seus ornamentos.
Eu sinto muito, Dihara.
Ela era o membro mais velho da sua tribo e havia alimentado gerações de Rahtans como eu no seu acampamento. Eu entendia a fúria de Natiya. Dihara poderia ter vivido para sempre se não fosse pelo ataque.
Os olhos dela tremeluziram e se abriram, como se ela tivesse sentido a minha presença. Seus olhos cinzentos fitavam o pequeno montinho que seus pés haviam criado debaixo das roupas de cama, e então a cabeça se virou, e ela olhou para mim com uma clareza surpreendente.
— Você — ela disse simplesmente. Sua voz estava fraca, mas ela conseguiu franzir o rosto. — Eu estava me perguntando quando você viria. E o grandão?
— Griz está ferido. Caso contrário, ele também viria. — Puxei a banqueta para perto da cama e sentei-me ao lado dela. — Natiya e Reena não ficaram felizes em me ver. Elas quase não me deixaram entrar.
O peito dela se levantou em uma respiração ruidosa e dificultada.
— Elas estão com medo. Achavam que não tínhamos inimigo algum. Mas, em algum momento, todos nós temos. — Ela apertou os olhos para olhar para mim. — Você ainda tem todos os dentes?
Encarei-a, pensando se ela ainda estaria lúcida, mas então me lembrei da maldição de Natiya... sua despedida enviada a Lia enquanto deixávamos o acampamento dos nômades. Que seu cavalo chute pedras nos dentes do seu inimigo. O corpo de Dihara pode ter cedido, mas a mente ainda continha uma história do mundo nela.
— Até agora, sim — respondi.
— Então não é inimigo da princesa. Nem nosso. — Os olhos dela se fecharam, e as palavras tornaram-se ainda mais fracas. — Mas agora deve decidir o que é.
Dihara tinha voltado a dormir, e eu achava que ela estava com um pé em cada um de dois mundos diferentes, talvez viajando entre ambos, como eu fazia às vezes.
— Estou tentando — sussurrei, e beijei a mão dela e disse adeus.
Se eu a visse de novo, sabia que não seria nesse mundo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!