20 de fevereiro de 2018

Capítulo 34

RAFE

Tombei junto ao corrimão do cercado, onde as luzes de tochas da festa não chegavam, e fiquei com o olhar fixo no chão.
Passadas quietas pararam perto de mim. Não ergui o olhar e nada falei. Toda vez que eu abria a boca, falava coisas idiotas. Como é que eu ia liderar um reino inteiro se não conseguia sequer influenciar Lia sem perder o controle?
— Ela está vindo?
Balancei a cabeça, fechando os olhos.
— Não sei. Provavelmente não, depois de...
Não terminei. Sven seria capaz de juntar os fatos sem que eu tivesse que repassar todos os detalhes. Eu não queria me lembrar de tudo que havia dito. Isso não me levaria a lugar algum. Eu não sabia o que fazer.
— Ela ainda está determinada a voltar?
Assenti. Toda vez em que pensava nisso, eu era tomado pelo medo.
Mais passadas. Tavish e Jeb deram a volta e apoiaram-se no corrimão ao meu lado. Jeb me ofereceu uma caneca de cerveja. Peguei-a e a coloquei de lado. Não estava com sede.
— Eu também não deixaria que ela voltasse — disse Tavish, por fim. — Se isso serve de consolo, entendemos sua posição.
Jeb murmurou, concordando.
Isso de nada servia. Não importava quantos concordassem comigo se Lia discordava de mim. Por mais certo que eu estivesse de que não poderia deixar que ela fosse, Lia estava certa de que tinha que partir. Pensei em quando a encontrei na margem do rio, semimorta, e em todas as horas em que a carreguei pela neve, em todas as vezes em que pressionei os meus lábios junto aos dela para me certificar de que ela ainda estava respirando, em todos os passos e em todos os quilômetros em que eu pensava: Se ao menos eu tivesse respondido ao bilhete dela. Se ao menos tivesse honrado aquele simples pedido. No entanto, dessa vez não se tratava de um simples pedido. Dessa vez, era diferente.
Ela queria seguir em direção ao perigo, e esperava fazer isso com Kaden. Agarrei a caneca de cerveja e a virei de uma vez, secando-a, batendo-a de volta no lugar.
— Vocês dois estão com propósitos cruzados — disse Sven, que se reclinou junto ao corrimão do cercado, me analisando. — O que foi que chamou a sua atenção nela em primeiro lugar?
Balancei a cabeça. Que diferença isso fazia?
— Não sei. — Limpei a boca com a manga da camisa.
— Deve ter havido alguma coisa.
Alguma coisa. Pensei em quando eu tinha entrado na taverna.
— Talvez fosse a primeira vez em que a vi, e eu...
Uma lembrança veio à tona. Não. Fora muito tempo antes disso. Até mesmo antes de colocar os olhos nela. O bilhete. A ousadia. Uma voz exigindo ser ouvida. As mesmas coisas que me deixavam com raiva agora me deixavam intrigado. Mas nem mesmo isso tinha sido o que capturara a minha imaginação. Foi no dia em que ela me deixou no altar. O dia em que uma menina de dezessete anos de idade fora valente o bastante para enfiar o nariz tanto no meu reino quanto no dela. Uma recusa de proporções épicas porque ela acreditava em outra coisa e desejava outra coisa. Aquilo havia me cativado.
A valentia dela.
Ergui o olhar para Sven, que me fitou como se pudesse ver as palavras não ditas atrás dos meus olhos, como se eu fosse um cavalo que ele tivesse acabado de forçar a beber de uma suja gamela que eu mesmo tinha feito.
— Isso não vem ao caso. — Apanhei a caneca vazia e voltei para a festa, sentindo o escrutínio de Sven por trás das minhas costas.
Ela estava dançando com o capitão Azia quando voltei à mesa principal, sorrindo e desfrutando da companhia dele, que claramente também gostava da dela. Em seguida, ela dançou com um rapaz que não tinha mais de quinze anos de idade. Ele não conseguia esconder a paixão por ela e tinha um sorriso ridículo colado no rosto. E então veio outro soldado, e mais outro. Vi uns poucos no perímetro da área de dança, fitando o ombro desnudo dela, cujo kavah estava totalmente exposto. Ela havia cortado uma das mangas e parte de um dos ombros do vestido de modo a expor o kavah, sem sombra de dúvida uma mensagem para mim. A vinha morrighesa enrolada em volta da garra dalbretchiana, refreando-a. Como eu via o kavah de um jeito diferente agora...
E então avistei os ossos.
Meus dedos se curvaram nas palmas de minhas mãos. Eu achava que ela havia deixado essa prática miserável para trás, em Venda.
Eu não sabia onde ela havia conseguido tantos ossos, mas uma longa cadeia deles pendia junto ao seu fino vestido azul de veludo, ondulando no ar enquanto ela dançava, como se fosse um esqueleto desarticulado. Ela evitou o meu olhar, mas eu sabia estava ciente da minha presença. Sempre que ela fazia uma pausa entre as danças, passava os dedos na monstruosidade que pendia na lateral do seu corpo, e sorria como se aquilo fosse tão precioso quanto um cinto incrustado de joias, feito de cota de malha dourada.
Outra rodada da farache teve início, e fiquei observando enquanto ela dançava com Orrin, batendo os pés no chão em direção a ele e recuando. Eles rodavam em círculo e batiam as mãos no alto acima das cabeças, com o som ressoando pelo campo, ecoando pelas altas paredes. Orrin ria, ignorando meu olhar fixo neles ou as manobras dela, e fiquei maravilhado com a forma como ele vivia tão plenamente no momento. Fosse dançando, cozinhando ou puxando uma flecha para trás para matar, apenas aquele momento importava. Talvez fosse por esse motivo que ele era um arqueiro tão habilidoso e destemido. Eu não tinha o luxo de viver em apenas um único momento. Precisava viver em milhares de momentos fraturados que continham nossos futuros na balança. Eu tinha um novo entendimento em relação ao meu pai, à minha mãe e às decisões que eles tiveram que tomar, às vezes comprometendo alguma coisa que eles queriam pelo bem maior de outra coisa.
Os dançarinos esquivaram-se para a direita, e um novo parceiro vinha da extremidade oposta. Então, vi Lia fazer par com Kaden. Eu ficara tão focado nela que nem mesmo havia notado Kaden mais ao longe na fila dos dançarinos. Eles batiam palmas com as mãos acima das cabeças e, quando se moviam em círculos, eu via palavras serem trocadas entre eles. Apenas palavras. Ela havia falado com Orrin também, mas, dessa vez, as palavras que eu não ouvia ardiam em mim.
— Vossa Majestade?
Vilah me pegou de surpresa. Sentei-me direito, estava desengonçado. Ela fez uma cortesia, com as bochechas morenas ruborizando-se, e então estirou a mão para mim.
— O senhor não dançou a noite toda... me daria essa honra?
Peguei na mão dela, tentando dispensar o meu estado de agitação e me levantei.
— Sinto muito. Eu estava...
— Ocupado. Eu sei.
Em vez de eu escoltá-la para a pista de dança, ela foi na frente e, em vez de ir até o fim da fila, ela se apertou e entrou à direita de Lia. Relutante, assumi meu lugar na frente dela, percebendo com que facilidade ela havia me ludibriado. Ergui a sobrancelha, com ares questionadores, e ela abriu um sorriso, batendo os pés no chão para dar início à nossa dança. Fiz o mesmo.
Dançamos em círculos, batemos palmas, e parecia que haviam se passado apenas alguns segundos antes que fosse a hora de se mover para a direita, para um novo parceiro. Lia e eu estávamos em frente um ao outro. Ela abaixou o queixo, em um breve reconhecimento. Fiz o mesmo. O restante dos dançarinos já estava se movendo na direção uns dos outros. Nós nos esforçamos para alcançá-los. Ela foi para frente batendo os pés, e eu recuei. Quando foi a minha vez de me mover na direção dela, ela não recuou.
— Cansada? — perguntei.
— Nunca. Eu simplesmente não gosto desse passo.
Nós fizemos um círculo, e minhas costas roçaram nas dela.
— Obrigado por vir — falei, por cima do ombro.
Ela soltou uma bufada.
Lembrei-me de ficar calado.
Na nossa última batida de mãos acima das cabeças, logo quando nossas mãos se encostaram uma na outra, a música imediatamente mudou para a ammarra, a dança da meia-noite dos amantes. Alguém estava conspirando com Vilah. Apertei a mão envolta da mão de Lia, lentamente abaixando-a, levando-a para a lateral do meu corpo. Minha outra mão circundou a cintura dela e a puxei para perto de mim, conforme ditava a dança. Senti a rigidez das costas dela, mas mantive a pegada firme. Inspirei o cheiro dos seus cabelos e senti a maciez dos dedos dela entre os meus.
— Não conheço esta dança — sussurrou Lia.
— Deixe-me mostrá-la a você. — Enfiei o meu queixo perto da têmpora dela e puxei os seus quadris para perto dos meus enquanto eu a inclinava, e depois a arrastei para o lado, fazendo com que ela ficasse ereta enquanto fechávamos o círculo.
Os músculos nas costas dela se soltaram, e ela relaxou nos meus braços. A noite de repente parecia mais escura, a música, mais distante e, embora o ar estivesse fresco, a pele dela estava quente junto à minha. Procurei por algo a ser dito, alguma coisa que não fosse levar a nossa conversa a lugares onde eu não queria ir.
— Lia — sussurrei junto à bochecha dela. Isso era tudo que eu conseguia falar, mesmo que outras palavras povoassem a minha mente. Eu queria falar a ela sobre Dalbreck, sobre a beleza e as maravilhas do reino, sobre as pessoas que a amariam e dariam as boas-vindas a ela, sobre todas as coisas com que Lia ficaria impressionada, mas eu sabia que não importaria o que eu fosse dizer a ela; ela voltaria a Morrighan, e, para mim, isso significava voltar para os traidores e a forca que encontraria lá.
A música ficou mais lenta, e Lia levantou a cabeça, tirando-a do meu ombro. Apenas respirações rasas separavam os lábios durante um momento que se prolongou, mas então ela enrijeceu as costas novamente, e eu soube que era mais do que uma respiração que estava entre nós. Nós nos afastamos um do outro, e os olhos dela buscaram os meus.
— Você nunca pretendia me levar de volta a Morrighan, não é? — ela me perguntou.
Não havia mais qualquer desculpa criativa em mim.
— Não.
— Mesmo antes de saber que seus pais estavam mortos. Antes de saber sobre qualquer problema no seu reino.
— Eu estava tentando mantê-la viva, Lia. Disse o que achava que você precisava ouvir na época. Eu estava tentando lhe dar esperança.
— Eu tenho esperança, Rafe. Eu tinha esperança o tempo todo, nunca precisei de falsas esperanças de você.
A expressão dela não traía qualquer emoção, exceto pelo brilho nos seus olhos, mas isso era o bastante para me deixar oco. Ela se virou e saiu andando, com os ossos tinindo no quadril, a garra e a vinha no ombro como que olhando com ódio para mim.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!