16 de fevereiro de 2018

Capítulo 34

E Harik, verdadeiro e fiel,
Trouxe Aldrid para Morrighan,
Um marido digno aos olhos dos deuses,
E os Remanescentes regozijaram-se.
— Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, vol. III —



Já estava bem tarde, mas, enquanto Aster dormia segurando o lenço de pescoço, apertado em sua mão, eu me sentei no tapete de peles no meio do quarto e fiquei olhando para os livros que apareceram em cima da minha cama. De alguma forma, eles haviam sido colocados ali à plena vista para que eu os encontrasse, como se eu os tivesse esquecido escondidos debaixo do colchão. Para falar a verdade, eu estava tão consumida com a tarefa de permanecer viva que quase havia me esquecido mesmo deles. Eu havia traduzido toda a Canção de Venda em meu caminho cruzando o Cam Lateux, mas tivera tempo apenas para traduzir uma única e breve passagem de Ve Feray Daclara au Gaudrel.
Puxei o pequeno livro de sua capa protetora e toquei no couro gravado em relevo, passando o dedo pelo canto queimado. O livro havia sobrevivido a séculos, a uma viagem desgastante cruzando o continente e à tentativa de alguém de destruí-lo. Gaudrel. Eu me perguntava quem seria ela, além de uma contadora de histórias de um grupo de nômades errantes.
A primeira passagem parecera ser uma história fantasiosa contada a uma criança para distraí-la da fome, mas, até mesmo enquanto eu a traduzia, sabia que tinha que haver mais em relação àquilo. O Erudito Real havia escondido bem o livro e até mesmo enviara um caçador de recompensas para recuperá-lo.
Apanhei o livro básico dos nômades do meu alforje para me ajudar na tradução e então me sentei, decifrando palavra por palavra, linha por linha, começando com a primeira passagem novamente.  Era uma vez, minha criança, uma princesa que não era maior do que você. Tratava-se da história de uma jornada, de esperança, de uma menina que comandava o sol, a lua e as estrelas. Quando segui em frente para a próxima passagem, tratava-se de novo de uma criança pedindo uma história, mas, desta vez, por uma história de uma grande tempestade. Ela era estranhamente semelhante aos Textos Sagrados de Morrighan.

Era uma tempestade, isso é tudo de que me lembro,
Uma tempestade que não tinha fim.
Uma grande tempestade, ela se prontifica a dizer.
Eu suspiro, Sim, e puxo-a para o meu colo.
Era uma vez, criança,
Há muito, muito tempo,
Sete estrelas que foram arremessadas do céu.
Uma para chacoalhar as montanhas,
Uma para revirar os mares,
Uma para bloquear o ar,
E quatro para testar os corações dos homens.

Estrelas arremessados do céu. Será que se tratava de apenas uma história ou seria Gaudrel, na verdade, uma das antigas sobreviventes? Ela mesma uma criança quando Aster fez voar uma estrela em direção à terra? Isso explicaria porque sua história continha erros. Os Textos Sagrados haviam sido transcritos, uma geração atrás da outra, pelos melhores eruditos de Morrighan, e estava claro que apenas uma estrela trouxe consigo a devastação, e não sete. No entanto, uma ou sete, isso mal importava… Para ela, tratava-se de uma tempestade que não teria fim. Uma tormenta que tornaria os modos de vida dos antigos sem sentido. Ela falava de facas afiadas e de vontades férreas, mas eu me detive em seco quando cheguei à parte sobre os abutres. Gaudrel e esta criança estavam sempre fugindo de bestas que estavam tão famintas quanto elas. Será que eram os míticos pachegos de Infernaterr que os vendanos temiam?
Cada página era um vislumbre de um outro tempo e, juntas, elas formavam uma crônica dos acontecimentos de muito tempo atrás. A história de Gaudrel. Algumas passagens pareciam ser cuidadosamente formuladas para os ouvidos de uma criança, mas outras, no entanto, eram brutalmente expositivas.
Aster agitava-se em seu sono, e eu, rapidamente, avancei várias páginas. Eu nunca teria conseguido traduzir tudo aquilo em uma noite. A próxima passagem era uma história sobre o pai de Gaudrel.

Fale-me outra vez, Ama. Sobre a calidez.  Sobre antes.
A calidez veio, criança, de onde eu não sei.
Meu pai deu a ordem, e tudo estava lá.
Seu pai era um deus?
Seria ele um deus? Parecia que sim.
Ele parecia um homem.
Mas ele era forte além da razão,
Tinha conhecimento além do que era possível,
Era mortalmente destemido,
Poderoso como um...
Deixe-me contar a história a você,
criança, a história de meu pai.
Era uma vez, um homem tão grande quanto os deuses...
Mas mesmo o grande pode tremer de medo.
Até mesmo os grandes podem cair.

Sentei-me, relaxada, fitando a página, cujo conteúdo era estranhamente parecido aos Textos Sagrados, que diziam: Eles pensavam sobre si como estando apenas um degrau abaixo dos deuses. Duas histórias giravam diante dos meus olhos, misturando-se como sangue e água. Qual história veio primeiro? Os Textos Sagrados de Morrighan ou esta que eu tinha nas mãos? Aster rolava de um lado para o outro, espreguiçando-se, murmurando meio dormindo e me perguntando se eu iria dormir.
— Em breve — sussurrei. Avancei correndo pelas páginas mais uma vez, buscando mais respostas.

Para onde ela foi, Ama?
Ela se foi, minha criança.
Roubada, como tantas outras.
Mas para onde?
Ergo o queixo da criança. Seus olhos estão fundos de fome.
Venha, vamos encontrar comida juntas.
Mas a criança fica mais velha, e suas perguntas
não são tão facilmente dispensadas.
Ela sabia onde encontrar alimentos. Precisamos dela.
E é por isso que ela se foi. Por isso que eles a roubaram.
Você tem o dom dentro de si também,
minha criança. Ouça. Observe.
Nós encontraremos comida, um pouco
de grama, alguns grãos.
Será que ela vai voltar?
Ela está além da muralha. Ela está morta para nós agora.
Não, ela não vai voltar.
Minha irmã Venda é um deles agora.

Irmãs?
Eu traduzi a última passagem novamente, certa de que tinha cometido um erro, mas era verdade. Gaudrel e Venda eram irmãs. Venda fora, certa vez, uma nômade também.
E então eu segui com a leitura:

Que todos saibam:
Eles a roubaram,
A minha pequena.
Ela tentou me alcançar, gritando:
Ama.
Ela é uma jovem mulher agora,
E esta mulher de idade não poderia impedi-los.
Que os deuses e gerações seguintes saibam,
Eles roubaram da Remanescente.
Harik, o ladrão, roubou a minha Morrighan,
Em seguida, vendeu-a por um saco de grãos,
Para Aldrid, o abutre.

Fechei o livro, as palmas das mãos úmidas. Olhei fixamente para o meu colo, tentando entender. Tentando explicar. Tentando não acreditar nisso.
Não era a qualquer criança que Gaudrel contava essa história.
Era a Morrighan.
Ela não era uma menina escolhida pelos deuses, mas uma menina roubada por um ladrão e vendida para um abutre. Harik não era seu pai, como os Textos Sagrados afirmavam. Ele era seu sequestrador e a vendera. Aldrid, o reverenciado pai fundador de um reino, não era muito mais do que um abutre que comprara uma noiva.
Pelo menos segundo essa história. Eu não tinha certeza no que acreditar.
Só uma coisa estava certa no meu coração. Três mulheres foram dilaceradas. Três mulheres que antes formavam uma família.

12 comentários:

  1. Eu acho tão estranho e complicado entender essas histórias deles, eu sempre fico brisando nessas partes...

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  2. Amei ,super amo a relação dela com a Aster é meio que parecida com a de gaudrel e a criança

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  3. =D agora eu entendi slk não entendia nada nesses negócios de testemunho de Gaudreal ou algo assim u.u finalmente entendi koroi

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  4. Hmm..eu fico lendo e pensando: preciso me lembrar disso pra a hora que e explicação aparecer!

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  5. Vdd. mais não deixa de ser uma história linda, e não consigo para de ler.


    ~MIRELLE

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  6. Maravilhoso!!! Esta escritora é realmente incrível, excelente trama!!!

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  7. Sete estrelas que foram arremessadas do céu.
    Uma para chacoalhar as montanhas,
    Uma para revirar os mares,
    Uma para bloquear o ar,
    E quatro para testar os corações dos homens.
    Eu acho que essas 4 estrelas são Morrighan, Gaudrel, Venda e, provavelmente, Lia. Pois, vcs hão de convir que elas vieram todas para testar os corações dos homens.

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    1. Teoria interessante

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    2. Axo w as três estrelas primeiras são os locais mas n .consigo entender direito quais seriam

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  8. Acho que seriam Venda, Dalbreck e Morrigham

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  9. Acho que essa historia se passa no futuro da nossa humanidade e que nós somos os antigos.

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