2 de fevereiro de 2018

Capítulo 34

Caminhei pela avenida principal sozinha, absorvendo os outros eventos, comparando todos ao modo como eram feitos em Civica. Algumas coisas eram únicas de Terravin, como pegar peixes vivos com as mãos na fonte da praça, mas todos os jogos tinham suas raízes na sobrevivência dos Remanescentes escolhidos. Embora Morrighan tivesse, por fim, os conduzido a uma nova terra de abundância, a jornada não fora fácil. Muitos morreram, e apenas os mais capazes conseguiram ir até o fim. Dessa forma, os jogos tinham suas origens em tais habilidades de sobrevivência — como apanhar um peixe quando a oportunidade surgisse, mesmo que você não tivesse instrumentos de pesca, como uma vara de pescar, por exemplo.
Deparei-me com um grande campo isolado por cordas, com uma diversidade de obstáculos dispostos dentro dele, sendo a maior parte barris de madeira e uma carroça ou outra. Esse jogo representava Morrighan guiando os Remanescentes por uma passagem às cegas quando podiam contar com apenas a fé no dom dela. Os competidores eram vendados e girados, e depois tinham que conseguir ir de uma extremidade do campo à outra. Esse era um dos meus eventos prediletos lá em Civica, na época em que eu era muito nova. Sempre ganhava dos meus irmãos, para o deleite de todos que nos observavam, exceto, talvez, da minha mãe. Eu estava seguindo em direção à linha dos competidores, quando alguém se colocou em meu caminho, e me deparei com um dorso.
— Olha, se não é a garçonete arrogante e espertinha.
Fui cambaleando vários passos para trás, surpresa, e ergui o olhar. Era o soldado que eu repreendera semanas atrás. Parecia que o ardor das minhas palavras ainda estava fresco. Ele chegou mais perto, preparado para me dar a punição que achava merecedora. Minha repulsa foi renovada. Um soldado no exército do meu próprio pai. Pela primeira vez desde que deixara Civica, eu queria revelar quem eu era. Revelar essa verdade em voz alta e com audácia, e observar enquanto ele empalidecia. Queria usar minha posição para colocá-lo em seu lugar de uma vez por todas... mas eu não tinha mais tal posição. Nem estava disposta a sacrificar minha nova vida por causa de tipos como ele.
O soldado se aproximou de mim.
— Se você está tentando me intimidar — falei, mantendo-me firme, sem ceder terreno — posso avisá-lo agora mesmo que vermes rastejantes não me assustam.
— Sua nojentinha...
Ele desferiu a mão para cima, com o propósito de me acertar, mas fui mais rápida que ele, que parou, com o olhar fixo na faca que já estava em minha mão.
— Se você for tolo o bastante para colocar um de seus dedos lascivos em mim, temo que nós dois lamentaríamos por isso. Eu arruinaria as festividades para todo o pessoal que está aqui, porque cortaria fora a primeira coisa que estivesse perto de mim, não importa o quão pequena ela seja. — Olhei direto para a virilha dele, e depois girei a faca nas minhas mãos, como se a estivesse inspecionando. — Nosso encontro poderia virar uma coisa bem feia. — O rosto dele borbulhava de fúria, o que somente me outorgava mais poder. — Mas não tema — falei, erguendo a barra de meu vestido e recolocando a faca na bainha presa à minha coxa. — Tenho certeza de que nossos caminhos se cruzarão novamente, e nossas diferenças serão acertadas de uma vez por todas. Caminhe com cuidado, porque, da próxima vez, serei eu quem haverá de surpreendê-lo.
Minhas palavras eram impulsivas e incautas, impulsionadas pelo ódio e pela sensação de asco e impelidas pela segurança de milhares de pessoas que nos cercavam. Porém, incautas ou não, a sensação era de que estavam certas e de que eram tão adequadas quanto um chute com a bota no traseiro dele.
Surpreendentemente, a fúria dele se curvou em um sorriso.
— Até nosso próximo encontro, então. — Ele abaixou a cabeça, em um lento e deliberado adeus, e passou roçando por mim.
Observei enquanto ele se afastava, passando o dedo no conforto da minha adaga debaixo do meu vestido. Mesmo que meus braços estivessem presos nas laterais do meu corpo, eu conseguiria alcançá-la agora, e, na minha coxa, ela ficava mais facilmente escondida, pelo menos sob um vestido fino de verão. O soldado desapareceu em meio às multidões. Eu só podia esperar que ele fosse logo chamado de volta ao regimento dele, e, se os deuses fossem justos, que levasse um coice de cavalo na cabeça. Eu não sabia o nome dele, mas falaria com Walther sobre o sujeito. Talvez meu irmão pudesse fazer alguma coisa a respeito dessa cobra que estava entre seus soldados.
Apesar do sorriso dele, que com certeza previa um resultado desagradável se nos encontrássemos de novo, eu estava revigorada. Algumas coisas precisavam ser ditas. Sorri de minha própria audácia e fui tentar a sorte com uma venda e obstáculos menos adestrados.

* * *

O sino da Sacrista soou uma vez, marcando a meia hora passada. Rafe e Kaden estariam de volta em breve, mas havia algo que eu ainda precisava fazer, e hoje poderia apresentar a melhor das oportunidades para a tarefa.
Fui subindo os degraus da frente do santuário. Crianças corriam umas atrás das outras em volta das colunas de pedra, e mães buscavam o abrigo das sombras no pórtico, mas depois do longo dia de preces de ontem, poucos estavam lá dentro, exatamente como eu esperava. Passei pelos pedidos, sentando-me em um banco nos fundos até que meus olhos se ajustassem à fraca luz e eu pudesse avaliar quem mais estava presente ali. Havia um senhor de idade sentado na fileira da frente. Duas senhoras, também de idade, sentavam-se lado a lado no meio e, ajoelhando-se na capela-mor, um cantor entoava as graças dos deuses. Era isso. Até mesmo os sacerdotes pareciam estar do lado de fora, participando das festividades.
Fiz os sinais necessários de uma evocação sagrada, fui para os fundos sem fazer barulho e saí sorrateiramente subindo pela escadaria escura. Todas as Sacristas tinham prateleiras de arquivos com os textos de Morrighan e dos outros reinos. Além de servos dos deuses, os sacerdotes também eram eruditos. No entanto, textos estrangeiros, por regra do reino, não deveriam ser partilhados com os cidadãos, a menos que fossem primeiramente aprovados pelos Eruditos de Civica, que verificavam a autenticidade dos textos e avaliavam seu valor. O Erudito Real supervisionava tudo.
Os degraus da escada eram estreitos e íngremes. Deslizei a mão ao longo da parede de pedra enquanto subia devagar. Fiquei ouvindo com atenção, em busca de ruídos. Com cuidado, emergi em um longo vestíbulo, e o silêncio me garantiu que a Sacrista estava bem vazia. Havia ali várias entradas cobertas, cujo pesado tecido puxei para o lado, revelando câmaras vazias. Entretanto, no fim do corredor, havia uma larga porta dupla.
Ali. Fui andando diretamente para lá.
A sala era grande e seu estoque, amplo. A coleção era menor do que a do Erudito em Civica, mas era grande o bastante a ponto de tomar um certo tempo de busca. Não havia ali nenhum carpete nem luxuosas cortinas de veludo para abafar o som, então, em silêncio, mudei as banquetas de lugar, de modo a conseguir alcançar as prateleiras mais altas. Repassei quase todas elas, não achando nada que se provasse útil, quando, por fim, puxei um volume minúsculo de uma das prateleiras superiores. O livro inteiro não era muito maior do que a palma da mão de um homem. Frases Vendarias e Seus Usos. Talvez fosse o guia de um sacerdote para conceder as bênçãos da morte aos bárbaros, não?
Deslizei os outros livros para disfarçar a pequena lacuna deixada por este volume e observei algumas de suas páginas. Esta obra poderia se provar útil para minha a tarefa de decifrar o livro vendano que roubei do Erudito, mas teria que explorá-lo mais a fundo em outro lugar. Ergui o vestido folgado que trajava e deslizei o volume para guardá-lo em minha roupa de baixo, um lugar seguro, ainda que desconfortável, para escondê-lo até que estivesse ao menos fora da Sacrista. Então, levantei o vestido, colocando-o de volta ao lugar.
— Eu teria dado o livro a você, Arabella. Não havia necessidade de roubá-lo.
Fiquei paralisada, de costas para minha companhia inesperada, e contemplei meu próximo movimento. Ainda em cima do banco, virei-me devagar e me deparei com um sacerdote parado à entrada, o mesmo que ficara me observando ontem.
— Devo estar perdendo o jeito — eu disse. — Costumava entrar sorrateiramente em uma sala, pilhar o que queria e sair com o produto do meu furto sem que ninguém sequer notasse o que fiz.
Ele assentiu.
— Quando não fazemos uso de nossos dons, eles acabam nos abandonando.
A palavra dons caiu pesadamente sobre mim, sem dúvida da forma como ele pretendera que fosse. Ergui o queixo.
— Nunca tive dons para perdê-los.
— Então você é chamada a fazer uso daqueles que tem.
— Você me conhece?
Ele abriu um sorriso.
— Eu jamais poderia esquecê-la. Eu era um jovem sacerdote, um dos doze que entregaram os sacramentos de sua cerimônia de bênção. Você choramingava como um porco aprisionado.
— Talvez, até mesmo quando era criança, eu soubesse onde a bênção me levaria.
— Não há nenhuma dúvida em minha mente. Você sabia.
Olhei para ele, cujos cabelos negros estavam marcados por mechas grisalhas nas têmporas. O sacerdote ainda era um homem jovem para os padrões de velhos sacerdotes, além de vigoroso e empenhado. Trajava as exigidas vestimentas negras e a longa capa branca, mas mal parecia um religioso. Convidou-me a descer para darmos continuidade a nossa conversa e fez um movimento, apontando para duas cadeiras sob um vitral redondo.
Nós nos sentamos, e uma luz azul e rosa vazava pelo vitral acima de nossos ombros.
— Qual livro você pegou? — perguntou o sacerdote.
— Feche os olhos. — Ele fez o que pedi, e ergui meu vestido para pegar o livro de seu esconderijo. — Este — falei, esticando o livro para que ele visse.
O sacerdote abriu os olhos.
— Vendano?
— Estou curiosa em relação ao idioma. Você o conhece?
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Apenas umas poucas palavras. Nunca encontrei um bárbaro, mas, às vezes, soldados trazem de volta relatos orais. Palavras que não devem ser repetidas em uma Sacrista. — Ele se inclinou para a frente, para pegar o livro de mim, e folheá-lo. — Hum. Não vi esse aqui. Parece que apresenta apenas umas poucas frases comuns... Não é exatamente um livro didático do idioma vendano.
— Algum sacerdote aqui tem conhecimento do idioma?
Ele balançou a cabeça em negativa. Não fiquei surpresa. A língua bárbara era tão distante e estrangeira para Morrighan quanto a lua, e não era nem de perto tão estimada. Bárbaros raramente eram capturados e, quando isso acontecia, não falavam. Certa vez, o esquadrão de Regan acompanhou um prisioneiro de volta a um posto avançado, e Regan disse que o homem jamais emitira um som que fosse no caminho todo até lá. Ele foi morto quando tentou fugir e, por fim, pronunciou algumas palavras sem sentido, enquanto agonizava, moribundo. Palavras estas que não saíram da cabeça de Regan, mesmo que não soubesse o que queriam dizer: Kevgor ena te deos paviam. Depois de tão longo silêncio, Regan falou que foi fascinante ouvi-lo dizer tais palavras repetidas vezes, até o seu último suspiro. Palavras estas que o deixaram arrepiado e também triste.
O sacerdote entregou o livro de volta para mim.
— Por que você precisaria saber o idioma de uma terra distante como aquela?
Olhei para o livro em meu colo, e passei os dedos por cima de sua capa de couro suja. Quero aquilo que você roubou.
— Digamos que seja uma multiplicidade de curiosidades.
— Você sabe de alguma coisa sobre os problemas?
— Eu? Não sei de nada. Assim como tenho certeza de que você sabe muito bem disso, por suas conversas com Pauline... Sabe muito bem que sou uma fugitiva agora. Não tenho mais conexão alguma com a coroa.
— Há muitos tipos de saberes.
Aquilo de novo. Balancei a cabeça em negativa.
— Eu não...
— Confie em seus dons, Arabella, quaisquer que sejam eles. Às vezes, um dom requer um sacrifício imenso, mas não podemos dar as costas a ele, assim como nossos corações não vão parar de bater.
Assumi uma expressão pétrea. Eu não seria forçada.
Ele se reclinou em sua cadeira, cruzando uma perna sobre a outra, uma pose nada ortodoxa para um sacerdote.
— Você sabia que a Guarda está marchando na estrada lá de cima? — perguntou ele. — Dois mil soldados estão sendo movidos para a fronteira ao sul.
— Hoje? — perguntei. — Durante os dias sagrados?
Ele assentiu.
— Hoje.
Desviei o olhar e tracejei com o dedo a linha espiralada no braço da cadeira. Não se tratava de uma simples rotação de tropas. Tantos soldados assim não eram posicionados, especialmente durante os dias sagrados, a menos que as preocupações fossem verdadeiras. Lembrei-me do que Walther havia me dito. Saqueadores vêm criando todo tipo de caos. Mas ele também disse: Vamos mantê-los fora das nossas terras. Nós sempre fazemos isso.
Walther estivera confiante. Com certeza, a movimentação das tropas era apenas uma estratégia preventiva. Mais como uma bravata, como Walther se referia a isso. Os números e o momento não eram usuais, mas com o meu pai tentando recuperar sua honra junto a Dalbreck, ele bem que poderia estar chacoalhando seu poder nas caras deles como um punho cerrado. Dois mil soldados eram um punho cerrado e tanto!
Fiquei em pé.
— Então é meu? Posso levar o livro?
O sacerdote abriu um sorriso.
— Sim.
Era isso? Um simples sim? O homem estava cooperativo demais. Nada vinha assim tão fácil. Ergui uma sobrancelha.
— E como ficam as coisas entre nós?
Uma leve gargalhada escapou dos lábios dele, que se levantou, de modo que ficássemos olho a olho.
— Se você está perguntando se vou reportar sua presença, a resposta é não.
— Por quê? Isso poderia ser entendido como traição.
— O que Pauline me contou foi em santa confissão, e você não admitiu nada, apenas que veio pegar um livro emprestado. Além disso, não vejo a Princesa Arabella desde que ela era um bebê chorão. Falaram-me que você mudou um pouco desde então, exceto pela parte dos choros. Ninguém esperaria que eu a reconhecesse.
Sorri, ainda tentando entendê-lo.
— Por quê? — perguntei de novo.
O sacerdote abriu um largo sorriso e ergueu uma sobrancelha.
— Há dezessete anos, segurei uma garotinha que gritava em minhas mãos. Ergui-a aos deuses, rezando pela proteção dela e prometendo-lhe a minha. Não sou um tolo. Faço promessas aos deuses, não aos homens.
Olhei para ele com incerteza, mordendo o canto do lábio. Um verdadeiro homem dos deuses?
O sacerdote deslizou o braço pelo meu ombro e foi andando comigo até a porta, dizendo-me que, se eu quisesse quaisquer outros livros, tudo que teria que fazer era pedir. Quando eu estava na metade do vestíbulo, ele disse para mim numa voz sussurrada:
— Não falarei aos outros sacerdotes sobre este assunto. Pode ser que nem todos concordem em relação a quem devemos ser leais. Estamos entendidos?
— Certamente.

* * *

O sino da Sacrista soou novamente, dessa vez marcando o meio-dia. Meu estômago rugia. Fiquei em pé ao lado do santuário, à sombra de um canto escuro ao norte do pórtico, enquanto analisava o livro.
Kencha tor ena shiamay? Qual é o seu nome?
Bedage nict. Saia.
Sevende. Apresse-se.
Adwa bas. Sente-se.
Mi nay bogeve. Não se mexa.
Parecia um livro rudimentar de comandos que ajudava um soldado a lidar com prisioneiros, mas eu poderia estudar mais depois. Talvez me ajudasse a entender meu próprio livrinho vindo de Venda. Fechei-o, ocultando-o sob minhas roupas, e olhei por cima das cabeças daqueles que iam ao festival.
Avistei os cabelos da cor do mel de Pauline reluzindo sob uma coroa de flores cor-de-rosa. Estava prestes a chamá-la quando senti um sussurro junto ao meu pescoço.
— Até que enfim.
Calafrios cálidos pinicavam a minha pele. Rafe pressionava o peito nas minhas costas, e passou o dedo por meu ombro, descendo pelo meu braço.
— Achei que nunca fôssemos ficar um instante que fosse sozinhos.
Os lábios dele roçavam meu maxilar. Cerrei os olhos, e fui tomada por um tremor.
— Dificilmente estamos sozinhos — eu disse. — Não consegue ver uma cidade inteira indo e vindo à sua frente?
Ele circundou minha cintura com a mão, acariciando a lateral do meu corpo com o polegar.
— Não consigo ver nada além disso... — Ele beijou meu ombro, seus lábios viajando pela minha pele até chegarem à minha orelha. — E isso... e isso...
Eu me virei, e minha boca encontrou-se com a dele. Ele cheirava a sabão e algodão fresco.
— Alguém pode nos ver — falei, sem fôlego, entre os beijos.
— E daí?
Eu não queria me importar com aquilo, mas, com gentileza, afastei-o de mim, cautelosa porque estávamos em plena luz do dia e a sombra de um cantinho nos proporcionava pouquíssima privacidade.
Um sorriso relutante surgiu em um dos cantos da boca dele.
— Estamos sempre meio fora de sincronia. Um instante sozinhos, mas com uma cidade inteira como público.
— Nessa noite haverá comida e dança e muitas sombras para nos perdermos nelas. Ninguém vai sentir falta da gente.
A expressão dele ficou solene enquanto suas mãos apertavam minha cintura.
— Lia, eu... — Ele cortou as próprias palavras.
Olhei para ele, confusa. Achei que Rafe fosse ficar feliz com a possibilidade de sairmos da vista dos outros sorrateiramente.
— O que foi?
O sorriso dele estava de volta, e Rafe assentiu.
— Hoje à noite.

* * *

Alcançamos Pauline, e logo Kaden foi ao nosso encontro também. Não havia mais lutas na lama, porém, entre caçar peixes, fazer uma fogueira e lançar um machado, a competição estava evidente. Pauline revirava os olhos a cada evento, como se dissesse Lá vamos nós de novo. Minha reação foi dar de ombros. Já estava acostumada com o espírito competitivo de meus irmãos, e eu mesma gostava de um bom desafio, mas Rafe e Kaden pareciam elevar isso a um novo nível. Por fim, seus estômagos ganharam dos jogos, e ambos saíram em busca da carne de cervo defumada, cujo aroma preenchia o ar. Por ora, eu e Pauline estávamos satisfeitas com nossos bolinhos, e continuávamos passeando pelos arredores. Chegamos até o campo onde se jogavam facas, e entreguei a Pauline meu brioche de laranja açucarado, que ela, feliz, aceitou. O apetite dela tinha voltado.
— Quero tentar a sorte nesse jogo — falei a Pauline, dirigindo-me até o portão de entrada.
Não havia espera, e me alinhei junto com três outros competidores. Eu era a única mulher. Posicionados a uns cinco metros de distância, estavam grandes pedaços de toras pintadas, o tipo de alvo imóvel do qual eu gostava. Havia cinco facas ao lado de cada um de nós em cima das mesas. Analisei-as e as ergui, estudando seu peso. Todas eram mais pesadas do que a minha própria lâmina e, certamente, não eram tão balanceadas. O mestre do jogo explicou que todos jogaríamos as facas ao mesmo tempo, ao comando dele, até que todas as cinco tivessem sido jogadas.
— Ergam suas armas. Preparar...
Ele está observando.
As palavras me atingiram como água fria. Analisei as pessoas que estavam no festival, reunidas atrás do limite estabelecido pela corda. Eu estava sendo observada. Só não sabia por quem. Estava sendo observada, não pelas centenas de pessoas que cercavam o evento, mas por uma pessoa.
— Lançar!
Hesitei e, então, lancei a faca, que atingiu o suporte do alvo e depois ricocheteou, caindo no chão. As facas de todos os outros competidores ficaram presas nos círculos de madeira, uma na parte externa da casca da árvore, uma no anel branco externo, outra no anel azul, nenhuma no centro vermelho.
Mal tivemos tempo para pegar a próxima faca e o mestre do jogo falou novamente:
— Lançar!
Minha faca atingiu o alvo com um ruído alto, enfiando-se no círculo externo branco e ficando presa no lugar. Foi melhor, mas as facas eram desajeitadas e não muito afiadas.
Ele está observando. As palavras subiam pelo meu pescoço.
— Lançar!
Minha faca passou totalmente voando pelo alvo, alojando-se na terra além dele. Minha frustração aumentava. Eu não podia usar distrações como desculpa. Walther havia me dito isso diversas vezes. Esse era o propósito da prática: bloquear as distrações. No mundo real, quando o uso de uma faca se faz necessário, distrações não esperam educadamente que a faca seja lançada — elas tentam desarmar você.
Observando... observando.
Segurei bem a ponta da lâmina, acertei a posição do meu ombro e deixei que meu braço fizesse o trabalho.
— Lançar!
Dessa vez, acertei a linha entre o branco e o azul. Inspirei fundo. Sobrara uma faca. Perscrutei a multidão novamente. Observando. Senti o escárnio, o olhar contemplativo e zombeteiro, um sorriso afetado por causa das minhas habilidades nada impressionantes de lançamento de facas, mas não conseguia ver um rosto, não o rosto.
Então que observe!, pensei, com a ira aumentando.
Ergui a bainha do meu vestido.
— Lançar!
Minha faca saiu cortando o ar tão rápida e harmoniosamente que mal podia ser vista. Ela acertou o centro exato do alvo. Dos vinte lançamentos, feitos por quatro competidores, a minha foi a única a acertar o vermelho. O mestre do jogo deu uma segunda olhada, confuso, e então me desqualificou.
Valera a pena. Fiquei procurando em meio à massa de observadores alinhados junto às cordas e tive o vislumbre das costas de alguém que se retirava e era engolido pela multidão. Seria o soldado cujo nome eu desconhecia? Ou era outra pessoa?
Foi um lançamento de sorte. Eu sabia disso, mas não a pessoa que me observava.
Fui andando até o alvo, puxei minha adaga incrustada com gemas do centro, e coloquei-a de volta na bainha em minha coxa. Eu praticaria, conforme prometera a Walther. Não deixaria mais meus lançamentos nas mãos da sorte.

7 comentários:

  1. Q Droga queria q ele ficasse com o Kaden

    ResponderExcluir
  2. Cara na capa não é a principal a Lia é a Paulina que diferente

    Mirtiz

    ResponderExcluir
  3. CARACA, QUE SALIÊNCIA MEU JOVEM QUANTA SEDE AO POTE. Antes pensava que o Rafe era o assassino, e agr ou ele ta fingindo mt bem q n quer matar ela ou ta locão e entregue mesmo (duvido com todo o meu ser). SÃO TRÊS DA MANHÃ E ESSE VÍCIO NÃO ME DEIXA DORMIR.

    ResponderExcluir
  4. Eu tô achando que tem coisa ai!!! E outra coisa: PQ EU SO LEIO LIVRO ASSIM!!?? Gente, esses momentos acabam comigo!!

    ResponderExcluir
  5. Eu acho que o Rafe é o príncipe porque tinha dito anteriormente que o assassino tem sicatrizes nas costelase o Rafe tirou a camisa descartando ele como o assassino

    ResponderExcluir
  6. Serio ela ta começando a fica irritante, se ela fosse a cealene
    (Eu acho que é assim) do TRONO DE VIDRO que se garante e se proteger, nao falava nada, ela ta se achando demais pro meu gosto.

    ResponderExcluir
  7. GNT eu caguei a imagina que existe outra pessoa que nem um dos dois e o assassino ou o príncipe que existe um outro alguém só que vcs lembram quando o cavalo do rafa mordeu o kaden e ele falo aquelas línguas estranhas que a lia não entendeu? Entt acho que ele é um bárbaro....

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!