16 de fevereiro de 2018

Capítulo 33

Eu tentei parar de contar os dias, como Rafe tinha me dito, mas a cada dia que o Komizar me levava para um quadrante diferente, eu sabia que tínhamos um dia a menos. Nossos passeios eram breves, apenas tempo o suficiente para me exibir a um ancião aqui ou outro lorde de quadrante ali, e para aqueles que se reuniam à nossa volta, plantando sua versão de esperança entre os supersticiosos. Para um homem que tinha pouca paciência em relação a mentiras, ele semeava o mito da minha chegada livremente, como se fosse punhados de sementes jogados ao vento. Os deuses estavam abençoando Venda.
Estranhamente, um equilíbrio havia se estabelecido entre nós. Era como dançar com um estranho hostil. A cada passo nosso, ele conseguia mais do que queria, a devoção dos clãs e dos povos das colinas, e eu também conseguia alguma coisa que queria, embora não pudesse dizer exatamente o quê.
Era um estranho empurrão em momentos inesperados e de maneiras inesperadas, o cintilar do sol, uma sombra, uma cozinheira perseguindo um frango solto pelo corredor abaixo, a fumaça no ar, uma caneca adocicada de thannis, o refrescante frio da manhã, um sorriso com dentes faltando, os paviamma ressonando em resposta a mim, as faixas escuras do céu enquanto eu recitava memórias sagradas noturnas. Todos esses momentos eram desconexos e não davam em nada e, ainda assim, se apoderavam de mim como dedos entrelaçando-se aos meus e puxando-me para frente.
A vantagem de Kaden estar fora era que eu era deixada sozinha durante a noite. Em sua pressa para tomar providências antes de partir, ele havia dito apenas que Aster me escoltasse até a câmara de banho, se eu solicitasse, e me ajudasse com todas as minhas necessidades pessoais, mas ele não havia definido quais poderiam ser essas necessidades. Garanti a ela que minha solicitação noturna era uma dessas necessidades. Acabou que ela ficou feliz por conspirar comigo. O Sanctum era bem mais quente do que a barraca que ela dividia com o pai e os primos. Eu havia perguntado se ela conhecia um caminho para as catacumbas sem passar pelo corredor principal. Ela arregalou os olhos.
— Você quer ir para as Cavernas dos Ghouls?
Aparentemente, Eben e Finch não eram os únicos que se referiam às cavernas por esse nome. Griz estava certo. O pequeno ouriço conhecia todas as trilhas do Sanctum… e havia muitas delas, em uma das quais tive que ficar de quatro no chão para poder passar. Enquanto caminhávamos por outra dessas passagens, ouvi um rugido ao longe.
— O que foi isso? — perguntei a Aster em um sussurro.
— Nós não queremos ir por esse caminho — disse ela. — Esse túnel leva para a parte inferior dos penhascos. Não existe nada lá além do rio, de muitas rochas escorregadias e das engrenagens da ponte.
Ela me conduziu por um caminho do outro lado, mas guardei onde ficava essa passagem. Um caminho que levava à ponte, mesmo que fosse impossível levantá-la, era algo que eu queria explorar.
Por fim saímos em um túnel mais largo, parecendo uma caverna, e o doce e familiar cheiro de óleo e ar empoeirado nos deram as boas-vindas. Eu achava que a esta hora o lugar estaria vazio, mas ouvimos passos. Nós nos escondemos nas sombras, e quando os homens que trajavam túnicas escuras passaram por nós, arrastando os pés, seguimos a uma distância segura atrás deles. Eu entendia agora porque as chamavam de Cavernas dos Ghouls. As paredes não eram apenas feitas de ruínas. Ossos e caveiras humanos ladeavam a trilha, mil Anciões mantendo o Sanctum em pé, prontos para sussurrar seus segredos… Segredos estes que Aster não queria ouvir. Quando ela os viu e soltou um ofego, coloquei a mão sobre sua boca e assenti, reconfortando-a.
— Eles não podem te machucar — falei, embora eu mesma não tivesse tanta certeza disso. Seus olhares fixos e vazios seguiam nossos passos.
A trilha estreita dava para uma descida íngreme, a qual, por sua vez, desembocava em um enorme aposento que tinha a arte e a arquitetura de outra época, e eu achava que poderia remontar aos Antigos. Bem no fundo no subterrâneo, e talvez selada durante séculos, a sala encontrava-se notavelmente em um bom estado, assim como seu conteúdo. Não se tratava apenas de uma biblioteca, mas de uma sala imensa cheia de livros que faria o Erudito Real ficar verde de inveja – ela fazia todas as bibliotecas dele reunidas parecerem minúsculas. Na extremidade mais afastada, vi os homens trajados de túnicas separando livros em pilhas e, ocasionalmente, jogando um deles em uma montanha de descarte. Havia montes similares àquele espalhados pela sala. Parcialmente oculta, havia uma larga abertura em arco que dava para outro aposento além deste, de onde a luz jorrava, brilhante e dourada. Pude ver pelo menos uma silhueta ali dentro, curvada por sobre uma mesa, escrevendo em livros contábeis. Esse era um esforço extensivo e organizado. Sombras que passavam tremeluziam pelo chão. Havia outros naquela sala também. Aqueles que separavam os livros na sala do lado de fora levavam de vez em quando um dos volumes para dentro, até eles. Eu queria desesperadamente ver o que eles estavam fazendo e que livros eram aqueles que eles estudavam.
— Você quer um? — Aster sussurrou para mim.
— Não — eu disse. — Eles poderiam nos ver.
— Não a mim — ela respondeu, mostrando o quanto conseguia se abaixar. — E isso não é exatamente roubo, porque eles queimam aquela pilha nos fornos da cozinha.
Eles queimavam livros? Pensei nos dois volumes que eu havia roubado do Erudito e nas capas de couro chamuscadas de fogo de ambos. Antes que eu pudesse impedi-la, Aster saiu correndo com tudo, silenciosa como uma sombra, e apanhou um pequeno livro dentre os descartes. Quando voltou correndo, seu pequeno peito subia e descia com excitação, e ela, com orgulho, entregou o prêmio a mim. O livro estava encadernado de uma forma diferente de qualquer outro que eu já tivesse visto, reto como uma navalha e justo, e eu não reconheci o idioma. Se fosse algum tipo de vendano, era até mesmo mais antigo do que a Canção de Venda que eu havia traduzido. Foi então que eu soube o que eles estavam fazendo. Eles estavam traduzindo idiomas antigos, o que explicava por que os serviços de eruditos habilidosos eram necessários. Eu sabia de três outros reinos além de Morrighan que possuíam uma estrutura de eruditos com quaisquer atividades mensuráveis: Gastineux, a terra natal da minha mãe, Turquoi Tra, que era lar de monges místicos, e Dalbreck.
Uma vez que eles tinham descartado este livro, eu sabia que não era importante para eles, mas pelo menos agora eu sabia qual era o seu propósito: decifrar uma tumba de livros salvos, os livros perdidos dos Antigos. Para uma sociedade em que poucos de seu povo sabiam ao menos ler, essa era uma atividade estranhamente erudita. Minha curiosidade ardia, mas lutei contra a premência de confrontá-los e questioná-los porque isso revelaria minhas andanças noturnas, além de colocar Aster em risco. Enfiei o livro debaixo do braço e cutuquei Aster para que seguisse em direção à trilha de caveiras, e nos apressamos em voltar para o meu quarto.
Quando fechamos a porta atrás de nós, ela deu risadinhas nervosas de nossa aventura juntas. Perguntou se eu poderia ler o livro para ela, e eu disse que não, que ele estava escrito em uma língua que eu não entendia.
— E quanto a aqueles ali? — ela perguntou.
Olhei para onde ela apontava. Ordenadamente dispostos lado a lado na minha cama estavam os livros que eu tinha roubado do Erudito Real. Eu não os havia colocado ali. Girei, olhando ao redor do quarto, buscando um intruso. Não havia ninguém ali. Quem entraria no meu quarto e colocaria os livros daquela forma e ali?
— Aster — eu disse com firmeza — você está fazendo uma brincadeira comigo? Você colocou os livros ali antes de sairmos?
No entanto, com apenas um olhar para a expressão ansiosa dela, eu soube que não havia sido ela. Balancei a cabeça para que ela não se preocupasse.
— Não importa. Esqueci que os tinha deixado eles ali. Vamos — eu disse enquanto reunia os livros e os colocava no baú. — Vamos nos preparar para dormir.
Ela não havia trazido nada além das roupas que vestia, então procurei nos arredores por mais uma das camisas quentinhas de Kaden. A camisa descia até a altura dos tornozelos dela, e ela abraçou o macio tecido junto à pele. Enquanto eu escovava meus cabelos, eu a vi esfregando seus cabelos curtos, sonhadora, como se os imaginasse longos.
— Todo este cabelo deve manter seu pescoço e seus ombros belos e quentinhos — disse ela.
— Suponho que sim, mas eu tenho uma coisa bem mais bonita, e que pode mantê-la aquecida. Gostaria de ver?
Ela assentiu, entusiasmada, e puxei de meu alforje o lenço de pescoço azul que Reena havia me dado. Eu o agitei para livrá-lo das marcas de dobras, e as contas de prata tiniram.  Coloquei-o sobre a cabeça dela e amarrei as pontas atrás de seu pescoço.
— Aí está — falei — uma linda princesa nômade. É seu, Aster.
— Meu? — Ela estendeu a mão e sentiu o tecido, tocando as contas, a boca aberta, admirada, e senti uma pontada com o quanto um pequeno gesto como esse pudesse podia ser tão significativo para ela. Aster merecia muito mais do que eu poderia lhe dar.
Nós ficamos aninhadas na minha cama, e contei a ela histórias encontradas nos Textos Sagrados de Morrighan, contos de como os Reinos Menores cresceram a partir de um reino escolhido, histórias de amor e sacrifício, honra e verdade, todas as histórias que me faziam ansiar pelo meu lar. A vela ardia baixa, e quando ouvi os roncos calmos e baixinhos de Aster, sussurrei a prece de Reena.
— Que os deuses lhe concedam um coração quieto, olhos pesados e que os anjos guardem sua porta.

3 comentários:

  1. Eu não quero imaginar o pior :-(

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  2. Acho que o Komizar - não lembro como escreve- sabe que ela saiu desde o primeiro dia

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  3. Todo mundo ta jogando com todo mundo nesse lugar

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Boa leitura! E SEM SPOILER!