2 de fevereiro de 2018

Capítulo 33

Dos quadris de Morrighan,
Da extremidade mais afastada da desolação,
Dos esquemas de regentes,
Dos temores de uma rainha,
Nascerá a esperança.
— Canção de Venda —



Quase explodi de alegria ao ver Pauline vestindo as roupas novas que comprei para ela: um vestido solto da cor do pêssego e delicadas sandálias verdes. Depois de semanas usando as vestes pesadas de Civica ou suas sombrias roupas de luto, ela florescia usando os tons do verão.
— É um alívio usar isso neste calor. Eu não poderia ter gostado mais dessas roupas, Lia — disse ela, admirando a transformação no espelho. Ela se colocou de lado, puxando o tecido para analisar seu contorno. — E deve servir em mim até o último momento do outono.
Coloquei a guirlanda de flores cor-de-rosa em sua cabeça, e ela se tornou uma ninfa mágica do bosque.
— Sua vez — disse ela. Meu vestido era branco, bordado com flores de lavanda. Coloquei-o e girei, olhando para mim mesma no espelho e me sentindo como uma nuvem, leve e solta desta terra. Tanto eu quanto Pauline paramos um pouco para contemplar a garra e a vinha no meu ombro, com as finas alças do vestido deixando-as claramente visíveis.
Pauline esticou a mão, tocou na garra e balançou a cabeça devagar enquanto a estudava.
— Isso lhe cai bem, Lia. Não sei ao certo por quê, mas lhe cai bem.

* * *

Quando chegamos à taverna, Rafe e Kaden estavam enchendo a carroça com mesas do refeitório e os engradados de vinho e as conservas de amoras silvestres de Berdi. Quando nos aproximamos, os dois pararam o que estavam fazendo e lentamente colocaram suas cargas pesadas de volta no chão. Eles não disseram nada, apenas ficaram olhando para a gente.
— Deveríamos tomar banho mais vezes — sussurrei a Pauline, e nós duas suprimimos uma risadinha.
Pedimos licença e fomos para dentro da taverna ver se Berdi precisava de ajuda com alguma coisa. Nós a encontramos com Gwyneth na cozinha, colocando pães em uma cesta. Pauline ficou olhando com desejo para os bolinhos de amoras silvestres com cascas douradas enquanto eles desapareciam camada por camada cesta adentro. Por fim, Berdi ofereceu um a ela, que mordeu um pedaço constrangida e engoliu.
— Tem uma coisa que preciso contar a vocês — disse Pauline, sem pensar e sem fôlego.
Por um instante, as conversas, o arrastar dos pés e o som das panelas batendo umas nas outras pararam. Todas encararam Pauline. Berdi pôs o bolinho que estava prestes a colocar na cesta de volta à bandeja.
— Nós sabemos — disse ela.
— Não — insistiu Pauline. — Vocês não sabem. Eu...
Gwyneth esticou a mão e segurou os braços de Pauline.
— Nós sabemos.
De alguma forma, isso se tornou o sinal para que nós quatro fôssemos sentar à mesa no canto da cozinha. Berdi baixou as pálpebras gentilmente, com os olhos marejados, enquanto explicava que estivera esperando que Pauline lhe contasse isso. Gwyneth assentiu seu entendimento da questão enquanto eu olhava maravilhada para elas.
As palavras eram certeiras e pensadas. Mãos foram apertadas, dias contados, e tristezas, divididas. Minhas próprias mãos se esticaram para se tornar parte disso — o acordo, a solidariedade, a cabeça de Pauline puxada para junto do peito de Berdi, eu e Gwyneth trocando olhares de relance, tanta coisa dita sem que nenhuma palavra fosse trocada. Nossos relacionamentos mudaram. Nos tornamos uma irmandade com uma causa em comum, soldados de nossa própria guarda de elite, prometendo passar por isso juntas, todas nós jurando ajudar Pauline, e tudo isso no espaço de tempo de vinte minutos antes que alguém batesse à porta da cozinha.
A carroça estava carregada.
Voltamos aos nossos afazeres com Pauline protegida entre nós. Se antes eu tinha me sentido como uma nuvem, agora eu era um planeta que brilhava nos céus. Um fardo compartilhado não era mais algo tão pesado de se carregar. Ver os passos mais leves de Pauline fez com que os meus pés deslizassem por cima do solo.
Berdi e Pauline saíram para carregar o resto das cestas, e eu e Gwyneth dissemos que iríamos depois de varrer o chão e limpar as migalhas dos balcões.
Nós sabíamos que era melhor desencorajar os pequenos visitantes com pelos cinzentos agora, em vez de assistir a Berdi persegui-los com a vassoura depois.
Essa era uma tarefa fácil e rápida e, quando eu estava abrindo a porta da cozinha para sair, Gwyneth me interrompeu.
— Será que podemos conversar?
O tom de voz dela havia mudado de apenas alguns minutos antes, quando nossa conversa fluía com a facilidade de um xarope quentinho. Agora eu notava uma ponta espinhosa em seu tom de voz. Fechei a porta, ainda de costas para ela, e me preparei.
— Eu ouvi umas notícias — disse ela.
Eu me virei para ficar de frente para ela e abri um sorriso, recusando-me a deixar que sua expressão séria me alarmasse.
— Ouvimos notícias todos os dias, Gwyneth. Você precisa me dizer mais do que isso.
Ela dobrou uma toalha e colocou-a arrumada do outro lado do balcão, alisando-a, evitando fazer contato visual comigo.
— Há um rumor... não, é algo mais próximo de um fato... de que Venda enviou um assassino para encontrar você.
— Para me encontrar?
Ela olhou para cima.
— Para matar você.
Eu tentei rir, dispensar aquilo, mas tudo o que consegui fazer foi abrir um sorriso rígido.
— Por que Venda se daria ao trabalho de fazer isso? Eu não conduzo nenhum exército. E todo mundo sabe que não tenho o dom.
Ela mordeu o lábio.
—Nem todo mundo sabe disso. Para falar a verdade, os rumores vêm crescendo de que seu dom é forte e que foi assim que você conseguiu escapar dos melhores rastreadores do Rei.
Andei de um lado para o outro, erguendo o olhar para o teto. Como eu odiava rumores! Parei e encarei Gwyneth.
— Consegui escapar deles com um pouco de ajuda estratégica. E, verdade seja dita, o Rei foi preguiçoso em seus esforços de me encontrar. — Dei de ombros. — Mas as pessoas vão acreditar naquilo que escolherem acreditar.
— Sim, elas vão — foi a resposta dela. — E, agora mesmo, Venda acredita que você é uma ameaça. Isso é tudo que importa. Eles não querem que haja uma segunda chance para os reinos formarem uma aliança. Venda sabe que Dalbreck não confia em Morrighan. Eles nunca confiaram. A transferência da Primeira Filha do Rei até lá era crucial para uma aliança. Era um passo significativo em direção à confiança, que agora está destruída. E Venda quer que as coisas continuem assim.
Tentei manter a suspeita afastada do meu tom de voz, mas, enquanto ela relatava cada detalhe, sentia minha cautela aumentando.
— E como você sabe de tudo isso, Gwyneth? Certamente que os costumeiros fregueses da taverna não teriam soltado tais rumores.
— Como eu descobri não é importante.
— Para mim, é.
Ela baixou o olhar para suas mãos que repousavam em cima da toalha, alisou um vinco nelas e depois voltou a me fitar.
— Digamos apenas que os meus métodos e os erros de que mais me arrependo caminham lado a lado. Porém, de vez em quando, posso fazer com que eles sejam úteis.
Encarei-a. Logo quando achava que enfim entendera Gwyneth, um outro lado dela vinha à tona. Balancei a cabeça, para me livrar desses pensamentos.
— Berdi não contou a você quem eu era só porque você mora na cidade, não é?
— Não, mas juro que a maneira como fiquei sabendo disso não é da sua conta.
— É claro que é da minha conta — falei, cruzando os braços.
Ela desviou o olhar, exasperada, um lampejo de raiva passando por seus olhos, e então voltou a me encarar. Gwyneth soltou o ar por um bom tempo, balançando a cabeça. Parecia estar travando uma batalha interna com seus lamentáveis erros bem na minha frente.
— Há espiões por toda parte, Lia — ela finalmente cuspiu as palavras. — Em todas as cidades, sejam grandes ou minúsculas. Pode ser o açougueiro. Pode ser o pescador. Uma mão lava a outra em troca de olhos atenciosos. Já fui uma dessas pessoas.
— Você é uma espiã?
— Fui. Todos nós fazemos o que é necessário para sobreviver. — Ela deixou de ser defensiva para ser honesta. — Eu não faço mais parte daquele mundo. Não faço parte há anos, não desde que vim trabalhar para Berdi. Terravin é uma cidade calma, e ninguém se importa muito com o que acontece aqui, mas ainda ouço algumas coisas. Tenho conhecidos que, às vezes, me passam informações.
— Conexões.
— Isso mesmo. Os Olhos do Reino, é como chamam.
— E tudo isso é filtrado e volta para Civica?
— Para onde mais seria?
Assenti, soltando o ar profundamente. Os Olhos do Reino? De repente, eu estava bem menos preocupada com um bárbaro assassino rosnador vindo de lugares inóspitos atrás de mim do que estava agora com Gwyneth, que parecia levar múltiplas vidas.
— Estou do seu lado, Lia — disse ela, como se pudesse ler minha mente. — Lembre-se disso. Só estou contando isso para que tenha cuidado. Fique atenta.
Será que ela estava mesmo do meu lado? Ela foi uma espiã. No entanto, Gwyneth não era obrigada a me contar nada disso, e, desde que eu tinha chegado em Terravin, fora bondosa. Por outro lado, mais de uma vez ela havia sugerido que eu voltasse para Civica para cumprir com minhas responsabilidades. Dever. Tradição. Ela não acreditava que aqui era o meu lugar. Será que estaria tentando me assustar agora para que eu fosse embora?
— São apenas rumores, Gwyneth, provavelmente conjurados em tavernas como a nossa devido à falta de entretenimento.
Um sorriso tenso ergueu-se nos cantos da boca de Gwyneth, e ela assentiu, enrijecida.
— Provavelmente você está certa. Só achei que deveria saber.
— E agora eu sei. Vamos.

* * *

Berdi tinha ido na frente na carroça, junto com Rafe e Kaden, para arrumar as mesas. Eu, Gwyneth e Pauline fomos andando vagarosamente em direção à cidade, absorvendo a transformação festiva de Terravin. As fachadas das lojas e as casas, já gloriosas em sua própria paleta de cores brilhantes, agora pareciam doces mágicos decorados com grinaldas e fitas coloridas. Minha conversa com Gwyneth não conseguiu abalar meu ânimo. Na verdade, isso estranhamente o elevou. Minha determinação estava cimentada. Eu nunca voltaria. Aquele era mesmo o meu lugar! Eu tinha agora mais motivos do que nunca para ficar em Terravin.
Chegamos à praça, cheia de pessoas da cidade e mercadores que espalharam suas especialidades nas mesas. Esse era um dia de partilhar as coisas. Nenhuma moeda seria trocada. O cheiro de javali assado sendo preparado em um fosso cavado e coberto perto da praça enchia o ar, e, logo adiante, escorregadias lampreias inteiras e pimentões vermelhos chiavam enquanto eram fritos nas grelhas. Avistamos Berdi arrumando as mesas em um canto afastado, estirando alegremente toalhas coloridas para cobri-las. Rafe descarregou um dos engradados da carroça e colocou-o no chão ao lado dela, e Kaden veio atrás com duas cestas.
— Correu tudo bem na noite passada? — perguntou-me Gwyneth.
— Sim, correu tudo muito bem — Pauline respondeu por mim.
Minha própria resposta a Gwyneth foi apenas um sorriso travesso.
Quando cheguei perto de Berdi, eu havia perdido Pauline para uma mesa de bolos fritos quentinhos e Gwyneth fora atrás de Simone, que a havia chamado de cima de um pônei que ela cavalgava.
— Não preciso de você aqui — disse Berdi, me enxotando quando me aproximei dela. — Vá se divertir. Vou me sentar à sombra e cuidar de tudo. Eu olho as mesas.
Rafe acabava de voltar da carroça com outro engradado. Tentei não ficar olhando para ele, mas, com as mangas de sua camisa enroladas para cima e seus antebraços bronzeados flexionando-se sob o peso do engradado, eu não conseguia desviar o olhar. Imaginei que o trabalho na fazenda o mantivesse em forma: cavando trincheiras, lavrando a terra dos campos, colhendo... o quê? Cevada? Melões? Além do pequeno jardim da cidadela, os únicos campos com os quais eu tinha experiência eram os vastos vinhedos de Morrighan. Eu e os meus irmãos visitávamos os vinhedos no início do outono, antes da colheita. Eles eram magníficos, e as vinhas produziam safras de alto valor no continente. Os Reinos Menores pagavam imensas somas em dinheiro por um único barril. No entanto, em todas as minhas visitas aos vinhedos, eu nunca vira um fazendeiro como Rafe. Se tivesse visto algum, com certeza teria criado um interesse mais ativo pelas vinhas.
Ele parou perto de Berdi, colocando o engradado no chão.
— Bom dia de novo — disse ele, soando sem fôlego.
Sorri.
— Você já fez o trabalho de um dia inteiro.
Ele passou os olhos por mim, a começar pela guirlanda na minha cabeça, a guirlanda que ele tinha se dado ao trabalho de buscar, até o meu novo e leve traje.
— Você... — Ele olhou de relance para Berdi, que estava sentada em um engradado ao lado dele e pigarreou. — Você dormiu bem?
Assenti, abrindo um largo sorriso.
— E agora? — ele perguntou.
Kaden surgiu atrás de Rafe, esbarrando nele enquanto arrumava uma cadeira para Berdi.
— A luta na tora, certo? Lia disse que todo mundo está animado com isso. — Ele arrumou a cadeira ao gosto de Berdi e ficou em pé, estirando os braços acima de sua cabeça, como se passar a manhã pegando e arrastando coisas tivesse sido apenas um aquecimento. Ele deu uns tapinhas amigáveis no ombro de Rafe. — A menos que você não esteja à altura do desafio. Posso ir andando com você, Lia?
Berdi revirou os olhos, e eu me contorcia. Será que eu tinha criado esse problema quando flertei com Kaden na noite passada? Provavelmente, tal como todos os outros, ele havia me ouvido gritar com Rafe, mandando que ele fosse embora, mas evidentemente não ouvira nada além disso.
— Sim — falei. — Vamos todos andando juntos, que tal?
Rafe fechou a cara por um instante, mas sua voz soava animada.
— Topo um bom jogo, Kaden, e acho que um mergulho seria muito bom para você. Vamos!
Não se tratava exatamente de um mergulho.
Assim que passamos pela multidão, vimos uma tora suspensa e presa por cordas. Só que a tora não estava sobre a água, como eu havia presumido, mas sobre uma profunda poça de lama preta.
— Ainda está dentro? — perguntou Kaden.
— Não sou eu que vou cair — foi a resposta de Rafe.
Ficamos olhando dois homens lutarem em cima da tora enquanto a multidão torcia bravamente a cada empurrão e arremesso. Todo mundo ficou boquiaberto quando ambos os homens oscilaram, girando os braços para recuperar o equilíbrio, arremeteram-se novamente e por fim caíram ao mesmo tempo com a cara na lama. Os dois ergueram os rostos e parecia que tinham sido mergulhados em massa de bolo de chocolate. A multidão deu risada e rugiu em aprovação quando os dois homens saíram da poça, limpando os rostos e cuspindo lama. Dois novos competidores foram chamados. Um deles era Rafe. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Aparentemente, estavam chamando os homens aleatoriamente. Nós esperávamos que ele e Kaden fossem lutar um contra o outro. Rafe desabotoou a camisa, tirou-a de dentro da calça e a despiu, entregando-a para mim. Eu pisquei, tentando não ficar olhando o peito desnudo dele.
— Esperando cair? — perguntou Kaden.
— Não quero que ela seja borrifada de lama quando meu oponente cair.
A multidão gritava, encorajando-os. Rafe e o outro competidor, um camarada alto de porte musculoso, subiram as escadas até a tora. O mestre do jogo explicou as regras: nada de punhos cerrados, nada de mordidas, nada de pisar nos dedos das mãos nem nos pés um do outro, mas todo o resto valia. Ele soprou a corneta e a luta começou.
No início, eles se mexeram devagar, estudando um ao outro. Mordi o lábio. Rafe não queria fazer aquilo. Ele era um fazendeiro, um homem do campo, não um lutador, e fora Kaden que o convencera a entrar nessa competição. O oponente dele fez um movimento, lançando-se para cima de Rafe, mas ele, habilidosamente, bloqueou o homem e agarrou o antebraço dele, torcendo-o de modo a desestruturar seu equilíbrio. O homem oscilou por um instante, e a multidão gritou, achando que a disputa estava acabada, mas o homem se soltou, foi para trás aos tropeços e recuperou sua posição. Rafe não deu a ele mais tempo do que isso e avançou, mergulhando baixo e girando atrás do joelho do homem.
Era o fim. O homem debateu os braços, desajeitado, como se fosse um pelicano tentando alçar voo. Ele seguiu tombando no ar enquanto Rafe o observava com as mãos nos quadris. A lama foi borrifada para cima, pontilhando a parte de baixo da calça de Rafe. Ele sorriu e fez uma profunda reverência para a multidão, que uivou em admiração pelos feitos dele e deu gritos extras por sua teatralidade.
Ele se virou na nossa direção, assentiu para mim e, com um cativante porém presunçoso e largo sorriso, ergueu as palmas para Kaden e deu de ombros, como se tivesse sido um trabalho fácil e rápido. A multidão vibrou. Rafe começou a descer a escada, mas o mestre do jogo o interrompeu e chamou o próximo competidor. Aparentemente, o comportamento dele em agradar ao público havia lhe garantido um segundo round na tora. Ele deu de ombros e esperou que o próximo lutador se aproximasse da escada.
Seguiu-se uma onda de silêncio quando o próximo competidor veio à frente. Eu o reconheci. Era o filho do ferrador de cavalos, tinha no máximo dezesseis anos, mas era um menino corpulento, pesando fácil uns cinquenta quilos a mais que Rafe, se não mais. Será que a escada aguentaria o peso dele?
Lembrei que ele era um rapaz de poucas palavras, mas que estava focado em suas tarefas quando veio com o pai trocar a ferradura de Dieci. Ele parecia igualmente focado ao subir a escada. Rafe franziu o rosto, confuso. Seu novo oponente era duas cabeças mais baixo do que ele. O menino pisou na tora e foi de encontro a ele, com passos lentos e cautelosos, mas com o equilíbrio sólido como aço.
Rafe esticou as mãos e empurrou-o pelos ombros, provavelmente pensando que esse seria o fim. O menino nem se mexeu. Ele parecia ter se juntando à madeira, como se fosse um tronco crescendo na tora. Rafe o agarrou pelos braços, e o garoto lutou brevemente com ele, mas sua força residia em seu baixo centro de gravidade, e ele não se inclinava nem para um lado nem para o outro. Rafe aproximou-se mais dele, empurrando, arrebanhando, torcendo, mas troncos não são facilmente torcidos. Eu podia ver o suor brilhando no peito dele. Por fim, Rafe o soltou, deu um passo para trás, balançou a cabeça como se estivesse derrotado, e então avançou para cima do menino, agarrando seus braços e puxando-o para a frente. O tronco soltou-se, deixando sua posição, e Rafe caiu para trás, agarrando-se à tora para não cair. O menino caiu para a frente, arremetido com a barriga para baixo, e seus braços tentavam segurar-se em algum lugar enquanto deslizava para o lado. Rafe deu um pulo para trás, pondo-se de pé novamente, e se abaixou na direção do menino, que ainda estava desesperadamente tentando manter sua pegada.
— Boa viagem, meu amigo — disse Rafe, sorrindo enquanto, com gentileza, cutucava o ombro do menino.
Foi o bastante. O rapaz perdeu a pegada e caiu como uma pedra na lama. Dessa vez, o borrifo foi mais para cima, alcançando o peito de Rafe. Ele limpou as gotas de lama junto com seu suor e abriu um largo sorriso. A multidão foi à loucura, e umas poucas meninas perto de mim levantaram-se e ficaram sussurrando entre si. Eu achava que já estava na hora de ele colocar a camisa de volta.
— Kaden! — chamou o mestre do jogo.
Rafe já tinha lutado na tora por bastante tempo, mas eu sabia que não recuaria agora. Kaden abriu um sorriso e subiu a escada com sua camisa branca perfeitamente vestida. Assim que Kaden pisou na tora, ficou claro que essa luta seria diferente das outras. A tensão entre os dois aumentava a concentração da multidão, deixando-os em silêncio.
Kaden e Rafe foram devagar um em direção ao outro, ambos agachados para manter o equilíbrio, com os braços nas laterais de seus corpos. Em seguida, com a velocidade de um raio, Kaden deu um passo para a frente e girou a perna. Rafe deu um pulo no ar, evadindo a perna de Kaden e pousando com perfeita graça de volta na tora. Ele se lançou para a frente, agarrando os braços de Kaden, e ambos balançaram. Eu mal podia ver enquanto os dois batalhavam para recuperar suas posições, e depois, usando um ao outro como contrapeso, giraram, indo parar em lados opostos de onde tinham começado.
Gritos de torcida incontroláveis quebraram um silêncio no qual ninguém nem respirava.
Os dois pareciam não ouvir o frenesi ao redor deles. Rafe lançou-se para a frente de novo, mas Kaden, habilidosamente, recuou vários passos de modo que Rafe perdeu o impulso e tropeçou. Em seguida, Kaden avançou, partindo para cima dele. Rafe cambaleou para trás, seus pés se esforçando para achar um apoio, ao mesmo tempo em que tentava desequilibrar o outro homem. Eu não sabia ao certo o quanto mais conseguiria ver daquilo. Quando a luta fez com que suas faces estivessem a poucos centímetros uma da outra, vi os lábios deles se movendo. Não consegui ouvir o que foi dito, mas Rafe olhou feio para ele e um sorriso apertado contorceu os lábios de Kaden.
Com uma onda de energia e um berro que lembrava um grito de batalha, Kaden empurrou, forçando Rafe a ir para um dos lados. Rafe caiu, mas conseguiu segurar-se precariamente à tora, da qual pendia. Tudo que Kaden tinha que fazer era dar um empurrãozinho e os dedos dele soltariam. Em vez disso, ele ficou em pé acima dele e disse, em voz alta:
— Você se rende, amigo?
— Quando estiver no inferno — resmungou Rafe, com esforço. Ficar pendurado abafava suas palavras.
Kaden olhou de Rafe para mim. Não sei ao certo o que ele viu no meu rosto, mas se voltou de novo para Rafe, fitando-o por uns poucos, porém longos, segundos, e então deu um passo para trás, dando bastante espaço para Rafe.
— Gire as pernas e venha para cima. Vamos pôr um fim nisso do jeito certo. Quero ver sua cara na lama, não só suas calças.
Até mesmo de onde eu estava dava para ver o suor escorrendo pela face de Rafe. Por que ele simplesmente não pulava? Se caísse direito, só ficaria com lama até os joelhos. Observei enquanto ele inspirava fundo e girava as pernas para cima, enganchando uma delas na tora. Ele se esforçava para chegar até o topo. Kaden permaneceu afastado, dando tempo a Rafe para que recuperasse sua firmeza e ficasse novamente em uma posição segura.
Por quanto tempo isso poderia continuar? A multidão estava aclamando, gritando, aplaudindo e os deuses sabiam o que mais — tudo isso se mesclava em um rugido distante para mim. A pele de Rafe reluzia. Estivera debaixo do sol ardente enquanto lutava com três oponentes até agora. Ele limpou o lábio superior e os dois avançaram, um na direção do outro, mais uma vez. Em um instante, Kaden recuperava a vantagem e, no seguinte, era a vez de Rafe. Por fim, ambos pareciam apoiar-se um no outro, prendendo a respiração.
— Você se rende? — perguntou Kaden mais uma vez.
— No inferno — repetiu Rafe.
Eles empurraram um ao outro e se separaram, mas, enquanto Rafe olhava de relance para trás, na minha direção, Kaden fez um movimento, um último arrojo, girando bem as pernas e nocauteando Rafe, fazendo com que se soltasse da tora e saísse voando pelos ares. Kaden caiu com a barriga para baixo, agarrando-se à tora enquanto Rafe surgia da lama abaixo dele. Rafe limpou a sujeira de sua face e ergueu o olhar.
— Você se rende? — perguntou-lhe Kaden.
Rafe fez uma saudação a ele, graciosamente dando a Kaden o que ele merecia, mas então abriu um sorriso.
— No inferno!
A multidão rugiu com mais gargalhadas, e eu inspirei fundo, aliviada por aquilo finalmente ter acabado.
Pelo menos eu esperava que tivesse acabado.
Fui serpenteando meu caminho em meio à multidão enquanto eles deixavam a arena. Embora, oficialmente, Kaden tivesse ganhado a luta, Rafe sentiu muito prazer ao apontar para a lama que borrifava a camisa de Kaden.
— Acho que, no fim das contas, você deveria ter tirado a camisa — disse ele.
— Deveria mesmo — foi a resposta de Kaden. — Mas eu não esperava uma queda tão espetacular quanto a sua.
Ambos saíram dali para voltarem à estalagem, tomarem um banho e trocarem de roupa, prometendo retornar em breve. Enquanto eu observava os dois indo embora juntos, nutria esperanças de que aquele fosse o fim dos joguinhos sujos.

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