24 de fevereiro de 2018

Capítulo 32


Então, imagino que em algum momento teremos que conversar sobre o fato de seu ano fora estar quase chegando ao fim. Você tem alguma data em mente para voltar? Imagino que não possa ficar para sempre na casa daquela senhora.
Andei pensando na sua loja de aluguel de roupas… Lou, você poderia usar a minha casa como base, tem muito espaço de sobra aqui, totalmente livre.
Se lhe interessar, você também poderia morar aqui.
Se achar que é cedo demais para isso e não quiser atrapalhar a vida da sua irmã voltando para o apartamento, que tal ficar com o vagão de trem? Devo dizer que essa não é a minha opção preferida, mas você sempre adorou o vagão e não deixa de ser atraente a ideia de tê-la tão perto, do outro lado do jardim…
Há, é claro, outra opção: isso tudo ser demais e você não querer nada comigo. Mas não gosto muito dessa possibilidade — é uma opção aterradora. Espero que você pense o mesmo.
Alguma ideia?
Beijos,
Sam
P.S.: Levei na ambulância um casal que fez cinquenta e seis anos de casados hoje. Ele estava com dificuldade para respirar — nada muito grave — e ela não soltou a mão dele nem por um segundo. Ficou paparicando-o até chegarem ao hospital. Não costumo reparar nessas coisas, mas hoje à noite… Sei lá.
Sinto sua falta, Louisa Clark.

* * *

Percorri toda a extensão da Quinta Avenida, a via engarrafada e os turistas vestidos em cores vivas atulhando as calçadas, e pensei em como uma mulher é sortuda quando encontra não apenas um, mas dois homens extraordinários para amar — e como é uma dádiva quando eles também a amam. Pensei em como somos moldados pelas pessoas que nos cercam e como precisamos ser cuidadosos ao escolhê-las exatamente por esse motivo. Então pensei também que, apesar de tudo, no fim talvez seja necessário perder todas elas para de fato descobrirmos quem somos.
Pensei em Sam e nas pessoas que estavam casadas havia cinquenta e seis anos, que eu não conhecia, e o nome dele se repetindo na minha cabeça marcou o ritmo dos meus passos, enquanto passava pelo Rockefeller Plaza, pelo esplendor exagerado da Trump Tower, pela St Patrick’s Cathedral, pela enorme e iluminada loja da Uniqlo, com suas telas pixeladas. Passei pelo Bryant Park, pela ampla Biblioteca Pública de Nova York, com todos os detalhes ornamentais e os vigilantes leões esculpidos em pedra, pelas lojas abarrotadas de turistas, vendedores e moradores de rua. Todas as características diárias de uma vida que eu amava, em uma cidade onde ele não morava. Ainda assim — acima do barulho, das sirenes, das buzinas —, percebi que ele estava presente a cada passo.
Sam.
Sam.
Sam.
Então, pensei em como seria voltar para casa.

28 de outubro de 2006
Mãe,
Está a maior correria aqui, mas estou voltando para a Inglaterra!
Consegui o emprego na empresa de Rupe, então vou entregar a carta de demissão amanhã e com certeza logo depois estarei na rua com as minhas coisas em uma caixa — essas empresas de Wall Street não gostam de manter por muito tempo quem pede demissão, pois acham que podem roubar sua lista de clientes.
Então, no ano que vem, serei o diretor executivo de fusões e aquisições aí em Londres. Estava mesmo querendo um novo desafio. Pensei em tirar férias antes — talvez fazer aquela viagem de um mês à Patagônia — e depois arranjar um lugar para morar. Se não for incômodo, você poderia ver isso para mim com alguns corretores? Os bairros de sempre, bem centrais, dois ou três quartos. Estacionamento no subsolo para a bicicleta, se possível (sim, sei que você odeia que eu ande nela).
Ah, e você vai gostar dessa novidade: conheci uma pessoa. Alicia Deware. Ela é inglesa, mas estava aqui visitando amigos e a conheci em um jantar horroroso. Saímos algumas vezes antes de ela ter que voltar para Notting Hill. Um namoro certinho, não no estilo nova-iorquino. Ainda está bem no começo, mas Alicia é divertida. Vou me encontrar com ela quando voltar.
Mas não vá comprar um chapéu para usar no casamento. Você me conhece.
Então é isso! Diga ao papai que o amo — diga que logo, logo, pagarei para ele algumas cervejas no Royal Oak.
Aos novos começos, certo?
Com amor, seu filho.
Beijos,
Will

Li e reli a carta de Will, com suas menções a um universo paralelo e “o que poderia ter sido” pairando delicadamente ao meu redor como a neve. Li nas entrelinhas o que poderia ter sido o futuro dele e de Alicia — ou até o dele e o meu. Mais de uma vez, William John Traynor afastara o curso da minha vida de seus trilhos predeterminados — não com um cutucãozinho, porém com um empurrão enfático. Ao me mandar a correspondência dele, Camilla Traynor sem querer tinha feito com que ele repetisse isso.
Aos novos começos, não é?
Li as palavras de Will mais uma vez, dobrei a carta com cuidado, coloquei-a de volta com as outras e fiquei sentada, refletindo. Então, me servi do que sobrara do vermute de Margot, fiquei olhando para o vazio por um tempo, suspirei, fui até a porta da frente com o notebook, me sentei no chão e escrevi:

Querido Sam,
Não estou pronta.
Sei que já se passou quase um ano e que originalmente tinha dito que esse seria o tempo que eu ficaria aqui — mas a questão é: eu não estou pronta para voltar para casa.
Durante toda a minha vida, acabei tomando conta de outras pessoas, me moldando às necessidades e aos desejos delas. Sou boa nisso. Faço sem sequer perceber. E provavelmente eu faria isso com você também. Não tem ideia de como quero entrar em um voo neste exato momento e simplesmente estar com você.
Mas nos últimos meses algo aconteceu comigo — algo que me impede de fazer isso. Vou abrir a minha loja de aluguel de roupas aqui. Vai se chamar Bee’s knees e ficará em um canto do Vintage Clothes Emporium — os clientes podem comprar das meninas ou alugar comigo. Estamos juntando nossos contatos, dividindo os custos de divulgação, e espero que ajudemos umas as outras a impulsionar os negócios. Vou abrir minha loja na sexta-feira e estou avisando a todos que lembro. Já soubemos do interesse do pessoal da produção de filmes, de revistas de moda e até de mulheres que só querem alugar algo para se vestir com elegância. (Você ficaria espantado com a quantidade de festas temáticas sobre Mad Men que rolam em Manhattan.)
Vai ser difícil e vou ficar sem dinheiro, e à noite, quando estou em casa, quase durmo em pé.
Mas, pela primeira vez na vida, Sam, estou acordando empolgada. Adoro receber os clientes e avaliar o que vai ficar bem neles. Adoro costurar essas roupas lindas para deixá-las como novas. Adoro o fato de todo dia poder reimaginar quem quero ser.
Uma vez você me disse que desde pequeno queria ser paramédico. Bem, eu esperei quase trinta anos para descobrir quem eu queria ser. Esse meu sonho pode durar uma semana ou um ano, mas todo dia vou para o East Village com as malas cheias de roupa e os braços doendo, e tenho a impressão de que nunca estarei pronta, mas, bem, fico cantando de felicidade.
Penso muito na sua irmã. Também penso em Will. É difícil ver pessoas que amamos morrerem jovens, isso nos lembra de que não devemos tomar nada como certo na vida, que é nosso dever tirar o máximo de proveito do que temos. Sinto que finalmente consegui fazer isso.
Então, é o seguinte: eu nunca pedi nada a ninguém. Mas, se você me ama, Sam, quero que se junte a mim — pelo menos até eu descobrir se conseguirei fazer esse projeto dar certo. Andei pesquisando: você teria que passar em uma prova e, ao que parece, o estado de Nova York contrata só em determinadas épocas do ano, mas a cidade está precisando de paramédicos. Você poderia alugar a sua casa para ter uma renda, e poderíamos morar em um apartamento pequeno no Queens ou talvez pegar um mais barato no Brooklyn, e todo dia acordaríamos juntos e… nossa, nada me faria mais feliz. E eu me esforçaria o máximo possível — nas horas em que não estivesse coberta de poeira, traças e lantejoulas soltas — para fazê-lo se sentir feliz por estar aqui comigo.
Acho que quero tudo.
Só se vive uma vez, certo?
Você já me perguntou se eu queria um grande gesto. Aqui vai: estarei onde sua irmã sempre quis estar, na noite de 25 de julho às sete. Você sabe onde me encontrar se a resposta for sim. Se for não, ficarei lá parada por um tempo, apreciarei a vista e simplesmente me sentirei feliz por termos nos reencontrado, mesmo se tiver sido só desse jeito.
Com todo o meu amor, sempre.
Beijos,
Louisa

7 comentários:

  1. Meu capitulo favorito!

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  2. ATÉ QUE ENFIM AMIGA....VOCÊ É O QUE MAIS IMPORTA, ISSO SERVE MUITO PRA GENTE......SE AMAR, SE DESCOBRIR, PERCEBER QUE SOMOS MAIS
    MUITO LINDO ESSE CAPITULO,..PISA MAIS JOJO.

    SABS

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  3. A evolução da Lou é maravilhosa!
    Que mulher se tornou... decidida, generosa e sabe o que quer. Amei!

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  4. Melhor capítulo!!!!!
    A Lou merece tudo mesmo!


    Damares Queiroz!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!