24 de fevereiro de 2018

Capítulo 31

Querida Louisa,
Pois bem, tive a minha primeira boa noite de sono em semanas. Encontrei a sua carta às seis da manhã, ao voltar de um turno noturno, e tenho que lhe confessar que fiquei tão, mas tão feliz que tive vontade de gritar feito um louco e de dançar, mas sou péssimo dançarino e não tinha ninguém com quem falar, por isso soltei as galinhas, me sentei no degrau e contei a elas (que não ficaram muito impressionadas, mas do que elas entendem?).
Então, posso escrever para você?
Tenho coisas a dizer agora. Também passo pelo menos oitenta por cento do meu dia de trabalho com um sorriso bobo estampado. Meu novo parceiro (Dave, que tem quarenta e cinco anos e com certeza não vai me dar romances franceses de presente) diz que estou assustando os pacientes desse jeito.
Conte-me o que está acontecendo na sua vida. Você está bem? Está triste? Não me pareceu triste. Talvez eu simplesmente não queira que você esteja triste.
Converse comigo.
Com amor.
Beijos, Sam

* * *

As cartas chegavam quase todos os dias. Algumas eram longas e mais vagarosas, outras tinham só algumas linhas, poucos rabiscos, ou uma foto dele mostrando partes da casa, que estava completa. Ou das galinhas. Às vezes, as cartas eram longas, exploratórias, ardentes.

Fomos rápido demais, Louisa Clark. Talvez minha mágoa tenha acelerado tudo. Afinal, não dá para se esforçar muito para conquistar alguém depois de terem literalmente revirado as suas entranhas. Então, talvez isso seja bom. Talvez a gente consiga conversar de verdade um com o outro.
Fiquei arrasado depois do Natal. Agora posso lhe contar isso. Gosto de pensar que fiz a coisa certa, mas não fiz. Magoei você e isso me atormenta. Em muitas noites, eu simplesmente desisti de dormir e fui trabalhar na casa.
Recomendo fortemente se comportar como um asno se deseja finalizar uma construção.
Tenho pensado muito na minha irmã. Principalmente no que ela me diria. Você não precisa tê-la conhecido para imaginar do que ela estaria me chamando neste momento.

Dia após dia, as cartas chegavam, às vezes duas em um período de vinte e quatro horas, outras vezes complementadas por e-mails, porém eram em sua maioria apenas longos textos escritos à mão, janelas que me transportavam para dentro da cabeça e do coração de Sam. Alguns dias, eu quase achava melhor não lê-las — tinha medo de retomar a intimidade com o homem que de forma tão abrangente partira meu coração. Em outros momentos, eu acabava descendo a escada correndo, descalça, de manhã, com Dean Martin nos calcanhares, e ficava parada diante de Ashok, balançando o corpo de ansiedade, enquanto ele examinava a correspondência. Ashok fingia que não tinha chegado nada para mim, então tirava uma carta de dentro do paletó e me entregava com um sorriso, enquanto eu disparava escada acima, para saboreá-la com privacidade.
Eu relia as cartas diversas vezes, descobrindo com cada uma o quanto eu e Sam nos conhecíamos tão pouco antes de eu partir. Através delas, aos poucos construí uma nova imagem daquele homem quieto e complicado. Às vezes, as cartas dele me deixavam para baixo:

Sinto muito. Hoje não dá. Perdi dois garotos em um acidente de trânsito. Só preciso ir para a cama.
Bjs
P.S.: Espero que seu dia tenha sido repleto de coisas boas.

Mas isso acontecia poucas vezes. Sam falava sobre Jake, sobre como o garoto lhe dissera que Lily era a única pessoa que de fato entendia como ele se sentia, e como toda semana Sam levava o pai de Jake para fazer a trilha do canal ou o convencia a ajudar com a pintura das paredes da casa nova, só para tentar fazer com que se abrisse um pouco (e parasse de comer bolo). Ele falou das duas galinhas que perdera para uma raposa, das cenouras e beterrabas que estavam crescendo na horta. Revelou como havia chutado a moto feito um louco, desesperado e furioso, no dia de Natal, depois que me deixou na casa dos meus pais, e que não mandara consertar o amassado porque era um bom lembrete de como ele ficou arrasado quando não estávamos nos falando. A cada dia, Sam se abria um pouco mais, e a cada dia eu sentia que o conhecia um pouco melhor.

Eu lhe contei que Lily veio aqui hoje? Finalmente disse a ela que você e eu temos conversado. Lily ficou roxa e engasgou com um chiclete. É sério. Achei que ia ter que fazer a manobra de Heimlich nela.

Eu respondia as cartas nas horas em que não estava trabalhando nem levando Dean Martin para passear. Descrevia para Sam pequenas vinhetas da minha vida, contava sobre como estava catalogando e consertando com cuidado os itens do guarda-roupa de Margot, mandava fotos das peças que me serviam como uma luva (ele me disse que prendia essas na cozinha). Contei a ele como a ideia de Margot de uma loja de roupas usadas fincara raízes na minha imaginação e como eu não tirava o projeto da cabeça. Falei de minhas outras correspondentes — os cartõezinhos delicados que recebia de Margot, ainda radiante de alegria por ter sido perdoada pelo filho; e os cartões estampados com flores que Laynie, nora de Margot, me mandava, me atualizando sobre as pioras na condição de saúde da sogra e agradecendo por eu ter aproximado mais o marido dela da mãe, mencionando também sua tristeza pelo fato de a reconciliação ter demorado tanto a acontecer.
Contei a Sam que tinha começado a procurar apartamento, que saía com Dean Martin para ver áreas da cidade que ainda não conhecia — Jackson Heights, Queens, Park Slope —, tentando perceber se eu correria o risco de ser assassinada enquanto dormia e tentando não arregalar os olhos diante do preço absurdo do metro quadrado.
Contei também sobre os meus jantares com a família de Ashok, que agora eram semanais, como as trocas de ofensas casuais entre eles e o amor evidente que sentiam um pelo outro, o que me dava saudade da minha própria família.
Disse que toda hora pensava no meu avô — com muito mais frequência do que quando ele estava vivo —, e como a minha mãe, agora livre de toda responsabilidade, não conseguia parar de chorar por ele. Revelei como, apesar de eu estar passando mais tempo sozinha do que havia passado em anos, apesar de estar morando naquele apartamento grande e vazio, curiosamente não me sentia nem um pouco solitária.
E, aos poucos, permiti que ele soubesse o que significava para mim tê-lo de novo em minha vida, ter a voz dele em meu ouvido de madrugada, saber que eu significava algo para ele. O fato de senti-lo como uma presença física, apesar dos quilômetros que nos separavam.
Finalmente, disse a ele que sentia sua falta, mas percebi, ao clicar em Enviar, que aquilo na verdade não resolvia nada.

* * *

Nathan e Ilaria chegaram para jantar. Nathan trouxe algumas cervejas e Ilaria, um prato apimentado de carne de porco e feijão que ninguém quisera na casa dos Gopnik. Não deixei de pensar na frequência com que Ilaria cozinhava pratos que ninguém queria. Na semana anterior, ela aparecera com um prato de camarão ao curry, que eu me lembrava muito bem de Agnes mandando que nunca mais fosse servido.
Nós nos sentamos lado a lado no sofá de Margot, com as tigelas de comida no colo, molhando pedaços de pão de milho no encorpado molho de tomate e tentando não arrotar um na cara do outro enquanto conversávamos acima do barulho da televisão. Ilaria pediu notícias de Margot, então se benzeu e balançou a cabeça com tristeza quando repassei as informações que tinha recebido de Laynie. Ela, por sua vez, me contou que Agnes banira Tabitha do apartamento, o que causou certo estresse para o Sr. Gopnik, que preferira lidar com esse rompimento específico passando ainda mais tempo no trabalho.
— Para ser justo, tem muita coisa acontecendo no escritório — argumentou Nathan.
— Tem muita coisa acontecendo do outro lado do corredor — revelou Ilaria, com a sobrancelha erguida. — A puta tem uma filha — completou baixinho, secando as mãos em um guardanapo, quando Nathan se levantou para ir ao banheiro.
— Eu sei — falei.
— Ela está vindo visitar, com a irmã da puta. — Ilaria fungou e tirou um fio solto da calça. — Pobre criança. Não tem culpa de vir visitar uma família de loucos.
— Você vai tomar conta dela — comentei. — É boa nisso.
— Que cor de banheiro é essa?! — exclamou Nathan, voltando para a sala. — Achei que ninguém fazia azulejos de banheiro em verde-menta. Sabiam que lá tem um hidratante de 1974?
Ilaria ergueu as sobrancelhas e franziu os lábios.
Nathan foi embora às 21h15, e, depois que ele saiu, Ilaria abaixou a voz, como se ele ainda pudesse ouvir, e me contou que Nathan estava saindo com uma personal trainer de Bushwick, que queria que ele fosse vê-la toda hora. Entre a garota e o Sr. Gopnik, ele mal tinha tempo para conversar com mais ninguém. O que se podia fazer?
Respondi que nada. As pessoas simplesmente vão fazer o que quiserem.
Ela assentiu, como se eu tivesse mostrado grande sabedoria, e também foi embora.

* * *

— Posso lhe perguntar uma coisa?
— Claro! Nadia, meu bem, leve isto para a sua avó para mim?
Meena se inclinou para entregar um copinho plástico com água gelada para a filha. A noite estava muito quente e todas as janelas do apartamento de Ashok e Meena tinham sido abertas. Apesar dos dois ventiladores que giravam preguiçosamente, o ar teimava em não se mover. Estávamos preparando o jantar na cozinha minúscula e cada movimento parecia fazer uma parte de mim grudar em algo.
— Ashok já feriu você?
Meena se virou depressa do fogão para me encarar.
— Não estou falando fisicamente. Só…
— Se já feriu os meus sentimentos? Se ele aprontou comigo? Não muito, para ser sincera. Esse na verdade não é muito o jeito dele. Uma vez, ele me zoou, dizendo que parecia uma baleia quando estava grávida de quarenta e duas semanas de Rachana, mas depois que superei o efeito dos hormônios, meio que fui obrigada a concordar com ele. E vou te dizer… ele pagou caro por ter dito isso! — contou ela, dando uma gargalhada aguda, então esticou a mão para pegar o pote de arroz no armário. — É o cara de Londres de novo?
— Ele escreve para mim. Todo dia. Mas eu…
— Você o quê?
Dei de ombros.
— Estou com medo. Eu o amei demais. E foi tão ruim quando terminamos. Acho que só estou com medo de que, ao me permitir me apaixonar por ele de novo, esteja me arriscando a sofrer ainda mais. É complicado.
— É sempre complicado. — Ela secou as mãos no avental. — A vida é assim. Então me mostre.
— Mostrar o quê?
— As cartas. Assuma. Não finja que não carrega todas com você por aí o dia inteiro. Ashok disse que você fica meio derretida quando lhe entrega uma delas.
— Achei que os porteiros deveriam ser discretos.
— Ele não guarda segredos de mim. Você sabe disso. Estamos muito envolvidos nas reviravoltas de sua vida por lá.
Meena riu e estendeu a mão, gesticulando com impaciência. Hesitei só por um segundo, então peguei as cartas com cuidado na bolsa. E, alheia às idas e vindas dos filhos pequenos, à risada abafada da mãe assistindo a uma comédia na televisão no cômodo ao lado, ao barulho, ao suor e ao clique-clique do ventilador de teto, Meena se debruçou sobre as cartas e começou a ler.

É a coisa mais estranha, Lou. Passei três anos construindo essa maldita casa. Obcecado com as molduras certas para as janelas, com o melhor modelo de chuveiro para o boxe e se deveria comprar soquetes brancos de plástico ou de níquel polido. E agora ela está pronta. Ou o mais pronta que vai ficar. E estou sentado aqui sozinho, na minha sala imaculada, pintada no tom perfeito de cinza-claro, com o aquecedor que queima madeira recondicionada e as cortinas triplas com entretelas que minha mãe me ajudou a escolher, e fico me perguntando… ora, para quê? Para que eu construí isso?
Acho que eu precisava de uma distração depois da perda da minha irmã. Construí uma casa para não ter que pensar. Construí uma casa porque precisava acreditar no futuro. Mas, agora que a terminei, olho esses cômodos vazios e não sinto nada. Talvez um pouco de orgulho por finalmente tê-la terminado. Mas e fora isso? Sinto absolutamente nada.

Meena ficou olhando para as últimas linhas por bastante tempo. Então, dobrou a carta, colocou-a com cuidado na pilha e me devolveu todas.
— Ah, Louisa — disse ela, com a cabeça inclinada para o lado. — Pelo amor de Deus, garota.

1442, Lantern Drive
Tuckahoe
Westchester, NY
Querida Louisa,
Espero que você esteja bem e que o apartamento não esteja lhe dando muito trabalho. Frank disse que os empreiteiros vão dar uma olhada aí daqui a duas semanas — você poderia ficar em casa para recebê-los? Mais tarde lhe passaremos os detalhes sobre a empresa.
Margot não anda com disposição para escrever muito esses dias — agora muitas coisas são cansativas para ela e os remédios a deixam um pouco debilitada —, mas achei que você gostaria de saber que ela está sendo bem cuidada. Decidimos que, apesar de tudo, não conseguimos suportar a ideia de mandá-la para a casa de repouso, então ela vai continuar conosco, com a ajuda da equipe médica, que é muito gentil. Margot ainda tem muito a dizer ao Frank e a mim, ah, tem, sim! Ela nos faz correr de um lado para outro feito doidos na maioria dos dias! Não me importo. Na verdade, gosto de ter alguém de quem cuidar, e nos dias bons de Margot é uma delícia ouvir todas as histórias dela de quando Frank era pequeno. Acho que ele também gosta de ouvi-las, embora nunca admita. São farinha do mesmo saco, aqueles dois!
Margot me pediu para lhe perguntar se você se importaria de enviar outra foto do cachorro. Ela gostou tanto da que você mandou! Frank a colocou em um lindo porta-retratos de prata ao lado da cama dela e sei que a foto é um grande conforto para Margot, agora que ela passa tanto tempo em repouso. Não acho esse cachorro tão agradável de se olhar quanto ela obviamente acha, mas gosto não se discute.
Ela manda muito amor para você e disse que espera que ainda esteja usando a linda meia-calça listrada. Não sei se isso é efeito dos remédios, mas achei que a intenção dela era boa!
Com todo o meu carinho,
Laynie G. Weber

— Você soube?
Eu estava saindo com Dean Martin para ir ao trabalho. O verão já tinha começado a mostrar bem a que viera, cada dia mais quente e mais úmido do que o anterior, por isso a curta caminhada até o metrô fazia a roupa colar nas minhas costas, enquanto os entregadores expunham a pele clara queimada de sol, xingando os turistas que atravessavam a rua sem olhar para os lados. Mas eu estava usando meu vestido psicodélico dos anos sessenta, que Sam tinha me dado, e sapatos de salto de cortiça, com flores cor-de-rosa na tira. E, depois do inverno que eu tivera, os raios de sol em meus braços eram como um bálsamo.
— Soube do quê?
— Da biblioteca! Ela foi salva! O futuro dela está garantido pelos próximos dez anos! — revelou Ashok, me passando o celular. Então parei no tapete e levantei os óculos escuros para ler a mensagem de Meena. — Eu não acredito. Uma doação anônima em homenagem a um cara que já morreu. O… espere, está aqui. — Ele rolou a mensagem com o dedo. — Em memória de William Traynor. Mas quem se importa com o nome do cara! Patrocínio por dez anos, Louisa! E a câmara municipal concordou! Dez anos! Nossa. Meena está nas nuvens. Ela tinha certeza de que perderíamos essa.
Dei uma olhada no celular e depois devolvi para ele.
— É uma boa notícia, não é?
— É incrível! Quem poderia imaginar, Louisa? Hein? Quem poderia imaginar? Os mais fracos ganharam uma. Viva!
O sorriso de Ashok era enorme.
Naquele instante senti uma emoção crescer dentro de mim, uma sensação de alegria e uma expectativa tão grande que foi como se por um segundo o mundo tivesse parado de girar, como se só existíssemos eu e o universo e um milhão de coisas boas que poderiam acontecer se mantivesse a determinação.
Olhei para Dean Martin no chão e depois para o saguão de entrada. Acenei para Ashok, ajeitei os óculos escuros e desci a Quinta Avenida com meu sorriso se alargando a cada passo.

* * *

Eu tinha pedido só cinco anos.

9 comentários:

  1. Eu tinha pedido só cinco anos.

    O que não faz uma consciência pesada...

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  2. "Em memoria de William Traynor..." Sempre choro ao lembrar dele :´( ele marcou a minha vida

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  3. William Traynor 😭💔♥️

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  4. De uma forma ou outra will sempre ajuda a lou em TDs os momentos

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  5. De uma forma ou outra will sempre ajuda a lou em TDs os momentos

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  6. Que bom espalhar o bem por onde passa.
    A Lou sempre faz isso. Ela tem uma luz, que ilumina tudo ao redor...

    Como diz em Cinderela: - Tenha coragem e seja Gentil... 💗📚😍😍😍😍

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  7. Ain gente... *_*
    Não tô podendo com esse livro!S2
    O Will se tornou uma inspiração pra Lou e um anjo da guarda.
    Literalmente Como Eu Era Antes de Você!
    Amando cada momento dela nessa nova fase e torcendo pra que ela fique com Sam.

    Damares Queiroz!

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  8. Me emocionei qndo vi o nome de will.

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  9. Só tô ansiosa para saber como o Sam fica na história. Tenho minhas certas dúvidas se eles voltam. Porém, acho que a Louisa pode optar por uma amizade, mesmo que seja meio estranho.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!