20 de fevereiro de 2018

Capítulo 31

KADEN

Nós ouvimos cada palavra.
Quando a gritaria começou, Sven meio que se levantou, como se fosse sair dali.
— Talvez devêssemos dar a eles um pouco de privacidade... — Então o homem percebeu que a única saída dava direto para a discussão dos dois. Ele voltou a se sentar. A única outra opção teria sido sairmos de fininho em uma fila única pela entrada do cozinheiro, o que teria sido até mais estranho, pois era uma admissão de que estávamos ouvindo a feia discussão.
Então ficamos ali sentados, ouvindo, nos perguntando como aquilo poderia ficar pior.
Palavras como maldição, maldito de um tolo maldito eu decido fizeram sobrancelhas serem erguidas; no entanto, prisioneira foi a palavra que fez com que fôlegos fossem tomados. Tavish soltou um gemido, e Jeb murmurou um xingamento. Sven se inclinou para a frente, com as mãos no rosto, como se desejasse aconselhar o seu pupilo quanto às regras de uma discussão decente. Eu ouvi quando ele murmurou:
— Arrastá-la? — bem baixinho.
Griz estava surpreendentemente calado, e me dei conta de que tinha gostado de ouvir o rei cavar o próprio túmulo. Griz acredita em Lia de um jeito estranho e feroz que eu estava apenas captando de vislumbre. Não importava que ela planejasse deixá-lo para trás. O rei estava mostrando a verdadeira face da realeza, e Griz saboreava cada palavra.
Tentei aproveitar a cálida semente da satisfação que crescia no meu âmago também, mas eu também sabia que a fúria que ouvi na voz de Lia vinha de um lugar de mágoa profunda. Minha satisfação virou algo frio. Depois da minha promessa de honestidade, eu havia dispensado apenas porções da verdade para Rafe sobre o meu beijo com ela, sabendo que isso iria enfurecê-lo, mas fora ela quem havia carregado nas costas o fardo da dor que isso causara. Não queria mais magoá-la.
Estava silencioso lá no pórtico, e Sven quebrou o silêncio enfim.
— O que mais ele poderia fazer? Não é seguro para ela voltar para Morrighan.
— Ela me perguntou certa vez sobre ir para casa — disse Jeb. — Eu sempre presumi que estivesse se referindo a Dalbreck.
— Dalbreck não é o lar dela — falei a ele.
— Vai ser — disse Tavish, desferindo-me um olhar cheio de ódio e sombrio.
— Não há nada com o que se preocupar. — Orrin serviu-se de mais cerveja. — Ela vai recobrar o bom senso.
Tavish soltou uma bufada.
— Com certeza que vai.
— A preocupação de Lia é válida — falei. — O Komizar vai seguir em marcha contra Morrighan e os outros reinos.
— Qual reino primeiro? — perguntou Sven.
— Morrighan.
— E você sabe disso porque provavelmente ele falou a você.
O ponto de Sven era claro. O Komizar não era a melhor fonte para qualquer verdade, e eu sabia como ele era capaz de segurar informações, colocando um governador contra o outro para os próprios propósitos. O Komizar queria Morrighan, mas ele também queria Dalbreck. Ele queria todos os reinos.
— Sim — respondi. — Certamente.
Mas agora eu não tinha certeza disso.
Bodeen abriu um largo sorriso.
— Marchar com o suposto exército de cem mil homens?
Griz pigarreou.
— Não exatamente — disse ele, enfim se pronunciando. — Receio que a princesa não tenha entendido os números direito.
Não, ela não havia mesmo entendido. Eu me lembro de quando retornei ao Sanctum e perguntei ao Komizar como estavam os planos dele. Melhor do que eu esperava. O exército dele havia crescido significativamente nos últimos meses. Os olhos de Sven estavam voltados para Griz, como contas aguçadas, como se ele soubesse que havia mais a caminho.
— Lá vem! — disse Hague, fazendo um aceno no ar com a mão. — A confirmação vinda diretamente da boca do grande bárbaro. Talvez seja ele quem deva falar com a princesa.
Griz virou uma dose de bebida e colocou o copo abaixo com um alto som oco.
— Na verdade, os números estão mais próximos de 120 mil homens. Todos bem armados. — Ele fez um movimento para que Sven passasse a garrafa para que ele enchesse a caneca vazia. — Isso é cerca do dobro das suas forças, não é, capitão?
Jeb soltou um suspiro.
— O triplo.
Hague nada disse. Ele estava boquiaberto como um peixe pendurado em um anzol. Griz tentou conter um sorriso.
Orrin e Tavish balançaram as cabeças, e Sven passou a garrafa para Griz, escrutinizando-o em busca de sinais de uma mentira.
Era verdade. Era por isso que o Komizar estava pressionando tanto os governadores: para ter mais suprimentos a fim de sustentar o seu exército em expansão.
— Eles são apenas bárbaros selvagens! Não são um exército treinando em marcha. Os números não querem dizer nada! — disse Hague, nervoso, dispensando a questão.
Bodeen sentou-se confortavelmente na cadeira.
— Embora o tamanho e as habilidades de um exército vendano continuem sendo questionáveis — interpolou ele — as preocupações do rei não o são. A preocupação dele também é válida. Eu entendo que há uma recompensa pela captura da princesa, e graças ao Komizar e aos seus rumores, provavelmente alguma coisa muito pior espera por ela agora. Acho que ouvi o rei Jaxon descrevendo-a como “a criminosa mais procurada em Morrighan”, não? Essa é uma posição perigosa para qualquer pessoa.
Um beco sem saída. Isso também era verdade, e eu sabia que, do ponto de vista deles, fazia de mim e de Griz insensíveis ao bem-estar de Lia.
Bodeen inclinou a cabeça para o lado, ouvindo, e então se levantou, por fim julgando que era seguro sair dali.
— O que foi aquela última coisa que ela grunhiu enquanto descia as escadas? Jabavé?
— É uma palavra vendana para...
Sven tossiu, cortando-me.
— Não é um termo afetuoso — ele se propôs a dizer. — O rei sabe o que significa. Isso é tudo que importa.
Minha semente de satisfação ficou cálida novamente, mesmo sem querer.

4 comentários:

  1. Prevejo muita treta. Fuga, fuga, fuga! .-.

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  2. Respostas
    1. To querendo saber desde a primeira vez que apareceu hahahaha
      Pra ter deixado o Kaden feliz deve ser alguma coisa f*da

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!