2 de fevereiro de 2018

Capítulo 31

— Não custa nada colocar um gingado quando você entrar lá — disse Gwyneth, inclinando a cabeça na direção da porta da cozinha.
Pauline expressou imediatamente sua desaprovação.
— Esta é uma refeição sagrada, Gwyneth.
— E uma celebração — contra-atacou Gwyneth enquanto colocava seis pombos assados nas bandejas. — Como você acha que todas aquelas Primeiras Filhas vieram a nascer dos Remanescentes? Minha aposta é de que Morrighan sabia muito bem como gingar os quadris.
Pauline revirou os olhos e beijou os dedos em penitência pelo sacrilégio de Gwyneth.
Soltei um suspiro, exasperada.
— Eu não vou flertar com ninguém.
— Mas você já não fez isso? — perguntou-me Gwyneth.
Não respondi. Ela havia testemunhado minha frustração quando entrei pela porta da cozinha. Mais uma vez, Rafe havia passado de atencioso e cálido para frio e distante assim que chegamos na taverna. Eu bati a porta da cozinha atrás de mim e disse, baixinho: “Qual é o problema dele?”. Gwyneth ouviu meus resmungos. Tentei dizer que estava falando de Enzo, mas ela não acreditou nem um pouco nisso.
— E quanto ao loiro? Qual o problema dele?
— Não tem nenhum problema com ele! Por que você...
— Para falar a verdade, eu acho que ele tem olhos mais bondosos — disse Pauline, — E a voz dele é...
— Pauline!
Olhei para ela, incrédula. Ela se virou de novo para arrumar pilhas de feijões-anões.
— Ah, pare de agir como se fosse tão inocente assim, Lia. Você sabe que acha os dois atraentes. Quem não acharia?
Soltei um suspiro. Quem não acharia? No entanto, havia mais em relação ao que eu sentia do que uma simples atração. Salpiquei canela, rosas, dentes-de-leão e nêsperas nas bandejas em volta dos pombos, formando um colorido ninho comestível. Embora eu não tivesse respondido, Gwyneth e Pauline continuavam discutindo os méritos de Rafe e Kaden, e sobre como eu deveria proceder com eles.
— Fico feliz que minhas amizades proporcionem tanto entretenimento para vocês duas.
Gwyneth ladrou.
— Amizades? Rá! Sabe, uma maneira certa de conseguir a atenção de uma pessoa é dando atenção à outra.
— Já chega — falei.
Berdi enfiou a cabeça pela porta oscilante.
— Prontas? — perguntou ela.
Cada uma de nós levou uma bandeja para o refeitório, que Berdi havia iluminado com velas. Ela havia juntado quatro mesas, de modo a criar uma maior no centro do refeitório. Os hóspedes já estavam sentados: Kaden, Rafe e três outros que ocupavam quartos na estalagem. O restante tinha ido para a refeição pública.
Colocamos as bandejas no centro da mesa, e Pauline e Gwyneth sentaram-se nos lugares não ocupados, deixando que eu me sentasse com Kaden à minha esquerda e Rafe adjacente no canto à minha direita. Ele sorriu quando me sentei, e minhas frustrações derreteram-se e viraram outra coisa, algo cálido e cheio de expectativas. Berdi assumiu seu lugar na cabeceira e entoou as memórias sagradas. O restante de nós se juntou a ela, mas notei que Rafe apenas movia os lábios. Ele não sabia as palavras. Será que não tinha recebido instrução alguma? Essa era a mais comum das preces. Até as crianças a conheciam. Olhei de relance para Pauline, que estava sentada do outro lado de Kaden. É, ela também havia notado. Kaden, no entanto, entoava a prece, uniformemente e com clareza. Ele era escolado nas canções sagradas.
As canções foram finalizadas e Berdi agradeceu pelos itens contidos nas bandejas, um por um, por todas as comidas que os Remanescentes haviam encontrado em abundância quando foram entregues em uma nova terra, e, assim que cada um dos alimentos foi abençoado, fomos convidados a comer.
O aposento passou dos sussurros reverentes a conversas festivas. A refeição foi comida apenas com os dedos, de acordo com a tradição, mas Berdi quebrou os costumes ao trazer um dos vinhos de amoras silvestres e servi-lo em uma pequena taça para os presentes. Sorvi o líquido púrpura-escuro e senti sua doçura cálida em meu peito. Virei-me para Rafe, que me observava. Audaz, retribuí seu olhar enquanto mordiscava um pedaço da sedosa carne de pombo e depois, deliberadamente, lambi os dedos cheios de gordura, sem tirar os olhos dele em momento algum.
Rafe engoliu em seco, embora não tivesse comido nada ainda. Ele apanhou um punhado de pinhões e reclinou-se para jogá-los dentro da boca. Um deles caiu na mesa, e eu estiquei a mão para pegá-lo e levar à minha boca. Pisquei devagar, empreendendo todos os truques que eu vira Gwyneth usando e mais alguns. Rafe tomou mais um gole do vinho e puxou o colarinho de sua camisa, o peito dele subindo em uma respiração profunda. E, então, de repente, a cortina de gelo caiu de novo. Ele desviou o olhar e começou a conversar com Berdi.
Meu ressentimento veio à tona. Talvez eu não soubesse flertar. Ou talvez estivesse apenas flertando com a pessoa errada. Olhei para Gwyneth, que estava à minha frente, do outro lado da mesa. Ela inclinou a cabeça na direção de Kaden. Eu me virei e comecei a conversar com ele. Nós falamos sobre a procissão, sobre os sacramentos e sobre os jogos que seriam realizados no dia seguinte. Notei que a sincera atenção que dávamos um ao outro deixava Rafe irritado. A própria conversa dele com Berdi ficou forçada, e ele batia os dedos na mesa. Eu me inclinei mais para perto de Kaden e perguntei de quais jogos ele participaria no dia seguinte.
— Ainda não tenho certeza. — Ele estreitou os olhos, com uma pergunta à espreita atrás deles. O rapaz olhou de relance para minha mão repousada na mesa à sua frente, invadindo seu espaço, e inclinou-se mais para perto de mim. — Há algum dos jogos que eu deveria tentar?
— Ouvi várias conversas animadas sobre a luta na tora, mas talvez você não devesse… — Ergui a mão e coloquei-a no ombro dele. — Como está seu ombro desde que fiz o curativo nele?
Rafe virou a cabeça em nossa direção, interrompendo a conversa que estava tendo com Berdi.
— Meu ombro está ótimo — respondeu Kaden. — Você cuidou bem dele.
Rafe empurrou a cadeira para trás.
— Obrigado, Berdi, por...
Minhas têmporas ficaram em chamas. Eu sabia o que ele estava fazendo. Uma de suas frias e rápidas saídas. Eu o interrompi, levantando-me de um pulo, antes que Rafe pudesse fazer isso, e joguei meu guardanapo na mesa.
— Eu não estou com tanta fome assim, no fim das contas. Com licença!
Kaden tentou se levantar em seguida, mas Pauline segurou o braço dele e puxou-o de volta.
— Você não pode ir embora ainda, Kaden. Eu queria perguntar uma coisa...
Não ouvi o restante das palavras dela. Eu já estava do lado de fora da porta, seguindo com tudo para nossa cabana, humilhada, com minhas frustrações duplicadas em uma fúria ardente. Ouvi Rafe colado atrás de mim.
— Lia! Onde você vai?
— Tomar um banho! — gritei. — Eu preciso de um bom banho frio!
— Foi muito rude da sua parte deixar o jantar tão...
Eu parei e me virei para ele, minha fúria tão completa que era bom eu não estar com minha faca na lateral do corpo.
— Vá embora! Você está me entendendo? Vá! Embora! Agora! — Eu me virei de volta, não esperando para ver se ele tinha ou não me ouvido. Minha cabeça latejava. Afundei as unhas nas palmas das mãos. Quando cheguei na cabana, escancarei a porta. Peguei sabão e uma toalha do guarda-roupa, girei e me deparei com Rafe.
Recuei um passo.
— Qual é o seu problema? Você me diz uma coisa com os olhos e outra com as ações! Todas as vezes em que acho que estamos conectados, você sai batendo os pés! Toda vez que eu quero... — Lutei para conter as lágrimas. — Eu sou assim tão repulsiva para você?
Ele me encarou, sem responder, mesmo que eu estivesse esperando por alguma coisa, e fui afetada pelo horror da verdade. Ele cerrou o maxilar. O silêncio foi longo e cruel. Queria morrer. Os olhos dele estavam frios e acusadores.
— Não é tão simples...
Eu não poderia aguentar mais um comentário evasivo dele.
— Vá embora! — gritei. — Por favor! Vá embora! Para sempre!
Eu o empurrei e senti prazer ao vê-lo tropeçar junto à grade da cama. Segui correndo em direção ao riacho. Ouvi ruídos, meio grito, meio grunhido de animal, estranhos até mesmo para meus ouvidos, embora viessem da minha própria garganta. Rafe ainda estava me seguindo. Eu me virei na trilha para ficar de frente para ele, cuspindo as palavras.
— Em nome dos deuses, por que você está me atormentando? Por que se importa de eu ter saído da mesa? Você começou a se levantar para ir embora primeiro!
O peito dele subia e descia, mas suas palavras gélidas me cortaram.
— Eu só estava indo embora porque você parecia estar ocupada. Está planejando tomar Kaden como outro amante?
Ele podia muito bem ter dado um soco na minha barriga, pois meu fôlego foi completamente tirado de mim. Olhei para ele, ainda tentando compreender suas palavras.
— Outro amante?
— Eu vi vocês — disse ele, perfurando-me com os olhos. — O encontro clandestino de vocês no bosque. Acho que você o chamou de Walther.
Levei vários segundos para entender do que ele estava falando. Quando finalmente compreendi, uma nuvem negra e ofuscante girava atrás dos meus olhos.
— Seu tolo idiota, idiota! — gritei agudamente. — Walther é o meu irmão!
Empurrei-o com as duas mãos, e ele caiu para trás.
Fui rapidamente em direção ao riacho. Desse vez não havia passos atrás de mim. Nenhuma demanda para que eu parasse. Nada. Senti náuseas, como se o pombo gordurento fosse ser expulso do meu estômago. Um amante.
Ele disse aquilo com completo desprezo. Andara me espionando? Vira o que queria ver e nada mais? O que ele esperava de mim? Repassei mentalmente minha reunião com Walther, perguntando-me como poderia ter sido mal interpretada. Não podia, a menos que alguém estivesse procurando por algo impróprio. Fui correndo até Walther. Chamei-o pelo nome. Abracei-o, beijei suas bochechas, dei risada e girei de alegria com ele, e isso era tudo.
Tirando o fato de ter sido um encontro secreto, bem dentro na floresta.
Quando alcancei o riacho, plantei-me em uma grande pedra e esfreguei o tornozelo, que latejava por eu ter ficado batendo os pés sem cuidado.
O que eu tinha feito? Sentia um doloroso nó na garganta. Rafe só me via como uma volúvel empregada de taverna que brincava com vários dos hóspedes da estalagem. Cerrei os olhos e engoli em seco, tentando forçar a dor a ir embora.
Eu confessaria meu erro — e havia cometido um erro perfeitamente glorioso. Presumira coisas demais. Rafe era um hóspede da estalagem. Eu era uma empregada que trabalhava lá. Isso era tudo. Pensei na terrível cena no refeitório. Meu flerte desavergonhado com Kaden, além de tudo que eu dissera a Rafe. O calor ruborizava minha face. Como pude cometer um erro assim?
Deslizei da pedra para o chão, abraçando meus joelhos, os olhos fixos no riacho. Eu não tinha mais interesse em banho algum, fosse quente ou frio. Só queria rastejar até uma cama em que pudesse dormir para sempre e fingir que o dia de hoje jamais tivesse acontecido. Pensei em me levantar, ir até a cabana e me unir ao colchão, mas, em vez disso, meus olhos ficaram travados no riacho enquanto pensava em Rafe, em seus olhos, seu calor, seu desdém, suas suposições vis. Achei que ele fosse diferente. Tudo em relação a Rafe parecia diferente, todas as formas como ele fazia com que eu me sentisse. Achei que tínhamos alguma espécie de conexão especial. Eu, obviamente, estava muito errada.
A cor reluzente do riacho foi se apagando até dar lugar a um cinza sombreado conforme a luz do dia ia sumindo. Eu sabia que estava na hora de ir embora antes que Pauline ficasse preocupada e viesse procurando por mim, mas minhas pernas estavam cansadas demais para me carregarem. Ouvi um ruído, um farfalhar baixinho. Virei a cabeça em direção à trilha, perguntando-me se Pauline já estaria atrás de mim, mas não era ela. Era Rafe.
Fechei os olhos e inspirei profundamente, com dor. Por favorvá embora. Eu não seria capaz de lidar mais com ele. Cerrei os olhos. Ele ainda estava ali, com uma garrafa em uma das mãos e uma cesta na outra. Alto e imóvel, e ainda tão belo e irritantemente perfeito. Olhei inexpressiva para ele, sem trair nenhuma emoção. Vá embora.
Ele deu um passo na minha direção. Balancei a cabeça em negativa, e ele parou.
— Você estava certa, Lia — disse ele baixinho.
Permaneci em silêncio.
— Logo que nos conhecemos, você me chamou de grosseirão sem modos.— Rafe mexeu os pés, parando de falar por um instante para fitar o chão, com uma desajeitada expressão preocupada passando pelo rosto. Ele voltou a olhar para cima. — Sou tudo que você algum dia poderia dizer de mim, e até mais. Inclusive um idiota. Talvez especialmente isso. — Ele se aproximou ainda mais.
Balancei a cabeça em negativa mais uma vez, desejando que ele parasse.
O que ele não fez. Eu me pus de pé, fazendo uma careta enquanto apoiava o peso do meu corpo no tornozelo.
— Rafe — disse baixinho — apenas vá embora. Foi tudo um grande erro...
— Por favor. Deixe-me colocar isso para fora enquanto eu ainda tenho coragem. — A ruga de perturbação aprofundou-se entre suas sobrancelhas. — Minha vida é complicada, Lia. Há tantas coisas que eu não posso explicar. Coisas que você nem mesmo ia querer saber. Mas há uma coisa que você nunca pode dizer de mim... — Ele colocou a garrafa e a cesta no chão, sobre a grama. — A única coisa que você não vai poder dizer de mim é que sinto repulsa por você.
Engoli em seco. Ele acabou com a pouca distância que ainda havia entre nós, e tive que erguer o queixo para vê-lo. Ele baixou o olhar para mim.
— Porque, sempre, desde o primeiro dia em que a vi, tenho ido dormir pensando em você e, todas as manhãs, quando acordo, meus primeiros pensamentos são sobre você. — Ele deu um passo impossivelmente mais para perto de mim, segurando minha face com as mãos em concha, seu toque era tão gentil que mal se sentia. — Quando não estou com você, fico me perguntando onde você está. Fico me perguntando o que está fazendo. Eu penso no quanto desejo tocá-la. Quero sentir sua pele, seus cabelos, passar todas as mechas de seus cabelos escuros pelos meus dedos. Quero abraçar você, segurar suas mãos, seu queixo. — O rosto dele veio chegando mais para perto do meu, e senti a respiração dele na minha pele. — Quero puxar você para perto de mim e nunca soltar — sussurrou ele.
Ficamos ali parados, cada segundo uma eternidade, e lentamente nossos lábios se encontraram, quentes, gentis, sua boca suave junto à minha, nossas respirações se equiparando e então, tão devagar quanto começou, o momento perfeito foi pausado, e nossos lábios se separaram de novo. Ele foi para trás o bastante para olhar para mim, deslizando as mãos do meu rosto para os meus cabelos, entrelaçando os dedos neles. Eu mesma ergui as mãos, deslizando-as atrás de sua cabeça. Puxei-o para junto de mim, nossos lábios mal se tocando, sentindo o formigar e o calor um do outro, e então nossas bocas voltaram a se pressionar.
— Lia?
Ouvimos o chamado distante e preocupado de Pauline e nos afastamos um do outro. Limpei os lábios, arrumei minha blusa e a vi andando pela trilha. Eu e Rafe ficamos ali em pé, como desajeitados soldados de madeira. Pauline parou bruscamente quando nos viu.
— Desculpe. Estava ficando escuro, e quando não a encontrei na cabana...
— Nós já estávamos voltando — respondeu Rafe. Olhamos um para o outro, e ele me transmitiu uma mensagem com os olhos que durou apenas um breve segundo, mas era um olhar pleno e cheio de compreensão, que dizia que tudo que eu tinha sentido e imaginado em relação a nós era verdade.
Ele parou e apanhou a cesta e a garrafa, entregando-as a mim.
— Eu achei que seu apetite pudesse voltar.
Assenti. Sim, parecia que meu apetite já tinha voltado.

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