16 de fevereiro de 2018

Capítulo 30

A porta balançou com as batidas forte do outro lado. Eu sabia que não era Aster ou Eben. Nem mesmo Malich. Kaden tinha dito que Malich estaria ocupado com deveres durante todo o dia. Era à noite que eu deveria estar atenta. Outra batida impaciente. Eu ainda não estava adequadamente vestida ou o com o cabelo. Que tolo não sabia que eu estava trancada ali dentro e uma chave era necessária para abrir a porta? Griz?
Finalmente ouvi o barulho de uma chave na fechadura, e a porta se abriu.
Era o Komizar.
— A maioria das portas no Sanctum não ficam trancadas. Não tenho o hábito de mandar chamar alguém para trazer uma chave. — Ele entrou passando mim. — Vista-se — ele ordenou. — Você tem alguma coisa adequada para cavalgar? Ou será que os Meurasi só a vestiram com seu vestido de retalhos?
Eu não me movi, e ele se virou para olhar para mim.
— Sua boca está aberta, princesa.
— Sim — respondi, minha mente ainda se recuperando. — Eu tenho. Ali. — Andei até a arca, em cima da qual as roupas estavam dobrados e as peguei da pilha. — Eu tenho roupas para cavalgar.
— Então vista-as.
Olhei para ele. Será que ele esperava que eu me vestisse na frente dele?
Ele sorriu.
— Ah. Modéstia. Vocês, membros da realeza... — ele balançou a cabeça e se virou. — Apresse-se.
Ele estava de costas para mim, e a faca de Natiya estava ao alcance sob meu colchão.
Ainda não, uma voz tão profunda e enterrada dizia. Tentei fingir que não estava lá. Era o momento perfeito. Sua guarda estava baixa. Ele não sabia que eu tinha uma arma.
Ainda não.
Seria este o dom, ou eu estava apenas com medo de ter um alvo nas minhas próprias costas? Eu seria um alvo. Fácil. A faca de oito centímetros poderia fazer um bom trabalho numa jugular exposta, mas não poderia contra um exército inteiro, e que bem eu faria a Rafe se estivesse morta? Mas então pensamentos sobre Walther e Greta empurraram a razão de lado. Faça. Meus dedos tremiam. Sem erros desta vez, Lia. Vingança e fuga batalhavam dentro de mim.
— E então? — ele perguntou, impaciente.
Ainda não. Um sussurro tão forte quanto uma porta de ferro se fechando.
— Eu indo. — Arranquei o meu pijama e vesti roupas de baixo limpas, rezando para que ele não se virasse. Ser vista nua deveria ser a menor das minhas preocupações naquele momento, e eu nunca fui particularmente modesta, mas eu me apressei o quanto pude para vestir minhas roupas de montaria, temendo que sua paciência se esgotasse e um pouco surpresa que ele mostrasse qualquer contenção de todo.
— Pronto — falei, colocando a camisa para dentro das calças.
Ele se virou e viu enquanto eu colocava o meu cinto, o cordão de ossos consideravelmente mais alongado, e, finalmente, o colete longo e quente de muitas peles, mais uma vez o símbolo reverenciado dos Meurasi.
Ele tomara banho desde a noite passada. A lama da estrada havia desaparecido, e a barba a curta e meticulosamente aparada, estava feita mais uma vez. Ele se aproximou.
— Seu cabelo — disse ele. — Penteie. Faça algo com ele. Não vergonhe o colete que veste.
Presumi que ele não estivesse me levando para fora para me decapitar, se ele se importava sobre como meu cabelo estava, mas parecia estranho que ele estivesse até mesmo preocupado com minha aparência. Não, não era estranho, era suspeito. Não se tratava de envergonhar o colete. Ele se sentou na cadeira de Kaden e observou cada movimento enquanto eu escovava e trançava o cabelo. Me estudando. Não da maneira lasciva como Malich me encarara inúmeras vezes, mas de uma forma fria e calculista que me fizera guardar meus movimentos ainda mais. Ele queria algo e estava arquitetando como obtê-lo.
Prendi minha trança e ele ficou de pé, pegando a minha capa de um gancho.
— Você vai precisar disso — disse ele, e a colocou sobre meus ombros, tomando seu tempo enquanto fazia um laço em meu pescoço. Fiquei com os pelos eriçados quando os nós dos dedos dele roçaram a minha mandíbula.
— O que eu fiz para merecer todas estas atenções? — perguntei.
 Jezelia —, disse ele, balançando a cabeça. — Sempre tão desconfiada. — Ele levantou meu queixo para que eu tivesse que olhar em seus olhos. —Venha. Deixe-me mostrar-lhe Venda.

* * *

Fiquei espantada sobre como era bom estar em um cavalo novamente. Mesmo que se movesse lentamente por ruas sinuosas, cada movimento nas costas do cavalo era como a promessa de espaços abertos, prados e liberdade – isto é, se eu ignorasse quem montava ao meu lado. Ele mantinha o cavalo perto do meu, e eu podia sentir seu olhar atento, não apenas em mim, mas em todos por quem passamos. Seus olhares curiosos eram simples. Eles tinham ouvido falar da princesa prisioneira de Morrighan.
— Afaste a sua capa um pouco. Deixe-os ver o seu colete.
Olhei para ele com incerteza, mas fiz o que ele pediu. Ele parecera bravo com Kaden sobre como seu dinheiro foi gasto, mas agora parecia absorvido por isso.
Eu estava sendo desfilada, embora estivesse incerto do porquê. Apenas pouco mais de uma semana atrás, ele me fizera marchar pelo Sanctum na frente de seu Conselho, descalça e vestida apenas em um saco de batatas que mal podia ser chamado de vestido. Aquilo eu entendi: rebaixar a realeza e distanciar seu poder. Agora era como se ele estivesse devolvendo esse poder, mas senti na parte mais profunda do meu intestino que o Komizar nunca desistia até mesmo do menor punhado de poder.
Você foi bem acolhida pelo clã dos Meurasi. Seria a acolhida águas em que nem mesmo o Komizar sabia como navegar? Ou talvez sua intenção fosse simplesmente controlar essas boas-vindas.
Nós serpentemos pelo bairro Brightmist, que ficava na parte norte da cidade. Ele parecia estar particularmente de bom humor enquanto montamos pelas ruas, falando com comerciantes, soldados ou com um coletor recolhendo esterco de cavalo para ser transformado em combustível porque, como eu tinha aprendido, mesmo a madeira não era fácil de se encontrar em Venda, e esterco seco de cavalo queimava calorosamente.
Ele me disse que estávamos indo para uma pequena aldeia a cerca de uma hora de distância, mas não me disse para que finalidade. Ele era uma figura imponente na sela, seu cabelo escuro agitando-se na brisa, suas calças de couro preto de montaria brilhando sob um céu nebuloso. Ele tinha salvado Kaden. Tentei imaginar a pessoa que ele tinha sido, quase um menino ele próprio quando trouxe uma criança para cima de seu cavalo e levou-a para a segurança. Em seguida, voltou para acabar com os algozes de Kaden.
— Você tem um nome? — perguntei.
— Um nome?
— Um com o qual você nasceu. Dado por seus pais. Além Komizar — esclareci, embora pensasse que a minha pergunta era óbvia.
Aparentemente, não era.
Ele pensou por um momento e respondeu com firmeza:
— Não. Apenas Komizar.
Passamos por um portão sem guardas no final de uma viela. Pastagens marrons esparsas espalhavam-se diante de nós, e deixamos para trás as avenidas esfumaçadas e lotades da cidade atrás de nós.
— Nós vamos ter que andar mais rápido — disse ele. — Me disseram que você cavalga bem. Mas talvez seja apenas quando bisões estão caindo sobre você?
Sem dúvida Griz e Finch tinham compartilhado sua fuga por um triz... e a minha.
— Eu cavalgo relativamente bem — respondi. — Para um membro da realeza.
Embora este cavalo fosse novo para mim, cravei meus calcanhares e ele disparou frente, comigo rezando para que ele respondesse aos meus comandos. Ouvi o Komizar galopando atrás de mim, e forcei o meu cavalo mais rápido. O ar estava gelado, agulhando meu rosto, e fiquei grata pelo colete de pele sob minha capa. Ele se emparelhou comigo e passou um pouco à frente. Estalei as rédeas, e nós corremos cabeça a cabeça. Senti que meu cavalo ainda tinha vastas quantidades de energia inexplorada e estava tão ansioso quanto eu para mostrar, mas abrandei um pouco, de modo que o Komizar pensaria que tinha me superado, e então, quando ele saltou à frente, voltei para um trote. Ele circulou deu a volta em um círculo, rindo, o rosto corado com o frio, seus olhos com cílios escuros dançando pelo nosso pequeno jogo.
Ele tomou o seu lugar ao meu lado, e nós continuamos a trote com os soldados acompanhando a uma curta distância atrás de nós. Passamos por uma choupana ocasional, a grama tão escassa, a trilha tão pouco viajada, quase não havia um caminho. As pequenas casas de pedra tinham jardins dispersos e cavalos com pelos arrepiados sem carne suficiente sobre as costelas para atrair um segundo olhar de um lobo. A paisagem era áspera, dura – era incrível que alguém fosse capaz de viver aqui. Mas havia algumas áreas de floresta e trechos de terra que eram férteis e verdes, e à medida que irrompíamos em uma elevação, vi a aldeia que era o nosso destino.
Um ninho de cabanas com telhados de palha amontoadas em uma encosta e uma fileira de pinheiros pairando sobre elas. Uma casa comunal destacava-se entre as cabanas, fumaça subindo em círculos preguiçosos de sua chaminé.
— Sant Cheville — disse o Komizar. — O povo das colinas, em aldeias como estas, são os mais pobres, porém mais duros de nossa raça. O Sanctum pode ser o coração, mas esta é a espinha dorsal de Venda. Notícias se espalham rapidamente entre o povo das colinas. Eles são os nossos olhos e ouvidos.
Olhei para o pequeno aglomerado de cabanas. Ele era o tipo de aldeia pela qual eu poderia ter passado uma centena de vezes em Morrighan e ignorado, mas olhando agora, algo se mexeu dentro de mim, uma necessidade desconcertante, urgente. Meu cavalo pateou nervosamente fora de sintonia, como se sentisse isso também. A brisa rodou em volta do meu pescoço, pesada e fria, e vi um buraco alargando-se, profundo, engolindo-me. Eu sabia que você viria. Fiquei impressionada com o mesmo medo e frenesi como no dia em que passei no cemitério com Pauline. Meus dedos apertaram as rédeas. Todos nós fazemos parte de uma história maior também. Que transcende o solo, o vento, o tempo. Eu não queria ser parte desta história. Eu queria correr de volta para Terravin. Voltar para Civica. Voltar para qualquer lugar que não fosse...
Esta é a espinha dorsal de Venda.
Puxei as rédeas, parando o meu cavalo, minha respiração ofegante.
— Por que você me trouxe aqui? — perguntei.
O Komizar olhou para mim, perturbado pela parada repentina.
— Porque serve a Venda. Isso é tudo o que você precisa saber.
Ele estalou as rédeas, fazendo-nos avançar novamente até que estávamos a uma dúzia de metros da cabana comunal. Ele parou e virou-se para os soldados.
— Mantenham-na aqui. À vista.
Ele desceu cavalgando até a aldeia com um soldado seguindo de perto e desmontou, falando com aqueles que tinham saído de suas casas. Nós não podíamos ouvir o que foi dito de onde esperávamos, mas estava claro que os moradores ficaram felizes em vê-lo. Ele se virou e apontou para mim, depois, falou com eles novamente. O povo olhou para mim, balançando a cabeça, e um homem foi tão ousado a ponto de dar um tapinha nas costas do Komizar, um tapa que pareceu um pouco demais como se o Komizar tivesse acabado de conhecer a vitória. Ele deixou um saco de farinha e cevada e voltou para onde esperávamos.
— Eu deveria saber o que você lhes disse? — perguntei.
Ele acenou para que os soldados nos acompanhassem, e seguimos em frente, passando pelo pequeno vilarejo.
— O povo das colinas é muito supersticioso — disse ele. — Posso desprezar esse tipo de pensamento mágico, mas eles ainda se agarram a ele. Uma princesa do inimigo, que possui o dom ainda por cima... eles tomam isso como um sinal de que os deuses estão favorecendo Venda. Isso lhes traz esperança, e esperança pode encher seus estômagos tanto quanto pão. Às vezes, é tudo o que têm através de um longo e amargo inverno.
Parei meu cavalo, recusando-me a ir mais longe.
— Você ainda não falou o que disse a eles sobre mim.
— Eu disse que você fugiu dos porcos inimigos para se juntar às nossas fileiras, chamada pelos próprios deuses.
— Seu mentiroso...
Ele estendeu a mão e me segurou, quase arrancando-me da sela.
— Cuidado, Princesa — ele sussurrou, seu rosto perto do meu. — Não se esqueça com quem está falando... nem quem eu sou. Eu sou o Komizar, e darei a eles o que precisarem para encher suas barrigas roncando. Entendeu?
Os cavalos se mexeram abaixo de nós, e eu temia cair no chão entre eles.
— Sim — respondi. — Perfeitamente.
— Bom, então.
Ele me soltou, e viajamos por vários quilômetros até que o próximo povoado surgiu.
— Então é assim que será o dia inteiro? — perguntei. — Nunca vou conhecer a espinha dorsal de Venda, só serei apontada pelo seu dedo ossudo e comprido?
Ele olhou rapidamente para as mãos enluvadas, e fui aquecida por uma semente de satisfação.
— Você é esquentada — disse ele — e não toma cuidado com a língua. Será que eu poderia confiar em você, ou se você cortaria fora a esperança deles?
Olhei para ele, perguntando-me por que um homem que parecia se alimentar de medo semeado agora estava tão sensivelmente preocupado em semear esperança no povo das colinas. Era realmente apenas para o próximo inverno que ele estava tentando prepará-los, ou estava reforçando-os para outra coisa?
— Eu sei o que significa manter a esperança, Komizar. Muitas vezes, ao cruzar o Cam Lanteux, foi tudo o que me sustentou. Eu não roubaria a esperança deles, mesmo se vier às minhas custas.
Ele me olhou com desconfiança.
— Você é uma garota estranha, Lia. Astuta e calculista, foi o que Malich me disse, e adepta a jogos, o que admiro. Mas eu não admiro a mentira. —Nossos olhares estavam travados, seus olhos negros tentando ler cada linha do meu rosto. — Não me decepcione.
Ele estalou as rédeas e seguiu em frente.
À medida que nos aproximávamos, a porta da casa comunal se abriu e um velho saiu mancando, apoiado em uma vara torta. Eu tinha notado em Venda que havia poucos adultos de costas curvadas e cabelos brancos. Parecia que os idosos eram um tesouro raro. Mais pessoas saíram atrás dele. O homem cumprimentou o Komizar como um igual, não como um de seus súditos temerosos.
— O que o traz aqui? — perguntou.
— Uns poucos presentes para ajudá-los a passar o inverno. — O Komizar sinalizou para um guarda, que levantou um grande pacote amarrado no lombo de seu cavalo e o baixou perto da porta da casa.
— Notícias? — perguntou o Komizar.
O velho sacudiu a cabeça.
— Os ventos estão afiados. Eles cortam tanto o cavaleiro quanto a língua. E os deuses prometem um inverno duro.
— Mas a primavera tem uma promessa maior — disse o Komizar. — E essa esperança pode afastar as garras do inverno.
Eles falavam em enigmas que eu não conseguia entender.
O velho olhou para mim.
— E esta?
O Komizar agarrou meu braço e me puxou para frente de modo que o velho pudesse dar uma boa olhada.
— Uma princesa de Morrighan com o dom. Ela fugiu do inimigo para se juntar às nossas fileiras, chamada pelos próprios deuses. Já dispersando o inimigo. E como pode ver — disse ele, mostrando o meu colete — ela foi acolhida pelo clã dos Meurasi.
O velho apontou um olho semicerrado para mim.
— É mesmo?
O aperto do Komizar em meu braço aumentou. Eu olhei nos olhos do velho, na esperança de transmitir mais com um olhar do que com palavras.
— É como diz o seu Komizar. Eu sou uma princesa, Primeira Filha de Morrighan, e fugi dos meus compatriotas, que são o seu inimigo.
O Komizar olhou de lado para mim, um leve sorriso enrugando o canto de seus olhos.
— E o seu nome, menina? — perguntou o velho.
Eu sabia que você viria.
A voz era tão clara quanto a do velho homem. Fechei os olhos, tentando afastá-la, mas ela só veio mais alta e mais forte. Jezelia, aquela marcada com o poder, aquela marcada com esperança. Abri os olhos. Todos olhavam para mim, em silêncio e à espera, com os olhos arregalados de curiosidade.
— Jezelia — respondi. — Meu nome é Jezelia.
Seus olhos lacrimejantes me estudaram e, em seguida, viraram-se para os outros que estavam atrás dele.
— Jezelia, que foi acolhida pelo clã de Meurasi — repetiu ele.
Eles conversaram em voz baixa entre si.
O Komizar se aproximou, sussurrando em meu ouvido:
— Muito bem, princesa. Um toque convincente.
Era apenas uma farsa inteligente para ele, mas claramente mais para essas pessoas da colina.
O velho voltou-se para nós.
— Aceitam um pouco de thannis para aquecê-los em seu caminho? — ele ofereceu.
O Komizar forçou um sorriso fraco. Até mesmo ele pensava que thannis tinha gosto de terra amarga.
— Precisamos seguir nosso caminho...
— Nós agradecemos a sua bondade — eu o interrompi. — Gostaríamos, sim.
O Komizar me lançou um olhar sombrio, mas não hesitou na frente do velho, como eu sabia que não hesitaria. Nunca seria bom que uma recém-chegada abraçasse a tradição de Venda mais do que seu governante, não importava quão desagradável fosse.
Levei a caneca oferecida aos meus lábios. Sim, sabor de terra amarga, mas não tão ruim quanto larvas brancas que se mexiam. Bebi de coração e devolvi a minha caneca para a mulher que serviu, agradecendo-lhe por sua bondade. O Komizar levou o dobro de tempo que levei para engolir o dele.
Ele me repreendeu quando não exibi uma “demonstração” do meu dom em nossa parada seguinte.
— Você disse as notícias correm rápido entre o povo da colina. Um leve toque é melhor do que uma mão pesada. Deixe-os querendo mais.
Ele riu.
— Astuta e calculista. Malich estava certo.
— E ele está certo sobre tão poucas coisas...
E assim o dia correu, aldeia após aldeia, o Komizar ganhando favores com os presentes, sacos de farinha e pedaços de esperança, comigo como prova de que o inimigo estava tremendo e que os deuses estavam sorrindo para Venda.
À tarde, nós descansamos em um vale enquanto os cavalos bebiam de um riacho. O vento aumentou, o céu escurecera. Apertei minha capa sobre os ombros, de pé além do Komizar e soldados, e examinei a paisagem crepuscular, a terra estéril, lavada nas cores de um rio de seixos escuro.
O dia tinha me mostrado que Venda era um lugar implacável e apenas os mais fortes sobreviviam aqui. Um Remanescente pode ter sido poupado, mas apenas uns poucos fiéis escolhidos tinham sido conduzidos pelos deuses e pela menina Morrighan para uma terra de abundância. Venda não era essa terra. Ela tinha tomado o peso da devastação. Enquanto cavalgávamos, passamos por florestas de pedra, colinas com apenas manchas ocasionais de verde, campos de rocha vermelha queimada, árvores varridas pelo vento torcidas em formas assombradas que as fazia parecer vivas, faixas de terras agrícolas onde pequenas culturas eram extraídas do solo duro, e distantes terras mortas onde o Komizar disse que nada vivia ou crescia, terras tão hostis quanto o Infernaterr. E, ainda assim, havia algo irresistível sobre a paisagem.
Tudo o que eu tinha visto eram pessoas que tentavam sobreviver, fiéis aos seus próprios costumes, adicionando um osso de cada vez em cordões, lembrando o sacrifício que o colocava lá e os sacrifícios que ainda seriam feitos, pessoas em trajes bárbaros, como a roupa que eu usava agora. Pessoas que não falavam em grunhidos, mas em notas humildes de gratidão. Eu sabia que você viria. As palavras que eu tinha ouvido ainda me perfuravam.
Uma rajada forte atingiu minhas roupas, e meu cabelo se libertou da trança. Afastei os fios selvagens do rosto e olhei para a paisagem infinita e nuvens escurecendo no horizonte. Com dois cavalos, a que distância eu e Rafe poderíamos correr? Conseguiríamos desaparecer no vazio mesmo que por alguns dias? Porque três dias a sós com ele agora parecia como o presente de uma vida. Eu faria qualquer coisa por isso. Nós estivemos separados por tempo demais.
— Tão profundamente pensativa.
Eu me virei.
— Não o ouvi chegando.
— Não é sábio neste deserto ficar tão perdida em suas reflexões a ponto de esquecer o que está à sua volta. As hienas rondam atrás de presas tarde assim no dia, especialmente por pequenas como você. — Ele olhou na direção em que eu olhava, um horizonte comprido com montanhas subindo e descendo. — Em que estava pensando?
— Eu não sou livre para possuir alguma coisa? Nem mesmo os meus pensamentos?
— Não — ele respondeu. — Não mais.
E eu sabia que ele estava falando sério.
Ele estudou o meu rosto como se estivesse esperando por uma mentira, esperando por algo. Permaneci em silêncio. Segundos se passaram, e pensei que ele poderia me atacar. Ele finalmente balançou a cabeça.
— Se você precisa cuidar de questões pessoais, meus homens e eu viraremos as costas por alguns minutos. Sei como o seu tipo é em relação a sua privacidade. Seja rápida sobre isso.
Eu o vi se afastar, me perguntando porque ele havia cedido. Me perguntando sobre tudo. Ele salvara Kaden, enviara comida para os famintos, era incansável em saber sobre seu reino, indo pessoalmente buscar governadores e encontrar com povos distantes. Será que eu poderia estar errada com relação a ele? Lembrei-me de sua provocação cruel, Você se saiu bem, chievdar, quando puxou a bainha de Walther do espólio capturado. Ele sabia que me deixaria de joelhos. Mas era mais do que isso que alimentava minhas dúvidas sobre ele. Eram seus olhos, famintos por tudo, até mesmo meus próprios pensamentos. Tome cuidado, irmã. O aviso do meu irmão queimava sob minhas costelas.
E, no entanto, quando paramos no último povoado e eu o vi abraçar os anciãos e deixar presentes, vi a esperança de que ele deixou para trás e me lembrei que foi ele quem tinha salvo Kaden da selvageria de seu próprio povo, eu me perguntei se alguma coisa senti no meu âmago realmente importava.

19 comentários:

  1. É assim que tudo começa ,não ceda Lia pelo amor dos Deuses

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  2. Komizar, sempre um misterio...
    Confesso que apesar dele ser cruel eu tenho empatia por ele

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  3. A cada capitulo eu tenho mais certeza que a Lia deveria largar mão do Rafe e do Kaden e liderar os tres reinos sozinha

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    1. Tbm pensei isso ...ela é bem acolhida em venda pelo povo como kaleessi, e princesa de morringhan e se casar com Rafe vira rainha de Dalbreck! O povo nômade a acolheu e ela só falta dominar o norte em q a mãe dela é de lá! Fechou! Kkkkkkk lia vai ser rainha do continente inteiro

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    2. Ela não é Daenerys pra ser Khaleesi kkkkkk aqui o governante se chama Komizar

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  4. Acho que o Komizar vai acabar perdendo no jogo que tá criando com o dom da Lia

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  5. Também tenho empatia por ele, acho que ele passou por momentos difíceis que fizeram com que fosse cruel

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  6. O Komizar só me faz lembrar de Arobynn (trono de vidro pro resto da minha vida msm <3)

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    1. hahaha eu tbm. parece muuuito

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    2. Bah. Também me faz lembrar ele

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    3. Tambem tava pensando nisso. Na verdade, essa conclusão me faz não gostar dele. Pq se ele for igual o Arobynn...

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  7. E a Karina só observando os comentários KKKKKK eu tô sem teorias. Depois do princípe e do assasino eu não sei mais de nada KKKKK.

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  8. As vezes acho que o komizar vai se apaixonar por ela ,pelo menos uma atração por ela, pela personalidade ele tem

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    1. Até eu me apaixonei por ela. Acho que só o Malisch(acho que é assim kk) que não.😄

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  9. Socorro estou shippando o Komizar agora!! KKKK

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  10. Meu pai, tô ansiosa para saber como tudo termina. E os amigos de Rafael que não chegam?!

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  11. Eu gosto do Kaden e torcia pra ela se apaixonar pelo assassino. Mas, Rafe levou meu 💙. E a Lia é uma das heroínas mais fantástica que conheci. Olhe que sou fã da Freyre de Cortes de Espinhos e Rosas.

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  12. Eu acho que ela é descendente de venda

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!