2 de fevereiro de 2018

Capítulo 3

O PRÍNCIPE

Ajustei a fivela na minha mala. Eu tinha o suficiente para conseguir aguentar por duas semanas e também algumas moedas na minha bolsa se levasse mais tempo do que isso. Com certeza haveria uma estalagem ou duas no caminho. Era bem provável que ela não tivesse chegado muito mais longe do que um dia de viagem da cidadela.
— Não posso deixar que faça isso.
Sorri para Sven.
— Você acha que tem escolha?
Eu não era mais seu jovem tutelado para ser mantido longe de encrenca. Eu era um homem crescido, com uns cinco centímetros e uns quinze quilos a mais do que Sven, e com frustração acumulada o bastante para ser um inimigo formidável.
— Você ainda está com raiva. Só se passaram alguns dias. Dê um pouco mais de tempo.
— Não estou com raiva. Impressionado, talvez. Curioso.
Sven arrancou as rédeas do cavalo das minhas mãos, fazendo com que o animal ficasse agitado.
— Você está com raiva porque ela pensou nisso antes de você.
Às vezes, eu odiava Sven. Para um sujeito marcado por cicatrizes de batalha, ele era observador demais. Apanhei as rédeas de volta.
— Só estou impressionado. E curioso — jurei a ele.
— Você já disse isso.
— Sim. — Coloquei a coberta para a sela no dorso do cavalo, deslizando-a para baixo e alisando-a.
Sven não parecia satisfeito com a minha empreitada e continuava a apresentar argumentos contra ela enquanto eu ajustava a sela no animal. Mal dei ouvidos a ele. Apenas pensava no quão bom seria estar longe. Meu pai estava bem mais irritado do que eu, dizendo que se tratava de uma afronta deliberada. Que tipo de rei não consegue controlar a própria filha? E essa era uma das reações mais equilibradas dele.
Meu pai e seu gabinete já estavam posicionando brigadas inteiras em importantes guarnições militares remotas, para fortificá-las e jogar na cara de Morrighan o que era de fato força decisiva. A tensa aliança havia caído de cabeça no chão, mas os olhares pesarosos de minha mãe eram ainda piores do que as bravatas do gabinete e as teorias da conspiração. Ela já estava começando a discutir o assunto de encontrar outra noiva para mim em um dos Reinos Menores, ou até mesmo dentre nossas próprias famílias nobres, fugindo totalmente do que eu queria discutir: o motivo pelo qual esse casamento seria realizado em primeiro lugar.
Coloquei o pé no estribo e subi na sela. Meu cavalo bufou e bateu as patas no chão, tão ansioso quanto eu para ir embora dali.
— Espere! — disse Sven, colocando-se no meu caminho, um movimento tolo para alguém com seu considerável conhecimento sobre cavalos – especialmente um cavalo como o meu. Ele se conteve e foi para o lado. — Você nem mesmo sabe para onde ela fugiu. Como vai encontrá-la?
Ergui as sobrancelhas.
—Você não tem confiança alguma em suas habilidades, Sven? Lembre-se de que aprendi com o melhor.
Eu quase podia vê-lo xingando a si mesmo. Ele sempre esfregava isso na minha cara quando eu perdia o foco, puxando minhas orelhas quando eu ainda era duas cabeças menor do que ele, lembrando-me de que eu tinha o melhor professor e de que não deveria desperdiçar seu valioso tempo. É claro que nós dois percebíamos a ironia da situação. Ele estava certo. Eu realmente tive o melhor professor. Sven ensinou-me muito bem. Fui entregue a ele como aprendiz aos oito anos, tornei-me um cadete aos doze, fiz meu juramento aos catorze e era um soldado pleno aos dezesseis. Eu havia passado mais anos sob a tutela de Sven do que com meus próprios pais. Eu era um soldado bem-sucedido, em grande parte por causa dele, e excelente em todo o meu treinamento, o que tornava isso tudo ainda mais irônico. Eu era provavelmente o mais inexperiente soldado da história.
As lições de Sven incluíam exercícios sobre história militar e os feitos de um ancestral ou outro (havia muitos deles). A realeza de Dalbreck sempre tivera credenciais militares, inclusive meu pai. Ele chegou, de forma legítima, a ser general, enquanto seu próprio pai ainda estava no trono, mas por eu ser o único herdeiro do único herdeiro do meu avô, minha carreira militar foi muitíssimo limitada. Eu nem mesmo tinha um primo para me substituir. Cavalgava com uma unidade militar básica, mas nunca tinha permissão para ir nas linhas de frente, tendo o calor da batalha há muito tempo sido resfriado quando eu era levado a qualquer campo, e até mesmo então, eles me cercavam com os mais fortes do esquadrão, como garantia extra de proteção contra alguma fúria súbita.
Para compensar isso, Sven sempre me dera doses duplas dos mais baixos e sujos serviços do esquadrão, para suprimir quaisquer rumores de insatisfação quanto a algum favorecimento por causa da minha linhagem, desde limpar o cocô dos estábulos e lustrar as botas dele a carregar os mortos para fora do campo. Eu nunca vi ressentimento nas faces dos meus camaradas soldados, nem ouvi isso dos seus lábios, mas sempre tive muita piedade da parte deles. Um soldado inexperiente, não importa o quanto tenha sido treinado com excelência, não era de forma alguma um soldado.
Sven montou em seu cavalo e seguiu cavalgando junto comigo. Eu sabia que ele não iria longe. Por mais que resmungasse em relação aos meus planos — porque era atado pelo dever a fazer exatamente isso —, ele também tinha obrigações devido ao forte elo que havíamos forjado durante os anos que passamos juntos.
— Como vou saber onde você está?
— Não vai saber. Ora, isso é algo para se pensar, hein?
— E o que vou dizer aos seus pais?
— Diga a eles que fui ao pavilhão de caça para ficar me remoendo o verão todo. Eles vão gostar de ouvir isso. Seria um refúgio belo e seguro.
— O verão inteiro?
— Veremos.
— Alguma coisa pode acontecer.
— Sim, pode. Espero que aconteça. Você não está melhorando a sua situação, sabia?
Fiquei observando-o com minha visão periférica, enquanto inspecionava meus equipamentos, um sinal de que ele já estava resignado com meu desaparecimento no desconhecido. Se eu não fosse o herdeiro do trono, ele não teria pensado duas vezes. Sven sabia que eu estava preparado para o inesperado e para o pior. Minhas habilidades tinham sido provadas, ao menos nos exercícios do meu treinamento. Ele soltou um resmungo, sinalizando sua aprovação relutante. À nossa frente, havia uma estreita ravina em que dois cavalos não mais conseguiriam caminhar lado a lado, e eu sabia que seria este o ponto de partida dele. O dia já estava quase no fim.
— Você a confrontará?
— Não, provavelmente nem mesmo vou falar com ela.
— Que bom, é melhor que não faça isso. Se fizer, tome cuidado com o jeito como pronuncia os Rs e os Ls, porque isso vai entregar a região de onde você é.
— Pode deixar — disse, para garantir a ele que eu tinha pensado em tudo, mas esse detalhe me escapara.
— Se precisar me enviar uma mensagem, escreva-a no idioma antigo, para o caso de ser interceptada.
— Não vou enviar mensagem nenhuma.
— Seja lá o que fizer, não diga a ela quem você é. Um chefe de Estado de Dalbreck interferindo em solo Morrighan poderia ser interpretado como um ato de guerra.
— Você está me confundindo com meu pai, Sven. Não sou um chefe de Estado.
— Você é o herdeiro do trono e representante de seu pai. Não torne as coisas piores para Dalbreck nem para seus camaradas soldados.
Cavalgamos em silêncio.
Por que eu estava indo? Qual era o propósito disso se eu não a traria de volta nem falaria com ela? Eu sabia que esses pensamentos estavam rodopiando na cabeça de Sven, mas não era o que ele havia imaginado. Eu não estava com raiva porque a Princesa pensara em escapulir antes de mim. Havia muito tempo que eu tinha pensado nisso, logo que o casamento fora proposto pelo meu pai, mas ele havia me convencido de que a união seria para o bem de Dalbreck e todo mundo faria vista grossa se eu optasse por ter uma amante depois do casamento. Eu estava com raiva porque ela teve a coragem de fazer o que eu não tive coragem de fazer! Quem era essa menina que metia o nariz entre dois reinos e fazia o que desejava? Eu queria saber!
Quando fomos nos aproximando da ravina, Sven quebrou o silêncio.
— Foi o bilhete, não foi?
Um mês antes do casamento, Sven havia entregado a mim um bilhete da Princesa. Um bilhete secreto, que ainda estava selado quando o recebi das mãos dele. Os olhos dele nunca tinham chegado a ver seu conteúdo. Li e ignorei a mensagem. Provavelmente não deveria ter feito aquilo.
— Não, não estou indo por causa do bilhete. — Dei um leve puxão nas rédeas e parei, virando-me para ficar cara a cara com ele. — Você realmente sabe, Sven, que isso não tem mesmo a ver com a Princesa Arabella, não sabe?
Ele assentiu. Isso já devia ter acontecido há muito tempo. Sven esticou a mão, deu tapinhas amigáveis no meu ombro e então voltou seu cavalo novamente na direção de Dalbreck sem dizer mais nada. Continuei descendo a ravina, mas, depois de uns poucos quilômetros, levei a mão até meu colete e puxei de seu bolso interno o bilhete. Olhei para as garatujas rabiscadas às pressas. Não era exatamente uma missiva real.

Eu gostaria de inspecioná-lo antes do dia de nosso casamento.

Enfiei o bilhete de volta no bolso.
Assim ela haveria de fazer.

3 comentários:

  1. Kkkkkkk e ela achando ele feio eu aqui mds que foda ele..😂😂

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!