14 de fevereiro de 2018

Capítulo 3. O perigo sobrevoa o Elite

Passava das seis horas da tarde e a noite caía depressa. Já no escuro, o público que havia vibrado com a sessão de ginástica era empurrado para fora do ginásio pelos homens de cara feia e terno preto.
Eram centenas de pessoas que surgiam dos grandes portões da área esportiva da escola, aumentando a confusão que tinha tomado conta das ruas em torno do Colégio Elite. Tudo estava cercado por policiais e soldados com cachorros, que formavam uma muralha para manter a distância inúmeros curiosos, repórteres insistentes, cinegrafistas nervosos, iluminadores de televisão tropeçando em fios, e grupos de piqueteiros que empunhavam faixas e bandeiras, berrando palavras de ordem contra o presidente americano, contra o presidente brasileiro e contra qualquer tipo de autoridade de que se lembrassem.
Miguel tinha sido um dos primeiros a sair da área esportiva, ainda ouvindo os aplausos da plateia, que gritava o nome de Magrí sem parar.
“Magrí... Você é incrível, minha querida...”
Novamente sentiu um aperto no coração, como acontecia toda vez que
pensava na menina. Suspirou e sacudiu a cabeça, espantando a lembrança. No lugar dela, estampou-se a figura elegante de Peggy MacDermott, a filha do presidente americano. Uma garota diferente, perturbadora... E Miguel estava perturbado.
Durante a apresentação, tinha ficado no alto da arquibancada, junto com um grupo de amigos barulhentos de sua classe. Como sempre, os Karas evitavam aparecer juntos em público. Assim, tanto ele quanto Crânio, Calú e Chumbinho tinham assistido de diferentes pontos da plateia à apresentação de Magrí, de Peggy e das outras garotas.
Miguel foi buscar a bicicleta no pátio de estacionamento do colégio pensando que, no meio da multidão que ocupava cada metro quadrado da rua, seria difícil encontrar seus amigos. “Há quanto tempo a gente nem se reúne... Mais de três meses! Para mim, é como se fossem cinco anos. Dá uma vontade de... de quê? Bom, confusões nesse mundo até que não faltam. Qual a próxima que os Karas vão ter de enfrentar?”.
A muito custo, conseguiu atravessar aquele mar de gente e já estava a mais de cem metros do Elite, pedalando para casa, quando ouviu o ruído das hélices do helicóptero, sobrepondo-se ao barulho da multidão. No meio de um grupo de piqueteiros, Crânio ficava na ponta dos pés para tentar localizar os amigos.
“Onde estará Miguel? E Calú? Bom, o pequeno Chumbinho eu nunca vou conseguir localizar no meio dessa gente... E Magrí? Será que ela vai continuar com a amiga americana?”.
Magrí... Ela era a sua... Sua o quê? Amiga? Irmã de sangue e coragem do grupo dos Karas? Ou... namorada?
Sempre que Crânio tentava falar-lhe de amor, Magrí cantarolava uma música que fizera grande sucesso no encerramento da Olimpíada de Barcelona:
— Amigos para síempre, you will always be my friend...
Ignorando a multidão que o cercava, Crânio isolava-se com esses pensamentos quando o ruído do motor de um helicóptero despertou-o novamente para a realidade. Calú assistira à sessão de ginástica junto de um grupo de atores do elenco de teatro do Elite, derretendo-se a cada evolução que Magrí fazia na quadra.
“Magrí...”
Mas, aos poucos, a figura da visitante americana começava a chamar-lhe a atenção.
“Essa Peggy não é tão boa atleta quanto Magrí. Mas ela é... hum... uma gatinha!”
O ensaio da peça que o jovem ator protagonizava tinha sido adiado para o dia seguinte por causa da visita da americana que agora fazia seu coração bater mais acelerado.
“Teatro... Puxa vida! Era bem outro o tipo de peça que eu gostaria de representar agora!”, o sangue circulava forte por suas artérias ao pensar nos amigos, ao pensar nos Karas. “Viver de verdade é muito melhor do que representar. Quando é que os Karas vão entrar em ação novamente?”
Tinha sido com uma das atrizes, a mais bonitinha delas, que Calú saíra do ginásio, deparando com a multidão que lotava a rua onde ficava a entrada da área esportiva do Elite. Tentava enxergar por cima da multidão e localizar algum dos rostos que esperava encontrar.
A seu lado fascinada pela beleza do rapaz, a linda atrizinha sussurrava, comuma voz quente que revelava o convite que se seguiria:
— Calú... Que tal a gente sair daqui? Hein? Você não quer ficar comigo?
— Hum? É que... Estou procurando uns amigos...
Com o corpo quase colado ao dele, a garota erguia o rosto e o encarava, com um sorriso doce e quente. Suas mãos pousavam delicadamente no peito do rapaz,
enquanto as pequenas narinas comprimiam-se, como se quisessem aspirá-lo para dentro dela.
Calú percebeu que a menina punha-se na ponta dos pés, oferecendo-lhe os lábios. Nesse momento, o corpo da menina subitamente estremeceu, sacudido pelo ruído estrondoso das hélices de um helicóptero. O gordo detetive Andrade tinha decidido tirar um momento de descanso, depois da organização do esquema de segurança que envolvia o Elite.
— Um gelato, signore?— a dona da lanchonete, que prosperava a olhos
vistos devido à contribuição das mesa das dos estudantes do Colégio Elite, que ficava bem ali em frente, recebia simpaticamente o policial careca, de terno amarrotado. — Nós temos um sorvete especial. Fabricação própria: pistacchio, crema e cioccolato. Un gelato crocante, tipicamente italiano!
— É claro! Pode trazer. E porção dupla, hein?
Logo Andrade recebia a taça com o sorvete pedido e verificava, deliciado,
 que havia três diferentes tipos de cobertura. “Isso é que é sorvete!”, pensava o
detetive, atirando-se com prazer à tarefa de esvaziar a taça transbordante, apesar do friozinho de começo de inverno brasileiro. “Se meus colegas lá da delegacia fizessem uma visitinha a esse colégio, acho que iriam querer transferência para a segurança escolar...”
Pediu mais um pouco de calda de chocolate e voltou a concentrar-se na tarefa de saborear o sorvete.
“Pena que o danado do Hooper deixou a gente de fora! Eu adoro ver a Magrí fazendo aquelas loucuras. Principalmente nas barras. Será que a tal americaninha é melhor do que ela? Duvido...”
Já começava a anoitecer e, de acordo com o programa planejado, em poucos minutos a limusine com a filha do presidente americano deixaria o Elite e ele poderia voltar para casa. Apesar da multidão que cercava a escola, o dia transcorrera na mais doce rotina. A missão de participar do esquema de segurança da menina afinal de contas tinha sido leve.
“Nada aconteceu e nada acontecerá. Felizmente!”
Andrade pensava satisfeito que aquela era uma das poucas vezes em que visitava o Elite sem se meter em alguma aventura mirabolante, junto com os cinco meninos que ele amava como se fossem os filhos que nunca teve.
“Miguel, Magrí, Calú, Crânio, Chumbinho! Que meninos! Bom, parece que
agora eles estão livres de confusões...”, pensava ele, lembrando-se de como aqueles garotos o haviam ajudado em tantas ocasiões. “Chega! Essas loucuras já fazem parte do passado. Felizmente...”
O detetive Andrade já havia raspado o fundo da taça de sorvete quando ouviu o plac-plac das hélices de um helicóptero sobrevoando muito baixo o Colégio Elite.

2 comentários:

  1. “Miguel, Magrí, Calú, Crânio, Chumbinho! Que meninos! Bom, parece que
    agora eles estão livres de confusões...”, pensava ele, lembrando-se de como aqueles garotos o haviam ajudado em tantas ocasiões. “Chega! Essas loucuras já fazem parte do passado. Felizmente...”

    O passado tende a assombrar nos livros...

    ResponderExcluir
  2. Verdade, só que essa paz que o detetive Andrade esta sentindo esta prestes a acabar ! Kkkkkk

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!