24 de fevereiro de 2018

Capítulo 2

Ashok estava organizando grandes fardos de jornal em pilhas numeradas quando eu entrei. Ele se empertigou com um sorriso.
— Bem, bom dia, Srta. Louisa. Como foi a sua primeira manhã em Nova York?
— Foi incrível. Obrigada.
— Você cantarolou “Let The River Run” enquanto caminhava pela rua?
Eu parei de repente.
— Como você sabe?
— Todo mundo faz isso logo que chega a Manhattan. Poxa, até eu faço de vez em quando e não pareço nada com Melanie Griffith.
— Não há mercadinhos por aqui? Tive que andar um milhão de quilômetros para conseguir um café. E não faço ideia de onde comprar leite.
— Srta. Louisa, você deveria ter me falado. Venha cá.
Ele fez um gesto atrás de sua mesa e abriu uma porta, me convidando para entrar em uma sala escura cujas bagunça e decoração confusa destoavam do bronze e do mármore do lado de fora. Havia várias telas com imagens de câmeras de segurança em uma mesa e, entre elas, uma velha televisão e um grande livro-razão, junto com uma caneca, alguns livros de bolso e uma coleção de fotos de crianças exibindo sorrisos desdentados. Atrás da porta havia uma geladeira caquética.
— Aqui. Tome isto. Mais tarde você me dá outra.
— Todos os porteiros fazem isso?
— Nenhum porteiro faz isso. Mas o Lavery é diferente.
— Então onde as pessoas compram mantimentos?
Ele fez uma careta.
— As pessoas neste prédio não compram mantimentos, Srta. Louisa. Elas nem sequer pensam em mantimentos. Posso jurar que metade acha que a comida surge em um passe de mágica, já preparada, em suas mesas.
Ele olhou para trás, baixando a voz.
— Aposto que oitenta por cento das mulheres neste prédio não preparam uma refeição há uns cinco anos. Se bem que metade das mulheres deste prédio não come, e ponto final.
Eu o encarei, então Ashok deu de ombros.
— Os ricos não vivem como você e eu, Srta. Louisa. E os ricos de Nova York… bem, eles não vivem como ninguém.
Peguei a caixa de leite.
— Tudo o que você quiser é entregue aqui. Você vai se acostumar.
Eu queria lhe fazer perguntas sobre Ilaria e a Sra. Gopnik, que aparentemente não era a Sra. Gopnik, e sobre a família que eu estava prestes a conhecer. Mas ele não estava mais olhando para mim, mas para o corredor.
— Bom dia, Sra. De Witt!
— O que esses jornais estão fazendo no chão? Aqui está parecendo uma banca fuleira.
Uma velhinha minúscula estalou a língua com irritação, observando as pilhas de exemplares do The New York Times e do The Wall Street Journal que Ashok ainda estava desembrulhando. Apesar da hora, ela estava vestida como que para um casamento, com um casaco longo cor de framboesa, um chapéu vermelho oval à la Jackie Kennedy e imensos óculos de sol com armação de tartaruga que escondiam o pequeno rosto enrugado. Na ponta de uma coleira, um pug arfante, com olhos esbugalhados, me encarava de forma belicosa (pelo menos achei que me encarava: era difícil ter certeza já que seus olhos apontavam em direções diferentes). Abaixei-me para ajudar Ashok a tirar os jornais do caminho, mas então o cachorro avançou em mim, rosnando, e me levantei depressa, quase caindo em cima do The New York Times.
— Ah, pelo amor de Deus! — disse a voz tremida e imperiosa. — E agora você está aborrecendo o cachorro!
Minha perna sentiu o calor dos dentes do pug, e minha pele se arrepiou com o contato.
— Por favor, se certifique de que esse… esse lixo não esteja mais aí quando voltarmos. Eu já disse ao Sr. Ovitz várias vezes que o prédio está indo ladeira abaixo. E, Ashok, deixei uma sacola de coisas para jogar fora na minha porta. Por favor, tire-a de lá imediatamente, senão o corredor inteiro vai feder a lírio podre. Só Deus sabe quem manda lírios de presente. Flores fúnebres. Dean Martin!
Ashok tocou o chapéu.
— Pode deixar, Sra. De Witt.
Ele esperou que ela fosse embora, então se virou e olhou minha perna.
— Aquele cachorro tentou me morder!
— É. Esse é Dean Martin. Melhor ficar longe dele. É o morador mais mal-humorado do prédio, o que quer dizer muito.
Ashok se abaixou outra vez, colocou o fardo de jornais pesado na mesa e então parou para me despachar.
— Não se preocupe com isto, Srta. Louisa. Esses fardos são pesados e você já tem problemas o bastante com eles lá em cima. Tenha um bom dia.
Ele se afastou antes que eu pudesse perguntar o que tinha querido dizer com aquilo.

* * *

O dia passou voando. Gastei o restante da manhã arrumando o meu quartinho, lavando o banheiro, colocando fotos de Sam, meus pais, Treena e Thom na parede para deixá-lo mais aconchegante. Nathan me levou a uma lanchonete perto de Columbus Circle onde comi em um prato do tamanho de um pneu e bebi tanto café forte que minhas mãos ficaram tremendo no caminho de volta.
Nathan indicou os lugares que poderiam ser úteis para mim — tal bar ficava aberto até mais tarde, o falafel de tal food truck era muito bom, era seguro sacar dinheiro em tal caixa eletrônico… Meu cérebro rodopiava em um turbilhão de novas imagens e informações. Em determinado momento no meio da tarde, me senti zonza, com as pernas pesadas, então Nathan e eu caminhamos de braço dado até o apartamento. Fiquei grata pelo silêncio, pelo interior escuro do edifício, pelo elevador de serviço que me salvou de ter que subir a escada.
— Tire um cochilo — aconselhou ele, enquanto eu tirava os sapatos. — Mas, se eu fosse você, não dormiria mais do que uma hora, senão seu relógio biológico vai ficar ainda mais confuso.
— A que horas você disse que os Gopnik estarão de volta? — perguntei com a voz arrastada.
— Eles costumam voltar lá pelas seis. São três agora, então você tem tempo. Vamos lá, descanse um pouco. Você vai se sentir humana outra vez.
Ele fechou a porta e eu afundei feliz na cama. Estava quase caindo no sono quando me dei conta de que, se deixasse para depois, não conseguiria falar com Sam, então peguei o laptop, por um momento livre do torpor. Está aí?, digitei.
Alguns minutos depois, com um ruído borbulhante, a foto se ampliou e lá estava ele, de volta ao vagão de trem, o corpo enorme debruçado em direção à tela. Sam. Paramédico. Homem-montanha. Namorado-novinho-em-folha.
Sorrimos um para o outro como dois malucos.
— Oi, linda! Como estão as coisas aí?
— Bem! — respondi. — Eu mostraria meu quarto para você, se não fosse bater nas paredes ao virar a tela.
Girei o laptop para que ele visse a glória total do meu quartinho.
— Para mim parece bom. Você está dentro dele.
Olhei a janela cinzenta atrás de Sam. Podia imaginar à perfeição a chuva tamborilando no telhado do vagão, o vidro confortavelmente embaçado, a madeira, a umidade e as galinhas lá fora se abrigando debaixo de um carrinho de mão encharcado. Sam estava olhando para mim e eu esfreguei os olhos, de repente desejando ter passado um pouco de maquiagem.
— Você foi lá no trabalho?
— Fui. Eles acham que poderei recomeçar daqui a uma semana. Tenho que estar bem o bastante para carregar um corpo sem romper os pontos.
Ele levou a mão instintivamente à barriga, onde o tiro o atingira semanas antes — em uma chamada de rotina que quase o matara e consolidara nossa relação — e eu senti algo perturbador e visceral.
— Queria que você estivesse aqui — disse, sem conseguir me conter.
— Eu também. Mas este é o primeiro dia da sua aventura e será ótimo. E daqui a um ano, você estará sentada aqui…
— Aí, não — interrompi. — Estarei na sua casa nova.
— Na minha casa nova — corrigiu ele. — E vamos olhar as fotos no seu celular e eu vou pensar comigo mesmo: Caramba, lá vai ela tagarelar sobre o tempo que passou em Nova York outra vez.
— Então você vai escrever para mim? Uma carta cheia de amor e desejo, salpicada de lágrimas de solidão?
— Ah, Lou. Você sabe que não sou muito de escrever. Mas vou telefonar. E vou estar aí com você daqui a quatro semanas.
— Certo — retruquei, com um nó na garganta. — Ok. É melhor eu tirar um cochilo.
— Eu também — disse ele. — Vou pensar em você.
— De um jeito pornográfico nojento? Ou de um jeito romântico, estilo filme açucarado?
— Qual dos dois não vai me causar problemas?
Ele sorriu.
— Você está com uma carinha boa, Lou — falou, depois de um minuto. — Você parece… animada.
— Eu estou animada. Me sinto como alguém muito, muito cansado que também lá no fundo quer explodir. É um pouco confuso.
Levei a mão à tela, e logo depois ele a cobriu com a sua. Imaginei a sensação do toque.
— Amo você.
Eu ainda me sentia um pouco sem jeito ao dizer aquilo.
— Também amo você. Eu beijaria a tela, mas acho que você só veria os pelos do meu nariz.
Fechei o laptop, sorrindo, e adormeci logo depois.

* * *

Alguém estava gritando no corredor. Acordei atordoada, suada, achando que talvez estivesse sonhando, e me sentei na cama. De fato havia uma mulher gritando do lado de fora do meu quarto. Um milhão de pensamentos passaram zunindo pelo meu cérebro sonado, manchetes sobre assassinatos, Nova York e como denunciar um crime. Para que número eu deveria ligar? Não era o 999, como na Inglaterra. Vasculhei meu cérebro, mas não veio nada.
— Por que eu deveria fazer isso? Por que deveria ficar sentada lá sorrindo enquanto aquelas megeras me insultam? Você não escuta nem a metade do que elas dizem! Você é homem! É como se usasse antolhos!
— Querida, por favor se acalme. Por favor. Agora não é hora nem lugar para isso.
— Nunca há uma hora ou um lugar! Porque sempre tem alguém aqui! Preciso comprar um apartamento só para ter onde discutir com você!
— Não entendo por que você fica tão chateada com a coisa toda. Você precisa dar…
— Não!
Algo se chocou contra o piso de madeira. Eu já estava totalmente desperta, com o coração a mil.
Pairou um silêncio pesado.
— Agora vai me dizer que era uma herança de família.
Pausa.
— Bem, era, era sim.
Um soluço abafado.
— Não estou nem aí! Não estou nem aí! Estou morrendo sufocada na história da sua família. Está me ouvindo? Sufocada!
— Agnes, querida. No corredor, não. Por favor. Podemos conversar sobre isso mais tarde.
Fiquei sentada, imóvel, na beirada da cama.
Houve mais alguns soluços abafados, então silêncio. Esperei, me levantei e fui até a porta na ponta dos pés, colando a orelha nela. Nada. Olhei para o relógio: eram 16h46.
Então lavei o rosto e vesti depressa o uniforme. Penteei o cabelo e saí silenciosamente do quarto, caminhando até a quina do corredor.
Então, parei.
Mais além, no corredor, ao lado da cozinha, uma moça estava encolhida em posição fetal. Um homem mais velho a envolvia nos braços, encostado nos painéis de madeira. Estava quase sentado, com um joelho dobrado e o outro estendido, como se a tivesse segurado e sido derrubado pelo peso. Não dava para ver o rosto da mulher, mas uma perna magra e comprida se estendia de forma nada elegante de um vestido azul-marinho e uma mecha de cabelo louro escondia seu rosto. Os nós de seus dedos estavam brancos onde ela se agarrava a ele.
Observei a cena fixamente e engoli em seco, então o homem levantou a cabeça e me viu. Reconheci o Sr. Gopnik.
— Agora não. Obrigado — disse ele, baixinho.
Com a voz presa na garganta, voltei depressa para o meu quarto e fechei a porta; o sangue pulsava com tanta força nos ouvidos que tive certeza de que dava para ouvir.

* * *

Fiquei olhando para a televisão sem prestar atenção durante a hora seguinte, com a imagem do homem e da mulher entrelaçados gravada na mente. Pensei em mandar uma mensagem para Nathan, mas não soube bem o que escrever.
Em vez disso, às 17h55 saí do quarto, rumando hesitante para o apartamento principal pela porta de conexão. Passei por uma ampla sala de jantar vazia, o que me pareceu um quarto de hóspedes e por duas portas fechadas, seguindo o burburinho distante de uma conversa, com os pés leves no piso parquê. Enfim cheguei à sala de estar e parei na soleira da porta aberta.
O Sr. Gopnik estava sentado perto da janela, ao telefone, com as mangas da camisa azul-clara arregaçadas e a mão na parte de trás da cabeça. Ele gesticulou para que eu entrasse, ainda falando ao telefone. À minha esquerda, uma loura — a Sra. Gopnik? — estava sentada em um sofá antigo, cor-de-rosa, digitando freneticamente em um iPhone. Parecia ter trocado de roupa, e por um instante fiquei confusa. Aguardei, constrangida, até que ele terminou a ligação e se levantou com uma leve careta — que percebi — devido ao esforço. Dei outro passo em sua direção para que ele não precisasse avançar mais e apertei sua mão. Estava morna e seu cumprimento era delicado e firme. A jovem continuava digitando no celular.
— Louisa. Que bom que chegou bem. Imagino que tenha tudo de que precisa.
Ele afirmou aquilo com o tom que as pessoas usam quando não esperam que lhes peçam nada.
— Está tudo ótimo. Obrigada.
— Esta é a minha filha, Tabitha. Tab?
A garota ergueu a mão com um esboço de sorriso, antes de voltar para o celular.
— Por favor, desculpe a ausência de Agnes. Ela foi se deitar por uma hora. Está com uma enxaqueca muito forte. Foi um fim de semana difícil.
Um cansaço vago nublou seu rosto, porém logo desapareceu. Nada em seu comportamento revelava o que eu tinha visto menos de duas horas antes. Ele sorriu.
— Então… Hoje à noite você pode fazer o que quiser, e a partir de amanhã de manhã vai acompanhar Agnes aonde ela quiser ir. Seu título oficial é “assistente” e você sempre estará presente para ajudá-la com o que ela precisar ao longo do dia. Ela tem muitos compromissos… Pedi ao meu assistente que lhe passasse a agenda da família, você receberá e-mails com as atualizações. É melhor checar por volta das dez da noite… Em geral é nesse horário que fazemos mudanças de última hora. Você vai conhecer o restante do time amanhã.
— Ótimo. Obrigada.
Reparei no uso das palavras “do time” e tive um vislumbre de jogadores de futebol americano percorrendo o apartamento.
— O que tem para jantar, pai?
Tabitha falou como se eu não estivesse ali.
— Não sei, querida. Achei que você fosse sair.
— Não sei se vou ter coragem de atravessar a cidade de novo hoje à noite. Talvez fique em casa.
— Faça como quiser, só avise a Ilaria. Louisa, você tem alguma pergunta?
Tentei pensar em algo útil para dizer.
— Ah, e mamãe me pediu para perguntar se você encontrou a gravura. O Miró.
— Querida, não vou discutir isso de novo. A gravura pertence a esta casa.
— Mas mamãe disse que foi ela quem escolheu. Ela está sentindo falta. Você nunca gostou do desenho.
— A questão não é essa.
Transferi o peso do corpo para a outra perna, sem saber se tinha sido dispensada.
— Mas a questão é exatamente essa, pai. Mamãe está sentindo muito a falta da gravura e você nem liga para ela.
— Ela vale oitenta mil dólares.
— Mamãe não liga para o dinheiro.
— Podemos conversar sobre isso mais tarde?
— Mais tarde você vai estar ocupado. Prometi para mamãe que ia resolver isso.
Discretamente, dei um passo para trás.
— Não há nada que resolver. O acordo foi finalizado há dezoito meses. Tudo foi resolvido na época. Ah, querida, aí está você. Está melhor?
Olhei ao redor. A mulher que havia acabado de entrar na sala tinha uma beleza impressionante, com o rosto sem maquiagem e o cabelo louro-claro preso em um coque frouxo. As maçãs do rosto, altas, tinham sardas discretas, e o formato dos olhos indicava a ascendência eslava. Supus que devia ter mais ou menos a minha idade. A mulher avançou, descalça, até o Sr. Gopnik e o beijou, acariciando sua nuca.
— Muito melhor, obrigada.
— Esta é Louisa — apresentou ele.
Ela se virou para mim.
— Minha nova aliada — disse.
— Sua nova assistente — corrigiu o Sr. Gopnik.
— Olá, Louisa.
Ela estendeu a mão fina e apertou a minha. Senti seus olhos me avaliando, como se tentasse entender algo, então ela sorriu e eu não consegui refrear um sorriso.
— Ilaria deixou o seu quarto em bom estado?
Sua voz era suave e tinha uma leve cadência do Leste Europeu.
— Está perfeito. Obrigada.
— Perfeito? Nossa, você é fácil de agradar. Aquele quarto parece um armário de vassouras. Se não gostar de algo é só nos dizer que damos um jeito. Não é, querido?
— Você não morava em um quarto ainda menor, Agnes? — provocou Tabitha, sem tirar os olhos do iPhone. — Lembro que papai me contou que você dividia o quarto com uns quinze outros imigrantes.
— Tab — repreendeu o Sr. Gopnik com um tom de alerta delicado na voz.
Agnes respirou fundo e ergueu o queixo.
— Na verdade, meu quarto era menor. Mas as meninas com quem eu dividia eram muito gentis. Então não havia qualquer problema. Quando as pessoas são gentis e educadas, dá para suportar qualquer coisa, não acha, Louisa?
Engoli em seco.
— Sim.
Ilaria entrou na sala, pigarreando. Estava vestida com a mesma camisa polo e calça escura, com um avental branco por cima. Não olhou para mim.
— O jantar está pronto, Sr. Gopnik — anunciou.
— Tem comida para mim, Ilaria querida? — perguntou Tabitha, com a mão apoiada no encosto do sofá. — Acho que vou ficar por aqui.
A expressão de Ilaria instantaneamente se tornou calorosa. Foi como se outra pessoa tivesse surgido diante de mim.
— É claro, Srta. Tabitha. Sempre faço comida a mais aos domingos para o caso de você decidir ficar.
Agnes ficou parada no meio do cômodo. Vi um lampejo de pânico cruzar seu rosto. Ela tensionou a mandíbula e depois disse:
— Então gostaria que Louisa jantasse conosco também.
Pairou um breve silêncio.
— Louisa? — questionou Tabitha.
— Sim. Seria bom conhecê-la melhor. Você tem algum compromisso para hoje à noite, Louisa?
— Hum… não — gaguejei.
— Então você vai jantar conosco. Ilaria, você disse que fez comida a mais, não é?
Ilaria olhou diretamente para o Sr. Gopnik, que parecia absorto com algo no celular.
— Agnes — disse Tabitha, após um instante. — Você entende que nós não comemos com os funcionários?
— Quem é esse “nós”? Eu não sabia que havia um livro de regras.
Agnes estendeu a mão e observou a aliança com uma calma calculada.
— Querido? Você se esqueceu de me dar o livro de regras?
— Com todo o respeito, e por mais que eu tenha certeza de que Louisa é muito gentil, existem limites — argumentou Tabitha. — E eles existem para o bem de todos.
— Fico feliz em fazer o que for… — comecei. — Não quero causar nenhum…
— Bem, com todo o respeito, Tabitha, eu gostaria que Louisa jantasse comigo. Ela é a minha nova assistente e vamos passar todos os dias juntas. Portanto, não vejo problema em querer conhecê-la melhor.
— Não há problema — disse o Sr. Gopnik.
— Pai…
— Não há problema, Tab. Ilaria, por favor, pode pôr a mesa para quatro? Obrigado.
Os olhos de Ilaria se arregalaram. Ela me encarou, a boca transformada em uma linha fina de fúria reprimida, como se eu tivesse planejado aquela subversão da hierarquia doméstica, então desapareceu na sala de jantar, de onde dava para ouvir o tinido enfático de talheres e copos. Agnes suspirou e soltou um pouco o cabelo. Então me lançou um leve sorriso conspiratório.
— Vamos lá — disse o Sr. Gopnik, após um minuto. — Louisa, você gostaria de uma bebida?

* * *

O jantar foi um evento doloroso e taciturno. Eu fiquei totalmente inibida pela grandiosa mesa de mogno, os pesados talheres de prata e as taças de cristal, além de deslocada por causa do uniforme. O Sr. Gopnik ficou calado a maior parte do tempo e deixou a mesa duas vezes para atender a telefonemas no escritório. Tabitha continuou no celular, deliberadamente recusando-se a interagir com os outros, enquanto Ilaria servia frango com molho de vinho tinto e todas as guarnições, recolhendo os pratos em seguida com uma cara de bunda, como diria a minha mãe. Talvez só eu tenha notado o ruído brusco com que meu prato foi colocado diante de mim e a bufada audível que ela soltava sempre que passava pela minha cadeira.
Agnes mal tocou na comida. Sentou-se de frente para mim e se esforçou para conversar comigo como se eu fosse sua nova melhor amiga, de vez em quando desviando o olhar para o marido.
— Então esta é sua primeira vez em Nova York — comentou. — Em que outros lugares já esteve?
— Hum… não muitos. Comecei a viajar muito tarde. Fiz um mochilão pela Europa há um tempo e antes disso… Ilhas Maurício. E Suíça.
— Os Estados Unidos são muito diferentes. Cada estado tem um ambiente único, eu acho, para nós europeus. Só estive em alguns lugares com Leonard, mas foi como visitar países totalmente diferentes. Está empolgada por estar aqui?
— Muitíssimo — respondi. — Estou decidida a tirar vantagem de tudo o que Nova York tem a oferecer.
— Parece você, Agnes — disse Tabitha melodiosamente.
Agnes a ignorou, mantendo contato visual comigo. Seus olhos eram hipnoticamente lindos, mais estreitos nas pontas levantadas nos cantos. Em duas ocasiões, tive que lembrar a mim mesma de fechar a boca enquanto a observava.
— E me conte sobre a sua família. Você tem irmãos? Irmãs?
Falei sobre minha família da melhor forma que pude, tentando fazê-la parecer-se mais com uma família normal do que com a Addams.
— Então sua irmã está morando no seu apartamento em Londres? Com o filho? Ela virá visitar você? E os seus pais? Sentirão sua falta?
Pensei no que papai disse ao se despedir de mim: “Não se apresse em voltar, Lou! Vamos transformar seu antigo quarto em uma Jacuzzi!”
— Ah, sim. Sentem muito.
— Minha mãe chorou por duas semanas quando deixei a Cracóvia. E você tem namorado?
— Tenho. O nome dele é Sam. Ele é paramédico.
— Paramédico! Tipo um médico? Que legal. Por favor, mostre uma foto. Adoro ver fotos.
Peguei o celular no bolso e passei as fotos de Sam até encontrar a minha preferida: ele sentado no terraço do meu prédio com seu uniforme verde-escuro. Tinha acabado de sair do trabalho e estava bebendo uma xícara de chá, sorrindo para mim. O sol estava baixo atrás dele, e, ao ver essa foto, me vinha à lembrança a sensação exata de estar lá em cima, meu chá esfriando no parapeito atrás de mim, Sam parado pacientemente enquanto eu tirava uma foto atrás da outra.
— Que lindo! E ele também vem para Nova York?
— Hum, não. Ele está construindo uma casa, então agora seria um pouco complicado ele vir para cá. E ele tem um emprego.
Os olhos de Agnes se arregalaram.
— Mas ele tem que vir! Vocês não podem morar em países diferentes! Como você vai amar o seu homem se ele não está aqui com você? Eu não conseguiria ficar longe de Leonard. Não gosto nem de quando ele fica dois dias fora por causa do trabalho.
— Sim, acho que você ia querer mesmo garantir que ele nunca fosse muito longe — alfinetou Tabitha.
O Sr. Gopnik tirou os olhos do prato, focando-os ora na esposa, ora na filha, porém permaneceu calado.
— Mesmo assim — retrucou Agnes, endireitando o guardanapo no colo — Londres não é tão longe. E amor é amor. Não é verdade, Leonard?
— Com certeza — respondeu o Sr. Gopnik, e diante do sorriso dela, sua expressão se suavizou por um instante.
Agnes estendeu a mão e acariciou a dele, então desviei o olhar depressa para o meu prato.
Por um momento, a sala ficou em silêncio.
— Na verdade, acho que vou para casa. Estou ficando meio enjoada.
Arrastando a cadeira ruidosamente, Tabitha se afastou da mesa e largou o guardanapo no prato, onde o linho branco logo absorveu o molho de vinho tinto. Tive que me conter para não resgatá-lo. Ela se levantou e deu um beijo na bochecha do pai, que com a mão livre tocou seu braço carinhosamente.
— A gente se fala durante a semana, papai.
Ela se virou.
— Louisa… Agnes.
Com uma leve inclinação da cabeça, Tabitha saiu da sala.
Agnes a observou partir. É possível que tenha murmurado algo baixinho, mas na hora Ilaria estava recolhendo meu prato e meus talheres com um tinido tão violento que não deu para ouvir direito.

* * *

Depois que Tabitha foi embora, Agnes pareceu perder toda a motivação. Deu a impressão de murchar no assento, os ombros de repente ficando curvados, o buraco entre as clavículas tornando-se visível quando baixou a cabeça. Eu me levantei.
— Acho que vou voltar para o meu quarto agora. Muito obrigada pelo jantar. Estava uma delícia.
Ninguém insistiu para que eu ficasse. O braço do Sr. Gopnik agora estava apoiado na mesa de mogno, os dedos acariciando a mão da esposa.
— Nos vemos amanhã de manhã, Louisa — disse ele sem olhar para mim.
Agnes olhava para ele com uma expressão sombria. Saí da sala de jantar e passei correndo pela porta da cozinha até o meu quarto, para fugir das adagas virtuais que Ilaria com certeza lançava em minha direção.

* * *

Uma hora depois, Nathan me enviou uma mensagem — ele estava bebendo com alguns amigos no Brooklyn. Soube que já passou pelo batismo de sangue. Está tudo bem?
Não tive forças para elaborar uma resposta engraçada, nem para perguntar como diabo ele ficou sabendo.
Vai ficar mais fácil quando você conhecê-los melhor. Prometo.
Nos vemos amanhã de manhã, respondi. Tive um breve momento de apreensão — no que eu tinha me metido? —, então me repreendi severamente e caí em um sono profundo.

* * *

Naquela noite, sonhei com Will. Raramente eu sonhava com ele — e isso tinha sido uma fonte de tristeza no início, quando eu sentia tanto a falta dele que parecia que alguém tinha aberto um buraco dentro de mim. Os sonhos haviam parado quando conheci Sam. Mas lá estava ele outra vez, de madrugada, tão vívido quanto se estivesse bem na minha frente. Eu estava no banco de trás de um carro, uma limusine preta luxuosa, como a do Sr. Gopnik, e o vi do outro lado da rua. Fiquei imediatamente aliviada ao perceber que afinal não estava morto e soube, por instinto, que ele não podia ir aonde quer que fosse o seu destino. Era meu dever detê-lo, mas, toda vez que eu tentava atravessar a rua movimentada, uma pista adicional de carros passando a toda velocidade surgia do nada à minha frente, assim eu não conseguia alcançá-lo e o ruído dos motores abafava a minha voz, que gritava seu nome. Lá estava Will, fora do alcance, porém muito próximo, a pele com aquela cor suave de caramelo, o sorriso discreto brincando nos cantos dos lábios, dizendo para o motorista algo que não consegui ouvir. No último minuto, seu olhar encontrou o meu — seus olhos se arregalaram de leve — e eu acordei, suando, o edredom embolado em volta das minhas pernas.

14 comentários:

  1. Aiiiin,que saudade do meu Will!!!
    ~ M. Herondale

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  2. Wiiiill... por quê...

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  3. Muito estranho esse sonho.... Mdsssss do céu kkk adorando o livro

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  4. Caramba essa nova jornada da Lou parece que vai ser dureza

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  5. Parece que esse livro vai salvar a história do fiasco que foi "depois de você"

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  6. Tbm estou me perguntando. Onde vc se meteu, Clarke?
    Amando...📚😍

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  7. Ai,Lou como naum me identificar Ktg...

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