20 de fevereiro de 2018

Capítulo 2

Acordei com o som do silêncio. O uivo da tempestade se fora. Minha testa estava pegajosa e havia mechas dos meus cabelos grudados nela. Eu tinha esperanças de que isso fosse um sinal de que a febre estivesse baixando. E então eu ouvi sussurros tensos. Abri os olhos com cautela, espiando sob meus cílios. Havia uma luz suave que era filtrada pela caverna, e eu os vi aninhados, juntos. Que segredos estariam guardando agora?
Tavish estava balançando a cabeça.
— A tempestade acabou, e eles logo vão começar se mexer. Precisamos sair daqui.
— Ela está fraca demais para cavalgar — disse Rafe em voz baixa. — Além disso, a ponte esta danificada. Eles não podem atravessar o rio. Ainda temos tempo.
— É verdade — disse Sven. — Mas há o baixo rio. Eles vão cruzar pelo baixo rio.
— Isso dá uma boa semana de cavalgada para nós ficarmos longe do Sanctun — foi a resposta de Jeb.
Rafe tomou um gole da caneca fumegante.
— E agora, com a neve, será o dobro disso.
— O que também vai diminuir o nosso ritmo — alertou Tavish, lembrando-o desse fato.
Orrin girou nos calcanhares.
— Caramba, provavelmente eles acham que estamos todos mortos. Eu pensaria isso. Ninguém conseguiria cruzar aquele rio demoníaco.
Rafe esfregou a nuca, e então balançou a cabeça.
— Mas nós conseguimos. E, se eles não encontrarem um único corpo flutuando em nenhum lugar rio abaixo, vão saber que sobrevivemos.
— Porém, até mesmo quando eles cruzarem o rio, não vão ter a mínima ideia do lugar onde estamos — disse Jeb. — Poderíamos ter saído em qualquer ponto. São centenas de quilômetros para se fazer uma busca sem nenhum rastro a seguir.
— Sem nenhum rastro ainda — falou Tavish em um tom de cautela.
Sven se virou e foi andando até a fogueira. Cerrei os olhos e ouvi enquanto ele despejava alguma coisa do bule na sua xícara de lata, e então senti que ele estava parado à minha frente. Será que Sven sabia que eu estava acordada? Continuei com os olhos fechados até ouvi-lo voltando para se juntar aos outros.
As discussões continuaram enquanto eles pesavam as opções, com Rafe argumentando a favor de esperar até eu ficasse mais forte. Será que ele estava arriscando a si mesmo e aos outros por mim?
Murmurei, como se estivesse acabando de acordar:
— Bom dia. Rafe, você pode me ajudar a levantar?
Todos eles se viraram e ficaram me encarando com ares de expectativa.
Rafe veio até mim e se ajoelhou ao meu lado. Ele pressionou a mão na minha testa.
— Você ainda está quente. É cedo demais...
— Estou me sentido melhor. Eu só... — Ele continuou a resistir, segurando meus ombros, forçando-os para baixo. — Eu tenho que fazer xixi, Rafe — falei, com firmeza.
Isso fez com que ele parasse de me segurar. Rafe olhou com timidez por cima do ombro, para os outros. Sven deu de ombros como se não soubesse aconselhá-lo.
— Temo até mesmo de pensar nas indignidades que posso ter sofrido nesses últimos dias — falei. — Mas agora estou acordada, e quero fazer as minhas necessidades em particular.
Rafe assentiu e, com cuidado, me ajudou a levantar. Fiz o melhor que pude para não fazer uma careta. O processo de ficar em pé foi longo, desajeitado e doloroso, e colocar o mais leve peso na minha coxa recém-costurada enviou uma onda de choques ardentes pela minha perna, até minha virilha. Apoiei-me pesadamente em Rafe. Minha cabeça girava com a tontura, e senti gotas de suor formarem-se no meu lábio superior, mas eu sabia que todos eles estavam olhando, medindo minha força. Esbocei um sorriso.
— Pronto, assim está melhor. — Puxei a coberta mais para junto de mim por causa do pudor, pois tudo que estava vestindo eram minhas roupas de baixo.
— Seu vestido está seco agora — disse Rafe. — Posso ajudar você a vesti-lo novamente.
Encarei o vestido de casamento estirado em cima de uma rocha, com as tinturas carmesim de muitos tecidos sangrando em cima dos outros. Seu peso havia me puxado para baixo no rio e quase me matou. O Komizar era tudo que eu conseguia ver quando olhava para o vestido. Eu sentia as mãos dele descendo pelos meus braços, mais uma vez me clamando como dele.
Eu sabia que eles sentiam minha relutância em colocar o vestido de volta, mas não havia nada além daquilo para eu vestir. Nós todos escapáramos por pouco com apenas as roupas do corpo.
— Eu tenho uma calca extra no meu alforje — disse Jeb.
Orrin olhou para ele, boquiaberto, desacreditando.
— Calça extra?
Sven revirou os olhos.
— É claro que tem.
— Nós podemos cortar a parte de baixo do vestido para que o restante possa servir de blusa — disse Tavish.
Eles pareciam ansiosos para se ocuparem com alguma coisa que os distraísse da minha tarefa pessoal no momento, e então começaram a se afastar.
— Esperem — falei, e eles pararam no meio da suas passadas. — Obrigada. Rafe me disse que vocês eram os melhores soldados de Dalbreck. Agora eu sei que ele não superestimou as suas habilidades.
Voltei-me para Sven.
— E eu sinto muito por ter ameaçado dar o seu rosto para os porcos comerem.
Sven sorriu.
— Tudo em um só dia de trabalho, Vossa Alteza — disse ele, e então se curvou em reverência.

* * *

Eu me sentei entre as pernas de Rafe e recostei-me em seu peito. Os braços dele me envolviam, e um cobertor cobria a nós dois. Nós no aconchegamos na boca da caverna que dava para uma cadeia de montanhas, observando o sol mergulhar entre os seus picos. Não era um belo pôr do sol. O céu estava brumoso e cinza, e uma funesta mortalha de nuvens pendia sobre as montanhas, mas era a direção de casa.
Eu estava mais fraca do que pensava, e os meus poucos passos descendo mais um trecho da caverna para o meu solicitado momento de privacidade fizeram com que eu caísse junto a uma parede para me apoiar. Fiz as minhas necessidades, mas depois precisei chamar Rafe para me ajudar a voltar. Ele me pegou nos braços como se eu não pesasse nada e me carregou até aqui quando pedi para ver onde estávamos. Tudo o que vi por quilômetros foi uma tela branca, uma paisagem transformada por uma única noite de neve.
Senti um nó na garganta quando o último vislumbre do sol desapareceu. Agora eu não tinha mais no que me focar, e outras imagens foram se insinuando na minha mente. Vi o meu próprio rosto. Como era possível que eu enxergasse minha expressão aterrorizada? Mas eu a vi, embora a observasse de algum ponto alto, talvez do ponto de vista de um deus que pudesse ter intervindo de alguma forma. Todos os passos foram repetidos na minha mente, enquanto eu pensava no que poderia ou deveria ter feito de diferente.
— Não é culpa sua, Lia — disse Rafe, como se pudesse ver a imagem de Aster nos meus pensamentos. — Sven estava parado em um passadiço superior e viu o que aconteceu. Não havia nada que você pudesse ter feito.
Senti um pulo no meu peito e abafei um soluço na minha garganta. Eu não tivera a oportunidade de passar pelo devido luto pela morte dela. Houve apenas alguns gritos de descrença antes de esfaquear o Komizar e tudo sair do controle.
Rafe entrelaçou a sua mão na minha debaixo da coberta.
— Quer conversar sobre isso? — sussurrou ele junto à minha bochecha.
Eu não sabia como fazer isso. Minha cabeça estava anuviada por sentimentos demais. Culpa, fúria e até mesmo alívio; um completo e extremo alívio por estar viva, por Rafe e seus homens estarem vivos, grata por estar aqui nos braços dele. Uma segunda chance. O final feliz que Rafe me prometera. No entanto, logo na minha próxima respiração, fui tomada por uma onda sobrepujante de culpa por esses mesmo sentimentos. Como eu podia sentir alívio quando Aster estava morta?
Depois, a fúria contra o Komizar borbulhou e veio à tona novamente. Ele está morto. E eu desejava, com todas as batidas do meu coração, que pudesse matá-lo mais uma vez.
— Minha cabeça está voando em círculos, Rafe — falei. — Como um pássaro nas vigas de um telhado. Parece não haver lugar para onde me virar, nem janela pele qual eu possa sair voando. Nenhuma forma de consertar isso na minha cabeça. E se eu tivesse...?
— O que você deveria fazer? Permanecer em Venda? Casar-se com Komizar? Ser a porta-voz dele? Contar a Aster as mentiras dele até que ela estivesse tão corrompida quanto o restante daquele povo? Isso se você conseguisse viver para fazer isso. Aster trabalhava no Sanctum. Ela sempre esteve a um passo do perigo antes de você chegar lá.
Eu me lembrei de Aster me dizendo nada é seguro por aqui. Era por isso que ela conhecia tão bem os túneis secretos. Sempre havia uma saída rápida à mão. Exceto daquela vez, porque ela estava cuidando de mim, em vez de cuidar de si mesma.
Droga, eu deveria saber que aquilo ia acontecer!
Eu deveria saber que ela não ia me dar ouvidos. Eu a mandei ir para casa, mas dizer isso não foi o bastante. Aster desejava fazer parte de tudo. Ela queria tanto me agradar. Fosse orgulhosamente apresentando a mim as minhas botas polidas, abaixando-se para recuperar um livro descartado nas cavernas, guiando-me pelos túneis ou escondendo minha faca na latrina do quarto, ela sempre queria me ajudar. Sei assoviar bem alto. Foi a súplica dela para permanecer lá. Aster estava ansiosa por qualquer...
Chance. Ela só queria ter uma chance. Uma saída, uma história maior do que aquela que havia sido escrita para ela, tal como eu mesma tinha desejado. Diga ao meu pai que tentei, senhorita. Uma chance de controlar o próprio destino. Contudo, para ela, a fuga era impossível...
— Ela me trouxe a chave, Rafe. Ela foi até o quarto do Komizar e pegou a chave. Se eu não tivesse pedido que ela...
— Lia, você não é a única que está questionando suas decisões. Por quilômetros caminhei com você quase já morta nos meus braços. E, a cada passo que dava, eu me perguntava o que poderia ter feito de diferente. Perguntei a mim mesmo centenas de vezes por que ignorei seu bilhete. A história toda poderia ter sido outra se eu tivesse apenas levado uns dois minutos para responder você. Por fim, tive que afastar isso da cabeça. Passar tempo demais revivendo o passado não leva a lugar nenhum.
Apoiei minha cabeça junto ao peito dele.
— É onde estou, Rafe. Em lugar nenhum.
Ele esticou a mão para cima, traçando a linha do meu maxilar gentilmente com os nós dos seus dedos.
— Lia, quando perdemos uma batalha, temos que nos reagrupar e seguir em frente. Escolher um caminho alternativo, se for necessário. Porém, se perdemos tempo pensando em cada ação que tomamos, isso nos aleijará, e, então, não tomaremos ação alguma.
— Essas me parecem palavras de um soldado — falei.
— E são. É isso que sou, Lia. Um soldado.
E um príncipe. Um príncipe que com certeza era agora tão procurado pelo conselho quanto a princesa que havia esfaqueado Komizar.
Eu poderia apenas nutrir esperanças de que os piores do bando tivessem sido eliminados no banho de sangue, que certamente havia tomado os melhores.

18 comentários:

  1. eu acho eles muito fofos, mas prefiro ela com o Kaden.

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    1. Também prefiro !

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    2. Verdade! Acho bem fofo tudo que o Rafe fez por ela, mas Lia e Kaden soa bem mais forte

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  2. Omg!! Rafe ou Kaden??
    Eu estou amando os dois ..
    Pessoas diferentes em um mundo perverso!!
    Torço ,para um final feliz seja Rafe ou Kaden ,porém um final justo ,para ambos!!

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  3. não, ela tem que ficar com o RAFE, Ele, fez tudo por ela, o Kaden, só pensou em sua lealdade ao Komizar e a Venda e na sua vingança.

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    1. sim eu sei, mas sei lá, acho que o Kaden e ela tem muito mais a ver.

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    2. Penso a mesma coisa Margareth

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  4. Também prefiro a Lia com o Kadem

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  5. LIA E RAFE. PELO O AMOR DOS DEUSES!!

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  6. Eu shipo ela com quem ela ama. E sinto muito mas ela nunca amou o Kaden.
    Se ela mudar de sentimento mudo meu shipe.
    #teamRafe

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  7. Lia e Rafe sempre. Kaden vai encontrar alguém bacana para ele.

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  8. Senti uma pena desse finalsinho falando da Aster. Não sei pq mas sempre vem a 11 na cabeça KKKKK

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  9. eu prefiro ela com o Kaden

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  10. Não sei cm demorei tanto pra le essa trilogia
    To amando,e tmb prefiro ela com o kaden

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  11. Ela e o Rafe são tão fofos juntos, eu gosto do Kaden, mas prefiro a Lia com o Rafe.
    #teamRafe ❤

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Boa leitura, E SEM SPOILER!