24 de fevereiro de 2018

Capítulo 29

Margot me disse que eu deveria viajar alguns dias para clarear os pensamentos.
Quando eu respondi que não faria isso, ela me perguntou por que não e acrescentou que eu obviamente não vinha pensando direito fazia algum tempo: precisava organizar minhas ideias. Quando admiti que não queria deixá-la sozinha, ela me disse que eu era uma garota ridícula, que não sabia o que era bom para mim. Margot me observou pelo canto dos olhos por um tempo, a mão ossuda tamborilando no braço da poltrona em um movimento irritado, então se levantou pesadamente e desapareceu, voltando alguns minutos depois com um drinque Sidecar tão forte que fez meus olhos arderem no primeiro gole. Em seguida, ela mandou que eu sentasse o meu traseiro, falou que minhas fungadas a estavam irritando e que eu deveria assistir a Roda da Fortuna com ela. Foi o que fiz, tentando não ouvir a voz de Josh, ultrajado e sem entender, ecoando em minha cabeça.
Você está terminando comigo por causa de uma meia-calça?
Quando o programa acabou, Margot me olhou, fez um tsc tsc alto, disse que daquele jeito realmente não ia dar certo e que, então, viajaríamos juntas.
— Mas você não tem dinheiro.
— Santo Deus, Louisa. É muita falta de educação discutir assuntos financeiros — repreendeu. — Fico chocada com a forma como vocês, jovens mulheres, são criadas para falar sobre essas coisas.
Ela me deu o nome do hotel em Long Island para onde queria que eu ligasse e me instruiu a frisar que estava ligando em nome de Margot De Witt para conseguir um valor preferencial “familiar”. Acrescentou que vinha pensando no assunto e que, se aquilo realmente me aborrecia tanto, eu poderia pagar para nós duas. E então, eu me sentia melhor agora?
E foi assim que paguei uma viagem para Montauk para mim, Margot e Dean Martin.

* * *

Pegamos um trem que nos levou a um pequeno hotel romântico no litoral, para onde Margot viajara todo verão por décadas até que a fragilidade física — ou financeira — a impedisse de continuar. Enquanto eu observava o lugar, os funcionários do hotel a recepcionaram na porta como se ela fosse, de fato, alguém da família que não viam fazia tempo. Almoçamos camarões grelhados com salada e a deixei conversando com o casal que tomava conta do lugar enquanto desci pela trilha até a praia grande, varrida pelo vento. Inspirei o ar cheio de ozônio e fiquei olhando Dean Martin rodeando feliz as dunas de areia.
Ali, sob o céu gigante, tive a sensação, pela primeira vez em meses, de que meus pensamentos não estavam infinitamente ocupados pelas necessidades e expectativas de outras pessoas.
Margot, exausta pela viagem de trem, passou a maior parte dos dois dias seguintes na pequena sala de estar, observando o mar ou conversando com o patriarca do hotel, um idoso imponente chamado Charlie, com as feições castigadas pelo tempo como um moai da Ilha de Páscoa, que assentia durante o ininterrupto fluxo de conversa dela, balançava a cabeça e concordava que, não, as coisas não eram como antes, ou, sim, as coisas certamente estavam mudando muito rápido por ali. E os dois esgotavam o assunto tomando pequenas xícaras de café, então permaneciam sentados, satisfeitos em concordar sobre como tudo se tornara terrível, por ter essa visão confirmada um pelo outro. Percebi muito depressa que meu papel fora simplesmente levá-la até ali. Margot mal parecia precisar de mim, a não ser para ajudá-la com peças de roupa mais difíceis de vestir e para caminhar com o cachorro. Ela passou a sorrir mais do que eu a vira sorrir desde que a conhecera, o que já era uma ótima distração.
Assim, durante os quatro dias que se seguiram, tomei café da manhã em meu quarto, li os livros da pequena estante do hotel, entreguei-me aos ritmos mais lentos da vida em Long Island e fiz o que Margot mandava. Caminhei sem parar até recuperar o apetite e silenciar os pensamentos em minha mente com o barulho das ondas, o som das gaivotas no céu permanentemente cinzento e o latido do cachorrinho empolgado que parecia não acreditar em sua sorte.
Na terceira tarde, sentei-me em minha cama, liguei para mamãe e contei a verdade sobre o que ocorrera comigo nos meses anteriores. Ao menos dessa vez ela não falou, apenas ouviu, e, no final, disse que achava que eu tinha sido muito sábia e corajosa, e essas duas afirmações me fizeram chorar um pouquinho. Ela colocou meu pai na linha e ele me disse que gostaria de chutar o traseiro daqueles malditos Gopnik, que eu não deveria conversar com estranhos e que deveria avisar a eles assim que voltasse com Margot para Manhattan.
Papai acrescentou que estava orgulhoso de mim.
— Sua vida… nunca é tranquila, não é mesmo, meu bem? — disse ele.
E eu concordei que não, não era, e me lembrei de dois anos atrás, da minha vida antes de Will, quando a coisa mais empolgante que já me acontecera tinha sido alguém exigir um reembolso no The Buttered Bun. Então percebi que gostava de viver como vivia agora, apesar de tudo.
Na última noite, Margot e eu jantamos na sala de jantar do hotel, por desejo dela. Usei minha blusa de veludo cor-de-rosa e minha calça pantacourt de seda. Margot vestiu uma blusa verde de estampa floral com franjas e calça combinando (eu havia costurado um botão extra na cintura para que não escorregasse pelos quadris dela), e nos divertimos silenciosamente com os olhos arregalados dos outros hóspedes enquanto éramos levadas a nossos lugares na melhor mesa, perto da grande janela.
— Muito bem, querida. Esta é nossa última noite, por isso acho que devemos nos permitir, concorda? — disse Margot, erguendo a mão em um gesto régio para os hóspedes que ainda nos encaravam. Eu estava me perguntando exatamente o que deveríamos nos permitir quando ela acrescentou: — Acho que vou pedir lagosta. E talvez champanhe. Afinal, desconfio que esta seja a última vez que venho aqui. — Comecei a protestar, mas ela me interrompeu: — Ah, pelo amor de Deus. É um fato, Louisa. Indiscutível. Imaginei que vocês, garotas britânicas, fossem mais duronas.
Assim, pedimos uma garrafa de champanhe e duas lagostas. Enquanto o sol se punha, saboreamos a carne deliciosa, temperada com alho, e quebrei as patas da lagosta de Margot para ela, que já não tinha forças para aquilo. Ela chupou a carne das patas fazendo barulhinhos de prazer e passou pequenos pedaços por baixo da mesa, onde estava Dean Martin, diplomaticamente ignorado por todo mundo. Dividimos uma enorme porção de batatas fritas (comi quase todas, enquanto Margot colocava só algumas no prato e dizia que estavam deliciosas).
Ficamos sentadas em um silêncio saciado e cheio de companheirismo enquanto o restaurante esvaziava aos poucos, e Margot pagou o jantar com um cartão de crédito que raramente usava (“Estarei morta antes que venham atrás do pagamento, rá!”). Então, Charlie se aproximou, caminhando com o corpo rígido, e colocou a mão gigantesca no ombro minúsculo dela. Ele disse que já ia se recolher, mas que esperava ver Margot pela manhã, antes que ela partisse. Disse também que fora um grande prazer revê-la, depois de todos aqueles anos.
— O prazer foi todo meu, Charlie. Obrigada pela estada maravilhosa.
Os olhos dela cintilavam de afeto, e os dois ficaram de mãos dadas até Charlie se soltar com relutância e se virar para ir embora.
— Fui para a cama com ele uma vez — disse Margot enquanto ele se afastava. — Um homem encantador. Não era bom para mim, é claro.
Quando engasguei com minha última batata frita, ela me lançou um olhar entediado.
— Eram os anos setenta, Louisa. Eu já estava sozinha havia tempo. Foi muito bom vê-lo de novo. Viúvo agora, é claro. — Ela suspirou. — Como todos da minha idade.
Ficamos sentadas em silêncio por algum tempo, observando o oceano negro e interminável. Bem ao longe, dava para ver as minúsculas luzes dos barcos pesqueiros, piscando. Perguntei-me como seria a sensação de estar lá, sozinha, no meio do nada.
Então Margot falou em voz baixa:
— Eu não esperava voltar aqui. Por isso, preciso agradecer a você. Foi… foi revigorante.
— Para mim também, Margot. Eu me sinto… em ordem.
Ela sorriu para mim antes de se inclinar para acariciar Dean Martin. O cachorro estava deitado embaixo da cadeira dela, roncando baixinho.
— Você fez a coisa certa, sabe, com Josh. Ele não era para você.
Não respondi. Não havia nada a dizer. Eu passara três dias pensando em quem eu poderia ter me tornado se tivesse continuado com Josh — rica, semiamericana, até mesmo razoavelmente feliz — e descobrira que, depois de poucas semanas, Margot me compreendia melhor que eu mesma. Eu teria me moldado para me encaixar na vida dele. Teria me livrado das roupas que amava, das coisas de que mais gostava. Teria transformado meu comportamento, meus hábitos, e me perdido no fluxo carismático dele. Teria me tornado uma esposa executiva, culpando-me pelos pedaços de mim que não se encaixassem, eternamente grata por aquele Will americano.
Não pensei em Sam. Eu me tornara muito boa nisso.
— Sabe — disse Margot —, quando se tem a minha idade, a pilha de arrependimentos se torna tão grande que pode obscurecer terrivelmente a visão.
Ela continuou com os olhos fixos no horizonte enquanto eu esperava, perguntando-me a quem Margot estaria se dirigindo.

* * *

Três semanas se passaram sem grandes acontecimentos depois que voltamos de Montauk. Não parecia mais ter qualquer certeza na minha vida, por isso decidi viver como Will me aconselhara, simplesmente estando presente em cada momento, até ficar de mãos atadas de novo. Em algum ponto, eu acreditava que a saúde de Margot ou suas dívidas estourariam a bolha em que vivíamos e eu teria que marcar meu voo de volta para casa.
Até lá, aquele não era um modo desagradável de viver. As rotinas que pontuavam meu dia me davam prazer — minhas corridas ao redor do Central Park, meus passeios com Dean Martin, a preparação do jantar de Margot (mesmo que ela não comesse muito) e nossa dedicação agora conjunta a assistir a Roda da Fortuna, gritando letras para os prêmios surpresa. Dei uma melhorada em meu guarda-roupa, jogando-me em meu eu nova-iorquino com uma série de looks que deixaram Lydia e a irmã de queixo caído. Às vezes, usava peças que Margot me emprestava, e outras vezes usava coisas que tinha comprado no Emporium. Todo dia, parava diante do espelho no quarto vago de Margot e examinava as roupas que eu tinha permissão para usar. E uma parte de mim vibrava de alegria.
Trabalhei para as meninas do Vintage Clothes Emporium cobrindo alguns turnos enquanto Angelica estava em Palm Springs vasculhando uma fábrica de roupas femininas que, ao que parecia, guardava amostras de todos os itens que haviam sido confeccionados desde 1952. Mantive o negócio no rumo ao lado de Lydia, ajudando meninas de pele pálida a escolher vestidos para o baile de formatura e rezando para que os zíperes se mantivessem fechados enquanto ela reorganizava as araras e reclamava sobre a quantidade de espaço desperdiçado na loja.
— Sabe quanto custa o metro quadrado nesta área? — perguntou ela, balançando a cabeça diante do cabideiro giratório solitário em um canto distante. — É sério. Eu faria um estacionamento naquele canto se arrumasse um jeito de enfiar carros aqui dentro.
Agradeci a uma cliente que acabara de comprar um bolero de tule enfeitado com lantejoulas e fechei a gaveta da caixa registradora.
— Então por que não aluga o espaço? Para uma loja ou coisa assim? Isso lhe garantiria mais uma fonte de renda.
— Sim, nós já conversamos sobre isso. Mas é complicado. No momento em que envolvermos outros comerciantes no negócio, precisaremos instalar uma divisória, arrumar um acesso separado e fazer seguro, e não saberemos quem vai entrar e sair a qualquer hora. Estranhos junto das nossas coisas… É arriscado demais.
Ela mascou o chiclete, fez uma bola e a estourou distraidamente com a unha pintada de roxo.
— Além do mais, você sabe, não gostamos de ninguém.

* * *

— Louisa!
Ashok estava parado no tapete da entrada e bateu as palmas das mãos enluvadas quando cheguei ao prédio.
— Vai a nossa casa no próximo sábado? Meena quer saber.
— O protesto continua acontecendo?
Nos dois sábados anteriores, eu não deixara de notar que houvera uma clara diminuição no número de presentes. Os moradores do local já quase não tinham mais esperanças. As palavras de ordem não eram mais gritadas com tanta determinação agora que o orçamento da cidade apertara, e os manifestantes habituais começaram a não aparecer. Meses depois de a ação ter começado, apenas nosso pequeno grupinho permanecia firme, com Meena animando a todos com garrafas de água e insistindo que a luta continuava.
— Ainda está acontecendo. Você conhece minha esposa.
— Então eu adoraria ir. Obrigada. Diga a ela que vou levar a sobremesa.
— Pode deixar.
Ele murmurou feliz para si mesmo diante da perspectiva de comida boa e me chamou quando eu já chegava ao elevador.
— Ei!
— O que foi?
— Bela roupa, madame.
Naquele dia eu estava vestida em homenagem ao filme Procura-se Susan Desesperadamente. Usava uma jaqueta bomber de seda roxa com um arco-íris bordado nas costas, calça legging, camadas de camisetas e o braço cheio de braceletes que tilintavam deliciosamente cada vez que eu empurrava com força a gaveta da caixa registradora (não fechava direito a não ser que se fizesse isso).
— Sabe — comentou Ashok, balançando a cabeça. — Não acredito que você usava aquela camisa polo quando trabalhava para os Gopnik. Não tinha nada a ver com você.
Hesitei quando a porta do elevador se abriu. Eu me recusava a usar o elevador de serviço agora.
— Sabe de uma coisa, Ashok? Você está coberto de razão.

* * *

Em respeito ao status de proprietária de Margot, eu sempre batia na porta antes de entrar no apartamento, embora tivesse a chave havia meses. Não houve resposta da primeira vez e tive que controlar o pânico automático que ameaçou me dominar, dizendo a mim mesma que ela costumava colocar o rádio em volume alto e que Ashok teria me avisado se houvesse algum problema.
Finalmente entrei com minha chave. Dean Martin veio se sacudindo pelo corredor para me cumprimentar, os olhos vesgos de alegria com minha chegada. Eu o peguei no colo e deixei que fuçasse meu rosto todo com o focinho enrugado.
— Olá, garoto. Olá para você. Onde está sua mãe, hein?
Coloquei Dean Martin no chão e ele latiu e correu em círculos, empolgado.
— Margot? Margot, cadê você?
Ela saiu da sala usando o robe de seda chinesa.
— Margot! Está se sentindo mal?
Deixei a bolsa cair no chão e corri em sua direção, mas ela ergueu a mão.
— Louisa, aconteceu um milagre.
Minha resposta saiu antes que eu tivesse a chance de me conter.
— Você está melhorando?
— Não, não, não. Entre. Entre! Venha conhecer meu filho.
Ela se virou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa e desapareceu na sala.
Fui atrás dela e um homem alto, usando um suéter em tom pastel, com uma barriguinha incipiente se destacando acima da fivela do cinto, levantou-se de uma poltrona para me cumprimentar.
— Esse é Frank Junior, meu filho. Frank, essa é minha querida amiga Louisa Clark. Sem ela, eu não teria enfrentado os últimos meses.
Tentei disfarçar como fiquei aturdida.
— Ah. Nossa. É… digo o mesmo.
Eu me inclinei para cumprimentar a mulher ao lado de Frank, que usava um suéter de gola alta e tinha cabelo claro e fino como algodão-doce, do tipo que ela provavelmente passara a vida tentando controlar.
— Sou Laynie — disse ela com uma voz aguda, como a de algumas mulheres que parecem não abandonar a adolescência. — Esposa de Frank. Acho que é a você que devemos agradecer por nossa pequena reunião familiar.
Ela secou os olhos com um lencinho bordado. Seu nariz estava muito vermelho, como se houvesse chorado recentemente.
Margot estendeu a mão para mim.
— Acabou que Vincent, aquele danadinho ardiloso, contou ao pai sobre nossos encontros e sobre minha… situação.
— Sim, o danadinho ardiloso com certeza sou eu — disse Vincent, aparecendo na porta com uma bandeja. — Ele parecia relaxado e feliz. — É bom vê-la de novo, Louisa.
Assenti, com um sorriso amarelo fixo no rosto.
Era estranho ver pessoas naquele apartamento. Eu estava acostumada ao silêncio, a sermos só eu, Margot e Dean Martin. Sem Vincent com sua camisa xadrez e gravata Paul Smith entrando com nossa bandeja de jantar, sem o homem alto com as pernas imprensadas na mesa de centro e a mulher que não parava de olhar ao redor da sala de estar, com os olhos ligeiramente arregalados, como se nunca tivesse estado em um lugar como aquele.
— Eles me pegaram de surpresa, sabe — contou-me Margot, a voz falhando um pouco, como se ela já tivesse falado demais. — Vincent me ligou para dizer que passaria aqui, mas achei que era só ele. Então, a porta se abriu um pouco mais e, ora, não consigo… Vocês devem estar chocados por eu estar de roupão. Eu não tinha nem me arrumado para o dia, não é mesmo? Havia esquecido completamente até agora. Mas tivemos uma tarde deliciosa. Nem sei como começar a lhe contar.
Margot estendeu a outra mão para o filho, que a pegou e apertou com carinho. O queixo dele tremeu um pouco com a emoção reprimida.
— Ah, foi mesmo mágico — disse Laynie. — Temos tanto para colocar em dia. Acho sinceramente que foi trabalho de Deus nos reunir.
— Bem, Dele e do Facebook — brincou Vincent. — Aceita um café, Louisa? Ainda tem um pouco no bule. Acabei de pegar alguns biscoitos, só para o caso de Margot querer comer alguma coisa.
— Ela não vai comer esses biscoitos — falei, antes que conseguisse me deter.
— Ah, ela está certíssima. Não como biscoitos, Vincent, querido. Esses na verdade são para Dean Martin. As gotas de chocolate não são de chocolate de verdade, está vendo?
Margot mal parava para respirar. Parecia completamente mudada. Era como se tivesse rejuvenescido uma década do dia para a noite. O brilho sem graça em seu olhar se fora, substituído por algo suave. E ela não parava de tagarelar, animada.
Recuei em direção à porta.
— Bem, não… não quero atrapalhar. Com certeza vocês têm muito para conversar. Margot, grite quando precisar de mim.
Eu me levantei e acenei com a mão sem saber bem por quê.
— Foi maravilhoso conhecer vocês. Estou muito feliz por todos.
— Achamos que o certo seria mamãe voltar conosco — falou Frank Junior.
Houve um breve momento de silêncio.
— Voltar para onde? — perguntei.
— Para Tuckahoe — disse Laynie. — Para nossa casa.
— Por quanto tempo? — indaguei. Eles se entreolharam. — Quero dizer, por quanto tempo ela ficaria com vocês? Para que eu possa arrumar a mala dela.
Frank Junior ainda estava segurando a mão da mãe.
— Srta. Clark, perdemos muito tempo, mamãe e eu. E nós dois acreditamos que seria ótimo se pudéssemos aproveitar ao máximo o tempo que ainda nos resta. Assim, precisamos fazer alguns… arranjos.
As palavras evidenciaram uma ponta de possessividade, como se ele já estivesse deixando claro que tinha uma influência maior que a minha sobre Margot.
Olhei para ela, que retribuiu meu olhar, os olhos tranquilos e serenos.
— É isso mesmo — concordou.
— Espere. Você quer ir embora… — falei, e quando ninguém disse nada — … daqui? Do apartamento?
A expressão de Vincent era solidária. Ele se virou para o pai.
— Por que não vamos embora agora, pai? — sugeriu ele. — Todos têm muito para processar. Com certeza precisaremos resolver muita coisa. E acho que Louisa e vovó também têm que conversar.
Ele tocou meu ombro de leve quando saiu. Pareceu um pedido de desculpas.

* * *

— Sabe, achei a esposa de Frank bastante agradável, embora não tenha a menor ideia de como se vestir, a pobrezinha. Ele teve umas namoradas terríveis quando era mais novo, segundo a minha mãe. Por algum tempo, ela me mandou cartas descrevendo as moças. Mas uma blusa branca de gola alta. Pode imaginar esse horror? Uma gola alta branca.
A lembrança da roupa — ou talvez a rapidez com que Margot estava falando — provocou uma crise de tosse. Entreguei um copo de água a ela e esperei que se recuperasse. Todos haviam partido minutos depois da sugestão de Vincent.
Fiquei com a sensação de que foram embora por causa da insistência dele, pois seus pais não queriam deixar Margot.
Eu me sentei na poltrona.
— Não consigo entender.
— Isso tudo deve parecer muito repentino para você. Foi simplesmente a coisa mais extraordinária, Louisa, querida. Nós conversamos sem parar, e talvez até tenhamos derramado algumas lágrimas. Ele continua igual! Foi como se nunca tivéssemos nos separado. Frank está do mesmo jeito… tão sério e silencioso, mas ao mesmo tempo muito gentil, exatamente como na infância. E aquela esposa dele é assim também… Então, do nada, os dois me convidaram para morar com eles. Tive a sensação de que já haviam conversado a respeito disso antes de chegarem. E eu disse que iria. — Ela olhou para mim. — Ah, vamos, você e eu sabemos que não vai ser para sempre. Há um ótimo lugar a pouco mais de três quilômetros da casa deles para onde eu posso ir quando as coisas se tornarem difíceis demais.
— Difíceis? — sussurrei.
— Louisa, não fique toda melosa por minha causa de novo, pelo amor de Deus. Quando eu não puder fazer as coisas sozinha. Quando estiver mal mesmo. Sinceramente, não imagino que vá ficar com meu filho por mais que uns poucos meses. Desconfio que foi por isso que eles ficaram tão confortáveis em fazer o convite.
Ela deu uma risada irônica.
— Mas… mas não entendo. Você disse que nunca deixaria este lugar. Quero dizer, e todas as suas coisas? Você não pode simplesmente ir embora.
Ela me encarou.
— É exatamente o que vou fazer.
Margot respirou fundo, o peito ossudo se erguendo dolorosamente por baixo do tecido macio do roupão.
— Estou morrendo, Louisa. Sou uma mulher velha e não vou aguentar muito mais tempo. E meu filho, que eu pensava que estava perdido para mim, teve a generosidade de engolir a mágoa e o orgulho e me estender a mão. Consegue imaginar? Consegue imaginar o que é alguém fazer uma coisa dessas por você?
Pensei em Frank Junior, nos olhos dele fixos na mãe, as cadeiras juntas, a mão dele segurando a dela com força.
— Por que eu escolheria permanecer neste lugar por mais um minuto sequer se tenho a possibilidade de passar meu tempo com Frank? De acordar e vê-lo durante o café da manhã, de conversar sobre todas as coisas que não vi acontecer, de conhecer os filhos dele… e Vincent… o querido Vincent. Sabia que ele tem um irmão? Tenho dois netos. Dois! Enfim. Consegui pedir desculpas ao meu filho. Você tem ideia de como isso foi importante? Consegui pedir desculpas. Ah, Louisa, podemos nos agarrar à mágoa por conta de um orgulho equivocado ou podemos simplesmente nos entregar e aproveitar o tempo precioso que ainda nos resta. — Ela apoiou as mãos nos joelhos com firmeza. — Então, é isso que planejo fazer.
— Mas você não pode. Não pode simplesmente ir embora.
Eu tinha começado a chorar. Não sabia de onde vinham aquelas lágrimas.
— Ah, menina querida, espero de coração que você não fique aborrecida com isso. Vamos, vamos. Sem lágrimas, por favor. Preciso lhe pedir um favor.
Sequei o nariz.
— Essa é a parte difícil. — Margot engoliu com certo esforço. — Eles não vão receber Dean Martin. Sentem muito mesmo, mas há problemas de alergia ou algo assim. E eu estava pronta a dizer a eles para deixarem de ser ridículos, que ele tinha que ir comigo, mas, para ser honesta, tenho andado ansiosa com o que vai acontecer com Dean Martin quando… você sabe, quando eu me for. Afinal, ele ainda tem anos de vida pela frente. Com certeza muito mais que eu. Então… eu queria saber se você ficaria com ele para mim. Ele parece gostar de você. E só Deus sabe por quê depois do modo terrível como você costumava arrastar a pobre criatura por aí. O animal deve ser a própria alma do perdão.
Eu a encarei através das lágrimas.
— Quer que eu fique com Dean Martin?
— Quero.
Olhei para o cachorrinho, que esperava ansioso aos pés dela.
— Estou lhe pedindo, como minha amiga, se… se consideraria a possibilidade. Por mim.
Ela me encarava atentamente, os olhos claros examinando os meus, os lábios franzidos. Meu rosto se contorceu. Estava feliz por Margot, mas me sentia arrasada por perdê-la. Não queria ficar sozinha de novo.
— Sim.
— Vai ficar com ele?
— É claro.
E comecei a chorar de novo.
Margot suspirou, aliviada.
— Ah, eu sabia que você aceitaria. Sabia. E sei que vai cuidar dele.
Ela sorriu e, pela primeira vez, não me repreendeu por minhas lágrimas. Inclinou-se para a frente, os dedos se fechando ao redor da minha mão.
— Você é esse tipo de pessoa.

* * *

Eles passaram no apartamento duas semanas mais tarde para levá-la embora. Eu achara aquela pressa vagamente indecente, mas a verdade era que nenhum de nós sabia quanto tempo restava a Margot. Frank Junior havia quitado a montanha de contas de condomínio atrasadas — um ato que poderia ser visto apenas como ligeiramente menos altruísta quando a gente lembrava que isso significava que ele poderia herdar o apartamento, que já não seria mais reivindicado pelo Sr. Ovitz —, mas Margot escolheu ver a atitude do filho como um ato de amor, e eu não tinha razão para não fazer o mesmo. Ele com certeza parecia feliz por estar com a mãe de novo. O casal paparicou Margot, checou se ela estava bem, se estava levando toda a medicação, se não se sentia cansada demais, ou zonza, ou mal, ou precisando de água, até ela unir as mãos e revirar os olhos, fingindo irritação. Mas Margot estava empolgada. Praticamente não parara de falar sobre Frank desde que me contara.
Eu ficaria e tomaria conta do lugar “pelo futuro próximo”, de acordo com Frank Junior. Para mim, isso significava até que Margot morresse, embora ninguém dissesse isso em voz alta. Ao que parecia, o corretor de imóveis dissera que ninguém iria querer alugar o apartamento como estava, e era um pouco indecoroso começar a reformá-lo antes do “futuro próximo”. Assim, eu fora agraciada com o papel de cuidadora temporária do lugar. Margot também repetiu várias vezes que isso ajudaria Dean Martin a ter alguma estabilidade enquanto se ajustava à nova situação. Não tenho certeza de que a saúde mental do cão estava no topo da lista de prioridades de Frank Junior.
Margot levou apenas duas malas e usou um de seus conjuntos favoritos para viajar, o casaquinho e a saia buclê cor de jade com um chapeuzinho combinando. Completei a roupa com uma echarpe azul-escura de Saint-Laurent amarrada ao redor do pescoço fino dela, para disfarçar o modo como ele se destacava, dolorosamente ossudo, e desenterrei um par de brincos cabochão turquesa como toque final. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela sentir calor, mas Margot parecia estar ficando cada vez mais magra e frágil, reclamando de frio mesmo nos dias mais quentes. Fiquei parada na calçada do lado de fora do prédio, com Dean Martin nos braços, observando Frank Junior e Vincent supervisionarem o embarque da bagagem dela. Margot se certificou de que eles estavam com suas caixas de joias — ela planejava dar alguns dos itens mais valiosos para a nora e outros para Vincent, “para quando ele se casasse”. Então, aparentemente satisfeita por eles terem guardado tudo em segurança, ela caminhou devagar até mim, apoiando-se na bengala.
— Agora, querida. Eu lhe deixei uma carta com todas as minhas instruções. Não contei a Ashok que estou partindo. Não quero agitação com relação a isso. Mas deixei uma coisinha para ele na cozinha. Eu agradeceria se você pudesse entregar depois que eu for embora.
Assenti.
— Anotei tudo de que você precisa para Dean Martin em uma carta separada. É muito importante que se atenha à rotina dele. É como ele gosta das coisas.
— Não precisa se preocupar. Vou garantir que ele seja feliz.
— E nada daqueles petiscos de fígado. Dean Martin implora por eles, mas fica enjoado quando come.
— Nada de petiscos de fígado.
Margot tossiu, talvez por causa do esforço de falar, e esperou um instante até se certificar de que tinha fôlego o suficiente. Apoiou-se na bengala e olhou para o prédio que a abrigara por mais de meio século, a mão frágil por cima dos olhos para protegê-los do sol. Então, virou-se, o corpo rígido, e observou o Central Park, que fora a vista de sua janela por tanto tempo.
Frank Junior estava chamando do carro, o corpo inclinado para nos ver melhor. A esposa dele estava de pé ao lado da porta do carona, usando um casaco impermeável de um tom azul-claro, apertando as mãos em um gesto ansioso. Ao que parecia, ela não era uma mulher que gostava da cidade grande.
— Mãe?
— Um momento, obrigada, querido.
Margot se adiantou e parou bem na minha frente. Então, estendeu a mão para o cachorro que eu segurava no colo e acariciou a cabeça dele três, quatro vezes, com os dedos finos, parecendo marmorizados.
— Você é um bom companheiro, não é, Dean Martin? — disse ela baixinho. — Muito bom companheiro.
O cachorrinho a encarou de volta, extasiado.
— E é mesmo o rapaz mais bonito.
A voz dela falhou na última palavra.
Dean Martin lambeu a mão de Margot, que deu um passo à frente e beijou a cabeça enrugada dele com os olhos fechados e os lábios cerrados por um momento um pouco longo demais, o que fez o cachorro arregalar os olhinhos estrábicos e agitar as patas na direção dela. Margot ficou abatida.
— Eu… eu poderia levá-lo para ver você.
Ela manteve o rosto encostado no dele, os olhos fechados, ignorando o barulho, o trânsito e as pessoas ao redor.
— Ouviu o que eu disse, Margot? Quer dizer, depois que você estiver acomodada, poderíamos pegar o trem e…
Ela endireitou o corpo, abriu os olhos e abaixou-os por um instante.
— Não. Obrigada. — Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Margot deu as costas. — Agora o leve para passear, por favor, querida. Não quero que ele me veja partir.
O filho dela saiu do carro e ficou na calçada, esperando. Ele lhe ofereceu a mão, mas ela não aceitou. Tive a impressão de vê-la piscando para afastar as lágrimas, mas era difícil dizer, já que meus próprios olhos não conseguiam conter o choro.
— Obrigada, Margot — falei. — Por tudo.
Ela balançou a cabeça, os lábios contraídos.
— Agora, vá. Por favor, meu bem.
Então, virou-se na direção do carro enquanto o filho se aproximava, a mão estendida na direção dela. E não sei o que aconteceu depois porque coloquei Dean Martin na calçada, como ela me pedira, e saí andando depressa para o Central Park, a cabeça baixa, ignorando os olhares das pessoas curiosas que deviam estar se perguntando por que uma garota usando um short curto cintilante e uma jaqueta bomber de seda roxa estava chorando às onze da manhã.

* * *

Caminhei pelo máximo de tempo que as pernas curtas de Dean Martin aguentaram. E quando ele parou, em um ato de rebeldia, perto do Azalea Pond, a linguinha minúscula para fora e um dos olhos ligeiramente caído, eu o peguei no colo e o carreguei, meus próprios olhos inchados de tanto chorar, meu peito a uma inspiração de distância de mais um soluço desolado.
Eu nunca fui uma pessoa louca por animais. Mas de repente compreendi o conforto de enterrar o rosto no pelo macio de outra criatura, o consolo garantido pelas várias pequenas tarefas que se é obrigado a fazer para assegurar o bem-estar do bichinho.
— A Sra. De Witt saiu de férias?
Ashok estava atrás da mesa dele quando entrei, com a cabeça baixa e usando meus óculos escuros de plástico azul.
Não tive energia para contar a ele naquele momento.
— Sim.
— Ela não me pediu para cancelar a entrega dos jornais. É melhor eu fazer isso. — Ele balançou a cabeça e estendeu a mão para um livro com capa de couro. — Sabe quando ela volta para casa?
— Eu lhe falo depois.
Subi lentamente a escada, o cachorrinho imóvel em meus braços, como se estivesse com medo de que qualquer movimento seu me fizesse colocá-lo para usar as pernas de novo. Então, entrei no apartamento.
Estava um silêncio mortal, já marcado pela ausência de Margot de um modo como nunca acontecera quando ela estava no hospital, com partículas de poeira se elevando no ar quente e parado. Em questão de meses, pensei, outra pessoa moraria ali, arrancaria o papel de parede dos anos sessenta, se livraria da mobília em vidro fumê. O apartamento seria transformado, reformado, serviria de refúgio para executivos ocupados ou de lar para uma família terrivelmente rica com filhos pequenos. Eu senti um vazio ao pensar nisso.
Dei água a Dean Martin e um punhado de ração pastosa como agrado, então andei devagar pelo apartamento, que ainda guardava as roupas, os chapéus, as paredes de lembranças, e disse a mim mesma para não pensar nas coisas tristes, mas no prazer no rosto daquela senhora diante da perspectiva de terminar seus dias junto do único filho. A alegria fora tamanha que a transformara, animando as feições cansadas e fazendo seus olhos brilharem. Isso me fez pensar até que ponto todos aqueles pertences, todas aquelas relíquias, não haviam sido um modo de Margot se proteger da dor imensa que sentia pela ausência dele.
Margot De Witt, rainha do estilo, extraordinária editora de moda, mulher à frente de seu tempo, havia construído um muro — encantador, chamativo e multicolorido, mas ainda assim um muro — para dizer a si mesma que tudo fora por um objetivo. E, no momento em que o filho voltara, ela derrubara aquele muro sem nem olhar para trás.

* * *

Algum tempo mais tarde, quando minhas lágrimas haviam se transformado em soluços espaçados, peguei o primeiro envelope em cima da mesa e abri. A carta estava escrita na letra linda e sinuosa de Margot, um remanescente de uma época em que as crianças eram julgadas por sua caligrafia. Como prometido, continha detalhes da dieta preferida do cachorrinho, os horários em que ele deveria comer, as necessidades veterinárias e a agenda de vacinação, de aplicação de antipulgas e vermífugos. A carta me orientava onde encontrar os diversos casacos de inverno dele — havia diferentes opções para chuva, vento e neve — e informava qual era a marca de xampu favorita de Dean Martin. Também era necessário limpar os dentes dele, as orelhas e (eu me encolhi ao ler) esvaziar suas glândulas anais.
— Ela não me disse isso quando me pediu para ficar com você — falei para ele, que ergueu a cabeça, grunhiu e voltou a abaixá-la.
Na sequência, Margot dava detalhes de para onde qualquer correspondência deveria ser encaminhada, as informações de contato da empresa de mudanças — os itens que eles não levariam deveriam permanecer no quarto dela, e eu deveria escrever um bilhete avisando a eles para não entrarem ali e prendê-lo na porta do quarto. Toda a mobília, as luminárias e as cortinas poderiam ir. Os cartões do filho e da nora dela estavam no envelope, e eu deveria entrar em contato com eles se precisasse de qualquer outro esclarecimento.

* * *

E agora vamos ao que importa. Louisa, não a agradeci pessoalmente por encontrar Vincent — o ato de desobediência civil que me trouxe uma felicidade inesperada —, mas gostaria de agradecê-la agora. E também por tomar conta de Dean Martin. Há poucas pessoas em quem eu confiaria para cuidar dele de acordo com minhas instruções e para amá-lo como eu amo, mas você é uma delas.
Louisa, você é um tesouro. Sempre foi discreta demais para me contar os detalhes, mas não permita que o que quer que tenha acontecido com aquela família tola do apartamento vizinho ofusque sua luz. Você é uma criaturinha corajosa, linda e muito bondosa, e serei eternamente grata pelo fato de a perda deles ter sido o meu ganho. Obrigada.
Nesse espírito de agradecimento, gostaria de lhe oferecer meu guarda-roupa. Para qualquer outra pessoa — exceto talvez para suas amigas mercenárias daquela loja lamentável — essas peças seriam lixo. Sei disso. Mas você vê minhas roupas como o que elas são. Faça o que quiser com elas — guarde algumas, venda outras, o que for. Mas sei que você terá prazer com elas.
Aqui vai o que eu penso que deveria fazer — embora saiba muito bem que ninguém quer saber a opinião de uma velha. Monte seu próprio negócio. Alugue as roupas, ou venda-as. Aquelas garotas da loja ficaram achando que as peças valem alguma coisa — ora, acho que essa seria uma carreira perfeita para você. Deve haver roupas o bastante para começar algum tipo de empreendimento. Mas, é claro, talvez você tenha outras ideias para seu próprio futuro, muito melhores. Pode me contar o que decidir?
De qualquer modo, minha cara colega de apartamento, vou esperar ansiosa por notícias suas. Por favor, dê um beijo nesse cachorrinho por mim. Já sinto uma saudade terrível dele.
Com todo o meu carinho,
Margot

* * *

Larguei a carta e fiquei sentada na cozinha por algum tempo, então fui até o quarto de Margot, entrei no quarto de vestir e examinei os armários cheios, peça após peça.
Uma loja de aluguel de roupas? Eu não sabia nada sobre negócios, nada sobre instalações, contabilidade ou sobre como lidar com o público. Estava morando em uma cidade cujas regras eu não compreendia inteiramente, sem um endereço permanente, e havia fracassado em todos os empregos que tivera. Por que diabo Margot acreditava que eu poderia começar um empreendimento totalmente novo?
Passei os dedos por uma manga de veludo azul-escuro e tirei a roupa do cabide: um macacão Halston, com um decote quase até a cintura, protegido por um tecido transparente. Voltei a pendurar o macacão com cuidado e peguei um vestido — bordado inglês branco, a saia cheia de babados. Percorri aquela primeira arara repleta de cabides, estupefata, intimidada. Eu mal havia começado a absorver a responsabilidade de ter um cão. O que deveria fazer com três quartos cheios de roupas?
Naquela noite, fiquei sentada no apartamento de Margot e liguei a televisão para ver Roda da Fortuna. Comi o que sobrara do frango que eu assara para o último jantar dela no apartamento (eu desconfiava que ela havia passado a maior parte do que estava em seu prato para Dean Martin, por baixo da mesa).
Não ouvi o que Vanna White falava, nem gritei letras para o prêmio surpresa. Pensei no que Margot me dissera, e na pessoa que ela vira em mim.
Quem era Louisa Clark, afinal?
Eu era filha, irmã e uma espécie de mãe substituta por um tempo. Era uma mulher que cuidava dos outros, mas que parecia não ter muita ideia, mesmo agora, de como tomar conta de si mesma. Enquanto a roda cintilante girava na minha frente, tentei pensar no que queria de verdade, em vez de levar em consideração o que todos os outros pareciam querer para mim. Pensei no que Will realmente quisera me dizer — para não viver uma ideia de segunda mão de uma vida plena, mas para viver meu próprio sonho. O problema, acho, era que eu nunca soubera que sonho era esse.
Pensei em Agnes, do outro lado do corredor, uma mulher tentando convencer a todos de que era capaz de se encaixar em uma nova vida enquanto uma parte fundamental dela se recusava a parar de lamentar o papel que deixara para trás. Pensei em minha irmã, na satisfação recém-encontrada depois que ela dera o passo necessário para compreender quem realmente era. O modo como Treena havia se entregado com tanta facilidade ao amor depois que se permitira fazer isso. Pensei em minha mãe, uma mulher tão acostumada a tomar conta de outras pessoas que já não sabia mais o que fazer com seu tempo livre.
Pensei nos três homens que eu amara, em como cada um deles havia me transformado, ou tentado me transformar. Era inegável que Will tinha ficado gravado em mim. Eu vira tudo através do prisma do que ele me desejara. Eu também teria me transformado por você, Will. E agora compreendo… você provavelmente sabia disso o tempo todo.
Viva corajosamente, Clark.
“Boa sorte!”, gritou a apresentadora da Roda da Fortuna, e voltou a girá-la.
E me dei conta do que eu realmente queria fazer.

* * *

Passei os três dias seguintes inventariando o guarda-roupa de Margot, separando as peças em grupos: seis décadas diferentes e, dentro de cada década, roupas para o dia a dia, para a noite e para ocasiões especiais. Separei tudo que precisava de pequenos reparos — botões faltando, renda esgarçada, furinhos — e fiquei maravilhada com o modo como ela conseguira evitar as traças e o desgaste das costuras, muitas das quais permaneciam perfeitamente alinhadas. Segurei algumas peças diante do corpo, experimentei outras, erguendo as capas plásticas de proteção e deixando escapar baixinho exclamações de prazer e espanto que faziam Dean Martin levantar as orelhas e, em seguida, se afastar com desprezo. Fui até a biblioteca pública e passei metade do dia pesquisando sobre tudo o que era necessário para começar um pequeno negócio: impostos, autorizações, documentos. Imprimi tudo e fui guardando em uma pasta que ficava mais cheia a cada dia. Então, fiz uma visita ao Vintage Clothes Emporium com Dean Martin e me sentei com as meninas para pedir indicações dos melhores lugares para mandar lavar a seco peças delicadas e dos melhores armarinhos para encontrar forro de seda para reparos.
Elas ficaram empolgadas ao saber do presente de Margot.
— Poderíamos comprar todo o lote de você — disse Lydia, soprando anéis de fumaça para o alto. — Quer dizer, por algo assim, poderíamos pedir um empréstimo no banco. Não é? Nós lhe pagaríamos um bom preço. O bastante para o depósito de aluguel em um apartamento realmente bom! Tivemos muito interesse daquela empresa de TV alemã. Eles têm uma série de vinte e quatro episódios com pessoas de várias gerações, que querem…
— Obrigada, mas ainda não decidi o que quero fazer com tudo — falei, tentando não reparar no desânimo no rosto delas. Já me sentia um tanto possessiva em relação àquelas roupas. Inclinei-me para a frente, por cima do balcão. — Mas tenho outra ideia…

* * *

Na manhã seguinte, eu estava experimentando um terninho verde de paletó e calça Ossie Clark, dos anos setenta, checando se havia costuras ruins ou furinhos, quando a campainha tocou.
— Só um segundo, Ashok. Deixe só eu pegar o cachorro — gritei, enquanto pegava no colo um Dean Martin que latia furiosamente para a porta.
Michael estava parado à minha frente.
— Oi — falei friamente, depois de me recuperar do choque. — Algum problema?
Ele se esforçou para não erguer uma sobrancelha por causa da minha roupa.
— O Sr. Gopnik gostaria de vê-la.
— Estou aqui legitimamente. A Sra. De Witt me convidou para ficar.
— Não tem a ver com isso. Para dizer a verdade, não sei do que se trata. Mas ele quer falar com você sobre alguma coisa.
— Sinceramente, não quero falar com ele, Michael. Obrigada, de qualquer forma.
Fiz menção de fechar a porta, mas ele colocou o pé no caminho para impedir. Olhei para o pé dele. Dean Martin deixou escapar um rosnado baixo.
— Louisa. Você sabe como ele é. O Sr. Gopnik me disse para não sair daqui até você concordar.
— Diga para ele mesmo atravessar o corredor. Não é longe.
Michael abaixou a voz:
— Ele não quer ver você aqui. Quer vê-la no escritório. A sós.
Michael parecia desconfortável de um modo que não lhe era característico, como aconteceria com alguém que havia declarado ser seu melhor amigo para então largá-lo como se você fosse uma batata quente.
— Diga a ele que posso ir até lá mais tarde esta manhã, então. Depois que eu e Dean Martin fizermos nossa caminhada.
Ele continuou imóvel.
— O que foi?
A expressão dele era quase suplicante.
— O carro está esperando do lado de fora do prédio.

* * *

Levei Dean Martin comigo. Ele foi uma boa distração para a vaga sensação de ansiedade que me incomodava. Michael estava sentado ao meu lado na limusine, e os olhinhos estrábicos de Dean Martin se fixavam nele e nas costas do banco do motorista ao mesmo tempo. Fiquei em silêncio, me perguntando que diabo o Sr. Gopnik iria fazer agora. Se ele tivesse decidido me denunciar, sem dúvida teria mandado a polícia me pegar, não seu carro. Será que esperara de propósito Margot ter ido embora? Havia descoberto outras coisas para me culpar? Pensei em Steven Lipkott e no teste de gravidez e imaginei o que responderia se ele me perguntasse o que eu sabia. Will sempre dissera que eu não conseguia manter uma expressão neutra. Ensaiei mentalmente Não sei de nada, até Michael me lançar um olhar penetrante e eu perceber que havia começado a falar em voz alta.
Fomos deixados diante de um enorme prédio de vidro, e Michael atravessou depressa o saguão cavernoso revestido de mármore, mas me recusei a me apressar e deixei Dean Martin seguir em seu próprio ritmo, embora percebesse que isso estava enfurecendo Michael. Ele pegou um crachá com a segurança, entregou-o para mim e me guiou na direção de um elevador separado, nos fundos do saguão — o Sr. Gopnik claramente era importante demais para subir e descer no mesmo elevador que os funcionários.
Subimos até o quadragésimo sexto andar a uma velocidade que fez meus olhos saltarem tanto quanto os de Dean Martin, e tentei disfarçar o ligeiro tremor em minhas pernas quando saímos do elevador para o silêncio sussurrado dos escritórios. Uma secretária, imaculadamente vestida em um terninho e com um sapato de salto agulha, observou-me de cima a baixo — imaginei que não deviam estar acostumados a receber pessoas vestindo um terninho verde da Ossie Clark dos anos setenta, com viés de cetim vermelho, e ainda por cima segurando um cachorrinho furioso. Segui Michael por um corredor até outro escritório, onde havia mais uma mulher sentada, também vestida imaculadamente em seu uniforme formal.
— Trouxe a Srta. Clark para ver o Sr. Gopnik, Diane — disse ele.
Ela assentiu, ergueu um fone e murmurou alguma coisa para quem estava do outro lado.
— Ele vai recebê-la agora — disse a mulher com um sorrisinho.
Michael apontou as portas para mim.
— Quer que eu fique com o cachorro? — perguntou.
Ele estava obviamente desesperado para que eu não entrasse com Dean Martin.
— Não. Obrigada — respondi, segurando o cãozinho com um pouco mais de força junto ao corpo.
A porta se abriu e lá estava Leonard Gopnik com camisa social.

* * *

— Obrigado por concordar em me ver — disse ele, fechando a porta depois de entrarmos na sala.
O Sr. Gopnik indicou uma cadeira do outro lado da escrivaninha e contornou-a lentamente. Percebi que ele estava mancando bastante e me perguntei o que Nathan estaria fazendo em relação a isso. Ele sempre fora discreto demais para conversar a respeito.
Não falei nada.
O Sr. Gopnik se sentou pesadamente em sua cadeira. Reparei que parecia cansado, que o bronzeado caro não conseguia esconder as olheiras e as rugas de tensão no canto dos olhos.
— Está levando seus deveres muito a sério — comentou ele, gesticulando para o cachorro.
— Sempre levo — falei.
E ele assentiu, como se fosse uma resposta justa.
Então se inclinou para a frente e encostou as pontas dos dedos umas nas outras.
— Não sou uma pessoa acostumada a ficar sem palavras, Louisa, mas… confesso que é o que está acontecendo neste momento. Descobri algo há dois dias. Algo que me deixou muito abalado.
Ele olhou para mim. Eu o encarei de volta, minha expressão perfeitamente neutra.
— Minha filha, Tabitha, ficou… desconfiada de algumas coisas que ouviu e contratou um detetive. Não fiquei muito satisfeito com isso… Não somos uma família inclinada a investigar uns aos outros. Mas quando ela me contou sobre o que o cavalheiro havia descoberto… Bem, não era algo que eu pudesse ignorar. Falei com Agnes e ela me contou tudo.
Esperei.
— A criança.
— Ah — falei.
Ele suspirou.
— Durante as… várias discussões que tivemos, ela também explicou sobre o piano e o dinheiro para comprá-lo, que, pelo que compreendo, você recebeu ordens de sacar, um pouco a cada dia, de um caixa automático próximo.
— Sim, Sr. Gopnik.
Ele baixou a cabeça, como se ainda guardasse uma mínima esperança de que eu contrariasse os fatos, que dissesse que tudo aquilo não passava de bobagem, que o detetive particular estava falando besteira.
Por fim, recostou-se pesadamente na cadeira.
— Parece que erramos feio com você, Louisa.
— Não sou uma ladra, Sr. Gopnik.
— Exatamente. E, ainda assim, por lealdade a minha esposa, você estava disposta a me deixar acreditar que era.
Eu não entendi direito se aquilo era uma crítica.
— Não achei que tinha muita escolha.
— Ah, você tinha. Com certeza tinha.
Ficamos sentados em silêncio no escritório frio por alguns instantes. Ele tamborilou os dedos na mesa.
— Louisa, passei grande parte da noite tentando descobrir um modo de consertar essa situação. E gostaria de lhe fazer uma oferta.
Esperei.
— Gostaria de lhe devolver seu emprego. Você teria, é claro, melhores condições… Folgas mais longas, um aumento de salário, benefícios melhores. Se preferir não morar em nosso apartamento, podemos arrumar uma acomodação por perto.
— Um emprego?
— Agnes não encontrou ninguém de quem gostasse como gostava de você, nem de longe. Louisa, você mais do que provou seu valor, e estou imensamente grato por sua… lealdade e por sua discrição permanente. A moça que contratamos depois de você foi… Bem, ela não serve. Agnes não gosta dela. Minha esposa considerava você mais como… uma amiga.
Olhei para Dean Martin. Que retribuiu o olhar. Ele não parecia nada impressionado.
— Sr. Gopnik, fico lisonjeada com sua proposta, mas acho que não me sentiria mais confortável trabalhando como assistente de Agnes.
— Há outros cargos dentro da minha empresa. Pelo que sei, você ainda não tem outro emprego.
— Quem lhe disse isso?
— Pouca coisa acontece naquele prédio que eu não saiba, Louisa. Normalmente, pelo menos. — Ele se permitiu um sorriso irônico. — Escute, temos vagas nos departamentos de Marketing e Administrativo. Eu poderia pedir que o departamento de Recursos Humanos fizesse vista grossa para algumas exigências dos cargos, e lhe ofereceríamos treinamento. Ou então estou disposto a criar um cargo em meu ramo filantrópico se você achar que seria mais interessante. O que diz?
Ele se recostou na cadeira, um braço apoiado na escrivaninha, a caneta de ébano pendendo da mão.
Uma imagem dessa vida alternativa se estendeu diante de meus olhos: eu, vestindo um terninho, indo trabalhar todo dia naqueles imensos escritórios envidraçados. Louisa Clark, ganhando um belo salário, morando em um lugar pelo qual poderia pagar. Uma nova-iorquina. Por uma vez na vida não tendo que tomar conta de ninguém, apenas subindo, com o céu sem limites acima de mim. Seria uma vida completamente nova. Uma dose na veia do Sonho Americano.
Pensei no orgulho que minha família sentiria se eu aceitasse.
Pensei em uma loja bagunçada no centro da cidade, cheia até o teto com roupas velhas de outras pessoas.
— Sr. Gopnik, mais uma vez, estou muito lisonjeada. Mas acho que não.
A expressão dele ficou mais séria.
— Então você quer dinheiro.
Eu o encarei sem entender.
— Vivemos em uma sociedade litigiosa, Louisa. Tenho consciência de que você guarda informações muito delicadas sobre minha família. Se é de uma alta quantia que você está atrás, podemos conversar. Posso incluir meu advogado. — Ele se inclinou para a frente e apertou o interfone. — Diane, você pode…
Foi nesse momento que eu me levantei e coloquei Dean Martin delicadamente no chão.
— Sr. Gopnik, não quero seu dinheiro. Se eu quisesse processá-lo… ou ganhar dinheiro com seus segredos, teria feito isso semanas atrás, quando fiquei sem emprego e sem ter onde morar. O senhor está me julgando errado agora, da mesma forma como fez naquele momento. E eu gostaria de ir embora agora.
Ele tirou o dedo do interfone.
— Por favor… sente-se. Não tive a intenção de ofendê-la. — E indicou a cadeira. — Por favor, Louisa. Preciso resolver esse assunto.
Ele não confiava em mim. Percebi naquele instante que o Sr. Gopnik vivia em um mundo onde dinheiro e status eram muito mais valorizados do que qualquer coisa, e que era inconcebível que alguém não tentasse tirar algo dele se tivesse oportunidade.
— O senhor quer que eu assine alguma coisa — falei com frieza.
— Quero saber seu preço.
Então tive uma ideia. Talvez eu tivesse um preço, afinal.
Voltei a me sentar e, depois de um instante, contei a ele. Pela primeira vez, nos nove meses em que nos conhecíamos, o Sr. Gopnik pareceu devidamente surpreso.
— É isso o que você quer?
— É isso o que eu quero. Não me importo como o senhor vai fazer.
Ele se recostou na cadeira e colocou as mãos atrás da cabeça. Então, desviou os olhos, pensando um pouco, até se voltar de novo para mim.
— Eu realmente preferiria que você voltasse a trabalhar para mim, Louisa Clark — disse ele.
Então sorriu pela primeira vez e estendeu a mão na mesa para apertar a minha.

* * *

— Carta para você — disse Ashok quando entrei no prédio.
O Sr. Gopnik dera ordens para que o carro me levasse de volta para casa, e eu pedira ao motorista que me deixasse a duas quadras do prédio, para que Dean Martin pudesse esticar as pernas. Eu ainda estava abalada com o encontro. Sentia a cabeça leve, estava exultante, como se fosse capaz de qualquer coisa. Ashok precisou repetir antes que eu registrasse o que ele estava dizendo.
— Para mim?
Conferi o endereço. Não conseguia pensar em ninguém que soubesse que eu estava morando no apartamento da Sra. De Witt a não ser meus pais, e minha mãe sempre me manda um e-mail para dizer que enviou uma carta.
Subi a escada correndo, dei água a Dean Martin e me sentei para abrir a carta. A letra não me era familiar, então folheei as páginas. Estava escrita em um papel barato, com caneta preta, e havia alguns trechos riscados, como se o remetente tivesse ficado em dúvida sobre o que queria dizer.
Sam.

5 comentários:

  1. Como as pessoas podem se enganar em...
    Cheguei a pensar q seria melhor ela seguir em frente c Josuah, depois mudei minha ideia, até reforcei um pouco meu conceito sobre a forma q a vida deve ser vivida (sem uma cartilha,sendo quem vc realmente é).

    EríneasGraças
    Ps:acho q essa autora andou ouvindo sobre o livro de Capitu kkkkkkk (uma hora vc acha uma coisa, depois outra)
    Ps2:O bom disso q constata q as pessoas podem mudar de opinião, e n serem tachadas de falsas etc,como alguns acham.rs

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  2. Acho que é apenas uma busca do próprio caminho. As vezes a gente acha que está no caminho certo, até se dar conta de que se encaixe lá.

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  3. Genteeee... o pai de Louisa tem razão ... a vida dela não tem rotina...

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  4. Acabei gostando da Sra. De Witt... Que capítulo uauuu empolgada lendo! Não gostei do Josh que realmente era um babaca... Agora estou torcendo para a Lou e Sam!

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  5. Chorei tanto com a despedida de Margot com Dean Martin 😭😭😭

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Boa leitura, E SEM SPOILER!