2 de fevereiro de 2018

Capítulo 29

O PRÍNCIPE

Avistei Enzo em meio à multidão quando estávamos chegando à Sacrista. Eu o surpreendi, indo para perto dele e fechando a mão em seu braço. Deixei claro com o inclinar da minha cabeça que faríamos um pequeno desvio. Precisávamos conversar. O suor surgiu na testa dele instantaneamente. Pelo menos ele tinha o bom senso de parecer preocupado.
Levei-o até uma boa distância das multidões, para o caso de ele ser um tolo chorão como eu suspeitava que fosse. Quando estávamos longe da vista das pessoas, joguei-o contra a parede da oficina do ferreiro. Ele ergueu os punhos cerrados por um instante para tentar se defender e então pensou melhor e irrompeu em lamúrias indignadas.
Empurrei-o de novo contra a parede com tanta força que ela estremeceu.
— Cale a boca! E escute cada palavra que vou dizer, porque da próxima vez que nos encontrarmos assim, um de nós vai sair sem a língua. Você está entendendo?
Ele assentiu de um jeito selvagem, repetindo várias vezes que sim.
— Que bom. Fico feliz que nos entendemos. — Eu me inclinei para perto dele e cuspi cada palavra de forma clara e o mais silenciosamente possível. — Eu estava no celeiro ontem. Ouvi você conversando com alguém, dando direções. Depois ouvi o barulho de moedas.
Ele arregalou os olhos, horrorizado.
— Eu nunca mais quero que nenhuma palavra sobre Lia passe pelos seus lábios. E, caso alguma palavra sobre ela escape, mesmo que por acaso, vou enfiar todas as moedas que estiverem em sua mão gananciosa pela sua garganta antes de cortar sua língua fora. Você está me entendendo, Enzo?
Ele assentiu, com a boca firmemente fechada, para o caso de eu decidir cumprir essa ameaça agora.
— E isso daqui vai continuar entre nós, entendeu? — ele assentiu vigorosamente. — Bom garoto — disse e dei uns tapinhas amigáveis no ombro dele.
Deixei-o acovardando-se junto à parede. Quando estava a alguns metros de distância, voltei-me para encará-lo outra vez.
— E, Enzo, só para você saber — acrescentei, animado — não existe nenhum lugar neste continente em que você possa se esconder de mim caso eu decida encontrá-lo. Limpe seu nariz agora. Você vai se atrasar para os sacramentos.
Ele ficou lá, ainda paralisado.
— Agora! — gritei.
Enzo limpou o nariz e saiu correndo, dando a volta e passando bem longe de mim. Fiquei observando enquanto desaparecia, descendo a via.
Não piore as coisas.
Parecia que as coisas já estavam bem piores. Se apenas eu tivesse sido valente o suficiente para recusar o casamento, para início de conversa, ela nunca teria precisado fugir, nunca teriam encostado uma faca na garganta dela, nunca teria que trabalhar em uma estalagem com um grosseirão repulsivo como Enzo. Se eu tivesse agido de outra forma, ela não precisaria fazer nada disso, tudo seria diferente.
Não diga a ela quem você é. Não piore as coisas para Dalbreck nem para os seus camaradas soldados.
Se eu ficasse aqui muito mais tempo, todo mundo descobriria. Mais cedo ou mais tarde, eu acabaria deixando escapar. Sven era mais esperto do que eu imaginara. Ele sabia que as coisas dariam errado. Mas como eu poderia prever que Lia acabaria sendo alguém tão diferente da pessoa que eu esperava que fosse?

Um comentário:

  1. Eu já estou ficando com raiva...estou desesperada para saber com quem ela vai ficar!!

    %&+8&%:;++%$#'!!!!!

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Boa leitura! E SEM SPOILER!