24 de fevereiro de 2018

Capítulo 28

— Foi assim — disse Josh, juntando as mãos.
Ele tinha certeza de que conseguiria a promoção. Connor Ailes não tinha sido convidado para um jantar. Charmaine Trent, que fora transferida recentemente do Jurídico, não tinha sido convidada para um jantar. Scott Mackey, gerente de contas, tinha sido convidado para um jantar antes de se tornar gerente de contas, e dissera que estava certo de que a promoção de Josh era garantida.
— Quer dizer, não quero ficar confiante demais, mas tudo se resume ao aspecto social, Louisa — disse ele, examinando seu reflexo no espelho. — Eles só promovem pessoas que acham que conseguem se enturmar socialmente com eles. Não se trata do que a pessoa sabe, entende? Eu estava me perguntando se deveria começar a jogar golfe. Todos eles jogam golfe. Mas não jogo desde que tinha, sei lá, treze anos. O que acha desta gravata?
— Está ótima.
Era uma gravata. Eu não sabia muito bem o que dizer. De qualquer modo, todas pareciam azuis. Ele deu o nó na gravata com gestos rápidos e seguros.
— Liguei para meu pai ontem e ele disse que o essencial é não parecer dependente deles, entende? Tipo… sou ambicioso e visto totalmente a camisa da empresa, mas, ao mesmo tempo, poderia ir para outra empresa a qualquer momento, afinal sou muito disputado. Eles precisam se sentir ameaçados com a possibilidade de você ir para outro lugar caso não o valorizem como devem, entende o que estou dizendo?
— Ah, sim.
Era a mesma conversa que já tivéramos quatorze vezes ao longo daquela semana. Eu não tinha nem certeza se precisava dar respostas. Josh voltou a examinar seu reflexo no espelho, então, aparentemente satisfeito, foi até a cama e se inclinou para passar a mão em meu cabelo.
— Passo para buscar você logo antes das sete, certo? Não se esqueça de passear com aquele cachorro antes, para não ficarmos presos. Não quero chegar atrasado.
— Estarei pronta.
— Tenha um ótimo dia. Ah, foi incrível o que você fez com a família daquela senhora, sabia? Realmente incrível. Você fez uma coisa boa.
Ele me beijou com determinação, já sorrindo por conta do dia que teria pela frente, e se foi.
Permaneci na cama, na exata posição em que Josh me deixou, usando uma das camisetas dele e abraçando os joelhos. Então me levantei, me vesti e saí do apartamento dele.

* * *

Ainda estava distraída quando acompanhei Margot ao hospital naquela manhã para uma consulta. Apoiei a testa na janela do táxi e tentei fazer de conta que entendia o que ela estava falando.
— Pode me deixar aqui mesmo, meu bem — disse Margot, enquanto eu a ajudava a descer do táxi.
Soltei o braço dela quando chegamos às portas duplas automáticas, que abriram como se fossem engoli-la. Aquela era a nossa rotina em cada consulta. Eu ficava do lado de fora com Dean Martin enquanto Margot seguia lentamente pelo hospital, e eu voltava uma hora depois, ou quando ela resolvesse me chamar.
— Não sei o que deu em você esta manhã. Você está muito distraída. Inútil.
Ela ficou parada na entrada do hospital e me entregou a guia da coleira.
— Obrigada, Margot.
— Bem, é como viajar com um idiota. Seu cérebro está claramente em outro lugar e você não está servindo como companhia. Minha nossa, precisei falar três vezes até conseguir que fizesse uma coisa para mim.
— Desculpe.
— Bem, certifique-se de dedicar plena atenção a Dean Martin enquanto eu estiver lá dentro. Ele fica muito perturbado quando percebe que está sendo ignorado. — Ela ergueu um dedo. — Estou falando sério, minha jovem. Eu vou saber.
Eu estava a meio caminho do café que tinha mesas do lado de fora e um garçom simpático quando me dei conta de que ainda estava segurando a bolsa de Margot. Xinguei e corri de volta pela rua.
Entrei ainda correndo na recepção do hospital, ignorando os olhares dos pacientes, que observavam o cachorro como se eu tivesse entrado com uma granada na mão.
— Oi! Preciso entregar uma bolsa para a Sra. Margot De Witt. Pode me dizer onde a encontro? Por favor. Sou a cuidadora dela.
A mulher não tirou os olhos da tela quando perguntou:
— Não pode ligar para ela?
— A Sra. De Witt tem uns oitenta anos. Não usa celular. E, mesmo que usasse, estaria na bolsa. Por favor. Ela vai precisar disto. Os remédios dela, as anotações, está tudo aqui.
— Ela tem consulta marcada hoje?
— Às onze e quinze. Margot De Witt.
Falei devagar, só para garantir.
A recepcionista checou a lista, passando um dedo com a unha pintada de forma extravagante pela tela.
— Certo. Sim, encontrei. A oncologia é ali, passando pelas portas duplas à esquerda.
— Desculpe, o quê?
— A oncologia. Descendo o corredor principal, passando pelas portas duplas à esquerda. Se ela estiver com o médico, você pode deixar a bolsa com um dos enfermeiros lá. Ou simplesmente deixe uma mensagem com eles para avisarem a ela que você está aguardando.
Encarei a mulher, esperando que me dissesse que tinha cometido um erro. Finalmente ela me olhou, com uma expressão indagadora, como se estivesse esperando que eu explicasse por que continuava parada diante dela, estupefata.
Peguei o cartão da consulta no balcão e me virei para sair.
— Obrigada — disse com a voz fraca, e saí para o sol com Dean Martin.

* * *

— Por que não me contou?
Margot se acomodou no táxi e desviou os olhos de mim teimosamente, com Dean Martin arfando em seu colo.
— Porque não é da sua conta. Você teria contado a Vincent. E eu não queria que ele se sentisse na obrigação de me visitar só por causa de um câncer idiota.
— Qual é o seu prognóstico?
— Não é da sua conta.
— Como… como se sente?
— Exatamente como me sentia antes de você começar a fazer todas essas perguntas.
Agora tudo fazia sentido. Os comprimidos, as consultas frequentes no hospital, a perda de apetite. As coisas que eu pensara serem apenas sinais da idade avançada e da assistência médica excessivamente atenta dos Estados Unidos tinham, na verdade, escondido uma falha sísmica muito mais grave. Eu me sentia enjoada.
— Não sei o que dizer, Margot. Sinto…
— Não estou interessada em seus sentimentos.
— Mas…
— Não ouse ficar toda melosa comigo agora — disse ela, irritada. — O que aconteceu com aquela fleuma inglesa? A sua é feita de marshmallow?
— Margot…
— Não vou falar sobre isso. Não há nada a dizer. Se vai insistir em ficar toda fresca comigo, pode se mudar para o apartamento de outra pessoa.
Quando chegamos ao Lavery, ela saiu do táxi com um vigor fora do comum. Eu ainda estava terminando de pagar o motorista e Margot já entrara no saguão do prédio sem mim.

* * *

Quis conversar com Josh sobre o que acontecera, mas, quando mandei uma mensagem de texto, ele disse que estava muito ocupado e que eu poderia contar tudo à noite. Nathan estava ocupado com o Sr. Gopnik. Ilaria talvez se apavorasse ou, pior, acabasse insistindo em passar toda hora na casa de Margot para brindá-la com seus cuidados peculiares e bruscos e para entregar pratos requentados de carne de porco. Na verdade, não havia mais ninguém com quem eu pudesse conversar.
Enquanto Margot tirava sua soneca da tarde, entrei silenciosamente no banheiro e, sob o pretexto de estar limpando, abri o armário e observei a prateleira de remédios, anotando os nomes, até encontrar a confirmação que buscava: morfina. Chequei os outros remédios que estavam no armário e procurei por eles na internet até conseguir as respostas de que precisava.
Eu me senti profundamente abalada. E fiquei imaginando como deveria ser encarar a morte assim, tão de frente. Perguntei-me quanto tempo restaria a Margot. Percebi que amava aquela velha senhora, com sua língua afiada e a mente ainda mais afiada, do mesmo modo como amava a minha família. E uma parte bem pequena de mim se perguntava, de forma egoísta, o que aconteceria comigo: eu estava feliz no apartamento de Margot. Talvez não imaginasse que fosse um arranjo permanente, mas achava que teria ao menos um ano ou mais ali. Agora, precisava encarar o fato de que eu estava andando sobre areia movediça mais uma vez.

* * *

Eu já havia me recomposto um pouco quando a campainha tocou, às sete em ponto. Atendi e lá estava Josh, imaculado. Nem mesmo a sombra de uma barba por fazer.
— Como? — falei. — Como você consegue ter essa aparência depois de um dia inteiro de trabalho?
Ele se inclinou para a frente e me deu um beijo no rosto.
— Barbeador elétrico. Também deixei outro terno na lavanderia e me troquei no trabalho. Não queria estar amassado.
— Mas com certeza seu chefe vai estar com o mesmo terno que usou o dia todo.
— Talvez. Mas não é ele que está de olho em uma promoção. Você acha que estou bem?
— Olá, Josh, querido.
Margot passou por nós a caminho da cozinha.
— Boa noite, Sra. De Witt. Como está?
— Ainda estou aqui, querido. Isso é o máximo que você precisa saber.
— Bem, a senhora parece ótima.
— E você fala um monte de tolices.
Ele sorriu e se virou novamente para mim.
— Então, o que vai usar, meu amor?
Olhei para baixo.
— Ahn, isto?
Um breve momento de silêncio.
— Esta… meia-calça?
Olhei para minhas pernas.
— Ah, ela. Tive um dia difícil. Esta é a meia-calça que sempre uso quando quero me sentir melhor, é o meu equivalente a um terno recém-saído da lavanderia. — Dei um sorriso triste. — Se ajudar, eu só uso esta meia-calça nas ocasiões mais especiais.
Ele encarou minhas pernas por mais um momento, então passou a mão na boca, bem devagar.
— Sinto muito, Louisa, mas ela não é apropriada para esta noite. Meu chefe e a esposa são muito conservadores. E vamos a um restaurante elegante. Do tipo que tem estrelas Michelin.
— Este vestido é Chanel. A Sra. De Witt me emprestou.
— Claro, mas o efeito do todo é um pouco…
Ele fez uma careta.
— Insano?
Quando não me mexi, ele estendeu as mãos e me segurou pelos braços.
— Querida, sei que você adora se vestir do seu jeito, mas poderia ser um pouco mais formal só para o meu chefe? Esta noite é muito importante para mim.
Olhei para as mãos dele e enrubesci. E me senti subitamente ridícula. Óbvio que a minha meia-calça de abelhinha era errada para um jantar com um diretor financeiro. O que eu estava pensando?
— Claro — falei. — Vou me trocar.
— Você não se importa?
— De jeito nenhum.
Ele quase desabou de alívio.
— Ótimo. Pode fazer isso o mais rápido possível? Não quero me atrasar e o trânsito está pesado por todo o caminho até a Sétima Avenida. Margot, posso usar o seu banheiro?
Ela assentiu, sem dizer uma palavra.
Corri para o meu quarto e comecei a revirar minhas coisas. O que uma pessoa usa em um jantar elegante com gente de finanças?
— Socorro, Margot — falei, ouvindo-a entrar atrás de mim. — Devo trocar só as meias? O que devo usar?
— Exatamente o que você está usando — respondeu ela.
Eu me virei para encará-la.
— Mas ele disse que não é adequado.
— Para quem? Por acaso existe um uniforme? Por que não pode ser você mesma?
— Eu…
— Essas pessoas são tão tolas a ponto de não conseguirem lidar com alguém que não se vista igualzinho a elas? Por que você precisa fingir ser alguém que obviamente não é? Quer ser uma “dessas” mulheres?
Deixei cair o cabide que estava segurando.
— Eu… não sei.
Margot levou a mão ao cabelo recém-arrumado. E me encarou com o que minha mãe chamaria de um olhar à moda antiga.
— Qualquer homem que tenha a sorte de ser seu namorado não deveria dar a mínima se você saísse vestida com um saco de lixo e galochas.
— Mas ele…
Margot suspirou e tapou a boca com a mão, como as pessoas costumam fazer quando têm mais a dizer, mas vão ficar quietas. Um momento se passou antes que ela voltasse a falar:
— Meu bem, acho que, em algum momento, você vai ter que decidir quem Louisa Clark é de verdade.
Ela deu um tapinha carinhoso em meu braço e saiu do quarto.
Fiquei parada, encarando o espaço onde Margot estivera. Olhei para minhas pernas listradas e depois para as roupas em meu armário. Pensei em Will e no dia em que ele me dera aquela meia-calça.
Um instante depois, Josh apareceu na porta, arrumando a gravata. Você não é ele, pensei de repente. Na verdade, não é nada parecido com ele.
— Então? — disse ele, sorrindo.
E logo assumiu uma expressão desanimada.
— Ah, pensei que você já estaria pronta…
Olhei para meus pés.
— Na verdade… — comecei.

6 comentários:

  1. É isso ai Louisa!!!

    Eríneas Graças

    ResponderExcluir
  2. Kkkkkk....bem feito para o Josh para de ser babaca #nossa_lou

    ResponderExcluir
  3. AAAAAAAAAAAAAAH SEMPRE TEM QUE UM MACHO ESCROTO

    SABS

    ResponderExcluir
  4. eu gosto do Josh ele tem outros habitos nao é pq ele é necessariamente babaca ele tem outros custumes eu nao ficaria chatiada em trocar de roupa se ele nao gostasse

    Srta. Costa

    ResponderExcluir
  5. Sinto muito Lou, mas o Josh é sim igual o Will antes do acidente.
    Assinado Miss Nothing

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!