20 de fevereiro de 2018

Capítulo 28

Subimos apressados os degraus do pórtico, sem que nenhum de nós se sentisse culpado por estar atrasado para o jantar, mas ambos fomos pegos de surpresa quando vimos Kaden e Griz entre os convidados. O capitão Hague sentiu um deleite particular em sussurrar, quando passei por ele.
— Conforme as suas ordens.
O momento a que ele resolveu me dar ouvidos não poderia ter sido pior, e ele sabia disso. A mão de Rafe ficou tensa na minha quando ele os viu. Fazer as pazes e ficar em paz com Kaden era algo que ainda estava distante para Rafe, bem distante. Por mais inquietos que todos à mesa estivessem com a presença dos dois homens, eu sabia que ninguém estava se sentindo tão desconfortável quanto os próprios Kaden e Griz. A favor de Kaden, ele evitou dizer qualquer coisa que pudesse ser interpretada como hostil. Ele parecia até mesmo contrito, o que eu esperava que fosse um sinal de que se arrependia do seu método de lidar com a “honestidade”. O não dito e as insinuações indiretas dele haviam maculado a sua verdade. Eu supunha que todos nós precisávamos de prática com isso. A verdade era uma habilidade mais difícil de se dominar do que o gingar de uma espada.
Até mesmo Jeb tinha vindo jantar, recusando-se a ficar mais uma noite confinado na cama. Eu podia apenas imaginar a dor que ele tivera que aguentar para colocar o braço e o ombro na camisa passada recentemente, mas ele a vestia com estilo e orgulho. Linho de Cruvas, sem sombra de dúvida.
As conversas foram voltadas para os planos vindouros do grupo e os ânimos ficaram mais leves. Nossos colegas de jantar pareciam ficar cada vez mais à vontade com as presenças de Griz e de Kaden, embora até mesmo os menores dos gestos deles ainda fossem monitorados.
Rafe sobreviveu à noite com uma contenção considerável, embora, diversas vezes durante o jantar, a mão dele viesse parar na minha coxa embaixo da mesa. Eu acho que ele gostava de me ver tropeçando nas palavras. Retribuí a distração quando ele estava profundamente envolvido em uma conversa com o capitão Azia. Depois de ter que começar a mesma frase três vezes, ele levou a mão sob a mesa e apertou a minha coxa, para me fazer parar de desenhar círculos ociosos na coxa dele. O capitão Azia ficou ruborizado, como se soubesse qual era o jogo em que estávamos entretidos.

* * *

O dia seguinte estava cheio de mais e mais deveres para Rafe. Eu vi o peso desses deveres nos seus olhos. Ele precisou reunir um incrível autocontrole lá no Sanctum, mantendo uma farsa dia após dia ao assumir o personagem de um emissário em conluio, e agora havia sido jogado em um novo papel, papel este que vinha com uma imensa carga de expectativa.
Eu estava passando pela tenda dele quando ouvi vozes tensas lá dentro. Rafe e Sven estavam discutindo. Eu me curvei para dentro da porta acortinada para refazer os laços nos cadarços da minha bota e ouvir o que eles diziam. Uma mensagem havia chegado, dizendo que o turno de tropas seria retardado em alguns poucos dias, mas também havia trazido a notícia de uma divisa crescente entre a assembleia e o gabinete.
— É isso — Rafe havia gritado. — Vamos voltar agora, com ou sem escolta.
Sven manteve e defendeu a sua posição.
— Não seja tolo! A mensagem enviada por Bodeen já deve ter chegado no palácio. Ela vai anunciar que você está vivo bem e que está a caminho, mas não pode descontar o fato de que os inimigos também saberão para onde está indo. O risco é grande demais. Uma grande escolta é algo prudente. Saber que você está vivo é o suficiente para acalmar a assembleia até chegarmos lá. — A reação de Rafe em relação às querelas do gabinete pareciam excessivas, e eu me perguntava se teria perdido alguma coisa ou se talvez as notícias apenas tivessem sido somadas à impaciência dele.
Rafe não era o único que estava ficando impaciente. A cada dia que se passava, eu tinha mais certeza de que precisava partir. O impulso ficava cada vez mais forte, e meus sonhos estavam se tornando agitados. Neles eu ouvia partes da Canção de Venda, uma melodia confusa pontuada pela minha própria corrida sem fôlego, embora, nos sonhos, os meus pés se recusassem a se mover, como se tivessem se enraizado no chão debaixo de mim, e então vinha o baixo ribombo de alguma coisa que se aproximava. Eu sentia a sua respiração quente nas minhas costas, alguma coisa faminta e determinada, e o refrão ressoando repetidas vezes: Pois quando o Dragão atacar, será sem misericórdia. Eu acordava, alarmada, tentando respirar, com as costas ardendo com a memória de garras afiadas me fatiando, e então ouvia as palavras do Komizar com tanta clareza quanto se ele estivesse ao meu lado: Se quaisquer membros da realeza sobreviverem à nossa conquista, me dará um grande prazer trancafiá-los neste lado do inferno.
Depois de uma noite particularmente inquieta, entrei na tenda de Rafe na manhã seguinte, enquanto ele ainda estava se vestindo. Ele estava se barbeando, na metade ainda. Eu não me dei ao trabalho de fazer saudação alguma.
— Rafe, temos que conversar sobre a minha ida a Morrighan para avisá-los.
Ele me analisou no reflexo do seu espelho e mergulhou a navalha encourada na bacia para enxaguá-la.
— Lia, já conversamos sobre isso. O Komizar está gravemente ferido, ou morto, e o Sanctum está um caos, com mais mortos. Você viu como estava o conselho, como se fossem um bando de cães famintos. A essa altura, eles estão dilacerando uns aos outros. — Ele passou mais uma vez a navalha no pescoço. — E, de qualquer forma, nenhum daqueles que restaram tem a capacidade de liderar um exército.
— Por ora. Nós esperamos isso. Mas eu não posso me arriscar com base em pressuposições. Preciso voltar e...
— Lia, a ponte está destruída. Eles não têm nem mesmo como cruzar o rio.
— Pontes podem ser consertadas.
Ele deixou a navalha cair na bacia e virou-se para olhar para mim.
— E quanto à recompensa pela sua cabeça? Você não pode simplesmente voltar para Morrighan. Vamos mandar uma mensagem, prometo.
— Mensagem? Para quem, Rafe? Há traidores no gabinete, conspirando com o Komizar, e não sei quantos são. Eu não saberia em quem confiar, e o Chanceler intercepta...
Ele limpou o rosto com uma toalha.
— Lia, não posso voltar para Morrighan nesse exato momento. Você sabe disso. Você viu a bagunça em que meu próprio reino se encontra. Eu tenho que acertar as coisas por lá primeiro. Temos tempo para pensar em como fazer isso.
Ele não entendia o que eu estava tentando dizer. Eu sabia que ele não poderia ir para Morrighan comigo, mas vi a expressão nos olhos dele. Ele queria que eu confiasse nele. O tempo parecia preciosos goles de água deslizando pelos meus dedos. O olhar contemplativo dele era inabalável, reluzente e seguro. Assenti. Eu daria mais uns poucos dias, por necessidade, se não fosse por qualquer outro motivo. O médico havia dito que Griz não poderia cavalgar ou manejar qualquer arma ainda. A longa negligência da ferida dele fez com que ela se curasse devagar, mas a carne saudável estava começando a se unir, se ele tomasse cuidado e não a dilacerasse novamente.
Rafe afivelou abainha e me deu um rápido beijo antes de partir. Os oficiais estavam saindo em cavalgada para observarem exercícios em treinamento. Ele parecia aliviado por estar fazendo alguma coisa dentro do seu ramo de especialidade, sendo um soldado, em vez de ficar discutindo sobre questões da corte som Sven ou Boldeen.
Fiquei parada na entrada da tenda dele, observando-o se afastar, desejando que tudo fosse uma questão de enviar uma mensagem a Morrighan, mas eu sabia que um mensageiro de Dalbreck provavelmente nem conseguiria passar pela fronteira com vida.

* * *

Na manhã seguinte, Vilah, Adeline e madame Rathbone trouxeram mais vestidos para a minha tenda, tentando encontrar algo para eu vestir para a festa na noite vindoura. Depois de muito alarde, elas se decidiram por um vestido de veludo azul-escuro, o azul dalbretchiano, com um cinturão prateado.
— Vamos reunir os outros acessórios — disse Vilah. — A menos que você prefira fazer isso.
Deixei que ela decidissem, como sugerido por Vilah. Eu gostava de um vestido bonito tanto quanto todo mundo, mas provavelmente já estava óbvio para todas elas que eu não me preocupava com as particularidades da moda.
— Você se importa se eu perguntar...? — disse Adeline, ruborizando-se. — Deixa pra lá — completou ela, dispensando sua pergunta.
— Por favor. Fale livremente.
— Parece que você e o rei Jaxon têm sentimentos genuínos um pelo outro, e isso só me levou a me pensar...
— Por que você fugiu do casamento? — Vilah terminou a pergunta por ela.
— Dizem que isso foi uma afronta deliberada planejada por Morrighan o tempo todo —, Adeline completou.
Eu me contive para não revirar os olhos.
— Isso é só conversa de egos feridos — respondi — e de uma corte cheia de homens que não conseguiam acreditar que uma moça pudesse acabar com os planos deles. O gabinete morrighês ficou com tanta raiva disso quanto o de Dalbreck. Minha partida não foi tão dramática quanto uma conspiração. Eu simplesmente parti de livre e espontânea vontade, porque estava com medo.
Adeline torcia o cinturão prateado na mão.
— Com medo do príncipe?
— Não — suspirei. — O príncipe provavelmente era o menor dos meus medos. Era o medo do desconhecido. Eu estava com medo do engodo e do dom que pensava não ter. Estava com medo de todas as escolhas perdidas que eu nunca seria capaz de fazer e com medo de que, pelo resto da vida, alguém sempre estaria me dizendo o que fazer, ou dizer, ou pensar, até mesmo quando eu tivesse melhores ideias próprias. Estava com medo de nunca ser algo além do que era adequado para os outros e de ser empurrada e cutucada até que me adequasse ao modelo para o qual eles me empurravam e de que eu me esquecesse de quem era e do que queria. E talvez, acima de tudo, tinha medo de que nunca fosse ser amada além do que um pedaço de papel havia ordenado que eu fosse. Isso é medo suficiente para fazer com que qualquer moça pule em um cavalo e saia em fuga, sendo princesa ou não, não acham?
Elas me fitaram, e eu vi o entendimento nos olhos delas. Madame Rathbone assentiu.
— Medo o bastante e além da conta também.

* * *

Segui caminhando, tentando ignorar o clangor dos cintos e das armas da escolta de guardas trilhando atrás de mim. Eles reverberavam como se fossem um exército inteiro marchando no meio de um mercado pacifico de vagões, mas as ordens do rei tinham que ser seguidas ao pé da letra: seis guardas, e não menos do que isso. Primeiramente, parei para ver como Dihara estava, e depois segui em busca de Natiya.
Como Dihara, Natiya havia ficado órfã quando era bebê. O vagão dos seus pais havia perdido uma roda e tombado pela encosta de uma montanha. Por meio de algum milagre, Natiya fora poupada, e a tribo toda a criou. Dihara, Reena, todas elas haviam sido suas mães.
Encontrei-a lá embaixo, na margem do rio, com o olhar fixo nas calmas águas ondulantes, supervisionando um agrupamento de varas de pescar jogado na água. Os guardas ficaram para trás, e eu me sentei ao lado dela, mas o foco dela no rio permaneceu constante, como se ele fluísse com sonhos e memorias.
— Eles me disseram que você estava aqui — ela falou, ainda com o olhar à frente.
— Graças a você — respondi. Com um único dedo, virei o queixo dela, de modo que ela tivesse que olhar para mim. Seus grandes olhos castanhos brilhavam. — Assustei um homem que tinha o dobro do meu tamanho com aquela faca. Ele havia machucado uma criancinha, e ameacei cortar o nariz dele fora. Você fez aquilo em que acreditava, Natiya. E isso me ajudou a fazer o mesmo.
Ela voltou a olhar para o rio.
— Mas eu não me saí bem nisso.
— Nem eu. Isso nunca vai me impedir de fazer novamente o que eu acredito. Uma vez que ficamos com medo de fazê-lo, a tirania vence.
— Então por que sinto que perdi tudo?
Inspirei devagar, uma respiração trêmula, sentindo o preço que ela havia pago.
— Há mais batalhas a serem lutadas, Natiya. Este não é o fim.
Lágrimas escorriam pelas bochechas dela.
— Para Dihara é.
Uma nauseante pontada de dor machucou o meu peito como se o estivesse torcendo. Essa era a realidade de Natiya... e a minha. Será que as perdas valeriam os ganhos? Eu lutava com as mesmas dúvidas que via nos olhos dela. Dihara havia me mandado vir aqui para falar com ela, mas, na verdade, o que eu tinha a oferecer? Eu ainda estava tentando encontrar o meu próprio caminho.
— Uma vez, quando eu estava desesperada por causa de eventos ruins, Dihara me disse que todos nós fazemos parte de uma história maior, uma história que transcende até mesmo as nossas próprias lágrimas. Você agora também faz parte dessa história maior, Natiya. Você deu ouvidos à verdade que estava falando dentro de você. Pode não parecer que é assim agora, mas você é mais forte hoje do que era ontem. Amanhã, será mais forte ainda.
Ela se virou para olhar para mim, com o mesmo ar de desafio no rosto como no dia em que a deixei no acampamento dos nômades.
— Quero ir com você — disse ela.
Senti um nó na barriga. Eu não estava preparada para aquilo. Eu vi a fome nos olhos dela, mas também vi Aster. Isso me enchia de medo e de um pesar renovado. Eu não permitiria que essa parte da história fosse dela.
— Ainda não, Natiya. Você é muito jovem...
— Eu tenho treze anos! E sou uma mulher... como você!
Meu sangue ficou agitado, e os meus pensamentos tropeçavam uns nos outros como milhares de pedrinhas minúsculas em um rio caudaloso.
— Cha liev oan barrie — falei. — Seu tempo virá. Juro. Por ora, sua família ainda precisa de você. Seja forte por eles.
Ela ficou me fitando e, por fim, assentiu, mas eu sabia que ela continuaria não convencida, e minhas próprias inadequações pareciam evidentes de novo.
O fio de uma vara de pescar foi puxado, e ela deu um pulo para cima, puxando a vara com pungência, de modo a prender o gancho bem profundamente na boca do peixe.

* * *

Eu me sentei na parede da torre de vigia, olhando para a planície que se desdobrava adiante. Uma bola de fogo cor de laranja aninhara-se na terra, e a linha ondulante do horizonte lentamente a engolia como se o sol fosse nada, como se o poder atemporal do astro fosse meramente um confeito de doce que desaparece em uma única mordida.
Tudo que restara no seu rastro era um brilho alaranjado que iluminava as beiradas de ruínas pontiagudas ao longe. Rafe disse que a lenda clamava que as ruínas eram o que havia restado de uma grande fortaleza que certa vez contivera toda a riqueza dos Antigos. Agora, as obras dos semideuses eram pouco mais do que cicatrizes em uma paisagem, lembretes de que até mesmo os grandes, com toda a sua riqueza e com todo o seu conhecimento, podem cair.
Em algum lugar além disso, em um horizonte invisível, estava Morrighan e todas as pessoas que lá viviam, seguindo suas vidas, sem saber das coisas. Meus irmãos. Pauline. Berdi. Gwyneth. E outras patrulhas como a de Walther que se deparariam com as suas mortes, tão alheios às coisas quanto eu tinha sido uma vez.
Quero ir com você.
Onde eu estava indo não era lugar para Natiya. Dificilmente era um lugar para mim mesma.

3 comentários:

  1. Tô cansada dessa lia q é bicho de estimação do rafe..esperando as ordens dele..tá na hora dela ir embora desse lugar e se o rafe não quiser ir junto azar o dele..kkkk

    ResponderExcluir
  2. Engraçado que o medo dela é exatamente o que está acontecendo

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!