16 de fevereiro de 2018

Capítulo 28

Eles não estavam chegando. Desde o início, eu sabia que as chances eram pequenas, mas cada vez que eu olhava para o rosto de Rafe, reunia uma nova esperança pelo bem dele. Não eram apenas soldados que vinham para ajudar a libertar um príncipe e uma princesa rebeldes. Eram amigos dele.
A esperança é um peixe escorregadio – impossível de segurar por muito tempo, minha tia Cloris dizia quando eu ansiava por algo que ela considerava infantil e impossível. Então você tem que segurá-la com mais força, minha tia Bernette contrariaria a sua irmã mais velha antes de me conduzir para longe em um acesso de raiva. Mas algumas coisas escorregavam de seu alcance, não importava o quanto você segurasse.
Nós estávamos por nossa própria conta. Os amigos de Rafe estavam mortos. Não era um sussurro no meu ouvido ou uma pontada no meu pescoço que me dizia isso. Eras as regras da razão que prevaleciam, as regras de tudo o que eu podia entender e ver. Diziam claramente. Esta era uma terra dura sem perdão para os inimigos.
Assisti Rafe a cada noite, roubando um olhar quando tinha certeza de que ninguém estava olhando. Enquanto meus movimentos dentro do Sanctum ainda eram muito bem guardados, os dele ficaram mais livres, e Calantha e Ulrix se tornaram menos vigilantes. Com paciência calculada, ele estava cultivando sua confiança. Ulrix, enquanto ainda uma besta assustadora, parecia ter desistido do punho, e Rafe não aparecia mais com lábios partidos, quase como se ele tivesse julgado Rafe um exceção aceitável de um homem, embora fosse um porco inimigo. Insinuar-se com um animal como Ulrix era verdadeiramente uma obra de habilidade.
Rafe bebia com os chievdars, ria com os governadores, falava em voz baixa com os servos. Jovens criadas arrastavam-se para perto dele, admiradas por suas tentativas enroladas de falar vendano, ansiosas para encher sua caneca, sorrindo para ele sob os cílios. Mas uma nova identidade, não importava quão bem fingida, lhe faria pouco bem uma vez que o Komizar descobrisse que ele estava mentindo.
Era como se, com o Komizar longe, todos tivessem esquecido a iminente sentença de morte de Rafe, ou talvez apenas pensassem que nunca aconteceria. Rafe era convincente. Alguém estava sempre puxando-o de lado, chievdars sondando sobre os militares Dalbreck, ou governadores curiosos sobre seu poderoso reino distante, pois embora dirigissem seus próprios pequenos feudos aqui, tinham pouco ou nenhum conhecimento do mundo que havia além do grande rio. Eles só conheciam por meio dos Rahtan que se aventuravam através das fronteiras, ou pelas caravanas dos Previzi que compartilhavam seus tesouros. Os tesouros e sua abundância, era o que mais os intrigava. As pequenas cargas pouco frequentes trazidas pelos Previzi não eram suficientes para satisfazer os seus apetites, nem, aparentemente, o saque das patrulhas abatidas. Eles tinham fome por mais.
Eu usava o meu vestido de retalhos de couro esta noite. Quando entrei no corredor notei Calantha falando com uma criada, e a menina se aproximou correndo.
— Calantha ficaria feliz se você trançar o cabelo. — Ela ergueu uma pequena tira de couro para prendê-lo.
Vi Calantha nos observando. Todas as noites, agora, ela insistia para que eu dissesse a bênção. Isso pareceu agradar alguns, mas irritou muitos outros, especialmente o Rahtan, e me perguntei se ela estava tentando me matar. Quando questionei seus motivos, ela disse:
— Me diverte ouvi-la dizer as palavras com esse sotaque estranho, não preciso de maior razão. Lembre-se, princesa, você ainda é uma prisioneira. — Eu não precisava de nenhum lembrete disso.
— Você pode dizer a Calantha que não tenho nenhuma intenção de trançar meu cabelo apenas para agradá-la.
Dei um sorriso duro na direção de Calantha. Quando olhei de volta para a garota, seus olhos estavam arregalados de susto. Era uma mensagem que ela não fazia questão de entregar.
Peguei a tira de couro de sua mão.
— Mas eu farei isso por você. — Puxei meu cabelo por sobre o ombro e começou a trançá-lo. Quando terminei, a moça sorriu.
— Agora seu belo desenho estará à mostra — disse ela. — Assim como Calantha queria.
Calantha queria que meu kavah ficasse à mostra? A menina começou a se afastar, mas eu a parei.
— Diga-me, Calantha é do clã dos Meurasi?
A menina balançou a cabeça.
— Oh, eu não devo dizer, madame. — Ela se virou e foi embora.
Não devo dizer. Acho que ela já disse.
A refeição foi como todas as outras antes dessa. Eu falei a bênção para as humildes cabeças inclinadas de poucos e as carrancas de muitos. O fato de que isso corroesse Malich valia a pena para mim, e eu sempre fazia questão de cruzar o olhar com o dele antes de começar. Mas, então, as palavras assumiam, os ossos, a verdade, o pulsar das paredes ao meu redor, a vida que ainda residia nas pedras e no chão, a parte do Sanctum que estava crescendo mais forte em mim, e no momento em que o último paviamma ecoou de volta, as carrancas nada importavam para mim.
Esta noite a refeição foi a mesma que todas as noites, mingau de cevada grosso tempetado com folhas de hortelã e pimenta, pão de soda, nabos, cebolas e carne assada – de javali e lebre. Havia pouca variação, exceto em relação à carne. Castor, pato e cavalo eram servidos às vezes também, dependendo de qual animal era caçado, mas em comparação com a minha dieta frequente de areia, esquilo e cobra enquanto percorria o Cam Lanteux, era um verdadeiro banquete, e eu estava grato por cada mordida.
Eu estava mergulhando o meu pão de soda no mingau quando um súbito burburinho veio de um dos corredores que levavam para o Sanctum. Cada homem estava de pé em um instante, espadas e adagas em prontidão. O tumulto ficou mais alto. Rafe e eu trocamos um olhar furtivo. Poderia ser seus homens? Com reforços?
Duas dúzias de homens surgiram, o Komizar liderando-os. Ele estava imundo, sujo de lama da cabeça aos pés, mas parecia gostar da imundície. Um raro sorriso tolo estava estampado em seu rosto.
— Olha quem nós encontramos na estrada! — disse, acenando com a espada sobre sua cabeça. — O novo governador de Balwood! Mais cadeiras! Comida! Estamos com fome!
A companhia de homens invadiu a mesa com toda a sua imundície glorificada, deixando rastros de lama atrás deles. Avistei aquele que deveria ser o novo governador: um homem jovem, tanto insolente quanto temeroso. Seus olhos corriam ao redor do salão, rapidamente tentando avaliar novas ameaças. Seus movimentos eram afiados e sua risada, forçada. Ele podia ter acabado de matar o último governador para ganhar sua posição, mas o Sanctum não era sua terra natal. Novas regras teriam de ser aprendidas e seguidas, e ele teria que conseguir permanecer vivo enquanto fazia isso. Sua posição não era tão diferente da minha, só que eu não tinha matado ninguém para ganhar este lugar duvidosa de honra.
E então o Komizar me viu. Ele deixou suas coisas no chão e atravessou o salão, parando a um braço de distância. Sua pele brilhava pelo dia de viagem ao sol, e seus olhos escuros reluziam enquanto traçaram as linhas do meu vestido. Ele estendeu a mão e tocou a trança caindo sobre meu ombro.
— Com o cabelo penteado, você só parece metade selvagem. — A sala explodiu em risadas fieis, mas seu olhar contemplativo me contava uma história diferente, que não era bem-humorada ou divertida. — Então enquanto o Komizar está longe, os prisioneiros fazem a festa. — Ele finalmente se virou para Kaden. — Isto foi o que meu dinheiro comprou?
Rezei para Kaden dissesse que sim, de modo que a culpa caísse sobre nós. Caso contrário, os generosos presentes de Effiera poderiam ser reembolsados com retaliação.
— Sim — respondeu Kaden.
O Komizar assentiu, estudando-o.
— Eu encontrei um governador. Agora é a sua vez de encontrar o outro. Você parte pela manhã.

* * *

— Por que você? — perguntei, puxando o cordão na minha cintura. Ele caiu no chão.
Kaden continuou a vasculhar seu baú, tirando um longo manto forrado de pele e meias de lã.
— Porque não eu? Sou um soldado, Lia. Eu...
Estendi a mão e segurei seu braço, obrigando-o a me olhar nos olhos. Preocupação os enchia. Ele não quer ir.
— Por que é tão leal a ele, Kaden?
Ele tentou voltar para o baú, mas eu segurei seu braço com mais força.
— Não! — eu disse. — Você não está me iludir de novo! Não dessa vez!
Ele olhou para mim, seu peito subindo e descendo em respirações controladas.
— Ele me alimentou quando eu estava morrendo de fome, para começar.
— Um ato de caridade não é razão para vender sua alma para alguém.
— Tudo é tão simples para você, não é? — raiva brilhou em seu rosto. — É mais complicado do que um ato, como você se refere.
— Então o quê? Ele lhe deu um bom manto? Um quarto no...
Ele ergueu as mãos.
— Eu fui negociado, Lia! Assim como aconteceu com você! — ele desviou o olhar como se estivesse tentando recuperar a compostura. Quando olhou para mim, fúria quente ainda estava em seus olhos, mas seu tom era lento e cínico. — Exceto que no meu caso, não havia contrato. Depois que minha mãe morreu, fui vendido para um círculo de mendigos que estava de passagem por um único cobre, como se eu fosse um pedaço de lixo, com apenas uma ressalva – de nunca me trazer de volta.
— Você foi vendido por seu pai? — perguntei, tentando entender como alguém podia fazer uma coisa dessas.
Em segundos, o suor tinha brotado em seu rosto. Esta era a recordação que importava, a que ele sempre se recusara a compartilhar.
— Eu tinha oito anos — disse ele. — Implorei a meu pai para ficar. Eu caí a seus pés e passei meus braços em torno de suas pernas. Desde esse dia, nunca esqueci o cheiro nauseante de sabão de jasmim na calça dele.
Ele fechou a tampa do baú e sentou-se, os olhos desfocados como se revivesse a memória.
— Ele me sacudiu. Disse que era melhor assim. O melhor foram dois anos com mendigos habilidosos que me matavam de fome para que eu pudesse trazer mais dinheiro nas esquinas. Se a mendicância de um dia não trouxesse o suficiente, eles me batiam, mas sempre onde não aparecia. Eles tinham esse cuidado. Se eu ainda não trouxesse o suficiente, ameaçavam me levar de volta para o meu pai, que me afogaria em um balde de água como um gato de rua.
Seu olhar se tornou afiado, cortante sobre mim.
— Foi o Komizar que me encontrou implorando em uma rua enlameada. Ele viu o sangue escorrendo pela minha camisa depois de uma punição particularmente ruim. Ele me puxou para cima de seu cavalo e me levou de volta para seu acampamento, me alimentou, e perguntou quem tinha me batido. Quando contei a ele, ele deixou por algumas horas, prometendo que nunca aconteceria novamente. Quando voltou, estava sujo de sangue. Eu sabia que era o sangue deles. Ele foi fiel à sua palavra. E eu estava feliz.
Ele se levantou e pegou o manto do chão.
Eu balancei a cabeça, horrorizada.
— Kaden, é uma abominação chicotear uma criança e tão ruim quanto vender uma. Mas essa não é mais uma razão para deixar Venda de uma vez por todas? Para ir para Morrighan e...
— Eu estava Morrighese, Lia. Eu era um filho bastardo de um nobre de alta linhagem. Agora você sabe porque eu odeio a realeza. Foi disso que o Komizar me salvou.
Olhei para ele, incapaz de falar. Não.
Não era verdade. Não podia ser.
Ele jogou o manto sobre os ombros.
— Agora você sabe quem são os verdadeiros bárbaros.
Ele se virou e saiu, o som da porta se fechando atrás dele, e mesmo assim eu continuei lá.
O modo como ele conhecia as canções sagradas.
Sua leitura.
Seu morrighês impecável.
Verdade.
As cicatrizes em seu peito e costas.
Verdade.
Mas não era um vendano que tinha feito isso com ele, como sempre supus. Foi um lorde bem nascido de Morrighan.
Impossível.

* * *

A vela apagou-se. Assim como as lamparinas. Fiquei enrolada na cama e olhando para a escuridão, revivendo cada momento desde que ele entrou na taberna, até nossa longa viagem através do Cam Lanteux. Todas as vezes que eu havia ficado maravilhada com os modos ternos dele, que eram um contraste gritante com o que ele era, um assassino. Todas as vezes. A maneira como ele ficava tão confortável no mundo morrighês. Parecia perfeitamente óbvio agora. Ele estava lendo a placa jogos. Era vendano que ele não sabia ler, não morrighês. Pauline e eu tínhamos notado quão bem ele cantou as canções sagradas, enquanto Rafe não sabia nenhuma das palavras. Ele fora criado até os oito anos como o filho de um lorde morrighês.
O próprio povo de Kaden, o meu povo, o havia traído. Com exceção de sua mãe. Ela era uma santa, ele tinha dito. O que tinha acontecido com ela? Deve ter sido com ela que ele aprendeu os modos ternos. Era possível que ela fosse a única em toda a sua vida que lhe mostrou qualquer amor ou compaixão, até o Komizar chegar.
Era o meio da noite quando ele voltou. O quarto estava completamente escuro e, no entanto, ele moveu-se silenciosamente, como se pudesse ver no escuro. Eu o ouvi colocar alguma coisa no chão com um tunc alto, e então ouvi o farfalhar de roupas sendo dispostas e o suspiro suave de sua respiração quando ele se deitou no tapete. O quarto estava pesado com o silêncio. Longos minutos se passaram. Eu sabia que ele não estava dormindo. Podia sentir seus pensamentos na escuridão, seu olhar perfurando a madeira acima dele.
— Kaden — sussurrei. — Conte-me sobre sua mãe.
O nome dela era Cataryn. Ela era muito jovem quando foi contratada como governanta por um lorde e sua esposa, mas logo descobriu-se que ela tinha o dom também. A senhora a pressionava diariamente para obter pensamentos sobre seus próprios filhos pequenos, mas logo o lorde começou a pressioná-la por outras coisas. Kaden nasceu e não conhecia outra vida. Ele pensava que era normal viver em uma pequena casa na propriedade de seu pai. Quando sua mãe ficou doente e sua vida definhava rapidamente, ela pediu ao lorde que levasse Kaden para a mansão. A dama não aceitaria nada disso. Um bastardo não seriam criado com os seus filhos de nascimento nobre e, mesmo que o senhor tivesse prometido a Cataryn que tomaria Kaden, parecia que tinha concordado com sua esposa o tempo todo. O corpo de sua mãe nem esfriara quando Kaden foi dado para os mendigos que estavam de passagem sem nem olhar para trás.
Sua mãe era bonita, olhos azuis cristalinos, cabelo preto que era suave e longo. Gentil e difícil de enfurecer, ela era uma professora acima de tudo. Ensinava Kaden junto com os filhos do lorde. À noite, na casinha deles, olhava pela janela para as estrelas e sussurrava as histórias de todos os tempos, e Kaden as repetia de volta para ela. Ele era muito jovem para entender completamente por que os filhos do lorde recebiam privilégios, mas quando ficava com raiva sobre isso, sua mãe o envolvia nos braços e cantarolava contra sua bochecha que ele era muito mais rico nas coisas que importavam porque ele possuía uma mãe que tinha mais amor por ele do que todo o universo poderia conter.
Mas, de repente, ele não tinha mais. Ele não tinha nada. Um de seus maiores pesares era que ele levava os cabelos loiro brancos e os olhos castanhos do pai. Quando se olhava no espelho, queria pelo menos ver algo de sua mãe ali.
— Eu a vejo, Kaden — falei. — Eu a vejo em você todos os dias. Desde o momento em que o conheci, vi sua calma, seus modos ternos. A própria Pauline me disse que você tinha olhos bondosos. Isso é mais importante do que a cor deles.
Ele permaneceu em silêncio, exceto por uma respiração baixa, trêmula. E então nós dois fomos dormir.

10 comentários:

  1. EU SABIAAA
    O ódio dele pela nobreza sempre me fez pensar que ele era um"excluído" dela e quem é mais excluído que um bastardo??!!
    Só não tinha certeza se era Morrighan ou Dalbreck

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  2. Tava na cara ,não viu quem não quis

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  3. Só eu quero ver a Lia e o Kaden de pegando ? Kkkkkkkk mds do céu

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  4. Calantha é mais do qe aparenta, nesse angu tem caroço!
    Komizar é muito estranho, cruel e bom ao mesmo tempo

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  5. somos duas torço para que ela fique com ele

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  6. Quero o kaden com a Lia TB... Poliamor kkkkkkk adorei... Gnt e igual a mulher lá q tem uma filha com o cara de morringhan( a espiã) ela tem uma filha e flou q ela nasceu morta p n ter q ver a filha sendo vendida... O povo morringhes é muito cruel com os filhos bastardos...

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    1. Vendida? Ela não queria que a menina ficasse em perigo pelo pai que tem, que ele a tomasse dela, ameaçasse.

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  7. estou achando que os dois são irmão, por isso essa ligação entre eles.

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    1. Os dois quem!? Kaden e Lia!? Só se for isso pra ela ficar com Rafe... pq maia que nunca prevejo (e torço) por uns amassos deles tb!!!!

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  8. Nossa.. Eu quase posso ver o olhar perdido do Kaden.. assassino, apaixonado e complexado. Parece irresistível até mesmo pra Lia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!