24 de fevereiro de 2018

Capítulo 27

Cara Louisa Clark,
Meu nome é Vincent Weber — neto de Margot Weber, como eu a conheço. Mas você parece conhecê-la pelo nome de solteira, De Witt.
Sua mensagem me pegou de surpresa, porque meu pai nunca fala sobre a mãe dele — para ser honesto, por anos fui levado a acreditar que ela nem estava mais viva, embora agora me dê conta de que ninguém jamais colocou a situação nesses termos exatos.
Depois que recebi sua mensagem, perguntei a minha mãe e ela disse que houve uma grande briga bem antes de eu nascer. Mas andei pensando e decidi que, na verdade, isso não tem nada a ver comigo, e eu adoraria saber mais sobre ela (você pareceu dar a entender que ela não anda bem?). Não acredito que tenho outra avó!
Por favor, responda a esse e-mail. E obrigado por seus esforços.
Vincent Weber (Vinny)

* * *

Ele chegou no horário combinado, na tarde de quarta-feira, o primeiro dia realmente quente de maio, quando as ruas estavam cheias de corpos abruptamente expostos e de óculos escuros recém-comprados. Não contei a Margot sobre a visita porque (a) sabia que ela ficaria furiosa e (b) tinha uma forte sensação de que ela simplesmente sairia para caminhar até ele ir embora.
Abri a porta da frente e lá estava ele — um homem louro, alto, com a orelha furada em sete lugares, usando uma calça larga estilo anos quarenta, com uma camisa vermelha, sapatos sociais marrons muito bem engraxados e um suéter Fair Isle apoiado nos ombros.
— Você é Louisa? — perguntou, quando me inclinei para pegar o cachorro agitado.
— Ah, meu Deus — falei, observando-o de cima a baixo. — Vocês dois vão se entender às mil maravilhas.
Atravessamos o corredor conversando aos sussurros. Demorou dois minutos inteiros de latidos e rosnados de Dean Martin até que ela perguntasse:
— Quem era na porta, meu bem? Se for aquela mulher Gopnik horrorosa, pode dizer que o jeito dela de tocar piano é uma tolice exibicionista e sentimental. E quem está falando isso é alguém que já viu Liberace tocar.
Ela começou a tossir.
Dei alguns passos para trás e fiz sinal para que ele fosse para a sala de estar.
Abri a porta.
— Margot, você tem visita.

* * *

Ela se virou, o cenho ligeiramente franzido, as mãos apoiadas no braço da poltrona, e o examinou por uns longos dez segundos.
— Não conheço você — afirmou, decidida.
— Este é Vincent, Margot. — Respirei fundo. — Seu neto.
Ela o encarou.
— Oi, Sra. De Witt… vovó.
Vincent se adiantou e sorriu, então se agachou diante dela, que examinou o rosto dele.
A expressão de Margot era tão intensa que achei que iria gritar com o neto. Mas então ela deixou escapar algo que pareceu um pequeno soluço. Sua boca se abriu cerca de meio centímetro e suas mãos ossudas se fecharam ao redor das mangas da camisa dele.
— Você veio — disse ela, a voz um grasnado baixo, abalada, como se emergisse de algum lugar no fundo de seu peito. — Você veio.
Margot o encarou, os olhos cintilando enquanto examinava as feições dele, como se já estivesse vendo semelhanças, histórias, lembranças esquecidas muito tempo antes.
— Ah, mas você é tão, tão parecido com seu pai.
Ela estendeu a mão para tocar o rosto de Vincent.
— Gosto de pensar que tenho um gosto ligeiramente melhor — disse ele, sorrindo, e Margot deu uma risadinha engasgada.
— Deixe-me olhar para você. Ah, meu Deus. Você é tão bonito. Mas como me encontrou? Seu pai sabe sobre…?
Margot balançou a cabeça, como se estivesse fazendo um monte de perguntas atrapalhadas, enquanto os nós de seus dedos ficavam brancos nas mangas da camisa dele. Então, ela se virou para mim, como se houvesse se esquecido de que eu estava ali.
— Ora, não sei o que você está olhando, Louisa. A esta altura, uma pessoa normal já teria oferecido uma bebida a este pobre homem. Santo Deus. Há dias em que não tenho ideia do que você está fazendo aqui.
Vincent pareceu espantado, mas eu me virei e segui em direção à cozinha com um sorriso feliz.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!