2 de fevereiro de 2018

Capítulo 27

— Uma manhã de folga! Uma manhã de folga e veja só a encrenca em que você se meteu! — disse Berdi, dando uma batidinha no meu pescoço.
Kaden sentou-se ao meu lado, segurando um balde para o caso de eu vomitar de novo.
— Até parece que saí para procurar alguns bandidos — retorqui.
Berdi desferiu um olhar austero para mim, de quem sabia muito bem das coisas. Não havia bandidos em Terravin, não em uma trilha superior e remota, caçando uma garota com roupas esfarrapadas e pouco dinheiro, mas com Kaden ali sentado, ela manteve minha história em segredo.
— Com a cidade cheia de estranhos nesse momento, é preciso tomar mais cuidado.
A faca não havia exatamente cortado o meu pescoço, apenas raspado. Berdi disse que a ferida não era maior do que a picada de uma pulga, mas pescoços sangram muito. Ela colocou um bálsamo ardente no corte, e eu me encolhi.
— Fique quieta! — disse ela, em tom de bronca.
— Eu estou bem. Pare de fazer tanto estardalhaço por causa de algo tão insignificante...
— Olha para você! Seu pescoço tem um talho que vem daqui até aqui...
— Você mesma acabou de dizer que não era maior do que a picada de uma pulga.
Ela apontou para meu colo.
— E você ainda está tremendo que nem vara verde!
Baixei o olhar para os meus joelhos, que tremiam, indo para cima e para baixo. Forcei-os a parar.
— Quando a gente coloca para fora toda a refeição da manhã, é claro que vai tremer.
Ela não me perguntou por que eu tinha vomitado todo o meu desjejum. Berdi sabia que eu não ficava facilmente chocada com sangue, mas todos nós tomamos cuidado para não mencionarmos o assunto do cadáver. Kaden havia simplesmente dito a ela que Rafe estava cuidando disso. Ela não perguntou o que ele queria dizer com isso. Nem eu. Nós apenas ficamos felizes de que alguém estava cuidando do assunto, embora me perguntasse o que Rafe poderia fazer com um cadáver além de levá-lo até uma patrulha. No entanto, eu ainda conseguia ouvir a forma como ele tinha dito isso. Ele não levaria o corpo do bandido às autoridades.
Não havia dúvida de que o homem morto fosse um canalha assassino. Talvez isso fosse tudo que Rafe precisava saber. Ele o havia visto segurando a faca na minha garganta e vira o sangue escorrendo de meu pescoço. Por que incomodar as autoridades quando uma conveniente ravina estava mais perto?
Talvez as coisas fossem resolvidas assim nas regiões distantes. E eu estava feliz com isso.
— Você tem certeza de que era apenas um bandido? — perguntou Berdi. — Às vezes, eles andam em bandos.
Eu sabia que ela estava falando em código, querendo saber se a pessoa que havia me atacado poderia ter todo o exército real marchando em direção à estalagem no fim do dia.
— Ele estava sozinho. Tenho certeza disso. Não havia nenhum outro.
Ela exalou um longo murmúrio desprovido de palavras, que assumi como sendo a versão dela de alívio.
— Pronto — disse Berdi, pressionando uma pequena bandagem junto ao meu pescoço. — Está feito. — Ela mexeu um pouco de pó dentro de uma xícara cheia de água e entregou-a para mim. — Beba isso. Vai ajudar seu estômago a ficar melhor.
Bebi, obediente, na esperança de acalmá-la.
— Agora, vá já para a cama e descanse — ordenou ela. — Logo vou levar pão e caldo para você.
Eu estava prestes a protestar, mas Kaden segurou meu cotovelo e me ajudou a levantar. Enquanto eu me colocava de pé, senti os efeitos da luta violenta pela qual havia passado. Todas as partes do meu corpo doíam — meu ombro, meu cotovelo, que tinha golpeado as costelas do bandido, meu tornozelo e meu calcanhar, que tinham pisoteado o homem com uma força incrível, meu pescoço, que tinha se contorcido para trás mais do que o naturalmente possível.
— Só um pouquinho — falei. —Vou conseguir trabalhar no refeitório hoje à noite.
Berdi murmurou algo baixinho e Kaden me levou para fora pela porta da cozinha. Conforme subíamos os degraus da encosta da colina, agradeci a ele por ter surgido a tempo, dizendo que com certeza eu estaria morta se ele não tivesse aparecido, e perguntei como ele acabou estando lá.
— Eu ouvi um grito, apanhei meu arco e saí correndo em direção à floresta. Achei que fosse Pauline voltando da Sacrista e que ela tivesse se deparado com algum animal. Um urso ou uma pantera. Não esperava ver você com uma faca na garganta.
Aquela era a última coisa que eu esperava também.
— Fico grata por sua mira ter sido certeira. E o cadáver... ele vai...?
— Ele vai desaparecer — disse ele, confiante.
— É só que eu também sou nova aqui — expliquei — e não quero causar nenhum problema para Berdi. Alguns soldados já não me olham com bons olhos...
— Entendo. Ninguém vai ficar sabendo do ocorrido. O homem não merecia nada mais do que isso.
Ele parecia tão ansioso quanto eu para deixar para trás qualquer traço do encontro. Ele havia matado um homem para me salvar. Ninguém poderia culpá-lo por isso. No entanto, talvez ele não pudesse se dar ao luxo de responder a perguntas de uma patrulha, assim como eu.
Chegamos à porta da cabana, mas ele ainda segurava meu braço, me dando apoio.
— Eu deveria levar você até lá dentro? — ele me perguntou. Kaden estava firme e estável, como sempre. Exceto pelo breve acesso de raiva quando o cavalo de Rafe o mordera, nada parecia deixá-lo abalado, nem mesmo o terror do dia de hoje.
Ele pousou os olhos em mim, dois cálidos círculos castanhos, e, ainda assim, eles o traíram, exatamente como o tinham traído naquela noite na taverna, na primeira vez em que nos encontramos. Embora a serenidade fosse a regente do lado de fora, uma estranha tempestade agitava-se dentro dele. Ele me lembrava Bryn, o mais jovem e selvagem de meus três irmãos, de tantas maneiras.
Bryn sempre era esperto o bastante para assumir ares de realeza na presença do meu pai, para se livrar de quaisquer suspeitas sobre seus comportamentos inadequados, mas era só minha mãe beliscar o queixo dele ou olhar em seus olhos e a verdade seria revelada. Eu só não conseguira ainda descobrir qual era a verdade de Kaden.
— Obrigada, mas estou bem agora — respondi. No entanto, mesmo enquanto eu estava lá, parada, em pé, não me sentia tão estável assim. Estava esgotada. Era como se a carga de energia de uma semana tivesse sido despachada em apenas uns poucos e rápidos momentos na tentativa de sobreviver.
— Você tem certeza de que não havia mais nenhum homem? — ele perguntou. — Ninguém mais que você tenha visto?
— Tenho certeza. — Eu não tinha como explicar que sabia que caçadores de recompensas não andavam em bandos, e que este estava em uma missão bastante particular. Ele deslizou a mão do meu braço, e fiquei grata. Berdi estava certa: eu realmente precisava descansar.
Fechei a porta atrás de mim, tirei minha blusa ensanguentada, e joguei-a em um canto. Naquele exato momento, eu estava cansada demais para ficar preocupada em lavar minha roupa. Sentei-me na cama, encolhendo-me com a dor em meu ombro e pescoço, e depois afofei meu travesseiro, enfiando minha faca debaixo dele. Eu faria o que tinha prometido a Walther: praticar, não importando o quão cedo tivesse que acordar. Ninguém me pegaria de surpresa de novo, mas, por ora, um curto descanso era tudo de que eu precisava.
Minhas pálpebras ficaram mais pesadas. O que Berdi havia colocado naquela água?
Dormi pesadamente, mas me lembrei de Berdi ter vindo até a cabana: ela havia se sentado na beirada da cama para me dizer alguma coisa, roçado os cabelos da minha testa com a mão e saído em silêncio novamente. Eu senti o aroma de uma fornada de pão assada recentemente e de caldo de galinha vindo da mesa ao meu lado, mas estava cansada demais para comer e caí no sono de novo, até que ouvi alguém bater à porta.
Eu me sentei, desorientada. O sol espiava pela janela do lado oeste. Eu dormira a tarde inteira. Ouvi novamente alguém bater à porta.
— Berdi? É você?
— Sou só eu. Vou deixar isso aqui fora.
— Não, espere — eu disse.
Levantei-me de um pulo e fui maneando até a entrada, com o tornozelo mais dolorosamente enrijecido agora do que antes. Rafe estava ali parado, com o dedo enganchado nos fios das duas trouxinhas que eu deixara cair na floresta, peguei-as dele e coloquei-as em cima da cama. Quando me virei para encará-lo novamente, ele estava segurando duas delicadas guirlandas, uma cor-de-rosa e a outra com flores de lavanda.
— Acho que essas são como as que você tinha, não?
Mordi o lábio e por fim sussurrei um leve e inadequado agradecimento enquanto ele colocava as guirlandas nas minhas mãos. Um momento desajeitado se passou, com nós dois olhando um para o outro, desviando o olhar e depois voltando a nos olharmos.
— E o seu pescoço, como está? — perguntou ele por fim, virando a cabeça para o lado, de modo a olhar para minha bandagem.
Eu me lembrei de como, apenas horas antes, ele havia deslizado o polegar pela minha pele enquanto segurava o lenço junto à ferida.
— Berdi disse que o corte não era maior do que uma picada de pulga. Era mais um raspão feio.
— Mas você está mancando.
Esfreguei o ombro.
— Estou sentindo dores no corpo inteiro.
— Você lutou com força.
— Não tive escolha — falei. Encarei as roupas dele. Elas foram trocadas. Não era possível perceber nenhum traço de sangue do cadáver ou do método empregado para se livrar do corpo. Eu estava com muito medo de perguntar, mas também temia não fazer isso. — E o corpo?
— Não faça perguntas, Lia. Está feito.
Assenti.
Ele começou a se mexer para ir embora, e então parou e disse:
— Eu sinto muito.
— Pelo quê? — quis saber.
— Eu gostaria que... — Ele balançou a cabeça em negativa. — Eu só sinto muito — repetiu e desceu pelo caminho. Antes que eu pudesse chamá-lo, avistei Pauline vindo em direção à cabana. Voltei para dentro, apanhei minha blusa ensanguentada do chão e procurei um lugar para escondê-la. Em nossos aposentos minúsculos, tal lugar só poderia ser o guarda-roupa. Escancarei a porta do armário e enfiei a blusa em um canto escuro, colocando algumas outras coisas na frente dela, eu a pegaria mais tarde para lavá-la. Pauline tinha preocupações suficientes na vida para me acrescentar a elas. Avistei a cesta que Walther tinha me dado em meio às coisas no fundo do guarda-roupa. Eu havia ficado tão consumida com as notícias que ele trouxe naquele dia que guardei a cesta apressada e me esqueci dela. Ele disse que tinha colocado uma porção de mantimentos para mim, mas, com certeza, já teriam estragado a essa altura. Imaginei mais do adorável queijo de figo perdido e me preparei para o cheiro enquanto empurrava para o lado o guardanapo que cobria o fundo da cesta. Aquilo não era queijo de figo.
A porta se abriu, e me virei para ficar cara a cara com Pauline.
— O que aconteceu com seu pescoço? — ela exigiu saber na mesma hora.
— Tropecei de leve e caí escada abaixo com um pouco de lenha nos braços. Pura obra de uma pessoa desajeitada.
Ela bateu com tudo a porta atrás dela.
— Isso é trabalho do Enzo! Por que você estava fazendo isso?
Olhei para ela, perplexa. Já fazia duas semanas que ela não se mostrava tão engajada.
— O preguiçoso não estava por aqui hoje. Todas as vezes em que ele arruma um pouco de moedas, some.
Pauline começou a falar de minha bandagem, mas eu a interrompi e a arrastei até a cama para lhe mostrar a cesta. Nos sentamos e notei que ela não estava mais usando o lenço. Seus cabelos estavam cheios e dourados como o mel caindo em volta de seus ombros.
— Seu lenço de luto — falei.
— Está na hora de seguir em frente — ela me explicou. — Fiz tudo que podia por Mikael. Agora tenho outras coisas que requerem minha atenção. E a primeira delas parece ser você.
Eu me dirigi até ela e a abracei, puxando-a para junto de mim em um abraço apertado. Meu peito tremia. Tentei não fazer uma cena, mas a abracei por bastante tempo e com força, até que ela por fim se soltou, olhando-me com cautela.
— Está tudo bem?
Semanas de preocupação jorraram de mim, e minha voz tremia.
— Ah, Pauline, senti tanto a sua falta! Você é tudo que eu tenho! Você é a minha família agora. E estava tão pálida e sofrendo... Fiquei com medo de que você nunca fosse voltar... E então vieram as lágrimas e o silêncio. O silêncio... — Parei de falar, pressionando os dedos junto aos meus lábios, tentando impedir o tremor deles. — O silêncio foi o pior de tudo. Eu estava com medo de que você me culpasse pelo que aconteceu com Mikael, quando me disse para ir embora.
Ela me puxou para junto dela, abraçando-me, e nós duas choramos.
— Eu nunca a culparia por isso — disse ela. Ela se reclinou para poder olhar em meus olhos. — Mas o luto tem um jeito próprio, Lia. Um jeito que não dá para controlar. Eu sei que não acabou ainda, mas hoje, na Sacrista... — Ela fez uma pausa, piscando para livrar-se das lágrimas. — Hoje, eu senti alguma coisa. Uma agitação dentro de mim. Aqui. — Ela pegou a minha mão e a pressionou em sua barriga. — Eu soube que estava na hora de me preparar para os vivos.
Os olhos dela brilhavam. Em meio a toda a dor, vi a esperança da alegria nos olhos dela. Senti um inchaço na garganta. Essa era uma jornada que nenhuma de nós poderia ter imaginado.
Sorri e limpei minhas bochechas.
— Tenho algo que preciso mostrar a você — eu disse. Coloquei a cesta entre nós e movi o guardanapo para o lado, sacando dali um rolo gordo de notas de dinheiro de Morrighan... que supostamente deveria dar para eu viver bem por um algum tempo. Meu irmão entenderia.
— Walther trouxe isso. Era de Mikael. Ele falou que o soldado havia deixado uma carta dizendo que isso era para você caso alguma coisa acontecesse com ele.
Pauline esticou a mão e tocou no rolo espesso de notas.
— Tudo isso para um sentinela no primeiro ano?
— Ele conseguiu controlar os gastos — disse, sabendo que qualquer bom traço de caráter atribuído a Mikael seria facilmente aceito por Pauline.
Ela soltou um suspiro, e um triste sorriso marcava seus olhos.
— Ele era assim mesmo. Isso aqui vai ser de grande ajuda.
Alcancei a mão dela.
— Todas nós vamos ajudar, Pauline. Eu, Berdi e Gwyneth, todas nós vamos cuidar de...
— Elas sabem? — perguntou Pauline.
Balancei a cabeça em negativa.
— Ainda não.
Mas nós duas sabíamos que o tempo — ou a própria Pauline — revelaria a elas. Algumas verdades recusavam-se a ficar escondidas.

15 comentários:

  1. HAA!!! SABIA QUE ELA TAVA GRÁVIDA

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  2. Gosto muito mais do Rafe, mas tenho um sentimento pelo Kaden (é assim q escreve?) 😜😜😜😜

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    1. Pressentimento, nao?

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    2. Queeooooo que ela fique com o Rafe ele e taoooooo melhor q o Kaden ��

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    3. Mais amei �� Tenho as minhas preferencia to apaixonada pelo Rafe ,❤

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    4. 😍 ele e muito top 💕

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    5. Lindoioooo meu 💕

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  3. A Pauline nunca terá uma amiga tão boa quanto a Lia

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  4. NAO SEI QUAL É MELHOR, KADEN É UM AMOR E HONESTO , RAFE POR OUTRO LADO ..... MAS MEU DEUS PARECE QUE ELE GOSTA MESMO DELA NAO FAÇO A MINIMA IDEIA DE QUEM ELA IRÁ ESCOLHER MAS SEI QUE QUALQUER UM QUE ELA ESCOLHER FICAREI FELIZ

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    1. Tô tão confusa quanto vc...Quem será q ela vai escolher???

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  5. Não sei porque mas acho q algun deles vai se apaixonar pela Pauline

    Mirtiz

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  6. EU ACHO QUE RAFE ( E O PRINCIPE) NA HORA QUE ELE FALA EU SINTO MUITO, POIS ELE OUVIU A CONVERSA DELA,A FALANDO SOBRE O PIRNCIPE.

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    1. ou pq o Rafe (assassino) tem que cortar a garganta dela 😂

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  7. Eu gosto do rafe e do Príncipe se forem a mesma pessoa melhor pra mim

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Boa leitura, E SEM SPOILER!