24 de fevereiro de 2018

Capítulo 26

Em memória de Albert John Compton, o “Vovô”
Velório: Paróquia de Nossa Senhora e Todos os Santos,
Stortfold Green
23 de abril, 12h30
Todos serão bem-vindos em uma pequena reunião no pub Laughing Dog, na Pinemouth Street
Em vez de flores, qualquer doação para o Fundo de Assistência aos Jóqueis Feridos será bem-vinda.
“Nossos corações estão vazios, mas somos abençoados por ter amado você.”

* * *

Três dias depois, voei para casa a tempo de acompanhar o funeral. Preparei refeições para Margot suficientes para dez dias, congelei-as e deixei instruções com Ashok para que ele subisse ao menos uma vez por dia ao apartamento com um pretexto qualquer e se certificasse de que ela estava bem. Caso ela não estivesse, eu ao menos não depararia com um problema sério de saúde quando voltasse, dali a uma semana. Adiei uma das consultas dela no hospital, certifiquei-me de que tivesse lençóis limpos, que Dean Martin tivesse comida o bastante e paguei a Magda, uma passeadora de cachorros, para pegá-lo duas vezes por dia. Disse às meninas do Vintage Clothes Emporium que viajaria. Vi Josh duas vezes. Deixei que ele acariciasse meu cabelo, dissesse que sentia muito e que se lembrava de como tinha sido perder o próprio avô. Foi só quando eu finalmente estava no avião que me dei conta de que a miríade de maneiras pelas quais eu me mantivera ocupada havia sido um modo de não reconhecer a verdade do que acabara de acontecer.
O vovô se fora.
Outro derrame, disse meu pai. Ele e mamãe estavam sentados na cozinha, conversando, enquanto meu avô assistia à corrida de cavalos. Minha mãe foi até ele para ver se queria mais chá e vovô já se fora, tão silenciosamente e em paz que se passaram quinze minutos antes que meu pai e minha mãe se dessem conta de que ele não estava só dormindo.
— Ele parecia tão relaxado, Lou — contou papai, quando voltávamos do aeroporto na van dele. — A cabeça inclinada para o lado, os olhos fechados, como se estivesse cochilando. Sabe, Deus me perdoe, nenhum de nós queria perdê-lo, mas esse deve ser um bom modo de partir, não deve? Em sua poltrona favorita, na própria casa, com a velha TV ligada. Ele nem havia apostado nada naquela corrida, então não é como se tivesse partido para a outra vida chateado por não ter aproveitado o que ganhou.
Ele tentou sorrir.
Eu me sentia anestesiada. Foi só quando entrei em nossa casa com papai e vi a poltrona vazia que consegui me convencer de que era verdade. Eu nunca mais o veria, nunca mais sentiria as velhas costas encurvadas sob meus dedos quando o abraçasse, nunca mais prepararia uma xícara de chá para ele, ou interpretaria seu silêncio, ou brincaria com ele por trapacear no Sudoku.
— Ah, Lou.
Minha mãe atravessou o corredor e me puxou para um abraço.
Eu a abracei e senti suas lágrimas pingarem em meu ombro, enquanto papai permanecia de pé atrás dela, dando tapinhas carinhosos em suas costas e murmurando:
— Pronto, pronto, meu amor. Está tudo bem, está tudo bem.
Como se dizer isso repetidamente fosse tornar a frase verdade.

* * *

Por mais que eu amasse meu avô, às vezes me perguntava distraidamente se, quando ele se fosse, minha mãe se sentiria de algum modo livre da responsabilidade de cuidar dele. A vida dela estivera tão presa à de vovô, por tanto tempo, que ela poucas vezes conseguia um pouco de tempo só para si — os últimos meses de saúde frágil dele a haviam obrigado a abandonar suas amadas aulas noturnas.
Mas eu estava errada. Ela ficou devastada, permanentemente à beira das lágrimas. Recriminava-se por não estar na sala com vovô quando ele se fora, caía no choro ao ver os pertences dele e se questionava o tempo todo se poderia ter feito mais. Estava inquieta, perdida, sem alguém de quem cuidar. Ela se levantava e se sentava, afofava almofadas, checava o relógio para algum compromisso imaginário. Nos momentos em que ficava realmente infeliz, dedicava-se a limpar a casa como uma louca, espanando poeiras inexistentes e esfregando os pisos até os nós dos dedos estarem vermelhos e esfolados. À noite, nos sentamos ao redor da mesa da cozinha enquanto papai ia para o pub — supostamente para ver como iam os últimos arranjos para a recepção após o funeral — e minha mãe guardou a quarta xícara de chá que preparara por acidente para um homem que já não estava mais ali, então deixou escapar as perguntas que a vinham assombrando desde que ele morrera.
— E se eu pudesse ter feito algo? E se nós o tivéssemos levado para o hospital para mais exames? Talvez tivessem detectado o risco de mais derrames.
Ela torcia um lenço nas mãos enquanto falava.
— Mas você fez todas essas coisas. Levou o vovô para milhões de consultas.
— Você se lembra daquela vez que ele comeu dois pacotes de biscoito com cobertura de chocolate? Pode ter sido essa a causa do derrame. Ao que tudo indica, o açúcar agora é obra do demônio. Eu deveria ter colocado os biscoitos em uma prateleira mais alta. Não deveria ter deixado que ele comesse aqueles doces desgraçados…
— Ele não era criança, mãe.
— Eu deveria tê-lo feito comer mais legumes e verduras. Mas era difícil, sabe? Não se pode dar comida na boca de um adulto… Ah, meu Deus, eu não quis ofender. Quero dizer, com Will, obviamente era diferente…
Coloquei a mão na dela e vi seu rosto se franzir.
— Ninguém poderia ter amado o vovô mais do que você, mamãe. Ninguém poderia ter cuidado dele melhor do que você.
Na verdade, o sofrimento dela me deixava desconfortável. Era muito próximo de algo que eu já tinha sentido, e não fazia muito tempo. Eu estava cautelosa em relação à tristeza de mamãe, como se fosse contagiosa, e acabei procurando desculpas para ficar longe dela, tentando me manter ocupada para que não precisasse absorver aquela emoção também.

* * *

Naquela noite, quando minha mãe e meu pai estavam debruçados sobre alguns documentos do advogado, fui até o quarto do meu avô. Ainda estava como ele o deixara, a cama feita, a cópia do Racing Post na poltrona, duas corridas de cavalo que aconteceriam na tarde seguinte circuladas com caneta azul.
Sentei-me de lado na cama, traçando com o indicador o padrão do bordado da colcha. Na mesinha de cabeceira havia uma foto de minha avó nos anos cinquenta, com o cabelo arrumado em ondas perfeitas, o sorriso largo e confiante. Eu tinha apenas lembranças passageiras dela. Mas meu avô havia sido uma presença constante em minha infância, primeiro na casinha mais adiante na rua (Treena e eu descíamos correndo até lá para pegar doces nas tardes de sábado, enquanto minha mãe ficava no portão), e depois, nos quinze anos anteriores, em um quarto na nossa casa, o sorriso doce e vacilante dele pontuando meu dia, uma presença permanente na sala, com seu jornal e uma xícara de chá.
Pensei nas histórias que ele nos contava quando éramos pequenas, sobre o tempo que passou na Marinha (histórias de ilhas desertas, macacos e coqueiros, que não deveriam ser inteiramente verdadeiras). Pensei também nas rabanadas que ele preparava na frigideira já escura — a única coisa que ele sabia cozinhar — e em como, quando eu era bem pequena, ele contava piadas à minha avó que a faziam chorar de rir. Então pensei nos últimos anos dele, quando eu o tratara quase como parte da mobília. Não tinha escrito para ele. Nem telefonado. Havia presumido que ele estaria por ali pelo tempo que eu quisesse. Será que ele se importara? Será que sentira vontade de falar comigo?
Eu nem me despedira.
Lembrei-me das palavras de Agnes: de que nós, que viajávamos para longe de casa, sempre teríamos nosso coração em dois lugares. Apoiei a mão na colcha bordada. E, finalmente, chorei.

* * *

No dia do funeral, desci a escada e encontrei mamãe limpando furiosamente a casa, preparando tudo para os convidados, embora até onde eu sabia ninguém fosse para nossa casa. Papai estava sentado à mesa, parecendo meio perdido — o que não era uma expressão incomum quando ele falava com minha mãe durante aqueles dias.
— Você não precisa arrumar um emprego, Josie. Não precisa fazer nada.
— Ora, preciso fazer alguma coisa com o meu tempo.
Mamãe tirou o casaco e dobrou-o com cuidado nas costas de uma cadeira antes de se ajoelhar para tirar alguma partícula invisível de poeira de trás do armário. Sem me dizer nada, meu pai empurrou um garfo e uma faca em minha direção.
— Eu só estava dizendo, Lou, meu amor, que sua mãe não precisa se apressar a fazer nada. Ela está falando que vai direto para a agência de empregos depois do funeral.
— Você tomou conta do vovô por anos, mãe. Deveria simplesmente aproveitar que agora vai ter um pouco de tempo para si.
— Não. Eu me sinto melhor fazendo alguma coisa.
— Não teremos mais armários se ela continuar esfregando desse jeito — resmungou meu pai. — Sente-se. Por favor. Você precisa comer.
— Não estou com fome.
— Pelo amor de Deus, mulher. Vai me fazer ter um derrame se continuar desse jeito.
Ele se encolheu assim que as palavras saíram de sua boca.
— Desculpe. Desculpe. Não tive a intenção…
— Mãe.
Fui até onde ela estava quando pareceu que não tinha me escutado e coloquei a mão em seu ombro. Ela ficou imóvel por um instante.
— Mãe.
Ela se levantou e olhou pela janela.
— Que utilidade eu tenho agora? — perguntou.
— Como assim?
Mamãe ajeitou a cortina branca engomada.
— Ninguém mais precisa de mim.
— Ah, mãe, eu preciso de você. Todos nós precisamos de você.
— Mas você não está morando aqui, está? Nenhum de vocês, aliás. Nem Thom. Estão todos a quilômetros de distância.
Eu e papai nos entreolhamos.
— Isso não significa que não precisamos de você.
— O vovô era o único que dependia de mim. Até mesmo você, Bernard, ficaria muito bem com uma torta e um caneco de cerveja no pub toda noite. O que vou fazer agora? Tenho cinquenta e oito anos e não sirvo para nada. Passei a vida tomando conta de outras pessoas e agora não sobrou ninguém que realmente precise de mim.
Os olhos dela estavam marejados. Por um minuto aterrorizante, pensei que ela estava prestes a começar a berrar.
— Sempre precisaremos de você, mãe. Não sei o que eu faria se você não estivesse aqui. Você é como o alicerce de um prédio. Posso não vê-la o tempo todo, mas sei que você está ali. Me apoiando. A todos nós. Aposto que Treena diria o mesmo.
Ela me encarou, os olhos perturbados, como se não soubesse se deveria acreditar naquilo.
— Você é importante mesmo. E esse… esse é um momento esquisito. Vai levar um tempo para se acostumar. Mas você se lembra do que aconteceu quando começou a fazer aulas noturnas? Como ficou animada? Como se você estivesse descobrindo pedaços de si mesma? Então, isso vai acontecer de novo. A questão não é quem precisa de você… É você finalmente dedicar algum tempo a si mesma.
— Josie — disse papai, baixinho — vamos viajar. Vamos fazer todas aquelas coisas que achávamos que não poderíamos fazer porque teríamos que deixá-lo. Talvez possamos visitar você, Lou. Uma viagem para Nova York! Entenda, meu amor, sua vida não terminou, só vai ser diferente.
— Nova York? — indagou mamãe.
— Ah, meu Deus, eu adoraria isso — falei, enquanto pegava uma torrada. — Eu poderia encontrar um bom hotel para vocês e aí visitaríamos todos os pontos turísticos.
— Você faria isso?
— Talvez possamos conhecer aquele milionário para quem você trabalha — disse papai. — Ele pode nos dar umas dicas, certo?
Eu nunca chegara a contar a eles sobre a mudança em minhas circunstâncias. Continuei comendo a torrada, inexpressiva.
— Nós? Irmos para Nova York? — disse mamãe.
Meu pai pegou uma caixa de lenços de papel e a estendeu para ela.
— Ora, por que não? Temos economias. E não podemos levá-las conosco para o túmulo. O velho camarada sabia disso, pelo menos. Não espere nenhuma grande herança, viu, Louisa? Estou com medo de passar pelo agente de apostas e ele saltar em cima de mim dizendo que seu avô estava devendo dinheiro.
Minha mãe endireitou o corpo, o pano de limpeza ainda na mão. Olhou para o lado.
— Você, eu e seu pai em Nova York. Bem, isso seria interessante, não é mesmo?
— Podemos procurar voos hoje à noite, se você quiser.
Eu me perguntei, por um instante, se convenceria Margot a dizer que seu sobrenome era Gopnik.
Mamãe levou a mão ao rosto.
— Ah, meu Deus, escutem só, eu fazendo planos e vovô ainda nem esfriou no caixão. O que ele pensaria?
— Pensaria que isso é maravilhoso. Vovô adoraria a ideia de você e papai indo para os Estados Unidos.
— Acha mesmo?
— Sei que sim. — Fui até ela e a abracei. — Ele viajou o mundo com a Marinha, não foi? E também sei que ele gostaria da ideia de você voltar ao centro de educação para adultos. Não há motivo para desperdiçar todo o conhecimento que adquiriu ao longo do ano passado.
— Embora eu também tenha certeza de que ele gostaria de pensar que você ainda está deixando no forno algo para o meu jantar — acrescentou meu pai.
— Vamos, mamãe. Só precisa passar pelo dia de hoje e então começaremos a fazer planos. Você fez tudo o que podia por ele, e sei que o vovô acharia que você merece que o próximo estágio da sua vida seja uma aventura.
— Uma aventura — murmurou ela.
Pegou um lenço de papel com papai para secar o canto do olho.
— Como eu criei filhas tão sábias, hein?
Meu pai ergueu as sobrancelhas e, em um movimento hábil, tirou a torrada do meu prato.
— Ah. Bem, isso deve ter sido influência paterna, sabe.
Ele gritou quando mamãe bateu com a toalha de chá em sua cabeça. Então, quando ela deu as costas, papai sorriu para mim com uma expressão sincera de alívio.

* * *

O funeral aconteceu, como sempre ocorre nos funerais, com graus variados de tristeza, algumas lágrimas e uma porcentagem considerável da congregação desejando saber a melodia dos hinos. Não foi uma reunião de tamanho exagerado, como o padre disse de forma educada. Vovô saía tão raramente já no fim da vida que poucos de seus amigos souberam que ele havia falecido, embora mamãe tivesse colocado um anúncio no Stortfold Observer. Ou isso, ou a maior parte deles também estavam mortos (no caso de alguns dos presentes ao funeral, era bem difícil saber a diferença).
No cemitério, fiquei ao lado de Treena, com o maxilar tenso, e senti uma gratidão muito específica entre irmãs quando ela segurou minha mão e a apertou. Eu me virei para trás e vi que Eddie dava a mão a Thom, que chutava em silêncio as margaridas na grama, talvez tentando não chorar, ou talvez pensando nos Transformers ou no biscoito meio comido que ele enfiara no estofado do carro fúnebre.
Ouvi o sacerdote murmurar a oração já conhecida sobre pó e cinzas, e meus olhos se encheram de lágrimas. Sequei-as com um lenço. Então, ergui os olhos e, do outro lado do túmulo, atrás de um pequeno grupo de pessoas que acompanhavam o enterro, estava Sam. Meu coração disparou. Senti uma onda de calor, algo entre medo e náusea. Nossos olhos se encontraram por um instante em meio às pessoas, então pisquei com força e desviei o olhar. Quando me voltei na mesma direção, ele se fora.

* * *

Eu estava no bufê da recepção no pub quando me virei e o encontrei ao meu lado. Nunca o vira de terno, e encontrá-lo naquele momento, ao mesmo tempo tão bonito e tão pouco familiar, me fez perder o ar. Resolvi lidar com a situação da forma mais madura possível e simplesmente me recusei a reconhecer sua presença — para isso, concentrei o olhar com determinação nos sanduíches, como se eu tivesse acabado de ser apresentada ao conceito de comida.
Sam ficou parado ali, talvez esperando que eu erguesse os olhos, então disse baixinho:
— Sinto muito pelo seu avô. Sei como vocês são próximos na sua família.
— Não tão próximos, obviamente, ou eu teria estado aqui.
Ocupei-me arrumando os guardanapos na mesa, embora minha mãe houvesse pagado para que tivéssemos garçons.
— Sim, bem, a vida nem sempre funciona desse jeito.
— Foi o que descobri.
Fechei os olhos por um instante, tentando tirar a amargura da voz. Respirei fundo e finalmente olhei para ele, me esforçando para exibir uma expressão neutra.
— E como vai você?
— Nada mal, obrigado. E você?
— Ah. Bem.
Ficamos parados por um momento.
— Como está a casa?
— Adiantada. Eu me mudo no mês que vem.
— Uau.
Por um instante, fiquei espantada com o desconforto que senti. Parecia improvável que alguém que eu conhecia pudesse construir uma casa do nada. Eu a vira quando não passava de um retângulo de concreto no chão. E ele a terminara…
— Nossa, que… que impressionante.
— Eu sei. Mas sinto falta do velho vagão. Eu meio que gostava de morar lá. A vida era… simples.
Nós nos encaramos e, então, desviamos o olhar.
— Como está Katie?
Uma brevíssima pausa.
— Ela está bem.
Minha mãe apareceu ao meu lado com uma bandeja de enroladinhos de salsicha.
— Lou, meu bem, pode ir atrás da Treen? Ela ia servir esta bandeja de salgados para mim… ah, não. Ali está ela. Será que pode levar a bandeja para sua irmã? Algumas pessoas perto dela ainda não comeram nad…
De repente, ela se deu conta da pessoa com quem eu estava falando. E arrancou a bandeja das minhas mãos.
— Desculpe. Sinto muito. Não quis interromper.
— Você não interrompeu — falei, com um pouco mais de ênfase do que pretendera.
Puxei a bandeja por uma das alças.
— Pode deixar, meu bem — disse mamãe, levando a bandeja em direção à própria cintura.
— Não, deixe comigo.
Segurei a bandeja com força, os nós dos meus dedos ficando brancos com o esforço.
— Lou. Solte. Agora — disse ela com firmeza.
Seus olhos ardiam ao me encarar. Por fim, soltei a bandeja e minha mãe se afastou, apressada.
Sam e eu ficamos parados perto da mesa. Sorrimos constrangidos um para o outro, mas nossos sorrisos sumiram rápido demais. Peguei um prato e coloquei um palito de cenoura nele. Não sabia se conseguiria comer alguma coisa, mas parecia estranho ficar parada ali com um prato vazio na mão.
— Então… Você vai ficar aqui por um tempo?
— Só uma semana.
— Como anda a vida por lá?
— Interessante. Fui demitida.
— Lily me contou. Eu a vejo bastante agora, com todo esse negócio com Jake.
— Sim, isso foi… uma surpresa.
Eu me perguntei por um instante se Lily contara a ele sobre a visita dela.
— Não para mim. Percebi desde que os dois se conheceram. Você sabe, ela é ótima. Eles estão felizes.
Assenti, como se concordasse.
— Ela fala muito. Sobre o namorado incrível e sobre como você se recuperou depois da história da demissão e encontrou um novo lugar para morar, e sobre seu emprego naquele Vintage Clothes Emporium. — Ele parecia tão fascinado quanto eu pelos palitos de queijo. — Você deu um jeito em tudo, então. Ela está impressionada com você.
— Duvido.
— Disse que Nova York combina com você. — Sam deu de ombros. — Mas acho que nós dois já sabíamos disso.
Enquanto os olhos de Sam se fixavam em outra coisa, aproveitei para observá-lo disfarçadamente. E a pequena parte de mim que não estava morrendo ficou impressionada com o fato de duas pessoas que já haviam se sentido tão à vontade uma com a outra agora mal saberem como formular uma frase em uma conversa.
— Tenho uma coisa para você. No meu quarto, em casa — falei abruptamente. — Não sabia bem de onde tinha saído aquilo. — Eu trouxe comigo na última vez, mas… você sabe.
— Uma coisa para mim?
— Não exatamente para você. É, bem, é um boné dos Knicks. Eu o comprei… há algum tempo. Aquela coisa que você me contou sobre a sua irmã. Ela nunca chegou a ir ao 30 Rock, mas pensei que, bem, talvez Jake fosse gostar do boné.
Sam me encarou.
Foi a minha vez de baixar os olhos.
— Mas provavelmente é uma ideia idiota — comentei. — Posso dar o boné para outra pessoa. Não é exatamente difícil encontrar um lar para um boné dos Knicks em Nova York. E talvez seja um pouco estranho dar presente para você.
— Não. Não. Ele adoraria. É muito gentil da sua parte.
Alguém buzinou do lado de fora e Sam olhou para a janela. Eu me perguntei distraidamente se Katie estaria esperando no carro por ele.
Eu não sabia o que dizer. Não parecia haver uma resposta certa para nada daquilo. Tentei lutar contra o nó que surgira em minha garganta. Lembrei-me do baile dos Strager — eu presumira que Sam iria odiar, que ele não teria um terno. Por que tinha pensado isso? O terno que ele estava usando naquele momento parecia ter sido feito sob medida.
— Eu vou… vou mandar para você, então. Sabe de uma coisa? — falei, quando já não consegui mais suportar. — Acho melhor ajudar a minha mãe com aquilo… com os… As salsichas que…
Sam deu um passo para trás.
— Claro. Eu só queria dar os pêsames. Vou indo.
Ele se virou e senti meu rosto se franzir. Era bom estar em um funeral, onde ninguém prestaria muita atenção àquele tipo de expressão. Então, antes que eu conseguisse me recompor, Sam se voltou para mim.
— Lou — disse ele, baixinho.
Não consegui falar. Só balancei a cabeça. Então o vi passar entre os convidados e sair pela porta do pub.

* * *

Naquela noite, minha mãe me entregou um pequeno pacote.
— É do vovô? — perguntei.
— Não seja tonta — disse ela. — Seu avô nunca deu um presente a ninguém nos últimos dez anos de vida. Isso é do seu namorado, Sam. Quando o vi hoje, lembrei. Você deixou isto aqui na última vez que veio. Eu não sabia o que queria que eu fizesse com o pacote.
Segurei a caixinha e tive uma súbita lembrança de nossa discussão à mesa da cozinha. Feliz Natal, dissera Sam, deixando o pacote ali enquanto ia embora.
Mamãe se virou e começou a lavar a louça. Abri o pacote com delicadeza, afastando com um cuidado exagerado as camadas de papel de presente, como se estivesse abrindo um artefato de outra época.
Dentro da caixinha havia um broche de esmalte com formato de ambulância, talvez dos anos cinquenta. A cruz vermelha era feita de pedrinhas minúsculas, que poderiam ser rubis, ou pedras falsas. Fosse o que fosse, o broche cintilou em minha mão. Havia um bilhetinho dobrado na parte de cima da caixa.

Para você se lembrar de mim enquanto estivermos separados. Com todo o meu amor,
Seu Sam da ambulância. Bjs.

Segurei o broche na palma da mão e minha mãe espiou por cima do meu ombro. É raro ela escolher não falar. Mas, dessa vez, apenas apertou meu ombro, deu um beijo em minha cabeça e voltou a lavar a louça.

4 comentários:

  1. JOSH? QUEM É JOSH? OK GOSTO DO SAM DE NOVO PQ APARENTEMENTE O JOSH É UM CUZÃO DO CARALHO

    SABS

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  2. Aí... a vida podia ser mais descomplicada... 😢

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  3. Sam voltou na parada😪😱😱😱😱

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  4. Por mim ela não ficava com o Sam, ele traiu ela -_-

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Boa leitura, E SEM SPOILER!