24 de fevereiro de 2018

Capítulo 25

Levei duas noites para localizar o neto de Margot. Josh estava ocupado com o trabalho e Margot ia para a cama às nove, na maior parte dos dias, assim, certa noite, me sentei no chão perto da porta da frente — o único lugar em que eu conseguia surrupiar o sinal de WiFi dos Gopnik — e comecei a procurar o filho dela no Google. Primeiro, digitei o nome Frank De Witt e, quando nada relacionado apareceu, passei para Frank Aldridge Junior. Nenhum resultado poderia ser ele, a menos que houvesse se mudado para outra parte do país, mas, mesmo assim, as datas e nacionalidades de todos os homens que apareceram com aquele nome estavam erradas. Na segunda noite, por impulso, procurei o nome de casada de Margot em alguns documentos antigos que estavam na cômoda no meu quarto. Encontrei um cartão avisando do funeral de Terrence Weber, então tentei Frank Weber e descobri, com certa tristeza, que ela dera ao filho o sobrenome do marido querido, que morrera anos antes de o menino nascer. E que algum tempo depois, Margot voltara a usar o sobrenome de solteira — De Witt — e se reinventara completamente.
Frank Weber Junior era dentista e morava em um lugar chamado Tuckahoe, em Westchester. Encontrei duas referências a ele no LinkedIn e também no Facebook, através da esposa dele, Laynie. A grande novidade era que eles tinham um filho, Vincent, que era um pouco mais novo do que eu. Vincent trabalhava em Yonkers, em um centro educacional sem fins lucrativos para crianças carentes, e foi ele que me fez tomar a decisão. Frank Weber Junior talvez estivesse zangado demais com a mãe para reconstruir o relacionamento, mas que mal poderia haver em tentar com Vincent? Encontrei o perfil dele, respirei fundo, mandei uma mensagem e aguardei.

* * *

Josh teve uma folga de sua interminável roda-viva de trabalho e almoçou comigo no bar de noodles, para anunciar que haveria um “dia da família” na empresa dele no sábado seguinte, e que ele gostaria que eu o acompanhasse.
— Eu estava planejando ir ao protesto na biblioteca.
— Você não quer continuar fazendo isso, Louisa. Não vai adiantar nada ficar lá parada com um monte de pessoas gritando para os carros que passam.
— E não sou exatamente da sua família — falei, um pouco irritada.
— Mas é perto disso. Vamos lá! Vai ser um dia ótimo. Você já esteve em uma casa-barco? É linda. Minha empresa realmente sabe como organizar uma festa. Você ainda está dedicada àquele seu projeto de “dizer sim”, certo? Então precisa dizer sim. — Ele me lançou um olhar de cachorrinho sem dono. — Diz que sim, Louisa, por favor. Vamos.
Ele me pegara, e sabia disso.
Dei um sorriso resignado.
— Ok. Eu vou.
— Ótimo! No ano passado, ao que parece, havia macacões infláveis imitando lutadores de sumô e as pessoas lutaram na grama. Teve também corridas de família e jogos organizados. Você vai amar.
— Parece incrível — falei.
As palavras “jogos organizados” me atraíam tanto quanto “exame ginecológico”. Mas era Josh, e ele ficou tão feliz com a perspectiva de eu acompanhá-lo que não tive coragem de dizer não.
— Prometo que não vai ter que lutar na grama com meus colegas de trabalho. Mas talvez tenha que lutar comigo, depois que tudo acabar — brincou.
Então me beijou e foi embora.

* * *

Chequei meu e-mail a semana toda, mas não havia nada a não ser uma mensagem de Lily, perguntando se eu conhecia algum lugar onde tatuassem menores de idade; além de um alô simpático de alguém que, pelo visto, havia estudado comigo, mas de quem eu não me lembrava de jeito nenhum; e um email da minha mãe, que me mandou um GIF de um gato obeso, aparentemente conversando com uma criança de dois anos, e um link para um jogo chamado Farm Fun Fandango.
— Tem certeza de que vai ficar bem sozinha, Margot? — perguntei, enquanto pegava minhas chaves e as guardava na bolsa.
Eu estava usando um macacão branco com galões de lamê dourado e justo que ela me dera, do início dos anos oitenta. Margot bateu palmas.
— Ah, o macacão ficou magnífico. Você deve ter quase exatamente as mesmas medidas que eu na sua idade. Eu tinha bastante busto, sabe?! Totalmente fora de moda nos anos sessenta e setenta, mas agora é ótimo para você.
Não quis comentar que estava sendo necessário um grande esforço para que eu não arrebentasse todas as costuras, mas Margot estava certa, eu perdera alguns quilos depois que me mudara para aquela casa, principalmente por causa dos esforços para preparar comidas mais saudáveis para ela. E como me sentia muito bem com o macacão, girei para que ela apreciasse melhor.
— Já tomou seus comprimidos?
— É claro que sim. Não se preocupe, meu bem. Está querendo dizer que não vai dormir em casa?
— Não tenho certeza. Mas vou levar Dean Martin para um passeio rápido antes de sair. Só para garantir.
Parei, com a mão já estendida para a guia do cachorro.
— Margot? Por que você o batizou de Dean Martin? Nunca perguntei.
O tom da resposta dela deixou claro que fora uma pergunta idiota.
— Porque Dean Martin foi o homem mais lindo de todos, e ele é o cachorro mais lindo de todos, é claro.
O cachorrinho estava sentado obedientemente, os olhos saltados e estrábicos se revirando com a língua para fora.
— Tolice a minha perguntar — falei, e saí pela porta da frente.

* * *

— Nossa, olhe só para você!
Ashok assoviou enquanto Dean Martin e eu descíamos correndo o último lance de escadas até o térreo.
— Uma diva Disco!
— Gostou? — perguntei, fazendo um giro de dança para ele. — Era da Margot.
— É mesmo? Aquela mulher é cheia de surpresas.
— Pode ficar de olho nela? Estava bem frágil hoje.
— Deixe alguma correspondência aqui, para que eu tenha uma desculpa para bater na porta dela às seis da manhã.
— Você é maravilhoso.
Corremos até o parque e Dean Martin fez o que os cães fazem — e eu fiz o que se faz com um saquinho e certa quantidade de estremecimentos de nojo, e vários passantes olharam do modo como se olha quando uma garota em um macacão enfeitado com lamê dourado passa correndo com um cachorro animado e um saquinho com cocô. Enquanto corríamos de volta para casa, Dean Martin latindo feliz nos meus calcanhares, esbarramos com Josh no saguão do prédio.
— Ah, oi! — falei, e dei um beijo nele. — Volto em dois minutos, está bem? Só tenho que lavar as mãos e pegar a minha bolsa.
— Pegar a sua bolsa?
— Sim! — Eu o encarei. — Ah. Uma clutch. É assim que chamamos.
— Quero dizer… você não vai se trocar?
Olhei para o macacão.
— Já estou pronta.
— Meu amor, se você usar isso com o pessoal do escritório, eles vão achar que você é a animadora da festa.
Levei um instante para perceber que ele não estava brincando.
— Você não gostou?
— Ah. Não é isso. Você está ótima. É só que a roupa é um pouco… é meio drag queen demais. É um escritório cheio de caras de ternos. Tipo assim, as outras esposas e namoradas vão estar com vestidos retos ou calças brancas. Um estilo… casual chique.
— Ah. — Tentei não me sentir desapontada. — Desculpe. Realmente não entendo os códigos de vestimenta dos Estados Unidos. Está bem. Está bem. Volto logo.
Subi dois degraus de cada vez e entrei correndo no apartamento. Joguei a guia de Dean Martin para Margot, que se levantara da cadeira para fazer alguma coisa. Ela me seguiu pelo corredor, o braço fino apoiado na parede.
— Por que essa pressa toda? Você parece uma manada de elefantes adentrando o apartamento.
— Tenho que me trocar.
— Se trocar? Por quê?
— Não estou com a roupa adequada, ao que parece.
Examinei meu guarda-roupa. Vestidos retos? O único que eu tinha era um com estampa psicodélica que Sam me dera e parecia meio desleal usá-lo.
— Achei que você estava muito bem — declarou Margot, com determinação.
Josh apareceu na porta da frente; ele subira atrás de mim.
— Ah, ela está. Está fantástica. Eu só… só quero que falem dela pelos motivos certos.
Ele riu. Margot não o acompanhou.
Revirei meu guarda-roupa, jogando coisas na cama, até encontrar um blazer azul-marinho estilo Gucci, e um vestido-camiseta de seda, listrado. Passei o vestido pela cabeça e enfiei os pés em meus sapatos-boneca verdes.
— E agora? — perguntei, enquanto corria para o corredor, tentando alisar o cabelo.
— Ótimo! — disse Josh, sem esconder o alívio. — Muito bem. Vamos.
— Vou deixar a porta destrancada, meu bem.
Ouvi Margot resmungar, enquanto eu ia correndo atrás de Josh, que já saía do apartamento.
— Só para o caso de você querer voltar.


* * *

O Loeb Boathouse era um lugar lindo, protegido por sua posição do barulho e do caos fora do Central Park, as janelas amplas garantindo uma visão panorâmica do lago que cintilava sob o sol do fim de tarde. O restaurante estava cheio de homens elegantemente vestidos em calças cáqui idênticas, mulheres com o cabelo arrumado por profissionais e, como Josh previra, vestidas em um mar de tons pastel e calças brancas.
Peguei uma taça de champanhe de uma bandeja oferecida por um garçom e observei calmamente enquanto Josh percorria o lugar, trocando apertos de mão com vários homens, todos com a mesma aparência: cabelo curto e bem-cortado, maxilar quadrado, dentes brancos e certinhos. Tive uma breve lembrança de eventos a que eu acompanhara Agnes: voltara para o meu antigo mundo em Nova York, um mundo distante de lojas de roupas vintage, de macacões cheirando a naftalina e de café barato em que eu estivera imersa mais recentemente. Dei um longo gole no champanhe, decidida a aproveitar o momento.
Josh apareceu ao meu lado.
— Não é pouca coisa, hein?
— A festa está muito linda.
— Melhor do que ficar sentada no apartamento de uma velha a tarde toda, hein?
— Bem, eu não acho que…
— Meu chefe está vindo. Muito bem. Vou apresentar você. Fique comigo. Mitchell!
Josh levantou o braço e o homem mais velho se aproximou de nós devagar, ao seu lado uma morena escultural de sorriso estranhamente inexpressivo. Talvez, quando se tem que ser gentil com todo mundo o tempo inteiro, seja isso o que acaba acontecendo com o seu rosto.
— Aproveitando a tarde?
— Muito, senhor — disse Josh. — A festa está realmente linda. Posso lhe apresentar minha namorada? Louisa Clark, da Inglaterra. Louisa, esse é Mitchell Dumont. Ele é chefe de Fusões e Aquisições.
— Inglesa, é?
Senti a mão enorme do homem se fechar sobre a minha e sacudi-la com determinação.
— Sim. Eu…
— Bom. Bom.
Ele se virou novamente para Josh.
— Então, meu jovem, ouvi dizer que você está se destacando em seu departamento.
Josh não conseguiu esconder o prazer em ouvir aquilo e não conteve o sorriso. Os olhos dele encontraram os meus e se desviaram ligeiramente para a mulher ao meu lado, e percebi que ele estava esperando que eu conversasse com ela. Ninguém se dera ao trabalho de nos apresentar. Mitchell Dumont passou um braço paternal ao redor dos ombros de Josh e se afastou alguns metros com ele.
— Bem… — falei. Ergui as sobrancelhas e voltei a abaixá-las. A mulher me dirigiu seu sorriso inexpressivo. — Adorei seu vestido — comentei, usando o código de conversa universal para duas mulheres que não têm absolutamente nada a dizer uma à outra.
— Obrigada. Seus sapatos são lindinhos — disse ela em um tom que deixava claro que não eram nada lindinhos.
A mulher olhou ao redor, como se tentasse encontrar outra pessoa com quem conversar. Bastara uma olhada para a minha roupa para que ela se considerasse muito acima do meu nível salarial.
Como não havia ninguém por perto, tentei de novo.
— Então, você vem muito aqui? No Loeb Boathouse, quero dizer.
— É Loube — corrigiu ela.
— Loube?
— Você pronunciou Lerb. É Loeb, o nome do lugar.
Olhar os lábios dela, perfeitamente maquiados e cheios de um modo que não parecia muito natural, repetindo a palavra várias vezes me deu vontade de rir. Dei um gole no meu champanhe para disfarçar.
— Você vir Lerb Berthouse sempre? — perguntei, sem conseguir me controlar.
— Não — respondeu ela. — Embora uma das minhas amigas tenha se casado aqui no ano passado. Foi um casamento lindo.
— Aposto que sim. E o que você faz?
— Sou dona de casa.
— Uma dorna de casa. Minha mãer também é dorna de casa. — Dei outro longo gole na minha bebida. — Ser dorna de casa é uma ocupação encantardora.
Olhei para Josh, para sua expressão intensamente concentrada no chefe, e me lembrei por um instante do rosto de Thom quando implorava ao meu pai para lhe passar algumas batatas fritas do seu prato.
A expressão da mulher ao meu lado se tornara ligeiramente preocupada. Ao menos até onde uma mulher incapaz de mexer a testa conseguia expressar preocupação. Uma risada começara a subir pelo meu peito e implorei a alguma divindade invisível para que a mantivesse sob controle.
— Maya!
Com uma voz que não escondia o alívio, a Sra. Dumont (ao menos presumi que fosse com ela que eu vinha conversando) acenou para uma mulher que se aproximava de nós, o corpo perfeito exibindo elegantemente um vestido reto cor de menta. Esperei enquanto as duas trocavam beijinhos no ar.
— Você está simplesmente maravilhosa.
— Você também. Adoro esse vestido.
— Ah, é tão velho. Você é um amor. E como está aquele seu marido querido?
— Sempre falando de negócios.
— Ah, você conhece Mitchell.
A Sra. Dumont claramente não conseguiu ignorar minha presença por mais tempo.
— Essa é a namorada de Joshua Ryan. Perdão, não ouvi seu nome. Está muito barulho aqui.
— Louisa — falei.
— Que encanto. Sou Chrissy. Sou a outra metade de Jeffrey. Você conhece Jeffrey, de Marketing e Vendas?
— Ah, todo mundo conhece Jeffrey — disse a Sra. Dumont.
— Ah, Jeffrey… — falei, balançando a cabeça. Então assentindo. Então balançando de novo.
— E o que você faz?
— O que eu faço?
— Louisa trabalha com moda.
Josh apareceu ao meu lado.
— Você sem dúvida tem uma aparência única. Amo os ingleses, você não, Mallory? São tão interessantes em suas escolhas.
Houve um breve momento de silêncio, enquanto todos digeriam as minhas escolhas.
— Louisa vai começar a trabalhar na Women’s Wear Daily.
— É mesmo? — disse Mallory Dumont.
— Vou? — falei. — Sim. Vou.
— Nossa, que incrível. Essa revista é maravilhosa. Preciso encontrar meu marido. Por favor, me deem licença.
Com mais um sorriso inexpressivo, ela se afastou, caminhando sobre seus saltos vertiginosos, Maya ao seu lado.
— Por que você disse isso? — perguntei, pegando outra taça de champanhe. — Soa melhor do que toma conta de uma senhora?
— Não. Você… é que você simplesmente parece que poderia trabalhar com moda.
— Ainda está se sentindo desconfortável com o que estou vestindo?
Olhei de relance para as duas mulheres em seus vestidos complementares. E tive uma súbita lembrança do modo como Agnes deve ter se sentido em reuniões como aquela, a miríade sutil de modos que as mulheres encontram para deixar claro a outras mulheres que elas não se encaixam.
— Você está ótima. Só disse aquilo porque ficaria mais fácil de explicar sua… sua sensibilidade particular… e única, se achassem que você trabalha com moda. O que você meio que faz.
— Sou perfeitamente feliz fazendo o que eu faço, Josh.
— Mas você quer trabalhar com moda, não quer? Não pode passar o resto da vida tomando conta de uma velha. Olha, eu ia tocar nesse assunto depois… mas a minha cunhada, Debbie, conhece uma mulher do Departamento de Marketing da Women’s Wear Daily, e disse que ia pedir a essa conhecida para descobrir alguma vaga para iniciantes. Minha cunhada parece muito confiante de que vai conseguir alguma coisa para você. O que acha?
Ele estava sorrindo, animado como se houvesse me presenteado com o Santo Graal.
Dei um gole na minha bebida.
— Claro.
— Isso aí! Maravilha!
Josh continuou me encarando, as sobrancelhas erguidas.
— Eba! — falei, por fim.
Ele apertou o meu ombro.
— Eu sabia que você ficaria feliz. Muito bem. Vamos voltar para lá. Já vão começar as corridas de família. Quer uma soda limonada? Acho que não podemos ser vistos tomando mais de uma taça de champanhe. Vamos, me dá isso aqui.
Josh colocou minha taça na bandeja de um garçom que passava e seguimos em direção ao sol.

* * *

Dada a elegância da ocasião e a natureza espetacular do cenário, eu realmente deveria ter me divertido nas duas horas seguintes. Afinal, havia dito sim a uma nova experiência. Mas, na verdade, me sentia cada vez mais deslocada entre os casais do mundo corporativo. Os ritmos das conversas me confundiam de tal modo que quando eu me aproximava de algum grupo, acabava parecendo muda ou estúpida. Josh ia de uma pessoa a outra como um míssil de negócios guiado, e a cada parada sua expressão era concentrada e ávida, os modos educados e assertivos. Eu não tinha nada em comum com aquelas mulheres, com seus braços e pernas cor de pêssego, cintilantes, e os vestidos que não amassavam, conversando sobre babás difíceis e feriados nas Bahamas. Fui seguindo Josh, repetindo a mentira dele sobre a minha carreira incipiente na moda e sorrindo silenciosamente, concordando que sim, sim, é muito lindo e obrigada, aah, sim, adoraria outra taça de champanhe e tentando não perceber a sobrancelha erguida de Josh.
— Está aproveitando o dia?
Uma mulher ruiva de corte chanel, fios tão brilhantes que eram quase espelhados, ficou parada ao meu lado enquanto Josh ria com gosto de uma piada contada por um homem mais velho usando calça cáqui e camisa azul-clara.
— Ah. Está ótimo. Obrigada.
Àquela altura, eu me tornara muito boa em sorrir e não dizer nada.
— Felicity Lieberman. Trabalho a duas mesas de distância de Josh. Ele está se saindo muito bem.
Apertei a mão dela.
— Louisa Clark. Ele está mesmo.
Recuei e tomei outro gole da minha bebida.
— Em dois anos Josh se tornará sócio da empresa. Tenho certeza disso. Vocês dois estão namorando há muito tempo?
— Ah, não muito. Mas nos conhecemos há muito mais tempo.
Ela pareceu esperar que eu falasse mais.
— Bem, antes éramos amigos, de certo modo. — Eu tinha bebido demais, e acabei falando mais do que pretendera. — Na verdade, eu estava com outra pessoa, mas Josh e eu vivíamos nos esbarrando. Bem, ele diz que estava esperando por mim. Ou esperando até que eu e meu ex terminássemos. Na verdade, foi bem romântico. Um monte de coisas aconteceu e… Bum! De repente, estávamos em um relacionamento. Você sabe como são essas coisas.
— Ah, sei. Ele é muito persuasivo, nosso Josh.
Algo na risada dela me deixou desconfortável.
— Persuasivo? — repeti, depois de um instante.
— Ele fez a cena da galeria dos sussurros com você?
— Fez o quê?
Ela deve ter percebido minha expressão de choque e se inclinou na minha direção.
— Felicity Lieberman, você é a garota mais fofa de Nova York.
Ela olhou de relance para Josh e se afastou.
— Ah, não fique assim. O que aconteceu entre nós não foi sério. E Josh realmente gosta de você. Ele fala muito de você no trabalho. Com certeza está levando o relacionamento a sério. Mas, nossa, esses homens e suas cantadas, hein?
Tentei rir.
— Nossa.
Quando o Sr. Dumont já havia terminado seu discurso autoelogioso e os casais começaram a ir embora, eu já sofria de uma ressaca precoce. Josh abriu a porta de um táxi para mim, mas eu disse que iria caminhando.
— Não quer ir lá para casa? Poderíamos comprar alguma coisa para comer.
— Estou cansada. E Margot tem uma consulta de manhã — falei.
Meu rosto doía por causa dos sorrisos falsos.
Os olhos dele me avaliaram.
— Você está chateada comigo.
— Não estou chateada com você.
— Está chateada comigo por causa do que eu disse sobre o seu emprego. — Josh pegou a minha mão. — Louisa, eu não quis deixar você chateada, meu amor.
— Mas quis que eu fosse outra pessoa. Achou que eu não estava à altura deles.
— Não. Eu acho você incrível. É só que você poderia ser mais, porque tem tanto potencial, e eu…
— Não diga isso, ok? Essa história de potencial. É condescendente, ofensivo e… Bem, eu não quero que me diga isso. Nunca. Está certo?
— Nossa.
Josh olhou para trás, talvez para checar se algum colega de trabalho estava nos observando. E me segurou pelo cotovelo.
— Muito bem, o que realmente está acontecendo aqui?
Olhei para baixo. Não queria dizer nada, mas não consegui me conter.
— Com quantas?
— Com quantas o quê?
— Com quantas mulheres você já fez aquilo? A galeria dos sussurros?
Ele estava encurralado. Josh revirou os olhos e deu as costas por um instante.
— Felicity.
— Sim, Felicity.
— Está certo, você não é a primeira. Mas foi legal, não foi? Achei que você ia gostar. Uau, eu só queria fazer você sorrir.
Ficamos parados, um de cada lado da porta do táxi, o taxímetro já contando a corrida, e o motorista ergueu os olhos para o retrovisor, esperando.
— E você sorriu, certo? Tivemos um bom momento. Não tivemos?
— Mas você já havia tido aquele momento. Com outra pessoa.
— Por favor, Louisa. Sou o único homem a quem você já disse coisas bonitas? Para quem se vestiu? Com quem fez amor? Não somos adolescentes. Cada um de nós tem um passado.
— E cantadas testadas e aprovadas.
— Isso não é justo.
Respirei fundo.
— Desculpa. Não foi só a história do sussurro na estação de trem. Acho eventos como esse meio complicados de lidar. Não estou acostumada a fingir ser quem não sou.
Ele sorriu mais uma vez, a expressão mais suave.
— Ei. Esse dia vai chegar. São pessoas legais depois que você as conhece melhor. Até mesmo as que eu namorei.
Ele tentou sorrir.
— Se você diz.
— Vamos a uma partida de softbol da empresa. É um pouco mais tranquilo. Você vai adorar.
Consegui sorrir.
Ele se inclinou para a frente e me beijou.
— Estamos bem? — perguntou Josh.
— Estamos bem.
— Tem certeza de que não quer ir lá para casa?
— Preciso ver como está Margot. Além do mais, estou com dor de cabeça.
— Isso é que dá beber demais! Beba bastante água. Você provavelmente está desidratada. A gente se fala amanhã.
Ele me beijou, entrou no táxi e fechou a porta. Fiquei parada onde estava, observando, e ele acenou, então bateu duas vezes na janela que o separava do motorista, para que o táxi partisse.

* * *

Conferi a hora no relógio do saguão ao chegar ao prédio e fiquei surpresa ao descobrir que eram apenas seis e meia. A tarde pareceu ter durado décadas.
Tirei os sapatos, sentindo o imenso alívio que apenas uma mulher conhece quando os dedos que estavam apertados em um sapato finalmente afundam em um carpete macio, e subi descalça até o apartamento de Margot, com os sapatos nas mãos. Eu estava cansada e irritada de um modo que não conseguia explicar direito, como se tivesse sido convidada a participar de um jogo cujas regras eu não entendia. Na verdade, tinha a sensação de que preferia ter estado em qualquer outro lugar que não onde eu estivera. E não parava de pensar em Felicity Lieberman perguntando Ele fez a cena da galeria dos sussurros com você?.
Quando entrei no apartamento, parei para cumprimentar Dean Martin, que viera se balançando pelo corredor para me receber. A carinha amassada dele mostrava tanto prazer com o meu retorno que foi difícil continuar emburrada. Eu me sentei no chão do corredor e deixei que o cãozinho saltasse ao meu redor, lambendo meu rosto com sua língua cor-de-rosa até eu sorrir de novo.
— Sou só eu, Margot — gritei.
— Ora, eu dificilmente pensaria que era o George Clooney — retrucou ela. — O que é lamentável para mim. Como foi com as Mulheres Perfeitas? Ele já a converteu?
— Foi uma tarde deliciosa, Margot — menti. — Todos foram muito gentis.
— Foi assim tão ruim, é? Você se incomodaria de me servir um pouco daquele bom vermute se por acaso passar pela cozinha, meu bem?
— Que diabo é vermute? — murmurei para o cachorro, mas ele se sentou para coçar uma das orelhas com a pata traseira.
— Tome um também, se quiser — acrescentou ela. — Desconfio que esteja precisando.
Eu estava me levantando quando meu celular tocou. Senti um desânimo momentâneo — provavelmente era Josh, e eu não estava preparada para falar com ele, mas quando chequei a tela, vi que era o número da minha casa. Levei o celular ao ouvido.
— Pai?
— Louisa? Ah, graças a Deus.
Chequei o relógio.
— Está tudo bem, pai? Deve ser de madrugada aí.
— Meu amor, tenho más notícias. Seu avô.

12 comentários:

  1. Josh, é um babaca!!! Imagino aqueles caras todo arrumadinho.

    Margot está sendo fofa... ela é muito intuitiva.
    Omg... o vovô... Será que morreu?

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  2. Sabe acho que o Josh surgiu nesse livro justamente para mostrar como seria a vida da Lou se ela tivesse conhecido o Will antes do acidente , eles dificilmente dariam certo. Ainda não sei muito sobre esse Josh, mas até agora já não gostei, comecei a gostar, comecei a shippar e em um capítulo mudei tudo o que pensava a respeito dele, ta, talvez em dois. O fato é que a Jojo me surpreendeu muito nesse livro, estava desanimada com o Depois de você, mas estou amando Ainda sou Eu.

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    1. MEU DEUS! EU PENSEI EXATAMENTE A MESMA COISA! O Will com certeza era esse tipo de cara antes do acidente.

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    2. Pensei a mesma coisa...

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  3. Essa autora escreve tantos capitulos embromando que perde a graça do livro. Se fizesse as coisas acontecerem logo a história ficaria instigante como ni primeiro livro e ganharia filmes de.continuidade, mas a avaliar uma embromação de 34 capítulos sendo que 20 são relevantes e o restante pra encher linguiça ficou bem.claro agora porque não.continuaram os filmes.

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  4. Louisa é meio entrona, tipo essa coisa de encontrar o filho e o neto da Margot, essa coisa de querer vender as roupas kkkkkk ela meio que quer resolver os problemas doa outros de sensível quando na verdade a vida dela é uma puta bagunça.

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  5. Não tô shippando mais esse casal affs..
    A Margot é uma fofa neh rsrs ..
    Será que o avô da Low morreu, e será que ela vai voltar pra Inglaterra?
    E encontrar Sam de alguma forma lá? Aí mds, parece que virão emoções por aí

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  6. Como o Josh e babaca, que decepção!!!

    Margot se mostrando cada vez maravilhosa aaawn.

    Ai não, o vovô...

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  7. Já não estou mais gostando do Josh....

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Boa leitura, E SEM SPOILER!