20 de fevereiro de 2018

Capítulo 25

Sejam fiéis, minhas irmãs e meus irmãos,
Não como a Chimentra,
A criatura aliciante,
Com duas bocas sedutoras,
Cujas palavras fluem, luxuriantes, como uma fita de cetim,
Atando os incautos nas suas tranças sedosas.
No entanto, sem ouvidos para ouvir as próprias palavras,
A Chimentra logo é estrangulada,
Presa na trilha das suas belas mentiras.
— Canção de Venda —



KADEN

Lia discutia com os guardas postados à porta e, por fim, conseguiu passar por eles. Ela foi andando até os fundos dos alojamentos onde eu estava sentado, descansando os pés na ponta da maca de Griz. A primeira coisa que fez foi olhar para a garrafa vazia no chão ao meu lado, e a segunda coisa que fez foi pairar perto de mim e me cheirar.
Ela curvou o lábio superior.
— Você está bêbado.
Dei de ombros.
— Levemente embriagado. Não havia muita coisa na garrafa.
— Aquela garrafa era para Griz. Não para você.
— Olhe para ele. Parece que ele precisa dela? O cirurgião está se ocupando de dar a ele a sua própria bebida especial para mantê-lo assim, deitado. Para ele também — falei ainda, assentindo em direção a Jeb. — A única companhia que tenho aqui são os peidos e roncos dos dois.
Ela revirou os olhos.
— Você não tem nada melhor a fazer além de beber?
— Como o quê?
— Qualquer coisa! Vá lá fora e tome um pouco de sol! Explore o posto!
— Caso não tenha notado, há guardas postados lá fora, isso sem falar que eu tive mais do que uma boa parcela de ficar ao relento nas últimas semanas. — Ergui a garrafa e deixei que umas poucas e últimas gotas caíssem na minha língua, e então chutei o pé de Jeb para me certificar de que ele estivesse completamente apagado antes de falar mais alguma coisa. — Quanto ao posto avançado, eu já sei como ele é. Já estive aqui antes.
Ela olhou para mim, confusa.
—Você já esteve...
Ela empalideceu, com a compreensão do isso significava se assentando. Ela empurrou os pés de Jeb para o lado e sentou-se na ponta da maca dele, descansando o rosto nas mãos, tentando absorver essa notícia.
— Você tem que saber que nem sempre estive à caça de princesas — falei. — Eu tinha deveres, um dos quais me trouxe até aqui. — Contei a ela os mais básicos detalhes sobre a minha visita ao posto dois anos atrás, tendo apenas um homem como alvo, mas um homem importante. — Se serve de consolo, ele mereceu. Pelo menos foi o que o Komizar me disse.
Mereceu. A palavra havia me avassalado como um verme cavando caminho a manhã toda. Da forma como Aster havia feito por merecer uma faca no coração? Talvez fosse por isso que eu havia pegado a garrafa de Griz. Sem dúvida alguma havia inúmeros vendanos que tinham morrido de forma brutal nas mãos de outros reinos, e provavelmente pela mão do homem que eu matei também, exatamente como o Komizar dissera. Eu mesmo era testemunha das brutalidades, mas devia haver outros, como Aster, que foram mortos simplesmente para passar uma mensagem. Quantos deles teriam morrido pelas minhas mãos?
O peso do olhar fixo e constante de Lia me dilacerava. Desviei o rosto, desejando que a garrafa de bebida não estivesse vazia. Ela ficou sentada, em silêncio, por um bom tempo. Será que ainda acreditava que eu era uma pessoa diferente?
Um sibilar por fim escapou por entre os dentes dela. Ela se levantou e começou a remexer os suprimentos no armário do cirurgião. Pela primeira vez, notei que o cachecol que ela estava carregando estava enrolado na mão dela.
— O que foi que aconteceu?
— Idiotice, e algo que nunca mais vai acontecer de novo.
Ela desenrolou o tecido da mão e enxaguou-o em uma bacia, e então começou a puxar as lascas com um alicate.
— Aqui, deixe que eu faço — falei.
— Você? — disse ela, em um tom de zombaria.
— Não é nenhuma cirurgia. Estou sóbrio o suficiente para tirar uma farpa da sua mão.
Ela se sentou em frente a mim e, enquanto eu segurava na mão dela e lidava com a extração de uma lasca, me contou sobre o que acontecera com Dihara e com os outros nômades que foram queimados.
— Natiya — falei, balançando a cabeça. — Eu sabia que ela queria que seu cavalo chutasse os meus dentes, mas nunca achei que ela fosse sorrateiramente dar uma faca para você. A maioria dos nômades sabe que é melhor não fazer uma coisa dessas.
— Até mesmo nômades têm limites quanto ao que conseguem aguentar. Especialmente os jovens. Ela está sofrendo agora. Acha que é tudo culpa dela.
— O Komizar deve ter acreditado em você quando disse que havia roubado a faca; caso contrário, todos eles estariam mortos.
— Bem, isso não é um consolo? O grande e piedoso Komizar!
O sarcasmo dela foi como um ferrão para mim. Esfreguei com o polegar em cima da mão dela.
— Eu sinto muito.
A expressão dela ficou séria.
— Ele está morto, Kaden? Você deve ter noção de alguma coisa.
Eu sabia que ela estava desesperada para que eu dissesse que sim, mas repeti o que contara a ela antes. Eu não sabia. Ele estava bastante ferido. Estava fraco. Eu tinha ouvido alguns murmúrios que não soavam esperançosos para a recuperação dele, e depois daquele primeiro dia até o momento em que fomos embora, eu não tinha ouvido a voz dele de novo.
Ela relaxou a mão na minha. Estava claro que Lia não pensava que qualquer um daqueles que haviam permanecido no Sanctum seria capaz de lidar com a tarefa monumental de liderar tal exército. Provavelmente ela estava certa.
Uma sombra cruzou a porta dos alojamentos, ergui o olhar e me deparei com Tavish, que nos observava, mais particularmente focado na mão de Lia que estava pousada na minha. Deixei que ele ficasse olhando por um bom tempo e com o ar endurecido antes de alertá-la sobre a presença dele:
— Temos companhia.

9 comentários:

  1. A única companhia que tenho aqui são os peidos e roncos dos dois.
    Ela revirou os olhos.

    Morri de rir 😂☺

    Kaden #humor

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  2. Tava demorando pra ela ir atras do Kaden

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    Respostas
    1. Ela não foi propriamente atrás dele... Ela fez merda com uma lasca e tinha que tirar.... Ela nem sabia que ele estava lá!!!!

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  3. Olha aqui Lia você não vai magoar meu príncipe

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  4. Eu vivo um conflito com esse livro 😧

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  5. Roncos e peidos!!!
    Humor kadeniano!! Kkk

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  6. Eu não sei mais com quem eu quero que a Lia fique. SOCORRO!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!