16 de fevereiro de 2018

Capítulo 25

Kaden ficou em silêncio enquanto se preparava para dormir, o tipo de silêncio que fez todos os outros sons irritassem – sua respiração, as suas passadas, o som da água derramado de um jarro. Estava tudo misturado com tensão.
Ele lavou o rosto sobre a bacia, e correu os dedos molhados por seu cabelo. Seus movimentos foram repentinos. Ele atravessou o quarto e arrancou o cinto das calças com um puxão rápido.
— Os guardas me disseram que você se sentou no muro do lado de fora da janela hoje — disse ele, sem olhar na minha direção.
— Isso é proibido?
— Não é aconselhável. É uma longa queda.
— Eu precisava de ar fresco.
— Eles disseram que você entoou canções.
— Memórias. Apenas a tradição de início da noite de Morrighan. Você se lembra delas, não é?
— Os soldados disseram que pessoas se reuniram para ouvi-la.
— Sim, elas fizeram isso, mas apenas algumas. Eu sou uma curiosidade.
Ele abriu seu baú e jogou lá seu cinto e bainha. A faca dele estava colocada logo debaixo do tapete de pele onde ele dormiria, ele mantinha a lâmina estreita mesmo em seu próprio quarto trancado. Seria hábito ou uma exigência do Rahtan, que sempre deveriam estar prontos? Me fez lembrar que eu ainda tinha a faca de Natiya na bota e eu teria que ser discreta quando a retirasse.
— Há algo errado? Foi a forma como eu disse a bênção? — perguntei enquanto lutava com os cordões nas minhas costas.
Ele tirou uma bota.
— Você disse tudo certo.
— Mas?
— Nada. — Ele me viu tentando desatar o vestido. — Aqui, deixe-me olhar.
Eu me virei.
— Aster parece ter dado nós — falei.
Senti seus dedos se atrapalharem com a tarefa, então finalmente senti o tecido afrouxar.
— Aí está — disse ele. Virei-me para encará-lo. Ele olhou para mim, uma calidez nos olhos. — Há algo mais. Quando eu a vi com esse vestido, fiquei... — ele balançou a cabeça — fiquei com medo. Achei que... isso não vem ao caso.
Eu nunca o tinha visto lutar tanto com as palavras. Ou admitir ter medo. Ele afastou-se e sentou-se na cama.
— Tenha cuidado com o quanto força, Lia. — Ele tirou a outra bota.
— Você está preocupado comigo?
— É claro que estou preocupado com você! — devolveu
Me endireitei, surpresa com sua raiva.
— Eu fui acolhida, Kaden. Isso é tudo. Não era isso que você queria?
— Esse tipo de acolhida também poderia trazer uma sentença de morte.
— A partir do Conselho, você quer dizer.
— Temos muito pouco aqui, Lia, além do nosso orgulho.
— E uma prisioneira foi honrada. Esse é o problema?
Ele assentiu.
— Você acabou de chegar aqui e...
— Mas, Kaden, as pessoas que me acolheram são vendanas.
Seus olhos me perfuravam.
— Mas não são elas que carregam armas letais.
Não havia como negar que as ferramentas de trabalho de Effiera não eram nada como as Malich e de seus companheiros. Sentei-me ao lado Kaden.
— O que é o clã dos Meurasi? Por que eles são tão importantes?
Ele explicou que a cidade estava cheia de pessoas de todas as províncias. Eles tendiam a estabelecer-se em bairros de seu próprio clã, e cada um tinha características únicas. Uma casa era bem diferente da outra, mas o clã dos Meurasi representava todas as coisas vendanas. Cordiais, duradouro, leais. Eles honravam muitos dos modos antigos que outros tinham esquecido, mas deles vinha a promessa de lealdade acima de tudo.
— Eles vestirão os seus, mesmo que tenham que juntar retalhos para isso. Todos contribuem com o que podem. Sua linhagem remete para o único filho que Lady Venda teve. O primeiro Komizar se casou novamente depois que ela morreu e teve muitas crianças com outras mulheres, mas de Venda, havia apenas um, Meuras. Então, sim, é uma honra para qualquer um ser acolhido no clã, mas uma prisioneira... — ele balançou a cabeça como se tentasse entender algo, e depois olhou para mim. — Isso apenas não acontece. Você disse algo para Effiera na tenda?
Lembrei-me de sua expressão quando Aster lhe disse o meu nome, e depois os murmúrios suaves quando tirei minha camisa e eles viram o kavah no meu ombro. Os modos antigos. Será que os Meurasi ainda passavam adiante as palavras de uma louca? Um nome bonito, Yvet dissera. Talvez fosse mais do que isso, mas, dada a reação do Conselho à minha acolhida e a aparente desaprovação de Kaden, decidi manter essa carta na manga por agora.
— Não — respondi. — Nós só falamos sobre roupas.
Ele me olhou com cautela.
— Seja cuidadosa. Não force a barra, Lia.
— Eu ouvi na primeira vez que você falou.
— Não acho que você tenha ouvido.
Eu pulei para os meus pés.
— Por que isso é minha culpa? — gritei. — Você foi quem me levou para o jehendra mesmo quando eu disse que não precisava de roupas! Eu comprei uma coisa, e eles me trouxeram outra. Se eu os tivesse insultado ao recusá-las, tenho certeza de que seria repreendida por isso também! E esta noite eu pedi para dizer o reconhecimento do sacrifício? Não! Calantha empurrou o prato de ossos na minha cara. O que eu deveria fazer? Existe alguma coisa que eu possa fazer que pareça certa aos seus olhos?
Ele suspirou e estendeu os joelhos para ficar de pé.
— Você está certa. Sinto muito. Você não pediu por nada disso. Eu só estou cansado. Tem sido um longo dia.
Minha raiva arrefeceu. Talvez fosse apenas parte de seu treinamento como um assassino não demonstrar, mas Kaden nunca se cansava. Ele estava sempre alerta e pronto, mas o cansaço era evidente agora.
Apoiei meu pé sobre a armação da cama para desamarrar a minha bota.
— Onde você esteve durante todo o dia?
— Deveres. Apenas cuidando dos meus deveres como Mantenedor.
Que tipo de dever cobrava um preço alto dele dessa forma? Ou talvez ele não estivesse bem? Ele pegou cobertores de cima da arca e deixou-os cair no tapete de pele.
— Fico com o tapete esta noite — ofereci.
— Não. Eu não me importo.
Ele tirou a camisa. Suas cicatrizes sempre me faziam parar, não importa quantas vezes eu as tivesse visto. Elas eram uma dura lembrança de quão brutal seu mundo era. Ele apagou as lamparinas, e uma vez que eu tinha me trocado, apagou a vela também. Esta noite não haveria nem mesmo sombras dançantes para me ajudar a dormir.
Ele ficou em silêncio por um longo tempo, e pensei que já tivesse adormecido, mas então ele perguntou:
— Você fez mais alguma coisa hoje?
Ele não estava cansado demais se sua mente ainda estava rodando com perguntas. Será que ele suspeitava de algo?
— O que você quer dizer com mais alguma coisa?
— Eu só queria saber o que você fez durante todo o dia. Além de sair pela janela.
— Nada — eu sussurrei. — Foi um longo dia para mim também.
No dia seguinte, quando Kaden teve que sair, ele fez Eben vir para me fazer companhia, mas eu sabia que era um artifício para manter um olho em mim. Eben estava me guardando, assim como havia feito na campina dos nômades, exceto que as coisas eram diferentes entre nós agora. Ele ainda era o assassino treinado, mas agora havia uma fenda em sua armadura, e uma suavidade em seus olhos que não estivera lá antes. Talvez fosse que eu o havia poupado do fardo de matar seu próprio cavalo. Talvez o meu reconhecimento sussurrado do nome de Spirit tivesse permitido que algo que ele escondera dentro dele florescesse. Só um pouco. Ou talvez tenha sido que nós compartilhamos um sofrimento semelhante, observando alguém que amamos ser massacrado diante de nossos olhos.
Por ordem de Kaden, Eben foi autorizado a me levar para fora do quarto, mas não fora do Sanctum, e não nesta ala ou naquela torre, apenas para uma área restrita prescrita.
— Para a sua própria segurança — Kaden disse quando lancei-lhe um olhar questionador.
Na verdade, eu sabia que ele estava tentando me manter fora do caminho da Malich e de certos membros do Conselho. No final da refeição da noite passada, ficou claro que a hostilidade ainda estava alta, mais ainda entre uns poucos por causa da minha acolhida pelos Meurasi, mas o sempre unido Conselho parecia dividido agora em dois grupos, os curiosos e os inimigos.
Eben me levou por um caminho tortuoso para os campos atrás da ala do Conselho. Um novo potro tinha nascido enquanto ele estava fora. Ficamos assistindo o potro com perninhas de palito em um pequeno curral, saltando pelo puro prazer de experimentar novas patas. Eben equilibrava-se no cercado, tentando conter um sorriso.
— Como você vai chamá-lo? — perguntei.
— Ele não é meu. Não o quero, de qualquer maneira. Muito trabalho para treinar. — Seus olhos brilharam com cada dor que ele ainda carregava, e seus tenros anos tornavam sua negação forçada.
Suspirei.
— Não o culpo. É difícil se comprometer com algo depois de... — deixei o pensamento pender no ar. — Ainda assim, ele é bonito, e alguém tem que ensiná-lo. Mas provavelmente há treinadores melhores nisso do que você.
— Eu sou tão bom quanto qualquer domador mais velho. Spirit sabia o que fazer com apenas uma contração do meu joelho. Ele... — seu queixo se projetou e, em seguida, em voz baixa, acrescentou: — Ele me foi dado pelo meu pai.
E agora eu conhecia a verdadeira profundidade da tristeza de Eben. Spirit não era apenas um cavalo qualquer. Eben nunca fizera qualquer menção a seus pais. Se Kaden não tivesse me contado que Eben testemunhara seu massacrar, eu teria pensado que ele foi gerado por alguma criatura diabólica e caído na terra completamente vestido e armado como um pequeno soldado vendano.
Eu entendia o buraco que Eben sentia, sua profundidade perversa, que não importava o quanto você quisesse fingir que não estava lá, sua boca negra se abria para engoli-lo de novo e de novo.
Ele dispensou a menção de seu pai de uma maneira prática, tirando o cabelo da frente dos olhos e saltando da cerca.
— Devemos voltar — ele falou.
Eu queria dizer algo sábio, algo reconfortante de que diminuísse a sua dor, mas eu mesma ainda estava sentindo naquele buraco. As únicas palavras que vieram foram:
— Obrigado por minhas botas, Eben. Elas significam mais para mim do que você pode imaginar.
Ele assentiu.
— Eu as limpei também.
Gostaria de saber se, como Griz, esta era uma gentileza para compensar com uma dívida.
— Você me deve nada, Eben. Eu cuidei do seu cavalo tanto por mim quanto por você.
— Eu já sabia disso — ele disse, e correu na minha frente.
Nós voltamos por um corredor diferente, mas eu estava ficando boa em memorizá-los agora, e estava começando a entender o padrão do layout caótico da arquitetura. Pequenas avenidas, túneis e edifícios emanavam dos maiores. Era como se muitas grandes estruturas dentro desta cidade antiga tivessem lentamente sido tecidas em conjunto, um animal sem graça em que se cresceu braços extras, pernas e olhos sem levar em conta a estética, apenas a necessidade imediata. O Sanctum era o coração da besta, e as cavernas escondidas abaixo, as entranhas. Ninguém nunca mencionou o que se agitava sob o Sanctum, e nunca vi as figuras de túnicas nas refeições. Eles ficavam na deles.
Quando passamos pelo último corredor até o quarto de Kaden, perguntei:
— Eben, o que são as cavernas lá embaixo? Aster as mencionou para mim.
— Você quer dizer que as catacumbas? Cavernas de Ghouls, Finch as chama. Não vá lá embaixo. A única coisa que neles é ar viciado, livros antigos e os espíritos sombrios.
Reprimi um sorriso. Era quase a mesma descrição que eu usei para os arquivos em Civica, porém os espíritos sombrios de lá eram os eruditos da cidade.

* * *
Os dias seguintes passaram como o anterior, mas cada um deles era mais curto do que o anterior. Eu aprendi que o tempo prega peças na gente quando se quer mais dele. A cada dia que passava sem nenhum sinal dos soldados de Rafe, eu sabia que os cavaleiros vendanos podiam estar mais perto com a notícia de que o rei de Dalbreck estava forte e com saúde – uma sentença de morte para Rafe. Pelo menos o Komizar estaria longe por mais duas semanas. Isso nos comprava mais tempo para os soldados de Rafe aparecerem. Tentei manter essa esperança por causa de Rafe, mas estava parecendo que encontrar uma maneira de fugir era o que nos restava agora.
O tempo ficou mais frio, e outra chuva gelada caiu sobre a cidade. Apesar do frio, a cada dia eu saía pela janela e sentou-se no muro, recitando as memórias sagradas, buscando em meio a elas como se fossem papéis embaralhados, tentando encontrar respostas, segurando aquelas que tinham um vislumbre de verdade. A cada dia um grupo maior se reunia para ouvir, uma dúzia, duas dúzias, e muito mais. Muitos eram crianças. Um dia Aster estava entre elas, e pediu uma história. Comecei com a história de Morrighan, a menina que fora conduzida pelos deuses para uma terra de abundância, em seguida, contei a história do nascimento de dois dos Reinos Menores, Gastineux e Cortenai. Todas as histórias e textos que estudei durante anos eram agora contos que os deixava hipnotizados. Eles eram tão famintos de histórias como Eben e Natiya foram quando nós nos sentamos ao redor das fogueiras – histórias de outras pessoas, outros lugares, outros tempos.
Esses momentos, pelo menos, me davam algo pelo o que esperar, porque não houve mais oportunidades de falar com Rafe em particular. Mesmo quando Kaden me deixou trancada sozinha em seu quarto e eu escapei, descobri que agora havia guardas postados embaixo da janela de Rafe também, quase como se soubessem que ele não poderia escapar através das janelas estreitas, mas alguém menor poderia entrar. A refeição da noite não me trouxe melhores oportunidades para conversas privadamente com ele, e minha frustração crescia.
Aqui no Sanctum nós poderíamos muito estar bem separados por um vasto continente. Eu atribuía meus sonhos agitados à minha irritação. Tive outro sonho em que Rafe partia, dessa vez mais detalhado do que anterior. Ele estava vestido com roupas que eu nunca tinha visto, Rafe, um guerreiro de uma estatura assustadora. Sua expressão era quente e feroz, e ele carregava duas espadas na cintura.

* * *

As noites no Saguão do Sanctum eram longas e cansativas, não diferentes da corte em Morrighan, mas os modos deles eram decididamente mais ruidosos, mais brutos, e sempre pareciam à beira do caos. O reconhecimento do sacrifício proporcionava um momento de silêncio curioso em contraste com as suas atividades estridentes. Eu aprendi os nomes de todos do Conselho – os governadores, os chievdars e os Rahtans, embora muitos de seus nomes soassem iguais. Gorthan. Gurtan, Gunthur. Mekel, Malich, Alick. Somente o nome de Kaden parecia não ter qualquer semelhante. O chievdar que conheci no vale, Stavik, era azedo além da medida, mas acabou por ser o mais civilizado dos cinco comandantes do exército.
Os governadores eram os mais fáceis de se conversar. A maioria estava contente de estar no Sanctum, em vez de nas terras desoladas de onde vieram, o que talvez aliviasse suas disposições. Três dos Rahtans estavam fora, mas os quatro que estavam presentes além de Kaden, Griz e Malich eram, de longe, os mais hostis do Conselho. Jorik e Darius eram os que tinham acompanhado Malich com suas facas prontas quando viram o meu vestido do clã, e os outros dois, Theron e Gurtan, pareciam usar sorrisos de zombaria como pintura de batalha permanente. Imaginei-os como os homens que o Komizar teria enviado para terminar o trabalho que Kaden não conseguiu fazer e não havia nenhuma dúvida em minha mente de que eles teriam feito sem hesitar. Eles eram a própria definição de RahtanNunca falhar. Era difícil para mim pensar que, de alguma forma distorcida, Kaden tinha salvo minha vida por me trazer aqui.
Todas as noites após a refeição, o Conselho era arrastado para jogos de pedras ou cartas, ou simplesmente bebiam a noite toda. Os preciosos vinhos de safra especial de Morrighan eram bebidos como se fossem cerveja barata. Os jogos de pedras eram estranhos para mim, mas os jogos de cartas eu reconheci. Lembrei-me do primeiro conselho de Walther para mim: Às vezes, ganhar não é apenas uma questão de conhecer as regras, mas de fazer o seu adversário pensar que ele as conhece melhor que você. Eu assisti de longe, analisei as nuances e semelhanças com os jogos que tinha jogado com os meus irmãos e seus amigos. Nesta noite, notei que as apostas para um jogo particular cresciam, com a maior das pilhas se acumulando em frente Malich. Assisti a presunção desfilando em seu rosto como um galo de curral, o mesmo sorriso arrogante que ele tinha dado quando me disse que matar Greta foi fácil.
Levantei-me e caminhei até os jogadores. Decidi que eu precisava de algum entretenimento também.

9 comentários:

  1. Peguei um amor no Eben

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    1. Ele é tipo um irmãozinho, como o Koda de irmão urso

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  2. Eu acho que o esses sonhos podem ser visões ou algo provocado pelo dom dela.

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  3. Gosto do Eben, ele é um fofo. Essa Lia gosta de viver perigosamente.. o que só me faz gostar mais dela.

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  4. Essas conversas de Lia e Kaden antes de dormir dão muito um clima de casados kkkkkk

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  5. Venda e tao fria,Kaden poderia se juntar a Lia nessas noites frientas kkkkk��

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Boa leitura, E SEM SPOILER!