2 de fevereiro de 2018

Capítulo 25

Apenas um pequeno remanescente
da terra inteira havia sobrado.
Eles aguentaram três gerações de testes e provações,
separando os puros daqueles que ainda
estavam voltados para as trevas.
— Livro do Texto Sagrado de Morrighan, vol. IV —



Eu passeava por Terravin balançando uma trouxa amarrada em cada mão. Uma era para mim e outra para Pauline. Não precisava de Otto para carregar essas coisas leves e queria liberdade para me aventurar pelas trilhas e avenidas do local em um ritmo de lazer, então hoje caminhava até a cidade sozinha.
Com tudo em ordem na estalagem, Berdi disse que eu deveria tirar o dia de folga e usá-lo como bem entendesse. Pauline ainda passava seus dias na Sacrista, então fui sozinha, com apenas uma aquisição em mente. Eu poderia ter que esperar para que o kavah sumisse, mas isso não queria dizer que era obrigada a vestir minhas calças esfarrapadas ou minhas camisas de manga comprida até que ele tivesse sumido. Aquilo era uma mera peça de decoração no meu ombro agora, sem nenhuma indicação de realeza e, saísse ou não, eu não permitiria que isso regesse a forma como eu me vestia mais um dia sequer.
Fui descendo as docas, e os aromas de sal, peixe, madeira molhada e tinta fresca da loja de equipamentos de pesca circulavam pela brisa. Era um cheiro saudável e robusto, que de repente produziu um sorriso no meu rosto. Isso me fez pensar: Eu amo Terravin. Até mesmo o ar daqui.
Lembrei-me das palavras de Gwyneth: Terravin não é o paraíso, Lia.
É claro que Terravin tinha seus problemas. Eu não precisava de Gwyneth para me dizer que a cidade não era perfeita. No entanto, em Civica, o próprio ar era tenso, esperando para nos pegar e nos nocautear, sempre embebido com o aroma de espreitas e avisos. Aqui em Terravin, o ar era apenas ar, e, o que quer que estivesse nele, estaria nele. Ele não fazia prisioneiros, e isso transparecia nos rostos das pessoas da cidade. Elas sorriam mais rápido, acenavam, chamavam a gente para entrar na loja e experimentar alguma coisa, para partilhar uma risada ou alguma notícia. A cidade era cheia de tranquilidade.
Pauline superaria Mikael. Ela haveria de olhar para o futuro. Eu, Berdi e Gwyneth a ajudaríamos com isso, e é claro que a própria cidade de Terravin a ajudaria, o lar que ela amava. Não havia lugar melhor para nós.
Como amanhã seria o primeiro dia do festival, memórias sagradas espalhavam-se por todos os cantos da cidade, com os marinheiros erguendo redes, esfregando deques, enrolando velas, com versos prediletos deste ou daquele mesclando-se sem esforço a seu dia de trabalho em uma canção que me agitava de forma nunca sentida antes, uma música natural — o bater de velas acima de nossas cabeças, o peixeiro esbravejando sobre um peixe que pescara, o borrifo das popas dos barcos batendo na água, os sinos de embarcações ao longe saudando uns aos outros, uma pausa, uma nota, um vozerio, um grito, uma risada, uma prece, o som de um esfregão sendo usado, o raspar de uma corda, tudo isso tornava-se uma canção, tudo conectado de um jeito mágico que me perpassava.

Fiéis, ó fiéis,
Levante ali! Puxe!
Puro de coração, puro na mente,
Sagrado Remanescente, abençoado acima de tudo,
Robalo! Perca! Peixe-carvão! Linguado!
Estrelas e vento,
Chuva e sol,
Remanescente escolhido, ó, Sagrado,
Dia da Libertação, liberdade, esperança,
Gire o sarilho! Dê o nó na corda!
Fiéis, fiéis,
Abençoados acima de tudo,
Sal e céu, peixe e gaivota,
Ergam suas vozes,
Cantem no caminho até lá!
Morrighan governa
Pela misericórdia dos deuses,
Peixes frescos! Trilhador! Atum! Bacalhau!
Fim da jornada, pelo vale,
Puxe a âncora! Ajuste a vela!
Abençoada seja Morrighan,
Para todo o sempre.

Virei em uma travessa silenciosa em direção à estrada principal, com as camadas de canções flutuando no ar atrás de mim.
— Para todo o sempre — sussurrei, sentindo as memórias sagradas de uma nova maneira, sentindo como se a minha voz fizesse parte de algo novo, talvez alguma coisa que eu pudesse entender.
Peguei você, peguei você agora.
Olhei por cima do ombro, e as palavras soavam estranhamente graves, deslocadas em meio às outras, mas a baía estava bem atrás de mim, e o mar carregava para longe as melodias.
— Ei, você aí, moça! Vai uma coroa para o festival?
Dei meia-volta. Um homem enrugado e desdentado estava sentado do lado de fora da loja de velas, apertando os olhos sob o sol do meio-dia. Ele ergueu o braço cheio de alegres coroas de flores para serem usadas como adornos de cabeça. Parei para admirá-las, mas estava cautelosa em relação a gastar mais dinheiro. As trouxas que eu carregava já tinham me custado a maior parte das moedas que eu ganhara na taverna em um mês. Ainda tinha as gemas, é claro, e um dia eu haveria de viajar até Luiseveque para trocá-las, mas esse dinheiro seria para Pauline. Ela precisaria mais do que eu, então eu precisava ser cautelosa com o pouco que possuía. Ainda assim, enquanto segurava a coroa de flores na mão, imaginei-a na minha cabeça no festival e Rafe inclinando-se mais para perto de mim para admirar uma flor ou sentir seu aroma sutil. Soltei um suspiro. Eu sabia que aquilo provavelmente não aconteceria.
Balancei a cabeça em negativa e abri um sorriso.
— Elas são bonitas — falei — mas não hoje.
— Só uma moeda de cobre — disse ele.
Lá em Civica, eu teria jogado uma moeda de cobre na fonte só pela diversão de ver onde cairia, e, na verdade, uma moeda de cobre era um preço bem pequeno a se pagar por algo tão prestimoso, e o festival realmente só era realizado uma vez por ano. Comprei duas: uma com flores cor-de-rosa para os cabelos de Pauline e uma com flores de lavanda, para os meus.
Com as mãos agora cheias, voltei à estalagem, sorrindo, visualizando algo mais animado na cabeça de Pauline em vez do sombrio lenço branco de luto, embora eu não soubesse ao certo se conseguiria convencê-la a usar a coroa de flores em vez do lenço. Peguei a estrada superior de volta à estalagem, não mais do que uma larga trilha de terra, aproveitando-me da sombra e da quietude. O vento sussurrava baixinho e de forma reconfortante em meio aos pinheiros, embora uma gralha reclamando às vezes agitasse a paz, e um esquilo trinasse em resposta, dando-lhe uma bronca. Eu tinha uma coisinha extra na minha trouxa para Walther e Greta. Algo doce, rendado e pequeno. As mãos de Walther ficariam tão grandes e desajeitadas segurando aquilo! Só a cena já me fazia sorrir. Quando foi que ele disse que daria uma passada por lá de novo?
Tome cuidado, Lia. Tome cuidado.
Algo frio surgiu no meu âmago, e parei de andar. O aviso dele era tão próximo, tão imediato, mas também tão distante.
— Walther? — gritei, sabendo que era impossível ele estar ali, mas...
Ouvi as passadas, mas era tarde demais. Nem mesmo tive tempo para me virar antes de ser esmagada por um braço cruzando meu peito. Fui puxada para trás, e meus braços foram presos nas laterais do corpo. A mão brutal de alguém prendeu meu pulso. Soltei um grito, mas então senti a pontada de uma faca na minha garganta e ouvi um aviso para não dar mais nenhum pio. Eu podia sentir o cheiro dele, o fedor de dentes podres no bafo quente, cabelos ensebados, não lavados, e o terrível odor de roupas ensopadas de suor — tudo isso era tão opressivo quanto o braço que me apertava. Com a faca pressionada na minha carne, senti as gotas de sangue escorrendo na minha garganta.
— Não tenho dinheiro — disse. — Só um...
— Vou dizer isso apenas uma vez. Quero aquilo que você roubou.
 Minha faca estava embainhada por baixo do meu colete, no lado direito, apenas a poucos centímetros dos meus dedos, mas eu não conseguia esticar a mão esquerda para pegá-la, e meu braço direito estava firmemente preso na pegada dele. Se eu conseguisse ganhar um pouco de tempo...
— Roubei muitas coisas — disse. — De qual você está...?
— Essa faca aqui é cortesia do Erudito e do Chanceler — ele resmungou. — Isso deve refrescar sua memória.
— Não peguei nada deles.
Ele mexeu a pegada, empurrando a lâmina mais para cima de modo que eu tinha que me apertar junto a ele para evitar que a faca cortasse a minha pele mais fundo. Não me atrevia a respirar e nem a me mexer, mesmo com ele tendo aliviado a pegada em meu braço. Ele me mostrou um pedaço de papel, chacoalhando-o em frente aos meus olhos.
— Esse bilhete conta outra história. O Erudito mandou dizer que não achou engraçado.
Reconheci o bilhete. Meu próprio bilhete.

Que peça intrigante, mas, que pena, não devidamente arquivada. Agora está. Espero que não se importe.

— Se eu lhe devolver o que peguei, você vai me matar. — As únicas partes do meu corpo que eu conseguia movimentar eram as pernas. Hesitante, mexi com a minha bota direita na terra, tentando descobrir onde o pé dele estava posicionado atrás de mim. Por fim, deparei-me com algo sólido. Meu sangue ressoava como socos em meus ouvidos, e tudo em mim parecia estar em chamas.
— Fui pago para matar você, de qualquer forma — foi a resposta dele. — Mas poderia fazer com que isso seja mais ou menos doloroso, se for o que quer. E também tem aquela sua amiga bonita...
Elevei o joelho e pisei no pé dele com o máximo de força que consegui, ao mesmo tempo em que lhe dava uma cotovelada nas costelas. Pulei para longe, sacando minha faca. Ele estava vindo para cima de mim, fazendo caretas de dor, mas então, abruptamente, parou. Seus olhos se arregalaram de um jeito não natural e então sua face perdeu toda a expressão, exceto por seus olhos esbugalhados. Ele desabou no chão, caindo de joelhos.
Olhei para a faca em minhas mãos, perguntando-me se a teria enfiado nele sem nem mesmo perceber. O homem caiu para a frente, aos meus pés, com o rosto voltado para baixo, contorcendo-se na terra.
Vi movimentos. Kaden estava a uns dez metros de distância, com um arco na lateral do corpo, e Rafe estava um pouco mais longe, atrás dele. Eles vieram apressados na minha direção, mas pararam a uns poucos metros de distância de mim.
— Lia — disse Rafe, esticando a mão — me dê a faca.
Baixei o olhar para a arma que ainda estava firmemente segura em minha mão e depois voltei o olhar para ele. Balancei a cabeça em negativa.
— Eu estou bem. — Joguei meu colete de lado e tentei embainhar a lâmina, mas ela escorregou dos meus dedos e caiu no chão. Kaden pegou a faca e a deslizou para dentro da bainha de couro fino para mim. Permaneci fitando o que havia sobrado das coroas de flores esmagadas debaixo de nossos pés durante a briga, minúsculos pedaços de cor-de-rosa e lavanda espalhados pelo chão da floresta.
— Seu pescoço — disse Rafe. — Deixe-me ver como está. — Ele ergueu meu queixo e limpou o sangue com o polegar.
Tudo ainda parecia estar acontecendo em movimentos rápidos e desajeitados.
Rafe surgiu com um pedaço de pano — seria um lenço? — e fez pressão no meu pescoço.
— Berdi vai dar uma olhada no machucado. Você consegue segurar isso no lugar? — Assenti e ele ergueu a minha mão até o pescoço, fazendo pressão nos meus dedos, empurrando o pano no lugar. Ele foi andando e deu um chute no ombro do homem para certificar-se de que estava morto. Eu sabia que estava. Seus dedos não estavam mais tendo espasmos.
— Ouvi você gritar — disse Kaden — mas não consegui uma boa linha de tiro para acertá-lo até você o empurrar. A essa distância, a flecha poderia ter atravessado o peito dele e acertado você.
Ele colocou o arco no chão e se ajoelhou ao lado do corpo, tirando a flecha que saía das costas do homem e quebrando-a. Juntos, ele e Rafe fizeram o cadáver rolar.
Todos nós encaramos o homem, cujos olhos ainda estavam abertos. O sangue enchia profundas rugas em cada um dos lados de sua boca, fazendo com que ele parecesse uma marionete assustada.
Nenhum deles parecia afetado pela aparência dele. Talvez tivessem examinado muitos cadáveres. Eu não. Meus joelhos fraquejaram.
— Você o conhece? — perguntou-me Rafe. Balancei a cabeça em negativa.
Kaden se levantou.
— O que ele queria?
— Dinheiro — falei automaticamente, surpreendendo a mim mesma. — Ele só queria dinheiro. — Eu não tinha como contar a verdade a eles sem revelar quem era. E então vi o bilhete, o pequeno pedaço de papel escrito com minha própria caligrafia, ondulando a poucos centímetros dos dedos dele.
— Devemos chamar as autoridades? — quis saber Kaden.
— Não! — respondi. — Por favor, não façam isso! Eu não posso...
Dei um passo para a frente e meus joelhos cederam por completo, o sangue correndo por trás dos meus olhos, o mundo girando. Senti mãos me pegando, me segurando por debaixo das pernas.
— Carregue-a de volta para a estalagem. Eu cuido do cadáver.
Minha cabeça girava, e eu tentava inspirar profundamente, temendo que fosse vomitar, com a mão dele segurando o pano junto a meu pescoço de novo.
Respire, Lia, respire. Você vai ficar bem... mas, com meu mundo dando voltas, eu não sabia ao certo se as palavras que ouvia eram de Kaden ou de mim mesma.

7 comentários:

  1. Essas frases q a Lia ouve deve ser o poder dela como primeira filha, só pode, não vejo nenhuma outra explicação

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  2. A cada capítulo, as minhas teorias sobre as identidades de Rafe e Kaden, se destroem e formo outras totalmente diferentes, sos que aflição

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    1. EU TBM, QDO ACHO QUE CHEGUEI A UMA CONCLUSÃO, MUDO TOTALMENTE DE OPINIÃO

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    2. Eu tbm, vivo mudando de opinião

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  3. GENTE EU NÃO AGUENTO MAS SEM SABER QUEM É QUEM...

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  4. Kaden e o príncipe e o Rafe e o assassino e oq tudo indica

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Boa leitura, E SEM SPOILER!