24 de fevereiro de 2018

Capítulo 24

Para: KatClark1@yahoo.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Cara Treen,
Sei que você acha que é cedo demais. Mas o que Will me ensinou? Só vivemos uma vez, certo? Você está feliz com Eddie? Então por que não posso ser feliz? Vai entender quando conhecê-lo, eu prometo.
Para você ver que tipo de homem o Josh é: ontem, ele me levou à melhor livraria do Brooklyn e comprou um monte de livros que achou que eu podia gostar. Depois, me levou para almoçar em um restaurante mexicano elegante na 46 East e me fez experimentar tacos de peixe — não faça careta, estavam absolutamente deliciosos. Depois, ele me disse que queria me mostrar uma coisa (não, não era isso). Caminhamos até o Grand Central Terminal, cheio como sempre, e eu estava pensando “Tudo bem, é meio esquisito… vamos viajar?”, então, ele me disse para ficar parada com a cabeça encostada a uma diagonal do arco que fica bem ao lado do Oyster Bar. Eu ri. Achei que estava brincando. Mas Josh insistiu, me disse para confiar nele. Assim, lá estava eu, parada, com a cabeça na diagonal do enorme arco de mármore, com todas aquelas pessoas indo e vindo ao meu redor, tentando não me sentir uma completa idiota, e quando olho na direção de Josh, vejo que ele está se afastando de onde estou. Mas logo para diagonalmente a mim, talvez a uns quinze metros de distância, cola o próprio rosto em outra diagonal do arco e, de repente, acima de todo o barulho, do caos e do chacoalhar dos trens, escuto — murmurado em meu ouvido, como se Josh estivesse bem ao meu lado — “Louisa Clark, você é a garota mais fofa de toda Nova York”.
Treen, parecia bruxaria. Ergui os olhos, ele se virou e sorriu. Eu não faço ideia de como fez aquilo, mas Josh atravessou novamente até onde eu estava, me tomou nos braços e me beijou na frente de todo mundo. Alguém assoviou para nós e sinceramente foi a coisa mais romântica que já aconteceu comigo.
Então, sim, estou seguindo em frente. E Josh é incrível. Seria muito legal se você pudesse ficar feliz por mim.
Dê um beijo grande em Thom.
Bjs,
L

* * *

As semanas passaram e Nova York, como a maioria das coisas, mergulhou de cabeça na primavera, a milhões de quilômetros por hora, com pouca sutileza e muito barulho. O trânsito ficou mais pesado, as ruas, mais cheias de gente, e a cada dia a área ao redor do nosso quarteirão se tornava uma cacofonia de barulho e agitação que pouco diminuía até altas horas. Parei de usar chapéu e luvas nos protestos da biblioteca. O casaquinho acolchoado de Dean Martin foi lavado e guardado no armário. O parque ficou verde. Ninguém sugeriu que eu me mudasse.
Margot, em vez de me pagar qualquer tipo de salário de ajudante, me enchia com tantas roupas que tive que parar de admirar as peças na sua frente, porque fiquei com medo de que ela se sentisse obrigada a me dar mais. Ao longo das semanas, percebi que Margot podia até compartilhar o mesmo endereço que os Gopnik, mas os pontos comuns entre eles terminavam aí. Ela sobrevivia, como diria a minha mãe, com um orçamento apertado.
— Entre as despesas médicas e o pagamento do condomínio, não sei onde acham que vou conseguir dinheiro para me alimentar — comentou ela, quando entreguei outra carta escrita à mão, mandada pela administradora do prédio. No envelope, lia-se “ABRA — MEDIDAS JUDICIAIS IMINENTES”. Margot torceu o nariz e colocou a carta com todo o cuidado sobre uma pilha na mesa lateral, onde permaneceria pelas próximas semanas, a menos que eu a abrisse.
Margot resmungava com frequência a respeito do valor das taxas de condomínio, que totalizavam milhares de dólares por mês, e parecia ter chegado a um ponto em que decidira ignorar o pagamento, porque não havia mais nada que pudesse fazer.
Um dia ela me disse que havia herdado o apartamento do avô, que fora uma espécie de aventureiro do seu tempo, a única pessoa em toda a família dela que não acreditava que uma mulher deveria restringir seus objetivos a marido e filhos.
— Meu pai ficou furioso por ter sido posto de lado e não falou comigo por anos. Minha mãe tentou intermediar um acordo, mas na época havia as… outras questões.
Ela suspirou.
Margot fazia compras em uma loja de conveniência próxima, um supermercado minúsculo que praticava preços para turistas, porque era um dos poucos lugares até onde ela conseguia caminhar. Pus um fim nisso e, duas vezes por semana, eu ia até um supermercado Fairway na 86 East onde comprava o básico por cerca de um terço do que ela vinha gastando até então.
Se eu não cozinhasse, ela não comia quase nada saudável, mas comprava bons cortes de carne para Dean Martin, ou o mimava com peixe branco no leite “porque é bom para a digestão dele”.
Acho que Margot havia se acostumado a minha companhia. Além disso, ela estava tão frágil que nós duas sabíamos que não conseguiria mais se virar sozinha. Eu me perguntava quanto tempo alguém da idade dela levava para se recuperar do choque de uma cirurgia. Também me perguntava o que ela teria feito se eu não estivesse lá.
— O que você vai fazer? — perguntei, indicando a pilha de contas.
— Ah, vou ignorá-las.
Ela acenou com a mão, descartando o assunto.
— Vou sair desse apartamento dentro de uma caixa. Não tenho para onde ir, nem ninguém para quem deixar esse lugar, e aquele bandido do Ovitz sabe disso. Acho que ele está apenas esperando pacientemente até eu morrer. Aí ele vai reivindicar a posse do apartamento sob a cláusula do não pagamento do condomínio e fazer uma fortuna vendendo o imóvel para algum executivo da internet, ou para algum CEO horrível, como aquele tonto do outro lado do corredor.
— Será que posso ajudar? Tenho algumas economias do tempo que passei com os Gopnik. Não sei, talvez só para você conseguir pagar as contas de alguns meses. Você tem sido tão boa para mim.
Ela assoviou.
— Menina querida. Você não conseguiria pagar o condomínio do meu banheiro de hóspedes.
Por alguma razão, isso a fez rir com tanto gosto que ela tossiu até ter que se sentar. Mas dei uma olhada na carta depois que Margot foi se deitar. As “multas por atraso de pagamento,” as “violações diretas aos termos do contrato” e a “ameaça de despejo” me fizeram pensar que o Sr. Ovitz talvez não seria tão caridoso — ou tão paciente — quanto ela pensava.

* * *

Eu ainda caminhava com Dean Martin quatro vezes por dia e, durante esses passeios até o parque, tentava pensar no que poderia ser feito por Margot. A possibilidade de ela ser despejada era terrível. Com certeza a administradora do prédio não faria uma coisa dessas com uma idosa convalescente. Com certeza os outros moradores se oporiam. Então me lembrei da rapidez com que o Sr. Gopnik me despejara, e de como os moradores de cada apartamento do prédio eram isolados uns dos outros. Eu não tinha certeza de que eles ao menos perceberiam se Margot fosse despejada.
Estava parada na Sexta Avenida dando uma olhada na liquidação de uma loja de lingeries quando tive a ideia. As garotas da loja talvez não tivessem nada Chanel ou Yves St Laurent à venda, mas venderiam se conseguissem pôr as mãos em alguma peça desses estilistas — ou saberiam de algum outro lugar que pudesse vender. Margot tinha incontáveis etiquetas de estilistas famosos em sua coleção, coisas pelas quais eu tinha certeza de que colecionadores pagariam um bom dinheiro. Ela tinha algumas bolsas que, sozinhas, deveriam valer milhares de dólares.
Levei Margot para encontrar as meninas com a desculpa de sairmos um pouco. Disse a ela que o dia estava lindo e que deveríamos ir um pouco mais longe do que costumávamos, para que o ar puro a deixasse mais forte. Margot me falou para deixar de ser ridícula, que ninguém respirava ar puro em Manhattan desde 1937, mas entrou no táxi sem reclamar muito e, com Dean Martin acomodado no colo dela, seguimos até o East Village, onde ela franziu o cenho ao ver a fachada de concreto da loja, como se alguém houvesse lhe pedido para entrar em um matadouro por diversão.
— O que você fez com seus braços?
Margot parou no caixa e examinou a pele de Lydia, que estava usando uma blusa verde-esmeralda de mangas bufantes, deixando à mostra as tatuagens de carpas japonesas que tinha no braço, uma laranja, uma cor de jade e outra azul.
— Ah, minhas tatuagens. Gostou delas?
Lydia passou o cigarro para a outra mão e levantou o braço na direção da luz.
— Só se eu quisesse parecer um marinheiro.
Guiei Margot para uma parte diferente da loja.
— Aqui, Margot. Veja, elas separam as peças por setores. Se você tem roupas dos anos sessenta, elas ficam aqui, e lá estão as dos anos cinquenta. É um pouco como o seu apartamento.
— Não se parece nada com o meu apartamento.
— Só quis dizer que elas trabalham com roupas como as suas. É um negócio muito bem-sucedido atualmente.
Margot puxou a manga de uma blusa de náilon, então espiou a etiqueta por cima da armação dos óculos.
— Amy Armistead é péssima. Nunca suportei aquela mulher. Nem a Les Grandes Folies. Os botões sempre caem. Linha de má qualidade.
— Há alguns vestidos realmente especiais ali atrás, protegidos por plástico.
Fui até a seção de vestidos de gala, onde estavam expostas as melhores peças femininas. Peguei um vestido turquesa, da Saks Fifth Avenue, enfeitado com lantejoulas e contas na bainha e nos punhos, e encostei-o no corpo, sorrindo.
Margot examinou o vestido, então virou a etiqueta de preço. E fez uma careta ao ver o valor.
— Quem pagaria isso?
— As pessoas amam boas roupas — disse Lydia, que havia aparecido atrás de nós.
Ela mastigava ruidosamente um chiclete e vi os olhos de Margot estremecerem um pouco cada vez que os maxilares de Lydia se encontravam.
— Há mesmo mercado para elas?
— Um bom mercado — afirmei. — Especialmente para peças em condições imaculadas como as suas. Todas as roupas de Margot são protegidas por plásticos, no ar-condicionado. Ela tem peças até dos anos quarenta.
— Essas não são minhas. São da minha mãe — disse Margot, em um tom sério.
— É mesmo? O que a senhora tem? — perguntou Lydia, examinando de alto a baixo o casaco que Margot usava, sem a menor discrição.
Era um Jaeger de lã, em comprimento três-quartos, junto com um chapéu de pele negro, no formato de um grande bolo Rainha Vitória. Embora o clima estivesse quase ameno, ela ainda parecia sentir frio.
— O que eu tenho? Nada que eu queira mandar para cá, obrigada.
— Mas, Margot, você tem algumas roupas ótimas… Chanel e Givenchy que já não lhe servem. E você tem echarpes, bolsas… poderia vendê-las para revendedores especializados. Até para casas de leilão.
— Chanel vale muito dinheiro — comentou Lydia, pensativa. — Principalmente as bolsas. Se não estiver muito surrada, uma Chanel com aba dupla em bom estado, em couro caviar, pode chegar de dois mil e quinhentos dólares a quatro mil. Uma nova não vai lhe custar muito mais, entende o que estou dizendo? Se for de couro de cobra, então, nossa, o céu é limite.
— Você tem mais de uma bolsa Chanel, Margot — lembrei.
Ela prendeu a bolsa Hermès de couro de crocodilo com mais força embaixo do braço.
— Tem outras como essa? Podemos vendê-la para a senhora. Temos uma lista de espera para coisas boas. Há uma senhora em Asbury Park que pagará cinco mil dólares por uma Hermès decente.
Lydia estendeu a mão para correr o dedo pela lateral da bolsa de Margot, que se afastou como se estivesse sendo assaltada.
— Não são coisas — disse ela. — Não tenho “coisas”.
— Só acho que vale a pena considerar a ideia. Parece haver uma boa quantidade de peças que você já não usa. Poderia vendê-las, pagar o condomínio, e então poderia, sabe como é, relaxar.
— Estou relaxada — retrucou ela, irritada. — E agradeço se você não discutir minhas questões financeiras em público, como se eu nem estivesse presente. Ah, não gosto desse lugar. Cheira a gente velha. Vamos, Dean Martin. Preciso de um pouco de ar puro.
Eu a segui para fora da loja, murmurando um pedido de desculpas silencioso para Lydia, que deu de ombros, despreocupada. Eu desconfiava que mesmo a mais remota possibilidade de ter acesso ao guarda-roupa de Margot havia suavizado a sua tendência natural a ser combativa.
Pegamos um táxi de volta para casa em silêncio. Estava aborrecida comigo mesma pela minha falta de diplomacia e, ao mesmo tempo, irritada com Margot por sua rejeição imediata ao que eu considerava um plano muito sensato. Ela se recusou a olhar para mim durante todo o caminho até em casa. Fiquei sentada ao seu lado, Dean Martin arfando entre nós, e ensaiei argumentos na minha cabeça até o silêncio se tornar enervante. Olhando de esguelha, deparei com uma idosa que acabara de sair do hospital. Eu não tinha o direito de pressioná-la a fazer nada.
— Não tive a intenção de aborrecê-la, Margot — falei, enquanto a ajudava a descer do carro, diante do prédio. — Só achei que talvez pudesse ser um caminho. Você sabe, com as dívidas e tudo o mais. Só não quero que você perca a sua casa.
Margot endireitou o corpo e ajustou o chapéu de pele com a mão frágil. A voz com que falou era queixosa, quase chorosa, e percebi que ela também estivera ensaiando uma conversa na cabeça por todos os cerca de cinquenta quarteirões pelos quais passamos.
— Você não compreende, Louisa. Aquelas são as minhas coisas, meus bebês. Para você, podem ser roupas velhas, ativos financeiros em potencial, mas para mim são preciosas. São a minha história, os restos lindos e amados da minha vida.
— Desculpe.
— Eu não as mandaria para aquela loja suja de segunda mão mesmo se estivesse de joelhos. E a possibilidade de ver uma completa estranha andando na minha direção na rua com uma roupa que eu amei?! Eu me sentiria miserável. Não. Sei que você estava tentando ajudar, mas não.
Ela se virou, afastou a minha mão esticada e preferiu esperar que Ashok a ajudasse a chegar ao elevador.

* * *

Apesar de nossos ocasionais desentendimentos, Margot e eu passamos a primavera bem contentes. Em abril, como prometido, Lily veio para Nova York, acompanhada pela Sra. Traynor. Elas ficaram no Ritz Carlton, a poucas quadras de distância, e convidaram Margot e eu para almoçar. Vê-las ali, juntas, me deu a sensação de ver partes diferentes da minha vida sendo silenciosamente costuradas uma à outra.
A Sra. Traynor, com suas boas maneiras de diplomata, ficou encantada com Margot, e elas encontraram um gosto em comum ao conversarem sobre a história do prédio e sobre Nova York de um modo geral. Durante o almoço, conheci outra Margot: de raciocínio rápido, articulada, renovada pela nova companhia. A Sra. Traynor, como descobrimos durante o almoço, passara a lua de mel em Nova York, em 1978, e elas conversaram sobre restaurantes, galerias e exibições de arte que ocorreram na época. A Sra. Traynor contou sobre seu tempo como magistrada, e Margot discutiu as políticas de Estado dos anos setenta. As duas riram com gosto, de um modo que sugeria que nós, mais jovens, jamais conseguiríamos compreender. Comemos saladas e uma pequena porção de peixe envolvido em prosciutto. Percebi que Margot provou apenas uma minúscula porção de cada prato, deixando o resto de lado, e silenciosamente perdi a esperança de vê-la voltar a preencher as roupas que usava.
Nesse meio-tempo, Lily se inclinou na minha direção e me perguntou aonde poderia ir que não envolvesse gente velha ou qualquer tipo de aprimoramento cultural.
— Vovó encheu esses quatro dias inteiros com bobagens educativas. Tive que ir ao Museu de Arte Moderna e a jardins botânicos de todos os tipos, o que é ótimo, e blá-blá-blá se você gosta dessas coisas todas, mas quero muito ir a alguma boate, me acabar, fazer compras. Pelo amor de Deus, estou em Nova York!
— Já falei com a Sra. Traynor. E vou sair com você amanhã, enquanto ela visita uma prima.
— Jura? Graças a Deus. Eu te contei que vou mochilar no Vietnã nas férias mais longas? Quero comprar alguns shorts decentes. Alguma coisa que eu possa usar por semanas sem me preocupar em lavar. E talvez uma jaqueta usada de motociclista. Boa e surrada.
— Quem vai com você? Alguma amiga?
Ergui uma sobrancelha.
— Você está parecendo a vovó.
— E?
— Meu namorado.
Ao me ver boquiaberta, ela acrescentou:
— Mas não quero contar nada sobre ele.
— Por quê? Estou tão feliz por você estar namorando. É uma ótima notícia. — Abaixei a voz. — Você sabe que a última pessoa misteriosa assim foi a minha irmã. E ela basicamente estava escondendo o fato de que estava saindo do armário.
— Eca! Não estou saindo do armário. Não quero tentar abrir caminho na vagina de ninguém.
Tentei não rir.
— Lily, não precisa ser tão reservada. Todos nós só queremos que você seja feliz. Não tem nada de mais as pessoas saberem sobre os seus assuntos.
— A vovó sabe sobre os meus assuntos, como você diz.
— Então por que não me conta? Achei que nós duas poderíamos contar qualquer coisa uma à outra!
A expressão de Lily agora era de quem tinha sido encurralada. Ela suspirou de um jeito teatral e apoiou a faca e o garfo. Então, me olhou como se estivesse preparada para brigar.
— Porque é o Jake.
— Jake?
— O Jake do Sam.
O movimento do restaurante pareceu ficar suspenso ao meu redor. Forcei um sorriso.
— Muito bem!… Uau!
Ela fechou a cara.
— Eu sabia que você reagiria assim. Escute, simplesmente aconteceu. E não ficamos falando sobre você o tempo todo, nem nada parecido. Só esbarrei nele umas duas vezes… você sabe, nós nos conhecemos naquele negócio de Seguindo em Frente para aquele grupo horroroso de terapia de luto e nos demos bem, gostamos um do outro, entendeu? A gente meio que compreendeu a situação um do outro e vamos mochilar juntos no verão, só isso. Nada de mais.
Eu estava zonza.
— A Sra. Traynor o conheceu?
— Sim. Ele foi lá em casa e eu fui à dele.
Ela pareceu quase na defensiva.
— Então você vê muito…
— O pai dele. Quer dizer, vejo o Sam da ambulância, sim, mas na maior parte das vezes vejo o pai do Jake. Que é legal, mas ainda está bem deprimido e come cerca de uma tonelada de bolo por semana, o que está estressando muito Jake. Em parte, é por isso que ele quer dar um tempo de tudo. Só por umas seis semanas mais ou menos.
Ela continuou falando, mas um zumbido que começara no fundo da minha mente não me deixava registrar o que estava dizendo. Eu não queria saber de Sam, nem indiretamente. Não queria saber de pessoas que eu amava brincando de Família Feliz sem mim, enquanto eu estava a milhares de quilômetros. Não queria saber da felicidade de Sam ou de Katie com sua boca sexy, ou de como eles com certeza estavam morando juntos na casa dele, em um recém-construído ninho de paixão e de uniformes iguais entrelaçados.
— Então, como vai seu namorado novo? — perguntou Lily.
— Josh? Josh! Ele é incrível. Simplesmente incrível.
Deixei a faca e o garfo com cuidado ao lado do prato.
— Um sonho.
— Então, o que está acontecendo? Preciso ver fotos de você com ele. É muito irritante que você não poste nenhuma foto no Facebook. Não tem retratos dele no seu celular?
— Não — respondi.
E torci o nariz, como se aquela fosse uma resposta totalmente inadequada. Eu não estava dizendo a verdade. Tinha uma foto de nós dois em um restaurante pop-up no terraço, tirada na semana anterior. Mas eu não queria que Lily soubesse que Josh era a cara do pai dela. Isso a desestabilizaria, ou pior, vê-la comentar a semelhança me desestabilizaria.
— Então, quando vamos embora dessa sala de espera de funeral? Com certeza podemos deixar as velhas terminando o almoço sozinhas. — Lily me cutucou. As duas mulheres ainda estavam conversando. — Eu contei que venho perturbando imensamente o vovô falando do namorado imaginário maravilhoso da vovó? Disse a ele que os dois iam passar férias nas Maldivas e que a vovó tinha ido na Rigby and Peller para comprar um estoque de lingerie nova. Juro que ele está prestes a entregar os pontos e declarar que ainda ama a vovó. Estou quase morrendo de rir.

* * *

Por mais que eu adorasse Lily, fiquei grata pelo fato de a agenda de aprimoramento cultural da Sra. Traynor ser bem cheia. Por causa dela, ao longo dos dias que se seguiram, a não ser pela nossa saída para compras, tivemos pouco tempo juntas. A presença de Lily na cidade — com seu conhecimento íntimo sobre a vida de Sam — havia criado uma vibração no ar que eu não sabia como dissipar. Também me sentia grata por Josh estar cheio de trabalho e nem sequer perceber se eu estava abatida ou distraída. Mas Margot percebeu, e certa noite, quando seu amado Roda da Fortuna havia terminado e eu estava me levantando para levar Dean Martin para seu último passeio do dia, ela me perguntou diretamente qual era o problema.
Contei a ela. Não consegui pensar em qualquer razão para não contar.
— Você ainda ama o outro — declarou Margot.
— Você parece a minha irmã falando — retruquei. — Não amo. É só… é só que o amei muito quando o amava. E o fim foi tão horrível que achei que estar aqui, levando uma vida diferente, me resguardaria disso. Não uso mais mídias sociais. Não quero saber o que ninguém está fazendo. E ainda assim, de algum modo, informações sobre o seu ex sempre acabam dando um jeito de encontrar você. E é como se eu não conseguisse me concentrar enquanto Lily está aqui, porque agora ela faz parte da vida dele.
— Talvez você devesse simplesmente entrar em contato com ele, meu bem. Parece que ainda tem coisas a dizer.
— Não tenho nada a dizer a Sam — falei. Meu tom ficou mais inflamado. — Eu tentei tanto, Margot. Escrevi para ele, mandei e-mails, liguei. Acredita que ele não me escreveu nem uma carta? Em três meses? Pedi para ele escrever, porque achei que seria um modo bonitinho de mantermos contato, e poderíamos aprender coisas um sobre o outro e esperar ansiosos para nos falarmos. Também teríamos algo para nos lembrar do tempo que passamos separados. Mas ele simplesmente… não escreveu.
Margot ficou sentada, me observando, as mãos envolvendo o controle remoto.
Endireitei os ombros.
— Mas está tudo bem. Porque virei a página. E Josh é simplesmente maravilhoso. Quer dizer, ele é lindo, é gentil, tem aquele emprego incrível, é ambicioso… nossa, ele é tão ambicioso. É um cara que vai longe, sabe? E deseja coisas… casas, carreira e fazer a parte dele para retribuir o que consegue. Ele quer retribuir! E ainda nem conseguiu tanta coisa assim para retribuir! — Eu me sentei. Dean Martin ficou parado na minha frente, confuso. — E Josh deixa bem claro que quer ficar comigo. Não tem “se” ou “mas”. Ele literalmente me chamou de namorada no primeiro encontro. E já ouvi falar que os caras nessa cidade só querem encontros de uma noite. Tem ideia de como isso me faz sentir sortuda?
Margot assentiu ligeiramente com a cabeça.
Voltei a me levantar.
— Então, para ser sincera, eu não dou a mínima para Sam. Quer dizer, nós mal nos conhecíamos quando vim para cá. Desconfio que se não fosse pelo fato de nós dois termos precisado de atendimento médico de urgência, talvez nem tivéssemos ficado juntos. Na verdade, tenho certeza disso. E também tenho certeza de que eu não era a pessoa certa para Sam, ou ele teria esperado, não é mesmo? Porque é isso que as pessoas fazem. Portanto, no fim das contas, está tudo ótimo. E estou mesmo muito feliz com o rumo que as coisas tomaram. Está tudo ótimo. Tudo ótimo.
Houve um breve momento de silêncio.
— Estou vendo — disse Margot, baixinho.
— Estou realmente feliz.
— Dá para perceber, meu bem. — Ela me observou por um momento, então apoiou as mãos nos braços da poltrona. — Agora, talvez você pudesse levar esse pobre cachorro para passear. Os olhos dele estão começando a saltar das órbitas.

4 comentários:

  1. Háaaaa... Agora sim... E o Sam não DIZ NADA!...

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  2. Sam paspalho, aff. Ainda acho que houve um mal entendido e talvez ela nem fique com Josh, pois não o ama, falta um quê ali nessa relação... vamos ver, né.

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    1. Também tô achando isso .. Não sei ela ainda gosta muito do Sam (apesar de ele ter sido um babaca) .. Verei o que vai acontecer neh

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  3. Eu queria saber qual presente o Sam deu ela no natal.

    Fafa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!