20 de fevereiro de 2018

Capítulo 24

RAFE

Sven deu uns tapinhas na mesa perto do meu prato.
— O coronel Bodeen ficará ofendido. Você não está comendo.
— E este é o melhor bisão que eu já comi na vida — acrescentou Orrin, enquanto chupava os últimos resquícios de um osso. — Não diga a ele que falei isso. Eu tinha dito que o meu era melhor.
Tavish reclinou-se, com as botas apoiadas na mesa, friccionando a madeira polida. Ele ficou me encarando, sem falar. Nós havíamos feito uma pausa nas nossas discussões e ficamos enfurnados no escritório de Bodeen enquanto os outros oficiais comiam suas refeições do meio dia na câmara de reuniões.
Sven levantou-se e olhou para fora da janela.
— Não se preocupe, rapaz. Tudo isso vai entrar nos eixos. É muita coisa para se absorver de uma vez só.
— Rapaz? — disse Tavish. — Agora ele é o rei, homem!
— Ele pode arrancar o meu couro por isso.
Empurrei meu prato para longe de mim.
— Não são apenas as questões da corte que estão ocupando a minha mente. É Lia. Ela teve uma discussão feroz com Hague.
Sven soltou uma bufada.
— E daí? Todo mundo tem discussões com Hague. Não há nada com o que se preocupar.
— E quanto aos outros oficiais? — Perguntei. — Algum de vocês faz alguma ideia de como eles se sentem em relação a ela?
— Eles não usam Morrighan contra ela — disse Tavish, sem emoção na voz. — Belmonte, Armistead e Azia ficaram como cãezinhos cativados quando a conheceram.
Sven apertou os olhos, continuando a olhar para alguma coisa janela afora.
— Isso é tudo com o que você está preocupado? Se eles gostam dela?
Não. Essa não era nem metade da questão. Lá no pórtico, eu tinha visto os olhos dela... os olhos dela falavam tanto quanto as suas palavras antes de eu a interromper. Eu havia evitado o assunto na nossa viagem até aqui, enfatizando que o púnico objetivo era chegar à segurança do posto avançado. Mas aqui estávamos nós. Ficava mais difícil evitar as perguntas dela. Inclinei-me para frente, esfregando as minhas têmporas.
— Não, isso não é tudo com que estou preocupado. Ela quer ir para casa.
Sven girou e olhou para mim.
— Para Morrighan? Por que ela iria querer fazer uma coisa tola dessas?
— Ela acha que precisa avisá-los sobre o exército vendano.
— O Komizar pode ter revelado o grande plano dele a ela, mas isso não quer dizer que ele era uma realidade. — Disse Sven. — Quando foi que alguma coisa que o Komizar disse não foi maculada pelas suas próprias ambições? — Sven me lembrou de que até mesmo alguns dos governadores achavam que ele havia inflado os números.
Orrin lambeu os dedos.
— E uns pouco mil soldados podem parecer muito mais, diabos, quando se está com medo.
— Mas já faz um tempo que nós sabemos que os números deles estavam crescendo — respondi. — Foi o que nos empurrou em direção a uma aliança com Morrighan por meio de casamento.
Sven revirou os olhos.
— As motivações para isso foram muitas.
— E números não são a mesma coisa que um exército com séculos de treinamento e experiência como o que nós temos. — retorquiu Tavish. — Isso sem falar que eles não tem mais um líder viável.
Jeb franziu o rosto.
— Mas havia aquele pequeno frasco de líquido que Lia deu a Rafe para explodir a ponte. Aquela é uma arma que nenhum dos reinos tem.
— E acabou com as engrenagens principais da ponte, que deviam ter quase uns três metros de ferro sólido — falei. — Isso é preocupante.
Sven voltou a se sentar.
— Não existem pontes em um campo de batalha, e Brezalots podem ser derrubados, presumindo que eles possam mesmo marchar. Os membros do conselho vão comer uns aos outros vivos antes mesmo de consertarem aquela ponte.
Orrin esticou a mão para pegar outro pedaço de carne.
— Você é o rei. Pode simplesmente dizer a Lia que ela não pode ir.
Tavish soltou uma bufada.
— Dizer a Lia? Você simplesmente não diz a uma mulher que ela não pode fazer alguma coisa — ele falou, e então voltou um longo, fixo e dissecante olhar para mim. Ele balançou a cabeça. — Ah, que inferno! Você já disse que a levaria até lá, não foi?
Soltei uma baforada de ar e ergui o olhar para o teto.
— Pode ser que eu tenha feito isso... — Empurrei a minha cadeira para trás e levantei-me, andando de um lado para o outro na sala. — Sim! Eu fiz! Mas isso foi há muito tempo, quando ainda estávamos lá no Sanctum. Eu disse a Lia o que ela precisava ouvir naquele momento, que voltaríamos para Terravin. Um dia. Só não disse quando. Estava apenas tentando dar esperanças a ela.
Sven deu de ombros.
— Então você disse a ela o que era conveniente na época.
Tavish segurou o ar, inspirando devagar.
— Uma mentira. É assim que ela vai ver isso.
— Não foi uma mentira. Eu achei que talvez algum dia eu fosse poder levá-la de volta até lá, um bom tempo à frente, se as coisas mudassem, mas, pelo amor dos deuses, há uma recompensa pela cabeça dela agora, e o gabinete morrighês está cheio de traidores. Seria insanidade permitir que ela voltasse.
— Provavelmente ela estaria na forca agora — concordou Orrin. — Não é assim que eles executam os criminosos?
Tavish desferiu um olhar cheio de ódio para ele.
— Você não está ajudando.
— A menina ama você, rapaz — disse Sven. — Qualquer tolo é capaz de ver que ela quer ficar com você. Simplesmente diga a ela o que disse a nós. Ela é uma moça razoável.
As palavras de Sven cortaram mais a fundo. Eu me virei, fingindo que estava olhando para uma relíquia pendurada na parede. Eu via a luta dela todos os dias. Alguma parte de Venda ainda tinha as garras nela, e alguma parte de Morrighan também. Usar a razão com Lia? Fica difícil encontrar a razão quando se está sendo dividido ao meio. Parte do coração dela estava em ambos os reinos e nenhuma em Dalbreck.
— Ouvi Lia conversando com os clãs no nosso último dia lá — disse Tavish. — Isso é parte do problema, não é?
Assenti.
— Aquela que era caçada... — ponderou Orrin.
Os ânimos deles ficaram sombrios. Eu me dei conta de que todos eles haviam ouvido isso, e me dei conta de que isso os perturbava tanto quanto a mim.
Sven balançou a cabeça.
— Aquela garra e aquela vinha no ombro dela são a coisa mais maldita. Os clãs vendanos pareciam ter muita consideração por aquela coisa.
— Aquilo foi tudo que restou de nosso kavah de casamento. Logo que nos encontramos, ela me disse que o kavah fora um erro terrível.
De alguma forma, eu tinha que fazer com que ela acreditasse naquilo de novo.

12 comentários:

  1. Que comece o conflito de interessessss 🙌

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  2. "Você simplesmente não diz a uma mulher que ela não pode fazer alguma coisa"
    Melhor fala do livro até agora, resume tudo!!!!

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  3. Quem é q está sendo egoísta agora.

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  4. O rafe tá me irritando...ele quer tanto proteger a lia q não quer q ela faça nada..isso soa machista..é bem tamlim..

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    1. "...É bem Tamlin..."
      Foi exatamente isso que eu pensei, o Rafa está sendo muito machista, e também um pouco possessivo.
      Não estou gostando nada disso.

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    2. Olha só... Eu não conheço esse personagem, mas o Rafe não é machista! Ele vai conversar com ela e não obriga-la a fazer a vontade dele. Ele sabe muito bem o que ela pensa:

      "Usar a razão com Lia? Fica difícil encontrar a razão quando se está sendo dividido ao meio. Parte do coração dela estava em ambos os reinos e nenhuma em Dalbreck."

      E assim como o Tavish, ele sabe que não se deve querer impor algo a uma mulher, especialmente se for uma como a Lia 😂

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  5. Agora eu quero que ela fique e com tavish, esses malditos continuam a querer tratar Lia ou como uma mocinha q pode ser manipulada ou como uma lunática

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    1. Bela fala a dele mesmo, mas se ele pensa assim o Rafe tb pensa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!