16 de fevereiro de 2018

Capítulo 24

Você foi bem acolhida pelo clã dos Meurasi.
Eu sabia que deveria ter medo. A acolhida também despertaria ira, e inflamar ainda mais o ódio do Conselho contra mim era algo que eu não podia arriscar.
Mas eu tinha sido acolhida. E me senti assim. Eu não podia virar as costas para o que quer que aquilo fosse. Eu sentia em cada ponto e retalho de couro que me cobria. Uma estranha totalidade. A pequena Yvet dissera que Effiera tinha gostado do meu nome. Seria possível que fora dos muros do Sanctum houvesse vendanos que tinham escutado o nome Jezelia antes, não apenas de passagem, mas em uma canção esquecida proferida entre as famílias?
Eu me perguntava se Calantha exagerara sobre a ira do Conselho para os seus próprios fins. Eu a tinha visto na noite passada, tão focada em Rafe quanto o Komizar estivera, mas certamente por razões muito diferentes.
— Vá em frente — Calantha cutucou minhas costas, me empurrando para frente.
Entrei no Saguão do Sanctum. Estava barulhento e lotado, e pensei que eu poderia deslizar passar despercebida, mas então, um governador me viu e parou, engasgando com sua cerveja, espirrando o líquido à sua volta. Um chievdar amaldiçoou em voz baixa.
Minha chegada ressoou pelo salão como um porco guinchando solto. Um caminho irregular se abriu enquanto os outros me viam. Então, quando um grupo de soldados se afastou, Kaden e Rafe me avistaram. Eles estavam na outra extremidade do salão, sentados à mesa, mas lentamente se levantaram quando me aproximei. Ambos pareciam estar confusos e cautelosos, como se algo selvagem tivesse sido desencadeado na frente deles. Rafe não podia saber o que este vestido de retalhos significava, e eu me perguntei por que ele estava olhando para mim desse jeito também.
Continuei a avançar, o couro macio confortável contra a minha pele. Havia murmúrios sobre o kavah no meu ombro, e alguns sons vulgares de apreciação. Eu não era a besta imunda da realeza que tinham visto na noite passada. Agora eu era algo reconhecível, alguém que parecia quase como um deles. Eu era um pedaço da sua própria história, que remontava ao clã mais antigo de Venda.
— Jabavé! — Malich e outros dois Rahtans entraram no meu caminho. — O que esta cadela morrighesa está vestindo? — Suas facas estavam curiosamente desembainhadas como se pretendessem cortar o vestido fora de mim. Ou simplesmente me cortar.
Transformei em aço o meu olhar contemplativo.
— Vocês não são valentes? — perguntei. — Têm que se aproximar de mim com uma faca desembainhada agora? — deixei meus olhos lentamente passarem pelo rosto de Malich, as marcas das minhas unhas ainda visíveis em sua pele. — Mas suponho que o seu medo é compreensível. Considerando que...
Ele deu um passo em minha direção, mas Kaden estava de repente empurrando-o de lado.
— Ela está usando o que o Komizar ordenou que ela vestisse... roupas adequados. Você questiona as ordens dele?
A faca de Malich estava apertada em suas mãos, os nós dos dedos brancos. Com ordens ou sem, vingança brilhava em seus olhos. Enquanto o seu rosto estivesse marcado pelas minhas mãos, assim seria. Os outros dois Rahtans ao lado dele trocaram um olhar com Kaden e embainharam suas armas. Relutantemente Malich fez o mesmo, e Kaden me afastou em direção à mesa.
— Você nunca vai aprender, não é? — ele sussurrou entre os dentes cerrados.
— Espero que não — respondi.
— O que você acha que está vestindo?
— Você não gostou? — perguntei.
— Não foi o que compramos hoje.
— Mas foi o que Effiera mandou.
— Pelos deuses, sente e fique quieta.
E ele, ao que parecia, também nunca aprenderia.
Sentei-me à esquerda de Kaden. Rafe estava ao lado dele, à sua direita, perto o suficiente para Kaden manter um olho nele, mas não perto o bastante para Rafe e eu dividirmos nem mesmo a menor palavra sem que Kaden ouvisse. Ele não parecia se importar. Os olhos de Rafe passaram brevemente pela minha roupa vendana, em seguida, ele desviou o olhar e pareceu evitar o meu. Eu deveria estar feliz por sua dispensa fria. Se Griz podia perceber nossa conexão apenas olhando em meus olhos, outros poderiam também. Era melhor não olhar para o outro de qualquer modo, mas a atração ainda estava lá, e quanto mais eu evitava, mais o ardor crescia em mim. Tudo o que eu queria fazer era me virar e vê-lo.
Olhei pelo comprimento da mesa em vez disso. Havia em torno de sessenta pessoas, portanto, apenas metade dos presentes era do Conselho do Sanctum. Imaginei o resto fosse soldados favorecidos ou outros hóspedes do Conselho.
Kaden conversava com o governador Faiwell, da província de Dorava, que estava sentado ao meu lado, e com chievdar Stavik no assento ao lado, que tinha matado o pelotão do meu irmão no vale. Depois deles estavam Griz e Eben. Eu queria agradecer Eben para minhas botas, mas com o carrancudo chievdar ao alcance da voz, não me atrevi.
Servos começaram a trazer pratos de metal batido; bandejas de focinhos, orelhas e pés de porco salgados; pratos de carne escura que eu imaginei que pudessem ser de cervo; tigelas de mingau grosso e jarros para encher canecas vazias. A energia no salão era diferente esta noite. Talvez fosse porque o Komizar estava fora, ou talvez fosse apenas eu que estava diferente. Notei os servos sussurrando mais entre si. Um deles se aproximou de mim, uma menina alta e esguia. Ela hesitou, então, ofereceu uma pequena reverência, desajeitada.
— Princesa, se a cerveja não estiver do seu agrado...
Stavik rugiu, e a pobre moça recuou vários passos.
— Cuidado com a língua, criada! — ele rugiu. — Não existe realeza alguma em Venda, e ela certamente beberá o que o restante de nós está bebendo, ou não beberá nada.
Conversas em alto volume explodiram pela mesa, uma discórdia crescente que ecoava o desprezo do chievdar. As boas-vindas inesperadas estavam sendo tão rapidamente desafiadas quanto um chicotada. Senti a mão de Kaden em minha coxa. Um aviso. E eu percebi que, mesmo como o Assassino, ele estava se sentindo nos limites do que ele poderia controlar.
Retribuí o olhar de ódio do chievdar e, em seguida, falei com a menina, que ainda tremia a vários passos de distância.
— Como chievdar Stavik disse tão sabiamente, beberei o que você me servir e ficarei feliz por isso.
A mão de Kaden deslizou da minha coxa. A discórdia foi substituída por conversas inquietas. Cestos de pão foram trazidos para a mesa. Apesar de seus modos grosseiros e desprezíveis, ninguém se serviu prematuramente. Todos esperaram que Calantha oferecesse o reconhecimento do sacrifício.
A mesma menina que tinha se encolhido diante da fúria do chievdar apenas momentos antes agora se aproximou, o prato de ossos chacoalhando em suas mãos assustados quando ela o pôs diante Calantha.
Todos esperaram.
Calantha olhou para mim, seu único olho se estreitando e, em seguida, ela balançou a cabeça. O ar no salão mudou. Eu sabia o que ela ia fazer antes mesmo de se mover. Minhas têmporas latejavam. Não agora. Este poderia bem ser o movimento que me mataria. O momento era totalmente errado. Não agora. Mas tudo já estava em movimento. Calantha se levantou e empurrou o prato por sobre a mesa para mim.
— Nossa prisioneira dará o reconhecimento esta noite.
Eu não esperei pela dissidência, nem que espadas fossem desembainhadas. Eu fiquei de pé. E antes Stavik pudesse dizer uma palavra, antes que Kaden pudesse me puxar de volta para o meu lugar, eu entoei o reconhecimento vendano de sacrifício e muito mais. E cristav unter quiannad.
As palavras se derramaram, quentes e urgentes, como se meu peito tivesse sido totalmente aberto. Meunter ijotande. E então mais fluiu lânguida e lentamente, uma linguagem sem palavras, como naquele dia no vale, memórias sagradas conhecidas apenas pelos deuses. Levantei o prato por sobre a minha cabeça, Yaveen hal an ziadre.
Baixei os ossos para a mesa novamente e ofereci a paviamma finalO salão caiu em silêncio. Nenhuma resposta foi dada a mim.
Segundos se passaram como séculos e, finalmente, um leve paviamma ecoou de Eben. O leve rasgo no silêncio se abriu mais e mais paviammas foram rolando pela mesa abaixo e voltando, a irmandade olhando para seus colos. A refeição começou, comida foi provada, conversas foram retomadas. Kaden deu um suspiro audível e recostou-se na cadeira. Finalmente, Rafe olhou para mim também, mas a expressão de seus olhos não era a que eu queria ver. Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha.
Empurrei o prato para ele.
— Pegue um osso, Emissário — falei, irritada. — Ou você não está gratos?
Ele olhou para mim, seu lábio franzido em desgosto. Ele agarrou um longo fêmur e se voltou para Calantha sem um segundo olhar.
— Parece que se o Komizar não matá-los, eles podem matar um ao outros — o governador Faiwell brincou com Stavik.
— O pior inimigo é aquele com quem você dormiu — respondeu Stavik.
Os dois riram como se soubessem disso por experiência.
Este era o nosso plano, eu disse a mim mesma. Uma representação. Isso era tudo. O tipo de desempenho que poderia arrancar um coração um pedaço de cada vez.
Rafe não voltou a olhar para mim pelo resto da noite.

3 comentários:

  1. Fico me perguntando até quando Lia e Rafe conseguirão manter suas máscaras.

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  2. Sobrevivência em primeiro lugar!!! Ainda que seu coração seja rasgado filete por filete ela tem de manter essa atuação para que Rafe não corra perigo.

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  3. Ela é mais vendana que os próprios vendanos kkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!