2 de fevereiro de 2018

Capítulo 24

O PRÍNCIPE

Apenas os pés delas estavam visíveis debaixo da cortina de lençóis que pingavam pendurados no varal, mas eu podia ouvi-las muito bem. Eu tinha ido pagar Berdi por minhas acomodações da semana antes de partir para Luiseveque, que era a cidade mais próxima onde se podia enviar mensagens e onde os mensageiros eram discretos por um preço adequado.
Fiz uma pausa, olhando para as botas de Lia, enquanto ela seguia com seu trabalho. Droga, se eu não ficasse fascinado por qualquer coisa dela...! O couro estava gasto e sujo, e aqueles eram os únicos sapatos que eu já a tinha visto usar. Ela não parecia se importar. Talvez crescer com três irmãos mais velhos tivessem dado a ela sensibilidades diferentes daquelas das meninas de sangue azul que eu conhecera. Ou ela nunca havia agido como uma princesa, ou havia rejeitado todos os aspectos de ser uma quando chegara aqui. Ela teria sido miseravelmente inadequada para a corte de Dalbreck, onde o protocolo de vestimentas era elevado a proporções exaustivas e quase religiosas.
Tateei em busca de notas de Morrighan no meu bolso para entregá-las a Berdi. Lia esticou as mãos debaixo da parte inferior do lençol e puxou mais uma roupa molhada da cesta.
— Você já se apaixonou alguma vez, Berdi? — ela perguntou.
Parei, com a mão ainda enfiada no bolso. A mulher mais velha ficou em silêncio por um bom tempo.
— Sim — disse ela por fim — há muitos anos.
— Não se casou?
— Não. Mas estávamos muito apaixonados. Pelos deuses, como ele era bonito! Não de modo convencional. O nariz dele era curvado. Os olhos, juntos demais. E ele não tinha muitos cabelos, mas iluminava a sala quando entrava. Ele tinha o que eu chamava de presença.
— O que aconteceu?
Berdi era uma mulher velha, e, ainda assim, notei que suspirava como se a lembrança fosse recente.
— Eu não podia sair daqui e ele não podia ficar. Foi resumidamente isso o que aconteceu.
Lia fez mais perguntas a ela, e Berdi contou-lhe que o homem era um talhador de pedras com um negócio na cidade de Sacraments. Ele queria que ela fosse embora com ele, mas a mãe dela havia falecido, o pai estava ficando mais velho, e Berdi tinha medo de ir embora e deixá-lo sozinho com a taverna.
— Você se arrepende de não ter ido?
— Eu não posso pensar em coisas assim agora. O que está feito, está feito. Fiz o que tinha que fazer na época. — Berdi esticou sua mão nodosa para baixo, para apanhar um punhado de pregadores de roupa.
— Mas, e se...?
— Por que não falamos sobre você por um tempo? — pediu Berdi. — Ainda está feliz com a sua decisão de sair de casa agora que passou algum tempo aqui?
— Eu não poderia estar mais contente. E assim que Pauline estiver se sentindo melhor, ficarei delirante.
— Mesmo que algumas pessoas ainda achem que a tradição e o dever de...
— Pare! Essas são duas palavras que nunca mais quero ouvir — escutei Lia dizer. — Tradição e dever. Eu não me importo com o que os outros pensam.
Berdi soltou um resmungo.
— Bem, acho que em Dalbreck eles não são...
— E essa é a terceira palavra que eu nunca mais quero ouvir de novo. Nunca mais! Dalbreck.
Amassei as notas no meu punho cerrado, ouvindo aquilo, sentindo minha pulsação ficar acelerada.
— Eles foram tanto a causa dos meus problemas como qualquer um. Que tipo de príncipe...?
Ela parou de falar e um longo silêncio se seguiu. Fiquei esperando e, por fim, ouvi Berdi dizer em um tom gentil:
— Está tudo bem, Lia. Pode falar.
O silêncio continuou e, quando finalmente Lia se pronunciou de novo, sua voz soava fraca.
— Durante minha vida toda sonhei com alguém me amando pelo que eu era. Por quem eu era. Não por ser a filha de um rei. Não por ser uma Primeira Filha. Apenas por mim. E, com certeza, não porque um pedaço de papel ordenava isso.
Ela cutucou o cesto de roupas lavadas com a bota.
— É pedir demais querer ser amada? Olhar nos olhos de alguém e ver... — A voz dela se partiu, e seguiu-se mais silêncio. — E ver ternura. Saber que ele realmente quer estar comigo e dividir a vida dele comigo.
Senti o sangue quente sendo drenado das minhas têmporas, e meu pescoço ficando repentinamente molhado de suor.
— Sei que alguns membros da nobreza ainda têm casamentos arranjados — ela prosseguiu — mas isso não é mais tão comum. Meu irmão se casou por amor. Greta nem mesmo é uma Primeira Filha. Eu achei que um dia também fosse encontrar alguém, até que...
A voz dela se partiu de novo.
— Vá em frente — disse Berdi. — Você segurou isso por tempo demais. Pode colocar tudo para fora.
Lia pigarreou, e suas palavras saíram com tudo, ardentes e sinceras.
— Até que o Rei de Dalbreck propôs o casamento ao gabinete. Foi ideia dele. Eu pareço um cavalo, Berdi? Eu não sou um animal que está à venda.
— É claro que não — concordou Berdi.
— E que tipo de homem permite que o papai dele lhe garanta uma noiva?
— Homem nenhum.
— Ele não se deu nem ao trabalho de vir me ver antes do casamento — disse ela, fungando. — Ele não se importava com quem ia se casar. Eu poderia muito bem ser uma égua velha. Ele não passa de um principezinho mimado seguindo ordens. Eu nunca poderia ter um pingo de respeito por um homem desses.
— Dá para entender por quê.
Sim, suponho que sim.
Enfiei as notas de volta no bolso e saí dali. Eu poderia pagar Berdi mais tarde.

Um comentário:

  1. Potterhead-selecionada16 de fevereiro de 2018 02:27

    Eu gosto desse príncipe mais do que do assassino.não sei porque,mas ele me parece tão gentil, sei lá...Me lembra um pouco o Maxon😍

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