24 de fevereiro de 2018

Capítulo 23

Para: SreSraBernardClark@yahoo.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Oi, mãe,
Que bom saber que você e Maria se divertiram no chá na Fortnum & Mason no aniversário dela. Embora, sim, eu concorde: é MUITO caro para um pacote de biscoitos e tenho certeza de que vocês duas fariam melhores em casa. Os seus são muito leves. E, não, a coisa do banheiro no teatro não foi legal. Com certeza, sendo ela mesma atendente, tem um olho muito afiado para esse tipo de coisa. Que bom que alguém está cuidando das suas... necessidades de higiene.
Por aqui, tudo bem. Está bem frio, mas você me conhece, tenho roupas para todas as ocasiões. Tem algumas coisas acontecendo no trabalho, mas espero que tudo esteja resolvido quando nos falarmos. E, sim, estou totalmente tranquila em relação a Sam. É uma dessas coisas inevitáveis.
Lamento que o vovô não esteja bem. Espero que quando ele estiver se sentindo melhor você possa retomar suas aulas noturnas.
Sinto saudade de todos. Muita.
Com amor.
Beijos, Lou
P.S.: Talvez seja melhor você mandar e-mails ou escrever via Nathan, já que estamos com alguns problemas com o correio.

* * *

A Sra. De Witt deixou o hospital dez dias depois de ser internada, estreitando os olhos, desacostumada à luz do dia, o gesso que envolvia o braço direito parecendo pesado demais para o corpo frágil. Levei-a de táxi para casa. Ashok saiu para recebê-la na calçada e a ajudou a subir lentamente os degraus da entrada. Ao menos daquela vez ela não implicou com ele ou o afastou; foi caminhando com cautela, como se o equilíbrio já não fosse mais garantido. Eu tinha levado para o hospital a roupa que a Sra. De Witt exigira — um terninho de calça e blazer, da Céline, dos anos setenta, de um azul-claro, com uma blusa amarelo-narciso e uma boina de lã rosa-claro —, junto com alguns dos cosméticos que estavam sobre a penteadeira dela, e me sentei ao lado de sua cama de hospital para ajudá-la a passá-los. Ela comentou que suas próprias tentativas com a mão esquerda a haviam deixado com a aparência de quem havia bebido três Sidecars no café da manhã.
Dean Martin, encantado, corria e bufava ao redor dos tornozelos da Sra. De Witt, olhava para ela, então me encarava com determinação, como se estivesse querendo dizer que eu já podia ir embora. Havíamos chegado a uma espécie de trégua, o cachorro e eu. Dean Martin comia suas refeições e se aconchegava em meu colo toda noite, e acho que ele tinha até começado a apreciar o passo um pouco mais rápido e nossas caminhadas mais longas, porque seu rabinho balançava loucamente sempre que me via pegar a guia da coleira.
A Sra. De Witt ficou eufórica ao vê-lo, se alegria pudesse ser traduzida por uma série de reclamações sobre a minha óbvia negligência nos cuidados com o cão, pelo fato de que em um espaço de doze horas ela o considera tanto acima quanto abaixo do peso, e por uma sequência de emocionados pedidos de desculpa por tê-lo deixado em minhas mãos inadequadas.
— Meu pobre bebê. Eu o deixei com uma estranha? Deixei? E ela não cuidou direito de você? Está tudo bem. Mamãe está em casa agora. Está tudo bem.
Ela estava obviamente encantada por ter voltado para casa, mas não posso fingir que não estava ansiosa. A Sra. De Witt precisava de um imenso número de comprimidos — mesmo para os padrões americanos — e me perguntei se ela por acaso teria alguma síndrome de ossos frágeis: eram comprimidos demais apenas para um pulso quebrado. Comentei com Treena, que disse que, na Inglaterra, teriam receitado uns dois analgésicos, recomendado que não levantasse nada pesado e que gargalhasse com gosto.
Mas eu tinha a sensação de que a Sra. De Witt havia se tornado ainda mais frágil depois do tempo que passara no hospital. Estava pálida e tossia sem parar, e suas roupas sob medida ficavam largas em lugares estranhos ao redor do corpo. Quando servi o macarrão com queijo, ela comeu quatro ou cinco garfadas com delicadeza, declarou que estava delicioso, mas se recusou a comer mais.
— Acho que meu estômago encolheu naquele lugar horrível. Provavelmente tentando se proteger daquela comida horrorosa.
Ela levou metade de um dia para checar todo o apartamento, caminhando com dificuldade de um cômodo a outro, lembrando a si mesma que tudo estava como devia e se tranquilizando com isso — tentei não interpretar aquilo como se ela estivesse conferindo que eu não havia roubado nada. Finalmente, a Sra. De Witt se sentou em sua poltrona alta e fofa e suspirou com discrição.
— Nem sei dizer como é bom estar em casa — disse ela, como se uma parte sua houvesse esperado não voltar.
Então, cochilou. Pensei pela centésima vez no meu avô, e em sua sorte por ter minha mãe cuidando dele.

* * *

A Sra. De Witt estava obviamente frágil demais para ser deixada sozinha, e ao que parecia não tinha a menor pressa de me ver ir embora. Então, sem qualquer discussão a respeito, simplesmente fiquei. Ajudei-a a tomar banho e a se vestir, preparei suas refeições e, ao menos na primeira semana, saí para caminhar com Dean Martin várias vezes por dia. Já no fim daquela primeira semana, descobri que ela abrira um pequeno espaço para mim no último dos quatro quartos, afastando livros e peças de roupa, um de cada vez, para revelar uma mesinha de cabeceira utilizável, ou uma prateleira sobre a qual eu poderia colocar as minhas coisas. Reivindiquei o banheiro de hóspedes, dei uma boa limpeza nele e deixei as torneiras abertas até a água sair limpa. Então, discretamente, me dediquei a limpar todas as partes da cozinha e do banheiro da Sra. De Witt que sua vista fraca começara a negligenciar.
Levei-a ao hospital para as consultas de revisão, e fiquei sentada do lado de fora com Dean Martin até ser chamada de volta para pegá-la. Marquei horário no cabeleireiro que a Sra. De Witt estava acostumada a frequentar e esperei enquanto seu cabelo fino e prateado voltava às antigas ondas elegantes, um pequeno ato que pareceu mais restaurador do que qualquer atenção médica que ela havia recebido até ali. Ajudei-a com a maquiagem e encontrei seus vários pares de óculos. A Sra. De Witt agradecia tranquila e enfaticamente a minha ajuda, como se costuma fazer com um hóspede querido.
Como eu tinha consciência de que, por ter morado sozinha por anos, ela precisava do espaço só para si, costumava sair por algumas horas durante o dia, me sentava na biblioteca e procurava emprego. Mas sem a urgência de antes e, para dizer a verdade, não havia nada que eu quisesse fazer. A Sra. De Witt normalmente estava dormindo ou plantada em frente à televisão quando eu voltava.
— Ora, Louisa — dizia ela, endireitando o corpo como se eu a houvesse encontrado no meio de uma conversa —, estava me perguntando aonde você tinha ido. Faria a gentileza de levar Dean Martin para um rápido passeio? Ele está parecendo um tanto preocupado…
Aos sábados, eu ia com Meena aos protestos diante da biblioteca. A aglomeração tinha diminuído, o futuro da biblioteca dependia não só do apoio da população, mas também de um desafio jurídico de arrecadação de fundos. Ninguém parecia ter muita esperança de sucesso. Ficávamos paradas ali, menos animadas a cada semana, acenando com nossos cartazes surrados e aceitando com gratidão as bebidas quentes e as comidinhas que ainda chegavam, cortesias de vizinhos e lojistas da área. Eu havia aprendido a procurar por rostos conhecidos — a avó que eu conhecera na minha primeira visita, que se chamava Martine e que agora me cumprimentava com um abraço e um sorriso largo.
Várias outras pessoas acenavam ou gritavam oi, o funcionário da segurança, a mulher que levava pakoras, a bibliotecária do cabelo lindo. Nunca mais vi a senhora com as insígnias rasgadas.
Eu já estava morando no apartamento da Sra. De Witt havia treze dias quando esbarrei em Agnes. Dada a nossa proximidade, era espantoso que isso não houvesse acontecido antes. Estava chovendo forte e eu usava uma das antigas capas de chuva da Sra. De Witt — laranja e amarela, de plástico, dos anos setenta, com estampa de flores redondas, enormes e de cores fortes —, e ela tinha vestido Dean Martin com uma capinha de chuva e levantado o capuz, o que me fazia ter que segurar o riso toda vez. Estávamos correndo pelo corredor, eu rindo da carinha cheia de dobras dele embaixo do capuz de plástico, e parei de repente quando as portas do elevador se abriram e Agnes saiu, seguida por uma jovem com um iPad, o cabelo preso em um rabo de cavalo esticado. Ela parou e me encarou. Algo que não consegui decifrar completamente passou por seu rosto — talvez constrangimento, talvez um pedido mudo de desculpas, ou mesmo raiva contida por eu estar ali… era difícil dizer. Os olhos de Agnes encontraram os meus, ela abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, então cerrou os lábios e passou por mim como se não tivesse me visto, o cabelo louro e reluzente balançando e a garota logo atrás.
Fiquei olhando enquanto a porta da frente se fechava enfaticamente depois de elas entrarem, meu rosto ardendo como o de uma amante rejeitada.
Tive uma vaga lembrança de nós duas rindo em um bar de noodles. Somos amigas, Louisa?
Então, respirei fundo, chamei o cachorrinho para prender a guia na coleira e saímos para a chuva.

* * *

No fim, foram as garotas do Vintage Clothes Emporium que me ofereceram um emprego remunerado. Um contêiner de peças estava chegando da Flórida — o conteúdo de vários guarda-roupas — e elas precisavam de um par de mãos extra para examinar cada item antes de colocá-los à venda, para reforçar a costura de botões e garantir que tudo o que fosse para as araras estivesse limpo e bem passado, a tempo para a feira de roupas vintage no fim de abril. (Artigos que não tinham cheiro de novos eram os mais devolvidos.) O pagamento era um salário mínimo, mas a empresa era boa, o café à vontade e elas me dariam vinte por cento de desconto em qualquer coisa que eu quisesse. Meu apetite para comprar roupas novas havia diminuído com a minha falta de acomodação, mas aceitei satisfeita a oferta de trabalho e, depois de garantir que a Sra. De Witt estava recuperada a ponto de caminhar sozinha com Dean Martin ao menos até o fim do quarteirão e voltar, passei a ir para a loja todas as terças-feiras às dez da manhã e passava o dia lá, no quarto dos fundos, lavando, costurando e conversando com as garotas durante as pausas para o cigarro delas, que pareciam acontecer a cada quinze minutos mais ou menos.
Margot — eu estava proibida de continuar chamando-a de Sra. De Witt (“Você está morando na minha casa, pelo amor de Deus”) — ouviu com atenção quando contei a ela sobre meu novo papel, então perguntou o que eu estava usando para consertar as roupas. Descrevi a enorme caixa de plástico com botões antigos e zíperes, mas acrescentei que a coisa toda era tão caótica que muitas vezes eu não conseguia encontrar dois botões iguais e, raramente, três. Ela se levantou pesadamente da poltrona em que costumava ficar e gesticulou para que eu a seguisse. Eu caminhava bem próxima a Margot agora — ela não parecia completamente firme nos pés e com frequência oscilava para um lado, como um navio em alto-mar com a carga mal-distribuída. Mas por fim ela conseguiu, deixando a mão correr pela parede para estabilidade extra.
— Embaixo da cama, querida. Não, ali. Há dois baús. Isso.
Eu me ajoelhei e tirei duas pesadas caixas de madeira com tampa de debaixo da cama. Quando as abri, vi que estavam cheias com fileiras de botões, zíperes, fitas e franjas. Havia colchetes de gancho, fechos dos mais diversos tipos, todos meticulosamente separados e etiquetados, botões de marinheiro de metal e minúsculos botõezinhos chineses, cobertos de seda vistosa, botões de osso e de casco de tartaruga, costurados com cuidado em pequenas faixas de cartolina. Na tampa acolchoada, ramalhetes de alfinetes, fileiras de agulhas de tamanhos diferentes e uma variedade de fios de seda em minúsculos carretéis. Passei os dedos por eles com reverência.
— Ganhei isso no meu aniversário de quatorze anos. Meu avô mandou vir de Hong Kong. Se precisar, pode dar uma olhada aí. Eu costumava tirar os botões e os zíperes de tudo o que não usava mais, sabe. Assim, se perdemos um botão de alguma roupa boa e não conseguimos repor, sempre teremos uma vasta possibilidade de opções para substituí-lo.
— Mas não vai precisar deles?
Ela descartou a ideia gesticulando com a mão boa.
— Ah, meus dedos agora estão desajeitados demais para costurar. Metade do tempo nem consigo abotoar as minhas roupas. E tão poucas pessoas se dão ao trabalho de consertar botões e zíperes atualmente… elas simplesmente jogam as roupas no lixo e compram alguma coisa nova e horrível nessas lojas de descontos. Fique com eles, meu bem. Vai ser bom saber que estão sendo úteis.

* * *

Assim, por sorte e talvez um pouco por intenção, agora eu tinha dois empregos que amava. E com eles encontrei certo contentamento. Toda terça-feira à noite eu levava algumas peças de roupa para casa em uma sacola plástica xadrez de lavanderia e, enquanto Margot cochilava, ou assistia à televisão, eu removia cuidadosamente todos os botões restantes de cada uma delas e costurava um novo conjunto. Depois, mostrava para Margot, para ver se aprovava.
— Você costura muito bem — comentou ela, examinando meus pontos através dos óculos, enquanto assistíamos ao programa Roda da Fortuna. — Achei que seria tão ruim nisso quanto é em todo o resto.
— Na escola, trabalhos de agulha eram praticamente a única coisa em que eu era boa.
Alisei as dobras do tecido e me preparei para continuar dobrando um casaco.
— Comigo foi da mesma forma — contou ela. — Aos treze anos, eu já fazia minhas próprias roupas. Minha mãe me mostrou como cortar um molde e pronto. Fui fisgada. Fiquei obcecada por moda.
— Em que você trabalhou, Margot?
Abaixei a costura.
— Fui editora de moda da Ladies’ Look, que já não existe mais… nem chegou aos anos noventa. Mas a revista esteve no mercado por trinta anos ou mais, e fui a editora de moda pela maior parte desse tempo.
— Essa é a revista que está nas molduras? As que estão penduradas na parede?
— Sim, aquelas foram as minhas capas favoritas. Fui um tanto sentimental e guardei algumas.
A expressão de Margot se suavizou por um instante, e ela inclinou a cabeça e me olhou com o semblante de quem estava prestes a fazer uma confidência.
— Era um emprego e tanto na época, sabe. A revista não era muito inclinada à ideia de ter mulheres em cargos sênior, mas as páginas de moda estavam sob a responsabilidade de um homem horrível, e meu editor… um homem maravilhoso, o Sr. Aldridge… argumentou que ter um velho pernóstico, que ainda usava suspensórios para segurar as meias, ditando o que era moda simplesmente não funcionaria para moças mais jovens. Ele achou que eu tinha olho para a coisa, me promoveu, e foi isso.
— Então é por esse motivo que você tem tantas roupas lindas.
— Ora, eu certamente não me casei com um ricaço.
— Mas chegou a se casar?
Ela abaixou os olhos e ficou brincando com alguma coisa no joelho.
— Santo Deus, você faz mesmo um monte de perguntas. Sim, eu me casei. Com um homem adorável. Terrence. Ele trabalhava no mercado editorial. Mas morreu em 1962, três anos depois de nos casarmos, e para mim bastou de casamento.
— Nunca quiseram filhos?
— Eu tive um filho, meu bem, mas não com o meu marido. É isso o que você quer saber?
Corei.
— Não. Quer dizer, não desse jeito. Eu… nossa… ter filhos é… quer dizer, eu não presumiria que…
— Pare de gaguejar, Louisa. Eu me apaixonei por alguém que não deveria enquanto estava de luto pelo meu marido e engravidei. Tive o bebê, mas isso causou certa comoção e, no fim, ficou decidido que seria melhor para todos se meus pais o criassem em Westchester.
— Onde ele está agora?
— Ainda em Westchester. Até onde eu sei.
Eu a encarei, sem compreender.
— Vocês não se encontram?
— Ah, nos encontrávamos. Todos os fins de semana e nas férias, por toda a infância dele. Mas quando chegou à adolescência, acabou ficando com raiva de mim por eu não ser a mãe que ele achava que eu deveria ser. Tive que fazer uma escolha, entenda. Naquele tempo, não era comum trabalhar se você se casasse ou tivesse filhos. Escolhi meu trabalho. Sinceramente, eu tinha a sensação de que morreria se ficasse sem ele. E Frank, meu chefe, me apoiou.
Ela suspirou.
— Infelizmente, meu filho nunca me perdoou de verdade.
Houve um longo silêncio.
— Sinto muito.
— Sim. Eu também. Mas o que está feito, está feito, e não adianta lamentar.
Margot começou a tossir e eu lhe servi um copo de água. Ela pegou o frasco de comprimidos que deixava na mesinha lateral e esperei enquanto tomava um. Margot, então, voltou a se acomodar, como uma galinha depois de arrumar as penas.
— Qual é o nome dele? — perguntei, quando ela já havia se recuperado.
— Mais perguntas… Frank Junior.
— Então, o pai dele era…
— … meu editor na revista, sim. Frank Aldridge. Ele era bem mais velho do que eu, e casado, e temo que esse tenha sido o maior ressentimento do meu filho. Foi difícil para ele na escola. As pessoas eram diferentes em relação a essas questões na época.
— Quando foi a última vez que teve contato com ele? Com seu filho, quero dizer.
— Foi em… 1987. O ano em que ele se casou. Descobri depois que o casamento já havia acontecido e escrevi uma carta dizendo que tinha ficado magoada por ele não ter me convidado. Frank me disse sem rodeios que havia muito tempo eu abrira mão de qualquer direito de ser incluída em qualquer coisa que dissesse respeito à vida dele.
Ficamos sentadas em silêncio por um instante. O rosto dela estava absolutamente imóvel e era impossível saber o que estava pensando, ou mesmo se estava simplesmente concentrada na televisão. Eu não sabia o que dizer a Margot. Não conseguia encontrar palavras que servissem de consolo para uma mágoa tão grande. Mas então ela se virou para mim.
— E foi isso. Minha mãe morreu uns dois anos depois e ela era meu último ponto de contato com ele. Às vezes me pego imaginando como ele está… se está vivo até, se teve filhos. Escrevi para ele por algum tempo. Mas com o passar dos anos, acho que acabei me conformando com a situação. Ele estava certo, é claro. Eu realmente não tinha qualquer direito no que lhe dizia respeito, ou a nada relacionado à vida dele.
— Mas ele é seu filho — sussurrei.
— É, mas eu nunca me comportei como mãe, não é mesmo?
Ela deixou escapar um suspiro trêmulo.
— Tive uma vida muito boa, Louisa. Amava meu trabalho e trabalhei com algumas pessoas maravilhosas. Viajei para Paris, Milão, Berlim, Londres, fiz muito mais do que a maior parte das mulheres da minha idade… Tinha meu lindo apartamento e alguns amigos excelentes. Não se preocupe comigo. Toda essa bobagem sobre as mulheres poderem ter tudo… Nunca pudemos e provavelmente nunca teremos. As mulheres sempre têm que fazer as escolhas mais difíceis. Mas há um grande consolo em simplesmente fazer algo que se ama.
Ficamos sentadas em silêncio, digerindo aquilo. Então, ela apoiou as mãos espalmadas nos joelhos.
— Aliás, menina querida, você me ajudaria a chegar até o meu banheiro? Estou bem cansada, e acho que vou para a cama.

* * *

Naquela noite, fiquei acordada na cama, pensando no que Margot me contara. Pensei em Agnes e no fato de que aquelas duas mulheres, que moravam a poucos metros uma da outra e viviam envoltas em uma tristeza muito específica, poderiam ter sido, em outro mundo, um conforto uma para a outra. Pensei que parecia haver um preço muito alto para qualquer coisa que uma mulher escolhesse fazer com a própria vida, a menos que se contentasse em querer pouco. Mas eu já sabia disso, não é mesmo? A ida para Nova York me custara caro. Com frequência, de madrugada, eu evocava a voz de Will me dizendo para não ser ridícula e melancólica, para em vez disso pensar em todas as coisas que eu tinha conquistado. Fiquei deitada na escuridão, contando minhas conquistas nos dedos. Eu tinha um lar — ao menos por enquanto. Tinha um emprego remunerado. Ainda estava em Nova York, e entre amigos. Vivia um novo relacionamento, mesmo que às vezes me perguntasse como havia chegado a ele. Poderia realmente dizer que teria feito alguma coisa diferente?
Mas era na senhora no quarto ao lado que eu estava pensando quando finalmente dormi.

* * *

Havia quatorze troféus na prateleira de Josh, quatro deles do tamanho da minha cabeça, para futebol americano, beisebol, atletismo e um troféu júnior por um concurso de soletração. Eu já tinha estado ali, mas só agora, sóbria e sem pressa, tive uma noção do que estava ao meu redor e do tamanho das conquistas dele.
Vi fotos de Josh usando uniformes esportivos, tiradas no momento de seus triunfos, os braços passados ao redor dos colegas de equipe, aqueles dentes perfeitos em um sorriso perfeito. Pensei em Patrick e na enorme quantidade de diplomas na parede do apartamento dele, e divaguei sobre a necessidade masculina de exibir suas conquistas, como um pavão abrindo permanentemente a cauda.
Quando Josh desligou o telefone, me sobressaltei.
— Eu estava só pedindo comida. Sinto muito, mas com tudo o que está acontecendo no trabalho não tenho tido tempo para mais nada. Mas é a melhor comida coreana ao sul de Koreatown.
— Não tem problema — falei.
Eu não tinha experiência com comida coreana para servir de referência. Estava apenas aproveitando a chance de vê-lo. Quando vim caminhando para pegar o metrô na direção sul, eu me deleitara com a novidade de estar a caminho de downtown sem ter que lutar contra ventos siberianos, ou contra a neve fofa, ou ainda contra a chuva gelada e torrencial.
E o apartamento de Josh não era exatamente a toca do coelho que ele descrevera, a menos que o coelho houvesse resolvido se mudar para um loft reformado, em uma área que aparentemente abrigara estúdios de artistas, mas que agora oferecia espaço para quatro versões diferentes de lojas de Marc Jacobs, distribuídas entre joalherias artesanais, cafeterias finas e lojas caras com seguranças na porta. O loft tinha as paredes caiadas e piso de carvalho, com uma mesa de mármore moderna e um sofá de couro surrado. A distribuição dos poucos enfeites cuidadosamente escolhidos e dos móveis sugeria que tudo fora pensado com atenção, garimpado e adquirido talvez com a ajuda dos serviços de um decorador.
Ele tinha comprado flores para mim, uma deliciosa combinação de jacintos e frésias.
— Por que as flores? — perguntei.
Ele deu de ombros enquanto me fazia entrar.
— Dei de cara com elas no caminho do trabalho para casa e achei que você ia gostar.
— Uau. Obrigada.
Inspirei profundamente o aroma do buquê.
— Isso é a coisa mais legal que me aconteceu em muito tempo.
— As flores? Ou eu?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Ora, acho que você é razoavelmente legal. — A expressão dele era de pura decepção. — Você é incrível. E amei as flores.
Ele deu um sorriso enorme e me beijou.
— Ora, você é a coisa mais legal que me aconteceu em muito tempo — disse ele, baixinho, quando se afastou. — Tenho a sensação de ter esperado muito tempo por você, Louisa.
— Só nos conhecemos desde outubro.
— Ah. Mas vivemos em uma época de gratificação instantânea. E estamos na cidade em que tudo o que se quer se consegue ontem.
Havia um estranho poder em ser desejada da maneira com que Josh parecia me desejar. Eu não sabia bem o que fizera para merecer aquilo. Tive vontade de perguntar o que ele via em mim, mas desconfiei que pareceria estranhamente carente dizer isso em voz alta, então tentei descobrir de outras formas.
— Conte sobre as outras mulheres que você já namorou — pedi, do sofá, enquanto ele estava na pequena cozinha anexa, pegando pratos, talheres e copos. — Como elas eram?
— Deixando de lado os matches do Tinder? Inteligentes, bonitas, normalmente bem-sucedidas…
Josh subiu numa banqueta para resgatar um vidro de molho de peixe na parte de trás de um armário da cozinha.
— Mas, honestamente? Meio narcisistas — continuou ele. — Como se não pudessem ser vistas sem a maquiagem perfeita, ou como se fossem ter um colapso se o cabelo não estivesse do jeito certo, e tudo tinha que estar registrado no Instagram, ou fotografado, ou descrito nas redes sociais sob a luz mais favorável. Incluindo os encontros comigo. Como se nunca pudessem baixar a guarda.
Ele se levantou. Segurando alguns vidros.
— Quer molho picante? Ou shoyu? Eu namorei uma garota que costumava checar a que horas eu me levantava todo dia e colocava o alarme dela para meia hora antes, assim teria tempo de arrumar o cabelo e se maquiar. Ou seja, eu sempre a veria com a aparência perfeita. Mesmo se para isso ela tivesse que se levantar, tipo, às quatro e meia da manhã.
— Muito bem. Já vou avisando que eu não sou essa garota.
— Sei disso, Louisa. Já coloquei você para dormir.
Tirei os sapatos e dobrei as pernas embaixo do corpo.
— Imagino que seja meio lisonjeiro elas se esforçarem tanto.
— Sim. Mas também pode ser um pouco exaustivo. E parece que a gente nunca consegue… nunca consegue saber o que está realmente por baixo de todo esse esforço. Com você, tenho que admitir, está tudo à mostra. Você é quem você é.
— Devo assumir isso como um elogio?
— Claro. Você se parece com as garotas com quem eu cresci. É sincera.
— Os Gopnik não pensam assim.
— Que se danem.
Ele usou um tom hostil ao qual eu não estava habituada.
— Sabe, tenho pensado nisso. Você pode provar que não fez o que eles disseram que fez… certo? Portanto, deveria processá-los por demissão sem justa causa, comprometimento a sua reputação, por terem ferido seus sentimentos e…
Balancei a cabeça.
— Estou falando sério — continuou ele. — Gopnik tem a reputação de ser um cara bom e decente à moda antiga nos negócios, e está sempre fazendo coisas para caridade, mas demitiu você por nada, Louisa. Você perdeu seu emprego e o lugar onde morava sem qualquer aviso ou compensação.
— Ele achou que eu estava roubando.
— Sim, mas Gopnik deve ter se dado conta de que não estava cem por cento certo o que ele estava fazendo, ou teria chamado a polícia. Sendo ele quem é, posso apostar que algum advogado aceitaria defendê-la cobrando os honorários apenas se a causa for ganha.
— Sinceramente, estou bem. Processar não é o meu estilo.
— É, eu sei. Você é legal demais. Está sendo muito inglesa a esse respeito.
A campainha tocou. Josh ergueu um dedo, como se para me dizer que continuaríamos aquela conversa mais tarde. Ele desapareceu no corredor estreito e o ouvi pagando ao entregador enquanto eu terminava de arrumar a mesinha para comermos.
— E sabe de uma coisa? — disse Josh, levando a comida para a cozinha. — Mesmo se você não tivesse provas, aposto que Gopnik pagaria uma bela quantia só para evitar que a coisa toda chegasse aos jornais. Pense no que isso representaria para você. Pelo amor de Deus, há duas semanas você estava dormindo no chão de alguém.
(Eu não contara a ele que havia dividido a cama com Nathan.)
— Isso poderia garantir dinheiro suficiente para um depósito decente para alugar um apartamento. Se conseguir um advogado realmente bom, poderia até comprar um apartamento! Sabe quanto dinheiro o Gopnik tem? O cara é reconhecidamente rico. Em uma cidade de pessoas muito ricas.
— Josh, sei que sua intenção é boa, mas eu só quero esquecer isso.
— Louisa, você…
— Não.
Apoiei as mãos na mesa.
— Eu não vou processar ninguém.
Ele esperou um minuto, talvez frustrado com a própria inabilidade para me pressionar mais, então deu de ombros e sorriu.
— Está certo… Bem, hora do jantar! Você não tem alergia a nenhum alimento específico, tem? Experimenta um pouco do frango. Aqui… você gosta de berinjela? Eles fazem esse prato de berinjela apimentada que é simplesmente o melhor.

* * *

Dormi com Josh naquela noite. Não estava bêbada, nem vulnerável, nem ofegante de desejo por ele. Acho que só queria que a minha vida parecesse normal de novo. E havíamos comido, bebido, conversado e rido até tarde da noite. Então, ele fechara as cortinas, diminuíra as luzes, e o que se seguiu pareceu uma progressão natural da noite, ou pelo menos eu não consegui pensar em qualquer razão para que não fosse daquele jeito. Josh era muito lindo. Tinha uma pele imaculada e malares que realmente chamavam atenção. Seu cabelo era sedoso, castanho com alguns mínimos toques de dourado, mesmo depois do longo inverno. Nos beijamos no sofá, primeiro delicadamente e então o ardor foi se intensificando. Ele tirou a blusa, eu tirei a minha e me forcei a me concentrar naquele homem lindo e atencioso, naquele príncipe de Nova York, e não em todas as coisas aleatórias em que minha mente tendia a se perder. Fui sentindo meu desejo crescer como um amigo distante que viera me tranquilizar, até eu ser capaz de bloquear qualquer coisa que não fossem as sensações do corpo dele contra o meu e, então, algum tempo depois, dele dentro de mim.
Quando tudo acabou, ele me beijou com ternura e me perguntou se eu estava feliz, então, murmurou que precisava dormir um pouco. Fiquei deitada ao seu lado, e tentei ignorar as lágrimas que inexplicavelmente escorriam do canto dos meus olhos para os meus ouvidos.
O que Will me dissera? Você precisa aproveitar o dia. Precisa abraçar as oportunidades quando elas aparecem. Tem que ser o tipo de pessoa que diz sim.
Se eu tivesse dispensado Josh, não teria me arrependido para sempre?
Eu me virei silenciosamente naquela cama desconhecida e examinei o perfil dele enquanto dormia, o nariz reto perfeito e a boca que parecia a de Will. Pensei em todos os motivos pelos quais Will o teria aprovado. Conseguia até mesmo imaginá-los juntos, rindo, competindo para ver quem contava a melhor piada. Os dois poderiam até ter sido amigos. Ou inimigos. Eram quase parecidos demais.
Talvez eu estivesse destinada a ficar com esse homem, pensei, ainda que por um caminho tortuoso e perturbador. Talvez esse homem ao meu lado fosse Will, de volta para mim. E com esse pensamento, fechei os olhos e caí em um sono breve e inquieto.

4 comentários:

  1. Estranho ela nem sequer ter pensado em Sam... Sera que o amor que sentira tivesse acabado como em passe de magica?

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    1. Acho que não, ela só esta tentando esquecer o Sem, e por mais que tenha amado o Sem, o Will é, e sempre será o amor de sua vida

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    2. Acho estranho o Sam ter deixado a ridícula da outra médica na casa dele nem guardei o nome da ridícula, queria muito ela é o Sam mais sei lá estou gostando do Josh mais nem vou me animar pq td muda e é isso que gosto nos livros

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Boa leitura, E SEM SPOILER!