20 de fevereiro de 2018

Capítulo 23

Senti-o escorregando sob o meu braço no meio da noite, mas achei que ele tivesse apenas rolado para o lado. Quando acordei cedo na manhã seguinte, ele não estava mais lá. Tudo com que deparei foi com uma criada com olhos cansados e uma bandeja de tortas de frutas, frutas secas e creme. Ela colocou a bandeja em cima da mesa e fez uma cortesia.
— Meu nome é Tilde. Sua Majestade me falou para lhe dizer que ele tinha reuniões e que viria ver como você estava mais tarde. Nesse meio-tempo estou aqui para ajudá-la com qualquer outra coisa que precisar.
Olhei para baixo, para o vestido amarrotado com o qual eu havia dormido.
— Madame Rathbone mandará mais roupas para cá em breve — disse Tilde. — Ela também queria saber se você quer que seus outros pertences sejam limpos ou... queimados.
Eu sabia que eles presumiam que tudo deveria ser queimado. As roupas estavam estragadas além de qualquer reparação possível, mas minhas botas, e especialmente a bainha de ombro de Walther, não eram coisas de que eu queria me desfazer, e então, quando pensei no assunto, os restos do vestido feito por muitas mãos que também não eram algo de que eu queria me desfazer. Falei para Tilde que eu mesma limparia os itens se ela os trouxesse para mim.
— Cuidarei disso imediatamente, madame. — Ela fez uma cortesia e apressou-se para sair da tenda.
Escovei os meus cabelos, calcei os delicados chinelos que Vilah havia me emprestado e saí para encontrar o escritório do coronel Bodeen.
As espessas muralhas do posto avançado estavam brilhantes ao sol da manhã. Tudo em relação à guarnição militar era imaculado e intimidante em sua ordem, exalando a confiança de um reino que era forte desde a base. Até mesmo o chão entre as edificações era coberto por cascalhos bem varridos da cor da marmelada. Cascalhos estes que eram levemente esmagados sob os meus pés enquanto eu me aproximava de um edifício longo que parecia similar ao saguão de jantar, só que esse tinha apenas altas janelas. Talvez eles não quisessem que vissem o que acontecia lá dentro. Os oficiais olharam para mim, surpresos, quando abri a porta, mas nem Rafe, nem Sven, nem o coronel Bodeen estavam lá.
— Vossa Alteza — disse o coronel Belmonte, enquanto se colocava de pé. — Há alguma coisa que podemos fazer por você?
— Disseram-me que nos reuniríamos hoje. Eu vim dar continuidade à nossa discussão da noite passada. Sobre o exército vendano. Vocês precisam estar cientes de que...
O capitão Hague deixou cair uma grossa pilha de papéis em cima da mesa, com um alto baque.
— O rei já nos informou dos desdobramentos em Venda — disse ele, e falou ainda em um tom agudo enquanto analisava meu vestido amarrotado. — Enquanto você ainda dormia.
Alisei meu vestido.
— Respeito o que o rei já disse a vocês, mas ele não viu o que eu vi quando...
— Você é um soldado treinado, Vossa Alteza?
Ele me cortou de uma forma tão pungente que poderia muito bem ter me estapeado. A ferroada ainda sibilava pelo ar. Então seria assim? Inclinei-me para frente, com as palmas das mãos estiradas sobre a mesa, e olhei nos olhos dele.
— Sim, eu sou, capitão, embora talvez eu seja treinada de uma forma um pouco diferente da sua.
— Ah, é claro — disse ele, voltando a sentar-se na sua cadeira, o tom de voz cheio de desdém. — Certo. O exército morrighês faz as coisas de forma um pouco diferente. Deve ter algo a ver com aquele dom de vocês. — Ele desferiu um largo sorriso para o oficial que estava ao lado dele. — Vá em frente, então. Por que simplesmente não nos conta o que acha que viu?
Bastardo. Aparentemente o fato de que Rafe dissera que era sua futura rainha não tinha muito peso junto ao capitão, contanto que o rei não estivesse presente, mas eu não podia deixar que meu orgulho e o meu desprezo me impedissem de contar aquilo que eu precisava que eles soubessem. Então eu lhes disse tudo que eu sabia sobre a cidade-exército.
— Cem mil soldados armados é um número incrível — disse ele, quando terminei. — Especialmente para um povo tão atrasado quanto os bárbaros.
— Eles não são tão atrasados assim — retorqui. — E os homens com quem eu cavalgava, Kaden e Griz, podem confirmar o que eu acabei de lhes revelar.
O capitão Hague levantou-se de sua cadeira, com a face marcada por um vermelho repentino.
— Devo lembrá-la, Alteza, que acabamos de perder 28 homens para os bárbaros. A única maneira de coletarmos informações dos selvagens será na ponta de um chicote.
Inclinei-me para frente.
— E está claro para mim que você preferiria obter essas informações de mim da mesma forma.
O capitão Azia colocou uma das mãos no braço de Hague e sussurrou algo para ele. O homem se sentou.
— Por favor, entenda, Vossa Alteza — disse Azia — a perda do pelotão foi um golpe amargo para todos nós, especialmente para o capitão Hague. Um dos primos dele era soldado daquela unidade.
Minhas mãos deslizaram da mesa, e eu me levantei e fiquei ereta, inspirando para me acalmar. Eu entendia a dor do pesar e do luto.
— Minhas condolências, capitão. Sinto muito por sua perda. Mas, por favor, não se engane. Eu tenho uma dívida para com os homens que você está ultrajando, e se eles não forem convidados a ficarem à nossa mesa, não espere me ver nela também.
Suas rijas sobrancelhas caíram sobre os seus olhos.
— Expressarei esses desejos ao coronel Bodeen.
Eu estava me virando para sair dali quando uma porta nos fundos da sala abriu-se, e o coronel Bodeen, junto com Sven, Rafe e Tavish apareceram. Eles ficaram alarmados quando me viram, e os olhos de Rafe ficaram aguçados por um breve instante, como se eu tivesse minado sua liderança.
— Eu já estava de saída — falei. — Parece que você já cuidou das coisas por aqui.
Eu já estava do lado de fora da porta e, no meio do caminho das escadas, Rafe apareceu no pórtico e me parou.
— Lia, qual é o problema?
— Eu achei que fôssemos nos reunir com os oficiais juntos.
Ele balançou a cabeça, e sua expressão era de desculpas.
— Você estava dormindo. Eu não queria acordar você. Mas contei a eles tudo que me disse.
— Sobre os silos?
— Sim.
— Os Brezalots?
— Sim.
— O tamanho do exército?
— Sim, contei tudo a eles.
Tudo. Havia algumas coisas que eu não revelara a Rafe.
— Sobre os traidores da corte morrighesa?
Ele assentiu.
— Eu precisei contar, Lia.
Claro que ele precisava ter feito isso, mas eu podia apenas imaginar o quanto isso havia abaixado ainda mais a consideração deles por Morrighan e por mim. Eu vinha de uma corte que era um ninho de cobras.
Soltei um suspiro.
— Eles não pareceram acreditar em nada do que falei sobre o exército vendano.
Ele esticou a mão e pegou na minha.
— Se eles parecem céticos, é porque nunca se depararam com patrulhas bárbaras que tivessem mais de uma dúzia de homens antes, mas eu falei a eles sobre o que eu vi também, o exército e a brigada organizada de pelo menos quinhentos homens que a conduziram até Venda. Acredite em mim, nós estamos avaliando as medidas que precisam ser tomadas, especialmente agora com as mortes de todo um...
— Receio que eu tenha tido um começo ruim com os seus oficiais, e o capitão Hague definitivamente já não gosta de mim. Eu não tinha me dado conta de que um dos mortos era primo dele. Eu e ele tivemos uma pequena confusão.
— Notícias ruins ou não, o capitão Hague é como um remédio que desce melhor com uma cerveja das fortes. Pelo menos foi isso que Sven me disse. Conheço o homem apenas de passagem.
— Sven está certo. Ele deixou claro que não tinha nenhum respeito pelo exército morrighês e zombou do dom também. Eu fui tão bem-vinda aqui quanto um joelho ralado. Em nome dos deuses, por que Dalbreck me quereria se eles não tinham nenhuma consideração pelas Primeiras Filhas e pelo dom?
Rafe pareceu pasmo por um instante, empurrando os ombros para trás como se minha pergunta o tivesse desestruturado. Rapidamente, ele se recuperou.
— O capitão insultou você. Vou falar com ele.
— Não — falei, balançando a cabeça. — Por favor, não faça isso. A última coisa que quero é parecer uma criança machucada que foi correndo falar com o rei. Vou lidar com a situação.
Ele assentiu e levou a minha mão aos lábios dele e a beijou.
— Vou tentar encerrar essas reuniões o mais cedo possível.
— Posso ajudá-lo com alguma coisa?
Uma careta de cansaço formava linhas em volta de seus olhos, e ele me disse que muito mais coisas haviam ocorrido na sua ausência além da morte de seus pais. Sem qualquer liderança forte, a assembleia e o gabinete andavam em guerra. Certos egos ficaram inflados demais, generais estavam questionando a cadeia de comando, e o medo da praga que havia matado a rainha tinha afetado o comércio. Tudo isso enquanto a morte do rei havia sido mantida em segredo para o restante do mundo. Havia batalhas esperando por Rafe em todas as frentes assim que ele estivesse de volta ao palácio.
— Quando isso vai acontecer, Rafe? — Eu odiava forçar esse ponto, especialmente agora, mas não tinha escolha. — Você sabe que o reino de Morrighan ainda precisa ser avisado. Você sabe que eu preciso...
— Eu sei, Lia. Por favor, dê-me apenas alguns dias para lidar com isso tudo primeiro. Depois nós podemos falar sobre...
Sven enfiou a cabeça para fora da porta.
— Vossa Majestade — disse ele, revirando os olhos em direção à sala de estar atrás de si — eles estão ficando inquietos.
Rafe olhou de relance para trás, na minha direção, demorando-se como se em momento algum quisesse ir embora. Eu vi as sombras que ainda espreitavam sob os olhos dele. Ele só tinha dormido umas poucas horas, quando precisava de uma semana de sono, e havia tido apenas um momento passageiro para vivenciar o luto, quando precisava de muito mais que isso. Tudo que ele pedia de mim eram uns poucos dias para lidar com o seu novo papel como rei, mas uns poucos dias pareciam um luxo do qual Morrighan não podia dispor.
Assenti, e ele se virou e desapareceu atrás da porta com Sven antes até mesmo que eu pudesse dizer adeus.

* * *

Enganchei a última fivela do corpete e ajustei o cinto. Eu estava grata porque Vilah e Adeline haviam me trazido roupas mais práticas: uma saia de couro com uma fenda, um colete e uma camisa. Essas roupas, no entanto, não eram menos luxuosas do que o vestido que eu trajara na noite passada. O couro com ornamentos em alto-relevo era tão suave que aprecia que ia derreter entre os meus dedos.
Os cadarços velhos e partidos nas minhas botas recém-limpas haviam sido trocados, e a bainha de ombro de Walther estava aninhada junto ao meu peito, reluzindo como no dia em que Greta a havia dado a ele.
— Relíquia de família? — perguntou-me Vilah.
Elas duas olhavam para mim com hesitação, como se tivessem visto alguma coisa dolorida na minha expressão quando coloquei a bainha no ombro. As mulheres eram tão bondosas quanto o capitão Hague era detestável. Sorri e assenti, tentando apagar qualquer tristeza que tivessem visto.
— Estou pronta.
Elas se ofereceram para me levar a um passeio e conhecer melhor o posto avançado, que ficava contido dentro de uma grande muralha oval. A minha e a tenda de Rafe ficavam bem do lado de fora dos alojamentos dos oficiais e da sala de jantar. Elas apontaram para as fileiras dos alojamentos dos soldados, para o bangalô do cirurgião e, ali entre todos eles, a cozinha. Fomos até um amplo portão que dava para o nível inferior do posto avançado. Depois de apontar para os celeiros, os cercados e o jardim do cozinheiro, elas me mostraram as gaiolas onde os Valsprey ficavam. Eram pássaros impressionantes com uma plumagem branca, garras afiadas e um olhar fixo e intimidante. Eles tinham uma faixa preta de penas acima dos reluzentes olhos vermelhos. Vilah me disse que eles eram rápidos no voo com envergaduras de um metro e meio.
— Essas aves conseguem voar milhares de quilômetros sem parar. É com elas que enviamos mensagens entre o posto avançado e a capital.
Quando perguntei se os pássaros podiam ser enviados a qualquer lugar, ela me disse que eram treinados apenas para voarem até determinados destinos. Eles viraram suas cabeças de um jeito estranho, observando-nos enquanto passávamos por eles.
Abaixo da muralha dos fundos ficava o rio que se estendia atrás do posto avançado. Demos a volta para o nível superior, e elas me mostraram a lavanderia, que era imensa, o que não me deixou surpresa, dado o caso de amor que eles tinham com as roupas. Por fim nós chegamos à frente do posto avançado mais uma vez, perto do escritório do coronel Bodeen. Olhei para as pequenas e altas janelas e me perguntei que “medidas” eles teriam discutido.
— Podemos ir até lá fora? — perguntei, apontando para o portão da torre de vigia. Rafe havia me dito que nômades acampavam com frequência perto das muralhas do posto avançado. Eu não havia visto os vagões de Dihara quando nos aproximamos do posto ontem, mas, na verdade, tinha visto pouca coisa além do fluxo de pessoas saindo para se encontrarem conosco. Agora eu me perguntava se ela e o restante do seu grupo poderiam estar ali fora em algum lugar naquela cidade improvisada.
— É claro — disse Adeline, animada. Havia uma pequena porta aberta no imenso portão da torre de vigia e, conforme as ordens de Rafe, quatro soldados guardavam-no. Cada um deles segurava uma alabarda bem-polida. Eles deixavam outros soldados passarem por ali livremente, mas os mercadores podiam apenas deixar mensagens e depois eram mandados de volta.
Conforme nos aproximávamos, eles cruzaram as alabardas, que emitiram cliques, como uma máquina bem sincronizada para bloquear a nossa passagem.
— James! — disse Adeline em um tom de reprovação. — O que estão fazendo? Afastem-se. Nós vamos...
— Você e Vi podem passar — foi a resposta dele — mas sua Alteza somente com uma escolta. Ordens do rei.
Franzi o rosto. Rafe temia que houvesse mais Rahtans lá fora.
— Essas damas não contam como minhas escoltas? — perguntei.
— Escoltas armadas — esclareceu ele.
Olhei de um jeito exagerado para as adagas que estavam nas laterais dos corpos de cada uma de nós. Nós estávamos armadas.
James balançou a cabeça em negativa. Aparentemente nossas armas não eram o bastante.

* * *

Era estranho caminhar em meio a vagões de mercadores com seis guardas com rostos sérios portando alabardas afiadas e pontiagudas, mas tivemos sorte por James ter reunido esses guardas, porque nenhum dos quatro que estavam no portão deixariam seu posto.
A pequena cidade de vagões me fazia lembrar de algumas formas de jehendra. Um pouco de cada coisa para todo mundo e para todos os gostos: comidas grelhadas, tecidos, mercadorias de couro, tendas de jogos do azar, bebidas exóticas, até mesmo um serviço de escrita de cartas para soldados que quisessem enviar para seus lares missivas escritas com um toque de elegância. Outros mercadores estavam ali apenas para vender mercadorias para o posto avançado em si e depois seguirem seus caminhos.
Eu ainda estava ponderando se esse posto avançado parecia quebrar o tratado que exigia que não houvesse habitações permanentes no Cam Lanteux. Por que a família de Eben havia sido incendiada quando aqui mesmo, nessa imensidão inóspita, havia uma estrutura que abrigava centenas de pessoas?
Quando questionei Adeline em relação a isso, um dos guardas ouviu minha pergunta e me respondeu no lugar dela.
— Não há nenhum residente permanente aqui. Nós nos revezamos com regularidade para dentro e para fora daqui. — A explicação dele soava como uma brecha explorada pelos bem armados e poderosos.
Eu me lembrava de Regan falando sobre os acampamentos onde as patrulhas descansavam, mas eu sempre os havia visualizado como sendo lugares de habitação temporária, compostos de cabanas de lama, tendas trêmulas e soldados atingidos pelo sopro dos ventos que se aninhavam ali para se protegerem das intempéries. Agora eu me perguntava se Morrighan também tinha brechas assim e se os seus acampamentos eram mais permanentes do que eu acreditava que fossem.
Perguntei sobre o paradeiro dos acampamentos dos nômades em meio aos mercadores enquanto caminhávamos, e sempre era dirigida para uma curta caminhada de distância, mas nenhum deles eram os nômades pelos quais eu procurava.
— O acampamento de nômades no qual Dihara é a líder — falei por fim a um velho homem que estava socando padrões em uma rédea de couro.
Ele parou um pouco de fazer seu trabalho e usou o cinzel para apontar ainda mais adiante pela muralha abaixo.
— Ela está ali. Naquela ponta. — Meu coração deu um pulo no peito, mas apenas por um instante. As rugas dele acentuaram-se com um inconfundível ar sombrio. Corri na direção que ele me indicara, com Vilah, Adeline e os soldados esforçando-se para me acompanhar.
Quando encontramos o acampamento, entendi a expressão sombria do velho. O acampamento estava enfiado debaixo de extensos pinheiros, mas não havia qualquer sino pendurado neles. Nenhuma fita pintada nem cobre socado e retorcido dos galhos. Não havia nem mesmo um bule fumegante no meio de tudo aquilo. Apenas três carvachis tostadas.
carvachi de Reena agora estava mais preta do que púrpura. Ela estava sentada em cima de uma tora perto do anel de fogo, junto com uma das jovens mães. Ali perto, Tevio raspava a terra com um galho afiado. Atrás das carvachis, avistei um dos homens cuidando dos cavalos com uma criança nos quadris. Não havia qualquer alegria.
Virei-me para os guardas e implorei que eles ficassem para trás.
— Por favor — falei. — Alguma coisa está errada.
Eles analisaram os arredores e, relutantes, concordaram em manter certa distância. Adeline e Vilah plantaram-se na frente deles como se fossem uma própria forma de salvaguarda, uma linha que não deveria ser cruzada.
Aproximei-me de Reena, com o coração martelando no peito.
— Reena?
O rosto dela ficou radiante, e ela deu um pulo para me abraçar, apertando-me plenamente junto ao seu peito como se nunca fosse me soltar. Quando ela me soltou e olhou para mim outra vez, seus olhos brilhavam.
— Chemi monsé Lia! Oue vifar!
— Sim, estou viva, mas o que foi que aconteceu aqui?
Fitei o vagão tostado dela.
A essa altura, vários outros haviam se juntado a nós, inclusive Tevio, que estava puxando minha saia. Reena puxou-me para perto do fogo para que eu sentasse na tora e me contou o que havia acontecido.
Cavaleiros vieram. Vendanos. Homens que ela nunca tinha visto antes. Dihara saiu para se encontrar com eles, mas eles não queriam saber de conversa. Os homens ergueram uma faca pequena. Disseram que a ajuda aos inimigos de Venda não podia ficar sem vingança. Eles mataram metade dos cavalos, atearam fogo nas tendas e nos vagões e foram embora. Ela e os outros apanharam cobertas e o que quer que fosse para bater nas chamas e apagá-las, mas as tendas se foram quase que instantaneamente. Eles conseguiram salvar três das carvachis.
Desde o instante em que ele mencionara a pequena faca, um gosto enjoativo e salgado formou-se na minha língua. A faca de Natiya. Quando Reena terminou de falar, eu me levantei, incapaz de conter a minha raiva. Uma morte não era boa o bastante para o Komizar! Eu queria matá-lo de novo! Soquei com o punho cerrado na lateral de madeira da carvachi, com a fúria passando por mim como uma garra.
— Aida monsé, neu, neu, neu. Você não deve ficar se doendo por causa disso — disse Reena, me puxando para longe do carvachi. Ela olhou para as lascas que eu tinha nas minhas mãos e envolveu-as no seu cachecol. — Nós vamos nos recuperar disso. Dihara disse que isso foi uma situação que nenhum de nós podia prever.
— Dihara? Onde está ela? Ela está bem?
As mesmas linhas sombrias que eu vira no velho homem espalharam-se pelo rosto de Reena.
Meus joelhos ficaram fracos.
— Não. — Falei, balançando a cabeça.
— Ela está viva — apressou-se a dizer Reena, para corrigir o que eu havia presumido. E então acrescentou: — mas talvez não por muito tempo. Ela está velha, e ao sair apagando as chamas, seu coração falhou. Até mesmo agora, as batidas estão fracas. O curandeiro do posto avançado veio vê-la, que os deuses o abençoem, mas não havia nada que ele pudesse fazer.
— Onde ela está?

* * *

O interior do carvachi estava pouco iluminado, exceto por uma chama azul que tremeluzia em uma tigela de gordura de velas docemente perfumadas, para afastar o cheiro de morte. Carreguei para dentro comigo um balde de água quente no qual flutuavam folhas pungentes.
Dihara estava apoiada em travesseiros na cama nos fundos da carroça, leve como uma pluma, como se fossem cinzas a serem sopradas para longe. Senti a morte pairando nos cantos, espreitando. Esperando. Sua longa trança prateada era a única força que eu via, uma corda que a mantinha ancorada junto aos vivos. Puxei uma banqueta para perto e assentei o balde no chão. Ela abriu os olhos.
Vocês ouviram a menina. Alguém arrume um pouco de queijo de cabra para ela.
As primeiras palavras que eu a ouvira dizer inchavam-se no meu peito. Vocês ouviram a menina.
Ela foi uma das poucas que algum dia me deu ouvidos.
Mergulhei um trapo dentro do balde e o espremi.
Limpei a testa dela com ele.
— Você não está bem.
Os olhos pálidos dela buscaram a minha face.
— Você viajou por um grande caminho e ainda tem mais um longo trajeto a seguir. — A respiração dela ficou fraca, e ela piscou devagar. — Muito longo.
— Eu só viajei até aqui por causa da força que você me deu.
— Não — disse ela em um sussurro. — A força sempre esteve em você, enterrada lá no fundo.
As pálpebras dela se fecharam, como se o seu peso fosse demais para ela.
Enxaguei e o trapo e limpei dela, onde as dobras as dobras elegantes marcavam os dias que ela havia passado nesta terra, as belas linhas povoando seu rosto como um mapa belamente desenhado, mas agora, neste momento, ela não era velha o bastante. Nem um pouco. Este mundo ainda precisava demais dela. Dihara não podia partir. Então ela trouxe devagar a sua mão para cima da minha, fria e leve como papel.
— A criança, Natiya. Fale com ela — disse Dihara. — Não permita que ela carregue a culpa por minha causa. O que ela fez foi certo. A verdade veio em círculos e reuniu-se nos braços dela.
Ergui a mão fina e fantasmagórica dela junto aos meus lábios, apertando os olhos bem fechados. Assenti, engolindo a dor que estava na minha garganta.
— Já chega — disse ela, puxando a mão para longe. — Eu quase fui comida por lobos. Contei isso a você? Eristle me ouviu gritando no bosque. Quando os céus tremeram com o trovão, ela me ensinou a calar... — Os olhos dela se abriram, suas pupilas eram como luas negras flutuando em um círculo de cinza, e ela balançou a cabeça com fraqueza. — Não, essa é a minha história, não a sua. A sua história está chamando por você. Siga seu caminho.
— Por que eu, Dihara?
— Você já tem a resposta a essa pergunta. Tinha de ser alguém. Por que não você?
Essas eram as mesmas palavras que Venda havia falado para mim. Dedos frios dançavam pela minha coluna. Esse mundo, ele nos inspira... nos conhece e depois nos exala de novo... nos partilha.
Os olhos dela se fecharam, e sua língua voltou a falar no idioma nativo, com a voz tão fraca quanto o tremeluzir da vela.
— Jei zinterr... jei trévitoria.
Seja valente. Seja vitoriosa.
Levantei-me para ir embora. Eu sentia que era impossível ser qualquer uma das duas coisas.

5 comentários:

  1. Lia parece incapaz de ver o que tem que fazer nem que a verdade caia na cabeça dela como uma pedra!

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  2. Lia tem tomar uma decisão logo...

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  3. Por que a família de Eben havia sido incendiada quando aqui mesmo, nessa imensidão inóspita, havia uma estrutura que abrigava centenas de pessoas?

    Exatamente.. Dalbreck me parece mais do que ambiciosa.. Penso que usariam o casamento apenas pelas terras.. E se ñ conseguissem. Com certeza invadiriam Morrighan.. Sei ñ.. Só ñ confio.

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  4. Pra mim isso tá parecendo só uma prisão mais luxuosa..a lia tem q sair daí logo e seguir seu caminho

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Boa leitura, E SEM SPOILER!