24 de fevereiro de 2018

Capítulo 22

Querida mãe,
Desculpe se faz algum tempo desde que entrei em contato pela última vez. Estamos trabalhando dia e noite nesse negócio com os chineses, e eu tenho passado muito tempo acordado à noite, lidando com os diferentes fusos horários. Se pareço um pouco cansado, é porque estou de fato. Recebi o bônus, o que foi muito bom (estou mandando uma parte para Georgina, para que ela possa comprar o carro que quer), mas, nas últimas semanas, eu me dei conta de que não estou mais me sentindo bem aqui.
Não é que eu não goste do estilo de vida — e você sabe que eu nunca tive medo de trabalho pesado. É só que eu sinto saudade de muitas coisas da Inglaterra. Sinto falta do senso de humor. Sinto falta dos almoços de domingo. Sinto falta do sotaque inglês, pelo menos o verdadeiro (você não iria acreditar na quantidade de gente que soa mais cheia de pompa do que Sua Majestade). Gosto de passar o fim de semana em Paris, Barcelona ou Roma. E essa coisa de ser expatriado é muito chata. Na bolha do mercado financeiro acabamos sempre dando de cara com as mesmas pessoas, seja em Nantucket ou Manhattan. Sei que você acha que eu tenho um tipo, mas aqui é quase cômico: loura, manequim 36, guarda-roupa padronizado, aula de Pilates...
Então, é o seguinte: você se lembra do Rupe? Aquele meu amigo do Churchill? Ele me disse que tem uma vaga na empresa dele. O chefe dele está vindo para cá em duas semanas e quer me conhecer. Se tudo der certo, talvez eu esteja de volta à Inglaterra antes do que você esperava.
Eu adorei Nova York. Mas tudo tem seu tempo. E acho que eu já tive o meu.
Com amor.
Beijo, W

* * *

Nos dias seguintes, liguei para me informar a respeito das vagas que vi no Craigslist, mas a mulher gentil procurando uma babá desligou quando soube que eu não tinha referências, e os trabalhos de garçonete já estavam preenchidos quando liguei. A vaga de assistente na loja de sapatos continuava disponível, mas o homem com quem falei me disse que o salário seria dois dólares a menos por hora por conta da minha falta de experiência relevante no varejo, e eu calculei que com isso mal sobraria o suficiente para o transporte. Eu passava as manhãs na lanchonete e as tardes na biblioteca de Washington Heights, que era silenciosa e aquecida e, exceto por aquele único guarda, ninguém olhava para mim como se eu estivesse prestes a cantar bêbada ou a fazer xixi em um canto.
A cada dois dias, eu encontrava com Josh para almoçar no bar especializado em noodles ao lado do trabalho dele, o atualizava sobre a minha procura por trabalho e tentava ignorar que, em sua presença imaculadamente bem-vestida e profissional, eu me sentia cada vez mais uma loser desleixada que dorme no sofá dos outros.
— Você vai ficar bem, Louisa. Segura a onda — dizia ele e me beijava ao sair, como se, de alguma forma, nós já tivéssemos concordado em ser namorados.
Com tantas coisas para pensar, eu não conseguia refletir a respeito do que isso significava. Sendo assim, eu achava que, ao contrário de tudo o mais na minha vida, isso não era algo necessariamente ruim e o assunto podia ficar na gaveta por enquanto. Além disso, Josh sempre tinha um hálito muito agradável e refrescante de hortelã.
Eu não poderia ficar no quarto de Nathan por muito mais tempo. Na manhã anterior, eu havia acordado com um braço enorme jogado em cima de mim e alguma coisa dura pressionando minha lombar. O muro de almofadas parecia ter desaparecido, migrando para uma pilha caótica aos nossos pés. Fiquei paralisada, tentando me desvencilhar discretamente de suas garras sonolentas, quando ele abriu os olhos, olhou para mim e pulou da cama como se tivesse levado uma ferroada, com um travesseiro no meio das pernas.
— Cara. Eu não queria... eu não estava tentando...
— Não sei do que você está falando! — reforcei, vestindo um moletom. Eu não podia olhar para ele se...
Ele estava saltando de um pé para o outro.
— Eu só estava... eu não me dei conta de que... ah, cara. Ai, meu Deus.
— Tudo bem! Seja como for eu precisava acordar!
Saltei da cama e passei dez minutos escondida dentro do banheiro minúsculo, o rosto ardendo de vergonha enquanto o ouvia fazendo barulho ao se vestir. Quando saí, ele não estava mais lá.
Qual era o sentido de tentar ficar, afinal? Eu só podia dormir no quarto de Nathan por mais uma ou duas noites, no máximo. Aparentemente, mesmo que tivesse sorte suficiente para encontrar outro emprego, o melhor que eu poderia esperar era um salário mínimo e dividir com alguém um apartamento infestado de baratas e percevejos. Se eu voltasse para casa, pelo menos poderia dormir no meu próprio sofá. Talvez Treen e Eddie estivessem apaixonadas o bastante para quererem morar juntas, e então eu recuperaria meu apartamento. Tentei não pensar na sensação dos quartos vazios e de voltar para onde eu estava seis meses antes, sem falar na proximidade com o local de trabalho de Sam. Cada sirene que escutasse seria uma lembrança amarga do que eu havia perdido.
Tinha começado a chover, mas eu diminuí o passo ao me aproximar do edifício e, por baixo da aba do meu chapéu de lã, olhei para as janelas dos Gopnik. As luzes ainda estavam acesas, embora Nathan tivesse me dito que os dois estavam em um evento de gala. A vida havia continuado para eles com tanta tranquilidade como se eu nunca tivesse existido. Talvez nesse momento Ilaria estivesse passando o aspirador de pó, ou reclamando das revistas de Agnes espalhadas pelas almofadas do sofá. Os Gopnik — e aquela cidade — haviam me sugado e cuspido em seguida. Apesar de todas as palavras carinhosas, Agnes tinha me descartado tão completa e absolutamente como uma lagarta trocando de pele — sem nem sequer olhar para trás.
Se eu não tivesse vindo, pensei, irritada, que talvez ainda tivesse uma casa. E um emprego. Se não tivesse vindo, ainda estaria com Sam.
Esse pensamento me deixou ainda mais sombria; curvei os ombros e enfiei as mãos geladas nos bolsos, preparada para voltar para a minha acomodação temporária, um quarto onde eu precisava entrar às escondidas e uma cama que eu precisava dividir com alguém que entrava em pânico se tocasse em mim.
Minha vida havia se tornado uma coisa ridícula, uma piada ruim passando em looping. Esfreguei os olhos, sentindo a chuva gelada na pele. Ia marcar minha passagem naquela noite e voltaria para casa no próximo voo. Ia engolir o choro e recomeçar. Eu não tinha escolha.
Tudo tem seu tempo.
Foi quando vi Dean Martin. Ele estava parado no carpete sob o toldo que levava ao edifício, tremendo sem agasalho e olhando ao redor, como se decidisse aonde ir. Dei um passo em sua direção, espiando para dentro do saguão, mas o porteiro da noite estava ocupado separando alguns pacotes e não o vira. Não vi a Sra. De Witt em nenhum lugar. Rapidamente me aproximei, me abaixei e o peguei no colo antes que ele pudesse se dar conta do que eu estava fazendo. Segurando seu corpo agitado nas mãos, com os braços estendidos, entrei correndo e subi depressa a escada dos fundos para devolvê-lo para ela, cumprimentando o porteiro da noite com um aceno de cabeça ao passar.
Era um motivo válido para eu estar ali, mas saí apreensiva da escada no corredor dos Gopnik. Se eles voltassem de repente e me vissem ali, será que o Sr. Gopnik concluiria que eu estava aprontando alguma coisa? Ele me acusaria de invasão? Minha presença no corredor deles valeria como tal? Eram as perguntas que passavam pela minha cabeça enquanto Dean Martin se contorcia furiosamente e tentava morder meus braços.
— Sra. De Witt? — chamei baixinho, olhando para trás.
A porta da frente dela estava entreaberta novamente, e eu entrei, erguendo a voz.
— Sra. De Witt? Seu cachorro fugiu de novo.
Ouvi a televisão alta invadindo o corredor e dei mais uns passos para dentro do apartamento.
— Sra. De Witt?
Como não ouvi resposta, fechei a porta cuidadosamente atrás de mim e coloquei Dean Martin no chão, não querendo segurá-lo por mais tempo do que o necessário. Ele saiu trotando na direção da sala de estar.
— Sra. De Witt?
Primeiro vi a perna, esticada no chão ao lado da poltrona. Levei um instante para registrar o que havia diante de mim. Então corri até a frente da poltrona e me joguei no chão, o ouvido colado em sua boca.
— Sra. De Witt? — chamei. — Está me ouvindo?
Ela estava respirando. Mas seu rosto estava branco-azulado, feito mármore. Eu me perguntei brevemente por quanto tempo ela devia estar ali.
— Sra. De Witt? Acorde! Ah, meu Deus... acorde!
Corri pelo apartamento, procurando o telefone. Estava no corredor, em cima de uma mesa que também continha várias agendas telefônicas. Liguei para a emergência e expliquei o que havia encontrado.
— Tem uma equipe a caminho, senhora — disse a pessoa do outro lado da linha. — Pode ficar com a paciente e deixar o pessoal entrar?
— Sim, sim, sim. Mas ela é muito velhinha e frágil e está gelada. Por favor, venham logo.
Corri, peguei uma colcha no quarto e coloquei por cima dela, tentando lembrar o que Sam me dissera sobre como cuidar de idosos que haviam sofrido uma queda. Um dos maiores riscos era morrerem de frio por ficarem descobertos durante horas. E ela parecia muito gelada, mesmo com o aquecimento central do prédio ligado no máximo. Eu me sentei no chão ao lado dela e segurei sua mão gelada, acariciando-a gentilmente, tentando fazer com que ela soubesse que havia alguém ali. De repente, uma dúvida passou pela minha cabeça: se ela morresse, iriam me culpar? O Sr. Gopnik testemunharia que eu era uma criminosa, afinal. Por um segundo me perguntei se não deveria sair dali, mas eu não podia deixá-la.
No meio da minha torturante série de pensamentos ela abriu um olho.
— Sra. De Witt?
Ela piscou para mim, como se estivesse tentando entender o que havia acontecido.
— Sou eu, Louisa. A do outro lado do corredor. Está com dor?
— Não sei... meu... meu pulso — disse ela baixinho.
— A ambulância está a caminho. A senhora vai ficar bem. Vai ficar tudo bem.
Ela me lançou um olhar vazio, como se estivesse tentando compreender quem eu era e se o que eu estava dizendo fazia algum sentido. Então franziu a testa.
— Onde ele está? Dean Martin? Onde está o meu cachorro?
Olhei ao redor da sala. O cachorrinho estava deitado no canto, examinando ruidosamente os próprios genitais. Levantou a cabeça quando ouviu seu nome e se endireitou.
— Ele está bem ali. Está bem.
Ela fechou os olhos, aliviada.
— Pode tomar conta dele? Se eu precisar ir para o hospital? Eu vou para o hospital, não vou?
— Vai, sim. E claro que posso.
— Tem uma pasta no meu quarto que você precisa entregar a eles. Na minha mesa de cabeceira.
— Sem problemas. Farei isso.
Fechei a mão ao redor da dela. E com Dean Martin da porta olhando para mim com desconfiança — bom, para mim e para a lareira —, ficamos esperando em silêncio pela chegada dos paramédicos.

* * *

Fui até o hospital com a Sra. De Witt, deixando Dean Martin no apartamento, já que ele não podia entrar na ambulância. Depois que a papelada estava resolvida, e a instalaram devidamente, voltei para o Lavery, garantindo a ela que tomaria conta do cachorro. Apareceria de manhã para dizer como ele estava. Os olhinhos azuis dela se encheram de lágrimas enquanto dava instruções sobre a comida, os passeios, o que ele gostava e não gostava, até os paramédicos pedirem que parasse de falar, insistindo que ela precisava descansar.
Peguei o metrô de volta para a Quinta Avenida, ao mesmo tempo exausta e ligada de adrenalina. Entrei no apartamento usando a chave que a Sra. De Witt havia me dado. Dean Martin estava esperando no corredor, de pé nas quatro patas, o corpo compacto irradiando desconfiança.
— Boa noite, garoto! Quer jantar? — perguntei, como se fosse uma velha amiga dele e não alguém que esperasse perder um pedaço das canelas.
A caminho da cozinha, passei por ele fingindo segurança, e lá tentei decifrar as instruções quanto à quantidade correta de frango cozido e ração que eu havia anotado nas costas da mão.
Coloquei a comida no prato dele e a empurrei em sua direção com o pé.
— Aí está! Bom apetite!
Ele ficou me encarando, os olhos saltados tristes e rebeldes, a testa repleta de rugas de preocupação.
— Comida! Nham!
Ele continuou me encarando.
— Não está com fome ainda, hein?
Saí lentamente da cozinha. Precisava definir onde eu iria dormir.
O apartamento da Sra. De Witt tinha aproximadamente metade da área do apartamento dos Gopnik. Mas isso não queria dizer que fosse pequeno. Tinha uma enorme sala de estar com janelas do chão ao teto com vista para o Central Park, decorada em tons de bronze e vidro fumê, como se tivesse sido projetada nos tempos do Studio 54. Havia uma sala de jantar mais formal, cheia de antiguidades que exibiam uma camada de poeira, o que sugeria que nada era usado havia gerações. Uma cozinha de melamina e fórmica, uma área de serviço e quatro quartos, incluindo a suíte principal, que tinha um banheiro e um quarto de vestir de bom tamanho do lado de fora. Os banheiros eram ainda mais antigos do que os dos Gopnik — e com vazamentos imprevisíveis. Dei a volta no apartamento com a reverência silenciosa e peculiar de estar na casa desocupada de alguém que eu não conhecia direito.
Quando cheguei ao quarto principal, respirei fundo. Estava cheio, três paredes e meia de roupas cuidadosamente guardadas em araras, cobertas de plástico e penduradas em cabides almofadados. O quarto de vestir era uma profusão de cores e tecidos, pontuados acima e abaixo por prateleiras com pilhas de bolsas, caixas de chapéu e sapatos combinando. Percorri lentamente o perímetro, passando a ponta dos dedos pelos tecidos, fazendo pausas ocasionais para puxar com cuidado uma manga ou empurrar um cabide para ver cada roupa melhor.
E não eram apenas aqueles dois quartos. Com o pequeno pug trotando desconfiadamente atrás de mim, entrei em dois dos outros cômodos e encontrei mais: fileiras e mais fileiras de vestidos, ternos, casacos e boás, em armários compridos com ar-condicionado. Nas etiquetas, Givenchy, Biba, Harrods e Macy’s, sapatos Saks Fifth Avenue e Chanel. Havia etiquetas das quais eu nunca tinha ouvido falar — francesas, italianas, até russas. Roupas de diversas épocas: terninhos quadrados e discretos estilo Kennedy, túnicas fluidas, paletós de ombros marcados. Espiei dentro de caixas e encontrei chapéus e turbantes, imensos óculos de sol com armação de jade e delicados fios de pérola. Como não estavam arrumados de algum modo específico, simplesmente me joguei naquilo tudo, tirando coisas aleatoriamente, desdobrando papéis de seda, sentindo os tecidos, o peso, o cheiro mofado de perfume velho, levantando as peças para admirar os cortes e as estampas.
No espaço de parede que ainda era visível acima das prateleiras, vi desenhos de roupas emoldurados, capas de revistas dos anos cinquenta e sessenta com modelos radiantes e magras usando vestidos psicodélicos ou camisas cinturadas incrivelmente justas. Devo ter ficado uma hora ali até me dar conta de que não havia localizado outra cama. Mas, no último quarto, lá estava ela, coberta de peças de roupa descartadas — uma cama de solteiro estreita, possivelmente dos anos cinquenta, com uma cabeceira de nogueira ornamentada. No quarto também havia um guarda-roupa e uma cômoda combinando. E ainda mais quatro araras do tipo mais básico e, junto delas, caixas e mais caixas de acessórios: bijuterias, cintos e echarpes. Tirei algumas cuidadosamente de cima da cama e me deitei, sentindo o colchão ceder no mesmo instante, como costumam fazer os colchões velhos, mas não me importei. Basicamente, eu estaria dormindo em um guarda-roupa. Pela primeira vez em vários dias, me esqueci de ficar deprimida.
Pelo menos por uma noite, eu estava no país das maravilhas.

* * *

Na manhã seguinte, dei comida para Dean Martin e passeei com ele, tentando não me ofender por ele ter percorrido a Quinta Avenida inteira andando na diagonal, com um olho sempre fixo em mim, como se esperasse por alguma transgressão, e depois fui para o hospital, ansiosa para tranquilizar a Sra. De Witt de que seu bebê estava bem, ainda que permanentemente preparado para a maldade. Decidi que seria melhor não contar a ela que a única maneira de convencê-lo a comer o café da manhã tinha sido ralar queijo Parmigiano-Reggiano por cima.
Quando cheguei ao hospital, fiquei aliviada por encontrá-la com um tom rosado mais humano, ainda que seu rosto estivesse estranhamente sem forma sem a maquiagem e a peruca de costume. Ela de fato havia fraturado o pulso e estava com uma cirurgia marcada. Depois do procedimento ela ficaria no hospital por mais uma semana, em virtude do que os médicos chamaram de “complicadores”. Quando revelei que não era da família, se recusaram a dizer mais qualquer coisa.
— Você pode tomar conta do Dean Martin? — perguntou ela, o rosto tenso de ansiedade.
Ele havia sido a preocupação principal dela no período em que eu não estive lá.
— Será que não podem deixar você entrar e sair para vê-lo durante o dia? Você acha que Ashok pode passear com ele? Ele vai se sentir muito sozinho. Não está acostumado a ficar sem mim.
Eu havia me perguntado se devia dizer a verdade a ela. Mas verdade era algo que estava em falta no nosso prédio ultimamente, e eu queria que tudo fosse transparente.
— Sra. De Witt — comecei — preciso contar uma coisa para a senhora. Eu... eu não trabalho mais para os Gopnik. Fui demitida.
A cabeça dela deitou um pouco no travesseiro. Ela repetiu a palavra baixinho, como se não a conhecesse.
Demitida?
Engoli em seco.
— Acharam que eu havia roubado dinheiro deles. Tudo o que posso lhe dizer é que não roubei. Mas acho que o correto é contar, porque talvez a senhora decida que não quer a minha ajuda.
— Bem — disse ela baixinho. E mais uma vez: — Bem.
Ficamos ali sentadas em silêncio por um tempo. Então ela estreitou os olhos.
— Mas você não fez isso.
— Não, senhora.
— Tem outro emprego?
— Não, senhora. Estou à procura.
Ela balançou a cabeça.
— Gopnik é um tolo. Onde você está morando?
Olhei para os lados.
— Ahn... eu... bom, na verdade estou ficando no quarto de Nathan, no momento. Mas não é o ideal. Nós não somos... sabe... envolvidos romanticamente. E, é claro, os Gopnik não sabem disso.
— Bem, parece que podemos fazer um arranjo bom para nós duas. Você pode cuidar do meu cachorro? E talvez continuar procurando emprego do meu lado do corredor? Só até eu voltar para casa?
— Sra. De Witt, eu adoraria.
Não consegui esconder o sorriso.
— Você terá que cuidar dele melhor do que antes, é claro. Vou deixar tudo anotado. Tenho certeza de que ele está terrivelmente inquieto.
— Vou fazer tudo o que a senhora disser.
— E preciso que você venha aqui diariamente para me dizer como ele está. É muito importante.
— Claro.
Com isso decidido, ela pareceu sossegar um pouco de alívio. Fechou os olhos.
— Não há tolo mais tolo do que um velho tolo — murmurou ela.
Eu não tinha certeza se ela se referia ao Sr. Gopnik, a ela mesma ou a outra pessoa. Então, esperei até que caísse no sono e voltei para o seu apartamento.


* * *

Durante toda a semana, me dediquei aos cuidados daquele pug de seis anos, desconfiado, de olhos arregalados e mal-humorado. Caminhávamos quatro vezes por dia, eu ralava queijo parmesão em cima do café da manhã dele e, depois de vários dias, ele abandonou o hábito de ficar parado em qualquer ambiente em que eu estivesse, me encarando com o cenho franzido, como se à espera de que eu fizesse algo inominável. Em dado momento, ele simplesmente começou a se deitar a alguns metros de distância, de onde ficava arfando suavemente. Eu ainda tinha um pouco de medo, mas também sentia pena dele. A única pessoa que ele amava havia desaparecido abruptamente, e não havia nada que eu pudesse fazer para garantir que ela voltaria para casa.
Além disso, era meio legal estar no prédio sem me sentir uma criminosa. Ashok, que estivera afastado por alguns dias, ouviu minha descrição dos eventos com choque, indignação e depois encantamento.
— Caramba, que sorte que você o encontrou! Ele poderia ter simplesmente desaparecido e ninguém saberia que ela estava caída no chão.
Ele estremeceu de maneira teatral.
— Quando ela voltar, vou começar a conferir todos os dias se ela está bem.
Nós nos entreolhamos.
— Nada a deixaria mais furiosa — falei.
— É, ela odiaria isso — disse ele, voltando ao trabalho.
Nathan fingiu ficar triste por ter o quarto de volta e levou minhas coisas para o apartamento com uma pressa quase indecorosa para me “economizar o trajeto” de cerca de seis metros. Acho que ele só queria se certificar de que eu estava realmente indo embora. Deixou minhas malas e espiou ao redor do apartamento, olhando com espanto para as paredes de roupas.
— Quanta tralha! — exclamou ele. — Isso aqui é tipo o maior brechó do mundo. Cara, eu detestaria ser da empresa de limpeza contratada para se livrar dessas coisas quando a velha bater as botas.
Mantive o sorriso fixo e equilibrado.
Ele contou a Ilaria, que bateu na minha porta no dia seguinte para saber notícias da Sra. De Witt, então me pediu que levasse para ela uns bolinhos que havia assado.
— A comida nesses hospitais é capaz de deixar a pessoa doente — disse ela, dando um tapinha no meu braço e saindo rapidamente antes que Dean Martin conseguisse mordê-la.
Ouvi Agnes tocando piano do outro lado do corredor. Certa vez, uma peça bonita que parecia tranquila e melancólica. Outra vez, algo apaixonado e furioso. Pensei nas várias ocasiões em que a Sra. De Witt havia atravessado o corredor e exigido furiosamente o fim do barulho. Desta vez, a música parou de repente sem sua intervenção, com Agnes aparentemente martelando as teclas com as mãos. De vez em quando, eu ouvia vozes elevadas, e levei alguns dias para convencer meu corpo de que a minha adrenalina não precisava se elevar com a deles, que aquelas pessoas não tinham mais nada a ver comigo.
Passei pelo Sr. Gopnik apenas uma vez no saguão principal. Ele não me viu, então olhou uma segunda vez, aparentemente preparado para se opor à minha presença ali. Ergui o queixo e segurei a ponta da guia de Dean Martin.
— Estou ajudando a Sra. De Witt com o cachorro — falei, com o máximo de dignidade que consegui reunir.
Ele olhou para Dean Martin, cerrou o maxilar e se virou como se não tivesse me escutado. Ao seu lado, Michael olhou para mim e então voltou a atenção para o celular.

* * *

Josh foi até o apartamento na sexta-feira à noite depois do trabalho, levando comida pronta e uma garrafa de vinho. Ele ainda estava de terno — trabalhando até tarde a semana inteira, disse. Como ele e um colega estavam disputando uma promoção, ele passava quatorze horas por dia no escritório e estava pensando em ir no sábado também. Olhou ao redor, erguendo as sobrancelhas para a decoração.
— Bom, babá de cachorro era um trabalho que eu certamente não havia considerado — observou ele enquanto Dean Martin o seguia, desconfiado.
Ele deu a volta lentamente na sala, pegando o cinzeiro de ônix e a sinuosa escultura de mulher africana, colocando os objetos de volta no lugar e observando atentamente as pinturas douradas nas paredes.
— Não estava no topo da minha lista também.
Fiz uma trilha de biscoitos caninos até o quarto principal e fechei o cachorrinho lá dentro até que se acalmasse.
— Mas estou tranquila com isso.
— E como você está?
— Melhor! — respondi, indo para a cozinha.
Eu vinha querendo mostrar a Josh que era mais do que a caçadora de trabalho desarrumada e permanentemente bêbada com quem ele se encontrou na última semana. Por isso, coloquei meu vestido preto estilo Chanel com gola e punhos brancos, meus Mary Janes verde-esmeralda de couro de crocodilo falso e sequei e alisei bem o cabelo.
— Bem, você está uma graça — disse ele, vindo atrás de mim.
Ele colocou a garrafa e a sacola de lado na cozinha, então se aproximou de mim, ficando a tão poucos centímetros de distância que seu rosto preencheu meu campo de visão.
— E, sabe, nada sem-teto. O que é sempre um bom visual.
— Temporariamente, pelo menos.
— Então isso quer dizer que você vai ficar aqui por mais um tempo?
— Quem sabe?
Ele estava a poucos centímetros de mim. Tive uma repentina lembrança sensorial de ter enterrado o rosto no pescoço dele uma semana antes.
— Você está ficando cor-de-rosa, Louisa Clark.
— É porque você está muito perto de mim.
— Eu provoco isso em você?
A voz dele ficou mais baixa e ele ergueu a sobrancelha. Então deu um passo para ainda mais perto e colocou as mãos em cima do balcão da cozinha, uma de cada lado dos meus quadris.
— Pelo jeito — falei, mas minha voz saiu quase como uma tosse.
E então ele encostou os lábios nos meus e me beijou. Eu me apoiei nos armários da cozinha e fechei os olhos, absorvendo o hálito mentolado, a sensação ligeiramente estranha do corpo dele contra o meu, mãos desconhecidas apertando as minhas. Imaginei se essa seria a sensação de beijar Will antes do acidente. E então pensei que nunca mais beijaria Sam. Mas me dei conta de que provavelmente era bem ruim pensar em beijar outros homens quando se estava beijando um homem perfeitamente agradável naquele exato instante. Quando inclinei a cabeça um pouco para trás, ele parou e olhou nos meus olhos, tentando entender o que aquilo queria dizer.
— Desculpe — falei. — É... é só um pouco precipitado. Eu realmente gosto de você, mas...
— Mas você acabou de terminar com o outro cara.
— Sam.
— Que é claramente um idiota. E não é bom o bastante para você.
— Josh...
Ele tombou a testa para a frente, apoiando-a na minha. Não larguei sua mão.
— É que as coisas ainda parecem um pouco complicadas. Desculpe.
Ele fechou os olhos por um instante, então os abriu de novo.
— Você me diria se eu estivesse perdendo meu tempo? — perguntou ele.
— Você não está perdendo seu tempo. É só que... faz pouco mais de duas semanas.
— Muita coisa aconteceu em duas semanas.
— Bem, sendo assim, quem sabe onde nós vamos estar daqui a duas semanas?
— Você disse “nós”.
— Pelo visto sim.
Ele assentiu, como se fosse uma resposta satisfatória.
— Sabe — disse ele, quase para si mesmo — eu tenho essa sensação a nosso respeito, Louisa Clark. E eu nunca estou errado sobre essas coisas.
E então, antes que eu pudesse responder, soltou a minha mão e foi até os armários, que ele abriu e fechou em busca de pratos. Quando se virou, estava com um sorriso largo e radiante.
— Vamos comer?

* * *

Fiquei sabendo de muitas coisas a respeito de Josh naquela noite. Sobre sua criação em Boston, a carreira no beisebol da qual seu pai executivo meio irlandês o havia feito abrir mão por achar que o esporte não garantiria uma renda segura a longo prazo. Sobre a mãe dele, que, diferentemente das amigas, era uma advogada que não abandonou a carreira enquanto criava o filho, e que, já aposentados, seus pais estavam se acostumando a ficar juntos dentro de casa. Aparentemente, a convivência estava enlouquecendo os dois.
— Somos uma família de gente ativa, sabe? Então, meu pai já assumiu um papel executivo no clube de golfe, e minha mãe está dando aula para crianças na escola local. Qualquer coisa para não precisarem ficar olhando um para a cara do outro.
Josh tinha dois irmãos, ambos mais velhos. Um administrava uma concessionária da Mercedes perto de Weymouth, Massachusetts, e o outro era contador, como a minha irmã. Formavam uma família unida e competitiva, e ele havia odiado os irmãos com a fúria impotente do caçula torturado até os dois saírem de casa. Depois disso, Josh descobriu que tinha saudade dos dois ao sentir uma dor persistente e inesperada.
— Minha mãe diz que foi porque eu perdi a minha régua, pela qual eu sempre julgava tudo.
Agora os irmãos estavam casados, com dois filhos cada. A família se reunia nos feriados e alugava a mesma casa em Nantucket todo verão. Na adolescência, ele não gostava disso, mas agora era uma semana pela qual esperava com mais ansiedade a cada ano.
— É ótimo. As crianças, não ter que fazer nada e o barco... Você precisa ir — disse ele, servindo-se de mais char siu bao.
Ele falava sem timidez, um homem acostumado com as coisas fluindo à sua maneira.
— Para uma reunião de família? Achei que os homens de Nova York só quisessem saber de encontros casuais.
— É, bom, eu já fiz tudo isso. Além do mais, eu não sou de Nova York.
Josh parecia o tipo de homem que se dedica a tudo que faz. Trabalhava um milhão de horas por dia, lutava por promoções e ia para a academia antes das seis da manhã. Jogava beisebol com o time da empresa e estava pensando em fazer trabalho voluntário na escola local, como a mãe, mas tinha medo de não conseguir se comprometer com regularidade devido à agenda profissional. Ele passou pelo sonho americano como uma flecha: você trabalha duro, é bem-sucedido e ganha em troca. Tentei não fazer comparações com Will. Ao escutá-lo, ficava meio admirada, meio exausta.
No espaço entre nós, Josh pintou um quadro do seu futuro — um apartamento no Village, talvez uma casa de fim de semana nos Hamptons, se conseguisse os bônus certos. Ele queria um barco. Ele queria filhos. Ele queria se aposentar cedo. Ele queria ganhar um milhão de dólares antes dos trinta. Ele pontuou grande parte dessa conversa acenando com os hashis e recitando as frases “Você precisa ir!” ou “Você ia adorar”. Parte de mim ficava lisonjeada, mas eu estava especialmente grata por isso dar a entender que ele não ficou ofendido com a minha reticência anterior.
Ele foi embora às dez e meia, já que planejava acordar às cinco, e ficamos parados no corredor ao lado da porta da frente, com Dean Martin montando guarda a poucos metros de distância.
— E então, vamos conseguir encaixar um almoço? Mesmo com toda a história do cachorro e do hospital?
— Quem sabe nos vemos uma noite?
— Quem sabe nos vemos uma noite? — repetiu baixinho. — Adoro o seu sotaque inglês.
— Eu não tenho sotaque — retruquei. — Você tem.
— E você me faz rir. Não são muitas garotas que conseguem isso.
— Ah. Então você simplesmente não conheceu as garotas certas.
— Ah, acho que conheci.
Ele parou de falar e olhou para o alto, como se estivesse tentando não fazer alguma coisa. Depois sorriu, como que reconhecendo o que havia de ridículo em dois adultos chegando à casa dos trinta anos tentando não se beijar diante da porta. E o sorriso me bastou.
Levantei o braço e o toquei na nuca, muito levemente. E então fiquei na ponta dos pés e o beijei. Disse a mim mesma que não fazia sentido insistir em algo que havia acabado. Disse a mim mesma que duas semanas certamente era tempo o bastante para tomar uma decisão, ainda mais quando a outra pessoa ficou longe por meses e, portanto, disse a mim mesma que precisava seguir em frente.
Josh não hesitou. Ele me beijou de volta, deslizando lentamente as mãos pelas minhas costas, me empurrando contra a parede, para que eu ficasse deliciosamente presa a ele. Ele me beijou e me obriguei a parar de pensar e me entregar à sensação, ao corpo desconhecido, mais estreito e ligeiramente mais duro do que o outro que eu conhecia. A intensidade da sua boca na minha. Daquele americano bonito. Nós dois estávamos um pouco zonzos quando paramos para recuperar o fôlego.
— Se eu não for agora... — disse ele, dando um passo para trás, piscando com força, levando a mão à nuca.
Sorri. Desconfiava que meu batom estivesse por todo o meu rosto.
— Você precisa acordar cedo. A gente se fala amanhã.
Abri a porta e, depois de um último beijo na minha bochecha, ele seguiu pelo corredor principal.
Quando fechei a porta, Dean Martin continuava me encarando.
— O que foi? — perguntei. — O que foi? Eu estou solteira.
Ele abaixou a cabeça, enojado, se virou e seguiu para a cozinha.

21 comentários:

  1. Eu estava shipando. Mas agora que aconteceu, não me sinto preparada hahaha

    Mari Matias

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  2. Dean Martin s2 kkkkkkk

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  3. Ela tem que ficar com o Sam! Senhor a cada capitulo fica mais e mais aflita :/

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  4. "Além disso, Josh sempre tinha um hálito muito agradável e refrescante de hortelã."

    😒Théo é Vc?Deixa a Débora saber😒😍😂😂

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  5. SAM? QUEM É SAM?
    AMANDO O JOSH DE COM FORÇA

    SABS

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  6. Acho que ela devia ficar com o Sam, o Josh é uma sombra do Will, ela nunca vai amar ele de verdade e sim quem ele "deveria ser"...

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  7. Cara... olha, não sei o que esperar agora kkk

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  8. Sam tbm não parece estar preocupado, sem sinal de Sam.

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  9. Aaaaa, me sinto uma traidora apoiando esse "namoro" com Josh... Logo eu que era louca por Sam. Não sei mais o que pensar 😂😂

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  10. Josh tem uma personalidade que lembra o Will, gosto disso e tomara que ela fique com ele. Sam não merece a Lou, ele quis culpá-la por se envolver com a Katie, colocando a falta de caráter dele como carencia por ter a namorada longe.
    Acho a Lou tão boba em relação à Treena, mano o apartamento é dela, daí fica sem-teto porque não pode colocar a Treena pra dormir na sala?! Antes era o quarto na casa dos pais que o melhor.tinha qie ser da irmã e a bobona num cubiculo, agora o próprio apartamento tem que girar em torno da irmã enquanto ela perambula nas ruas de outro país. Aff!!

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  11. Ameiii ela tem que seguir em frente,quem foi safado foi o Sam que na primeira oportunidade traiu ela...

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  12. AAA Josh, onde vc estava quando a Lou despencou do prédio.
    Josh parece o remédio que ela necessita após o trauma da perda do Will

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  13. Amando essa nova Sra. De Wit.
    Gente eu amo o Josh, mas a nossa Lou ñ o ama... ela só está com ele para a) suprir a falta que ela sente do Sam e b) pq ele lembra em muitos aspectos o Will.
    Sam♡

    P.S.:Brenda Cândido

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  14. O que aconteceu com o Sam? Ele nem sequer mandou um msg. Caramba...

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  15. O Sam nem está dando sinais de vida é um safado em culpar a Lou pela patifaria que fez, tomara que ela fique com o Josh

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Boa leitura, E SEM SPOILER!