16 de fevereiro de 2018

Capítulo 22

Pois quando o dragão atacar,
será sem misericórdia,
e os dentes dele afundarão
com um deleite faminto
— Canção de Venda —



Atrás de mim, Aster, Yvet e Zekiah traziam cada peça de roupa. Disseram-me para não olhar até que estivessem prontos. Foi fácil para mim não espreitar, porque minha mente ainda estava ocupada em outro lugar. Eu não conseguia afastar a sensação de peso em meu peito.
Parecia que tudo e todos que encontrei estavam cheios de engodo, de Rafe e Kaden, ao Chanceler e o Erudito Real, até minha própria mãe e os homens estranhos escondidos em cavernas Sanctum que claramente não pertenciam a aqui. Alguma coisa era o que parecia ser? Olhei pela minha janela, observando os pássaros voando para seus poleiros. A armadura de pedra de um monstro repousava ali, e sua forma irregular era uma silhueta contra um horizonte que escurecia. A severidade da noite caiu sobre uma cidade já sombria.
Houve um puxão na minha calça, e Yvet me disse para vir olhar. Limpei meus olhos e me virei. Yvet saiu correndo para ficar entre Aster e Zekiah, os três com as costas retas como soldados orgulhosos. O sorriso de Aster desbotou.
— O que está errado, senhorita? Suas bochechas estão manchadas de vermelho.
Seus rostos me fizeram parar, com sua inocência e expectativa, borrões e migalhas de pão, fome e esperança. Havia, pelo menos, algo real e verdadeiro a ser encontrado nesta cidade.
— Senhorita?
Belisquei minhas bochechas e sorri.
— Eu estou bem, Aster.
Ela ergueu as sobrancelhas e olhou para a cama. O meu olhar saltou da cama, para arca, para o baú, para a cadeira.
Balancei a cabeça.
— Não foi o que eu comprei hoje.
— Claro que foi! Veja ali na cadeira. Uma camisa e uma calça para a equitação, assim como você pediu.
— E o restante? É muito. As poucas moedas que dei...
Aster e Zekiah seguraram minhas mãos e me puxaram para o outro lado do quarto, até a cama.
— Effiera, Maizel, Ursula e um vários outros trabalharam o dia todo para ter tudo pronto para você.
Uma tremulação voou através do meu peito, e eu estendi a mão para tocar um dos vestidos. Não era sofisticado, e não era feito de finos tecidos nem nada, apenas o oposto. Foi costurado de retalhos, pedaços de couro macio tingido em verdes suaves, vermelhos e marrons profundos da floresta, com faixas de pele, bordas irregulares soltas, algumas arrastando no chão. Engoli em seco. Era decididamente vendano, mas era outra coisa também.
Aster riu.
— Ela gosta — ela disse para os outros.
Eu balancei a cabeça, ainda confusa.
— Sim, Aster — sussurrei. — Muito.
Ajoelhei-me até estar da altura de Yvet e Zekiah.
— Mas por quê?
Os olhos claros de Yvet estavam arregalados e lacrimejantes.
— Effiera gostou do seu nome. Ela disse que qualquer um com um nome bonito assim merecia roupas bonitas.
Aster e Zekiah lançaram um olhar preocupado por sobre a cabeça de Yvet. Cerrei os olhos para um, depois para o outro.
— E?
— O velho Ancião Haragru teve um sonho muito tempo atrás, quando ele ainda tinha um dente bem aqui — disse Aster, apontando seu dente da frente — e ele não parou de abanar sobre isso desde então. Ele não é lá muito certo da cabeça com todos os anos que tem, mas Effiera diz que ele descreveu alguém como você, que viria de longe. Alguém que estaria usando...
Zekiah chegou por trás de Yvet e beliscou Aster. Ela endireitou os ombros, parando de falar.
— É apenas uma história — disse ela. — Mas Ancião Haragru gosta de contá-la a todos. Sabe como é. — Aster deu batidinhas na própria têmpora e revirou os olhos.
Levantei-me e mordi meu lábio inferior.
— Eu não tenho como pagar Effiera por todas essas roupas. Você precisará devolvê-las para mim...
— Ah não. Não não não. Elas não podem voltar — disse Aster, começando a ficar preocupada. — Effiera disse que elas eram um presente. Isso é tudo. Você não deve a ela nada mais do que um beijo ao vento. E ela ficaria muito magoada se não gostar delas. Dolorosamente magoada. Todos eles trabalharam muito...
— Aster, pare. Não são as roupas. Elas são lindas. Mas — olhei para suas expressões despencando da euforia à decepção, e imaginei os rostos de Effiera e das outras costureiras se eu recusasse. Ergui as mãos em sinal de rendição. — Não se preocupe. As roupas vão ficar.
Seus sorrisos voltaram.
Olhei para o guarda-roupa que cobria todas as superfícies livres do quarto. Uma por uma, levantei as roupas, correndo os dedos ao longo de tecido e pele, corrente e cinto, ponto e bainha. Elas não eram apenas bonitas, pareciam certas, e eu não tinha certeza do por quê. Voltei-me para a primeira peça que eu tinha olhado, costurada a partir de retalhos de couro. O vestido tinha uma manga longa e o outro ombro e braço foram deixados nus.
— Vestirei esse esta noite — falei.

* * *

Aster e Yvet me ajudaram a me vestir. Zekiah timidamente virou-se de costas e brincou com as espadas de madeira de Kaden no canto. Yvet desembaraçou as finas tiras de pele que arrastavam com suas mãozinhas enquanto eu prendia o meu único osso ao redor do pescoço. Aster estava fechando o último laço na parte de trás quando a tranca se agitou. Todos nós paralisamos, esperando. A porta se abriu, e Calantha entrou. A espada na mão de Zekiah caiu no chão, e ele foi para o lado de Aster.
O único olho de Calantha deslizou por mim, indo do ombro até o chão.
Ela olhou para as crianças em seguida.
— Saiam — ela disse calmamente.
Eles passaram correndo por ela e a pesada porta se fechou atrás deles.
Ela explicou que Kaden a tinha enviado para me levar até o Saguão do Sanctum. Ela se aproximou, mãos nos quadris, examinando meu traje. Eu levantei meu queixo, usando orgulhosamente o vestido que Effiera tinha feito. Ele se ajustava confortável e perfeitamente, mas Calantha olhou para ele com um ar de desdém.
— O Komizar vai não ficar feliz com isso. — A sugestão de um sorriso iluminou seu rosto.
— E isso a deixa satisfeita? Você gostaria de ver o ódio dele por mim inflamado?
Ela se aproximou e tocou o vestido, esfregando o couro macio entre os dedos.
— Você ao menos sabe o que você está vestindo, princesa?
A vibração voltou para o meu peito.
— Um vestido — falei, hesitante. — Um vestido muito bem trabalhado, mesmo sendo feito de retalhos.
— É o vestido do clã mais antigo de Venda. — Ela olhou para o meu ombro exposto. — Com algumas modificações. É uma grande honra receber o vestido de muitas mãos e as famílias. — Ela olhou ao redor do quarto para as outras roupas. — Você foi bem acolhida pelo clã dos Meurasi. Isso certamente acenderá a ira de muitos no Conselho.
Ela suspirou, o sorriso brincando em seus olhos novamente, e me deu um último longo olhar.
— Sim, um grande número — refletiu, e apontou para a porta. — Pronta?

6 comentários:

  1. O povo já está ovacionando ela shuahusa
    Eis minha teoria: Kaden em algum momento matará o Komizar por necessidade pra proteger Lia (meu tiro no escuro)

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  2. Essa bicha vai virar kaleessi de venda!!!!!

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  3. N sei pq mais essa Calantha parece muito uma futura aliada

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Boa leitura, E SEM SPOILER!