2 de fevereiro de 2018

Capítulo 22

Embora já estivéssemos no meio do verão, só agora o verdadeiro calor havia chegado à beira-mar, e me vi parando com mais frequência para molhar o rosto com água da bomba. Em Civica, às vezes o verão nem chegava, com a neblina encobrindo as colinas o ano todo. Apenas quando viajávamos ao interior para uma caçada é que vivenciávamos qualquer tipo de calor de verdade. Agora eu entendia por que os vestidos finos e soltinhos que as meninas usavam aqui não eram somente apropriados, mas também necessários. As poucas roupas que eu e Pauline trouxemos conosco de Civica eram lamentavelmente inadequadas para o clima de Terravin, mas eu já tinha aprendido que blusas ou vestidos sem manga apresentavam problemas de um outro tipo. Eu não poderia ficar andando pelos arredores de Terravin com um distinto kavah de casamento real aparecendo no ombro.
Recrutei Gwyneth, peguei um pouco de sabão forte para lavar roupa e uma das escovas duras de lavar batatas de Berdi para me ajudar. Estava um dia quente, então Gwyneth concordou feliz, e nós fomos à parte rasa do riacho.
Ela ficou parada atrás de mim e examinou o kavah, roçando com os dedos ao longo das minhas costas.
— A maior parte dele já saiu, sabia? Exceto por essa pequena parte aqui no seu ombro.
Soltei um suspiro.
— Já se passou bem mais de um mês, tudo já deveria ter saído a essa altura.
— Ainda está um bocado aparente. Não sei ao certo...
— Aqui! — falei, segurando a escova de lavar batatas acima do meu ombro. — Pode esfregar sem dó!
— Berdi vai arrancar sua pele se descobrir que está usando uma das escovas de cozinha dela.
— As minhas costas são mais sujas do que uma batata?
Ela soltou um resmungo e começou a trabalhar. Eu tentei não me encolher de dor enquanto ela esfregava minha pele com a escova dura e o sabão cáustico. Depois de uns poucos minutos, ela jogou água no meu ombro para enxaguar as bolhas e a espuma do sabão, além de dar uma olhada no progresso. Soltou um suspiro.
— Você tem certeza de que isso era apenas um kavah e não algo mais permanente?
Saí em direção a águas mais profundas e me voltei para ela.
— Nada — Ela balançou a cabeça, negando. Mergulhei abaixo da superfície, com os olhos abertos, observando o mundo borrado acima de mim. Não fazia sentido.
Diversos kavahs decorativos haviam sido feitos nas minhas mãos, dezenas de vezes e para celebrações diversas, e eles sempre desapareciam em uma ou duas semanas.
Voltei à superfície e limpei a água dos meus olhos.
— Tente de novo.
O canto de sua boca repuxou-se para baixo.
— Não está saindo, Lia. — Ela se sentou em uma pedra submersa que parecia um casco de tartaruga nos espionando da água. — Talvez o sacerdote tenha lançado alguma magia nas palavras dele, como parte dos ritos.
— Kavahs seguem as regras da razão também, Gwyneth. Não há nenhuma magia nisso.
— As regras da razão curvam-se à magia todos os dias — ela replicou — e provavelmente as regras não se importam muito com a pequena magia de um kavah teimoso no ombro de uma menina. Você tem certeza de que os artesãos não fizeram nada de diferente?
— Sim. — No entanto, busquei em minha memória por algo. Eu não tinha como ver os artesãos enquanto eles trabalhavam, mas sabia que o desenho era todo feito ao mesmo tempo com os mesmos pincéis e as mesmas tintas. Eu me lembro da minha mãe esticando a mão para me confortar durante a cerimônia, mas, em vez de conforto, eu senti o toque dela como uma fisgada quente no meu ombro.
Será que algo havia dado errado naquele instante? E então havia se seguido a prece, aquela no idioma nativo da minha mãe e que não fazia parte da tradição. Que os deuses concedam-lhe força, protejam-na com coragem e que a verdade seja sua coroa. Era uma prece estranha, mas vaga, e certamente as palavras em si não tinham poder algum.
— Na verdade, não é tão ruim assim. Não há nada indicando que isso foi um kavah da família real ou de casamento. O brasão de Dalbreck e as coroas reais saíram. Só tem agora parte de uma garra e vinhas. Poderia estar aí por qualquer motivo. Você não consegue viver com ele?
Viver com um pedaço do brasão de Dalbreck no meu ombro para o resto da vida? Isso sem falar de que se tratava da garra de uma feroz criatura mitológica que nem mesmo era encontrado no folclore de Morrighan. Ainda assim, eu me lembrei de quando vi o kavah pela primeira vez e pensei que era requintado.
Perfeito, era como eu havia me referido a ele, mas isso foi quando eu achava que logo ele sairia com a água, quando eu não sabia que aquilo iria servir como um lembrete permanente da vida que eu tinha jogado fora. Você sempre será você, Lia. Não há como fugir disso.
— Vai sair — falei a ela. — Só precisa de mais um tempinho.
Ela deu de ombros, e seu olhar contemplativo ergueu-se para as folhas douradas de uma árvore enlaçada, cujos ramos se estiravam acima de nós, circundadas pelo verde vibrante de outras. Ela deu um sorriso agridoce.
— Olhe para esse amarelo vibrante. O outono é ganancioso, não? Já está roubando os dias do verão.
Olhei para a cor prematura.
— Está cedo, sim, mas talvez tudo se ajuste. Talvez haja vezes em que o verão fica por mais tempo e se recuse a ceder espaço para o outono.
Ela soltou um suspiro.
— As regras da razão. Nem mesmo a natureza consegue obedecê-las. — Gwyneth tirou as roupas, jogando-as de forma descuidada na margem. Ela se juntou a mim nas águas mais profundas, mergulhando abaixo da superfície e depois torcendo as mechas espessas de seus cabelos cor de vinho tinto em um longo rabo de cavalo. Seus ombros brancos como o leite pairavam logo acima da superfície. — Você algum dia vai voltar? — ela me perguntou sem rodeios.
Eu tinha ouvido rumores de guerra. Sabia que Gwyneth também os ouvira. Ela ainda achava que eu, como Primeira Filha, poderia mudar as coisas. Aquela porta nunca tinha sido aberta para mim e agora, não havia dúvidas de que estava firmemente fechada, mas Gwyneth provavelmente via o teimoso kavah como um sinal, e eu me perguntava com quanta força ela teria realmente tentado tirá-lo dali.
Ela ficou me encarando, esperando pela minha resposta.
Você algum dia vai voltar?
Mergulhei, e o mundo ficou emudecido de novo. Quase não consegui ver as folhas douradas acima de mim, o embotado eco do meu coração batendo nas minhas têmporas, as bolhas de ar escapando pelo meu nariz — e logo a pergunta de Gwyneth se fora, carregada na corrente do riacho, juntamente com todas as suas expectativas.

2 comentários:

  1. ´´Não tinha mais esse problema. Eu dormia profundamente, que nem uma pedra, e se a cabana pegasse fogo, eu morreria queimada junto com ela.´´ Ela me define

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!