6 de fevereiro de 2018

Capítulo 22. O amor pode mudar o mundo

Ao entardecer do dia seguinte, Andrade foi encontrar os cinco Karas no Parque do Ibirapuera. Sentaram-se no mesmo banco em frente à moita de azaleias.
O sol queimava, e o detetive comprou sorvetes para todos.
— Bem, meninos, o dia de hoje bastou para resolvermos todos os detalhes desse caso. Nós, aqui no Brasil, e o FBI, nos Estados Unidos, conseguimos descobrir tudo o que aconteceu...
— Ótimo! — aplaudiu Chumbinho. — Tudo resolvido? Encontraram também as amostras da Droga do Amor?
Andrade olhou para o menino. Aquele menino brilhante, que tirara sozinho dona Iolanda das mãos dos sequestradores. Mas não conseguiu sorrir.
— O que houve, Andrade? — perguntou Calú. — Você não parece muito feliz com a solução do caso da Droga do Amor...
O detetive tomou fôlego e disse depressa a pior parte das revelações que tinha a fazer:
— A Droga do Amor nunca existiu, meninos!
— O quê?! O que você está dizendo?
— Espere um pouco, Magrí. Deixe-me contar tudo desde o começo. O doutor Bartholomew Flanagan, chefiando a equipe de pesquisadores da Drug Enforcement, acreditava realmente estar numa pista muito segura para a criação de um soro que curasse a maldita praga que faz com que o amor entre as pessoas transforme-se em morte. Mas as pesquisas eram muito caras, envolvendo engenharia genética e tudo o mais. Com os primeiros estudos do doutor Flanagan, a Drug Enformecent conseguiu enormes financiamentos de todo o mundo... Bilhões e bilhões de dólares... Só que, no fim, o soro falhou.
— A Droga do Amor falhou?!
— Não deu certo. Os testes in vitro, em laboratório, estavam apresentando bons resultados, mas não provocaram nenhuma imunidade quando aplicados em seres humanos. E a Drug Enforcement estava atolada até o pescoço em dívidas. O que ia dizer aos acionistas? Como justificar esse imenso fracasso aos financiadores de todo o mundo?
— O que era um problema de amor tornou-se um problema financeiro... — observou Miguel.
— A diretoria então tentou convencer o doutor Bartholomew Flanagan a continuar defendendo o soro nas revistas médicas, alegando sua validade. A Drug Enforcement estaria falida se ele confessasse o fracasso. Mas o doutor Flanagan não concordou com essa farsa e ameaçou convocar a imprensa e falar a verdade.
— Que verdade horrível! — lamentou Magrí.
— Os diretores da Drug Enforcement decidiram então organizar a farsa completa. Escolheram o Brasil para os supostos testes finais da Droga do Amor e desembarcaram aqui um sósia do doutor Flanagan e uma caixa de frascos cheios de água!
Dos olhos de Magrí, duas lágrimas escorreram, queimando-lhe o rosto. Naquele momento, ela lembrou-se da criancinha que vira no hospital...
— O plano era simular o sequestro do falso cientista e o roubo das falsas amostras. Se tudo desse certo, o tal sósia do cientista nunca mais apareceria e nunca mais se saberia da caixa roubada. Assim, eles teriam uma ótima desculpa para o desperdício dos bilhões de dólares. E esperavam até mesmo conseguir novos financiamentos, para tentar retomar os estudos do doutor Bartholomew Flanagan. Escolheram o Brasil, por pensar que aqui seria mais fácil realizar um crime. Não acreditavam em nossa polícia, nem em nossa capacidade de organização. Mas eles não contavam que houvesse uma pessoa no avião que pediria um autógrafo ao falso cientista e estragaria tudo. Não contavam também, é claro, com a esperteza e a teimosia da Magrí...
O elogio não mudou a expressão da menina. Aquela mentira a deixara arrasada.
— Hector Morales era o encarregado de fazer funcionar o esquema aqui no Brasil — continuou Andrade. — Quando desembarcou, mandou um dos capangas atirar em dona Iolanda e mandou que alguém lhe roubasse a bolsa que continha a agenda com o autógrafo do farsante. Morales está agora preso, e vai responder pelo sequestro de dona Iolanda e pelo falso sequestro do cientista. Já capturamos também o tal sósia, que estava tentando fugir pelo Paraguai com nome falso...
— E o que houve com o verdadeiro doutor Flanagan?
— Ele não quis colaborar, Miguel. Por isso, foi assassinado um dia antes de embarcar... Já descobriram o corpo dele no fundo do mar, em Tampa Bay, com os pés presos em um bloco de concreto...
— Que horror!
— O FBI está trabalhando nos Estados Unidos para punir os culpados por essa barbaridade. Mas, quem são esses culpados? Somente os diretores dessa multinacional? Mas quem é realmente culpado pelos crimes praticados por uma grande empresa? Será que não somos todos culpados, quando colocamos a ânsia pelo lucro à frente das necessidades das pessoas? A quem podemos responsabilizar realmente pelo crime? Por todos os crimes do mundo?
No dia seguinte, quando o mundo inteiro ficasse sabendo que a Droga do Amor era uma farsa, a tristeza e a decepção tomariam conta de todos. Mas, naquele momento, só aqueles seis amigos sentiam a dor que haveria de tomar conta do planeta...
Magrí não se conformava:
— Ah, Andrade, todo esse esforço para nada! Eu não queria só vingar minha professora baleada. Eu não queria só brincar de detetive, descobrindo sequestradores! Eu queria realmente que todo esse trabalho tivesse sentido! Eu queria a Droga do Amor! Para salvar a vida da criancinha que eu vi no hospital! Eu queria salvar a vida das pessoas condenadas somente porque confiaram no amor!
Andrade também chorava. Abraçou Magrí apertado, beijando-lhe o rosto várias vezes, bebendo as lágrimas daquela pequena heroína.
— Ah, Magrí, o seu trabalho teve o maior sentido, minha querida! Você lutou por amor! Por amor a sua professora, por amor a todas as pessoas do mundo. É isso que faz com que esse mundo valha a pena, querida! São pessoas como você que fazem a gente continuar em frente, com confiança. A ciência encontrará a verdadeira Droga do Amor, mais dia menos dia. E o seu amor pela humanidade fará parte da fórmula. O seu amor pode mudar o mundo, Magrí, minha menina!
Durante longo tempo, os ânimos daqueles seis amigos calaram-se, tentando recuperar-se. E foi a força da amizade que os unia que, pouco a pouco, os acalmou.
Calú quebrou o silêncio:
— Temos de confiar! A praga do século será vencida! Andrade acariciou os cabelos lindos de Calú.
— A praga do nosso século não é uma só, meninos. Nosso século, infelizmente, tem muitas pragas. A fome, a miséria, a ignorância. . . Mas tudo isso é causado pela cobiça, pela avidez que cria monstros como esses, da Drug Enforcement, ou como o Doutor Q.I., para quem a conquista do poder e do dinheiro justificam tudo. Eu vivo prendendo criminosos pobres, ignorantes, que matam uma, duas, três pessoas. Mas jamais consigo pôr as mãos nesses verdadeiros criminosos, que matam milhares, que condenam milhões à fome e à morte sem esperanças. . .

* * *

Antes de ir para o Colégio Elite, Magrí passou pelo hospital onde estivera dona Iolanda.
Pediu para fazer uma visita à ala de isolamento infantil. Subiu para o quinto andar, dessa vez de elevador, e entrou no quarto onde se escondera dois dias atrás.
Lá estava o berçinho. Lá estava a criança que ela vira adormecida. Cuidada por uma enfermeira sorridente.
— Ele está melhorzinho... — comunicou a enfermeira. O bebê estava sentado no berço, sorrindo para Magrí.
A menina aproximou-se, beijou-o ternamente e entregou-lhe o seu querido ursinho de pelúcia. Era o presente mais pessoal que ela poderia ter trazido.
A criança sorriu mais ainda e abraçou-se ao ursinho.
— Você vai ficar bom, meu queridinho! Eu sei que vai! Você tem de viver! O amor vai vencer o ódio, meu amorzinho. Nós vamos vencer a morte!

* * *

Magrí foi a última a subir para o esconderijo secreto. Os outros quatro Karas já estavam lá, sentados, em silêncio.
Miguel, que já telefonara para a sede do tal acampamento, desistindo da vaga de monitor, perguntou, com um sorriso:
— Por que vocês inventaram de assinar o tal bilhete de resgate com aquele “Q.I.”? Isso fez com que eu, Crânio e Calú ficássemos com a certeza de que ele era o culpado de tudo!
— Naquela hora, eu e Chumbinho também achávamos que o Doutor Q.I. estava por trás de tudo. Desculpem... A gente errou...
Aquela menina, responsável por desvendar uma trama cruel como aquela, admitia que estivera errada. Em apenas um ponto que fosse. Ela era um Kara.
O silêncio ocupou novamente o forro do vestiário. Magrí olhou um por um. Os seus Karas!
Ela havia convocado a reunião. Ela teria de começar a falar.
— Eu pensei muito, Karas, depois que Chumbinho me contou que vocês três queriam dissolver o nosso grupo. Chumbinho não entendia por quê, mas eu entendi...
Ninguém falou. Só Chumbinho olhava para Magrí. Os outros três concentravam-se no pó que recobria o forro do vestiário do Colégio Elite.
— Nós chegamos a um beco sem saída, não é? Pois bem, vamos resolver logo isso.
Olhava fixamente para cada um dos seus queridos Calú, Crânio e Miguel.
Seu olhar encontrou o de Chumbinho. O menino agora era dono de um segredo seu. O seu maior segredo. Mas Magrí sabia que Chumbinho nunca, nunca falaria.
Como era bom, como era gostoso viver gostando daqueles amigos! Apesar da dificuldade da situação, apesar de tudo o que tinha de dizer, Magrí sentia-se bem, aquecida, confortável, pela proximidade daqueles garotos maravilhosos.
— Pensei muito, queridos, chorei muito pensando. O que seria uma solução final para o nosso problema? Seria uma escolha minha? Uma decisão?
A emoção enchia-lhe os olhos de lágrimas. Ninguém movia um músculo e Magrí pediu:
— Olhem para mim, por favor, olhem para mim!
Um a um, aqueles rostos foram se levantando. Todos aqueles olhos estavam vermelhos. Todos estavam a ponto de chorar também. Magrí leu naqueles olhos um pouco de esperança, mas leu também um pouco de medo.
— Como eu posso escolher, queridos? Eu coloquei na balança dos meus pensamentos, de um lado, a escolha que eu tinha de fazer. Do outro, essa incrível amizade que une a gente. Agora me digam, qual de vocês acharia justo ferir os outros dois se eu escolhesse um de vocês? Qual de vocês, por uma namorada, acharia justo destruir o grupo dos Karas?
Nesse momento, as lágrimas já corriam por todos os rostos. Molhados, os rostos de Miguel, de Calú e de Crânio iluminavam-se aos poucos. Eles começavam a entender.
— Será que o meu amor de mulher por um de vocês pode ser maior do que o amor de ser humano que eu tenho por todos vocês? Por você Miguel, por você Chumbinho, por você Calú, por você, Crânio? O que pode haver de maior do que nós cinco?
A excitação era imensa. Os cinco Karas olhavam-se sem falar, respirando ruidosamente, arfando, como se tivessem acabado de disputar uma maratona.
Num repente, jogaram-se nos braços uns dos outros, soluçando e formando uma montanha de afeto, de carinho, de paixão! Magrí sentia aqueles corpos espremidos contra o seu.
De olhinhos fechados, sabia distinguir o calor do seu escolhido. Mas aquela amizade era demais. Os Karas eram demais! Não seria uma escolha dela que haveria de dissolver a amizade dos Karas. O amor que unia aqueles cinco era maior do que o amor daqueles três garotos maravilhados por ela. Era maior do que o seu amor pelo garoto que a fazia tremer como mulher.
Ela já tinha escolhido. Para sempre, seu coração guardaria aquele segredo. A amizade vencera o amor.
Os Karas nunca, nunca se separariam...

Um comentário:

  1. Ela escolheu os Karas em vez do Crânio? Hmmmmmmmmmmmmmmm...

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!